Procurando a Terra Prometida: A Viagem de São Brandão

The Medieval Magazine
por Andrea Maraschi, traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations
Versão Áudio Imprimir PDF

Entre os séculos IX e X, numa desconhecida abadia europeia, um autor anónimo contou a história de um monge irlandês e dos seus 14 companheiros que embarcaram numa perigosa viagem no século V. O nome do monge era Brandão, e o seu destino era a Terra repromissionis sanctorum, a Terra Prometida dos Santos. O texto, conhecido como Navigatio Sancti Brendani abbatis, (A Viagem de São Brandão, o Abade), é o relato de uma incrível aventura por paisagens fantásticas, mas — como muitos textos narrativos ambientados no "fantástico" — combina elementos lendários com detalhes úteis sobre a cultura, as crenças e até mesmo o descernimento do autor. Tal era típico dos textos hagiográficos medievais, que tinham como objetivo narrar os feitos dos santos e os seus milagres, mas que, mesmo assim, refletiam as mentalidades, ansiedades e anseios do mundo em que foram escritos.

Saint Brendan’s Voyage
A Viagem de São Brandão Unknown Artist (Public Domain)

A história de Brandão não pertence ao género da hagiografia, mas a um ramo específico irlandês de histórias sobre santos: os immrama, "contos de viagens". O surgimento deste género literário estava relacionado à forma peculiar que o monasticismo irlandês assumiu em comparação com os outros modelos europeus. Os monges irlandeses eram mais ascéticos e austeros, assim como as suas Regulae. Mais importante ainda, eram caracterizados por uma inclinação marcante para viajar para terras remotas a fim de fundar novos mosteiros. São Columbano (543-615), por exemplo, deixou Bangor e viajou por todas as florestas da Gália durante anos, chegando finalmente a Bobbio, no norte da Itália. São Brandão não foi diferente: o seu destino, porém, foi.

Remover publicidades
Publicidade

A ideia de navegar em busca da Terra Prometida dos Santos veio de Barinth, o abade de Drumcullen, um parente distante deBrandão, que lhe contou sobre uma ilha maravilhosa, um lugar onde não havia fome, sede nem escuridão. Devemos surpreender-mo-nos que Deus tivesse reservado para os homens mais piedosos um lugar de abundância, onde os medos típicos dos humanos — a falta de comida e a morte — fossem banidos?

Remover publicidades
Publicidade

Claro que não. O cristianismo — assim como muitas outras religiões — baseava a força num acordo atraente: exigia um investimento inicial na fé e oferecia uma estadia final (mas eterna) numa vida após a morte celestial. Curiosamente, e não muito diferente do Valhalla nórdico antigo, a vida após a morte cristã também parecia um maravilhoso salão de banquetes (Mt 22:1-14): acolhedor e com pratos à base de carne inesgotáveis, em contraste com o mundo sombrio lá fora, onde “haverá choro e ranger de dentes”.

Após o jejum, os monges construíram um barco de madeira, cobriram-no com couro bovino e finalmente zarparam com provisões para 40 dias.

As palavras de Barinth foram suficientes para convencer Brandão e os companheiros a embarcarem em busca da celestial Terra repromissionis. O problema é que... partiram com o estômago vazio. Antes de partir, eles decidiram jejuar por 40 dias, de acordo com o modelo bíblico arquetípico. A razão era dupla e com duas vertentes: o autor queria interligar a história com a Bíblia; e os personagens precisavam purificar os corpos e as almas seguindo os feitos dos profetas bíblicos.

Remover publicidades
Publicidade

Após o jejum, os monges construíram um barco de madeira, cobriram-no com couro bovino e finalmente partiram com provisões para 40 dias: claramente, planeavam chegar à Terra Prometida dentro de... "tempos bíblicos". Na verdade, a estimativa mostrou-se bastante precisa, e não foi uma questão de sorte: do Seu posto avançado invisível Deus guiava-os.

No momento em que os monges ficaram sem comida, avistaram imediatamente uma ilha e dirigiram-se para lá. Levaram três dias para finalmente atracar quando, na nona hora, viram uma pequena baía adequada para ancorar: desnecessário dizer que estes números não eram coincidência e estavam todos ligados a números simbólicos bíblicos (3, múltiplos de 3, etc.). O grupo foi recebido por um cão alegre, e Brandão imediatamente reconheceu o animal como um mensageiro de Deus, que os levou até a uma grande moradia onde uma mesa, cadeiras e água estavam elegantemente dispostos dentro de um amplo átrio, quase como se a própria moradia estivesse à espera dos monges irlandeses. De repente, a mesa foi posta sozinha, e os monges tiveram um pão branco e um peixe cada um para comer: um almoço generoso e milagroso que estava em total harmonia com a dieta monástica típica (na qual a carne era frequentemente substituída por peixe por motivos relacionados à penitência).

The Voyage of Saint Brendan
A Viagem de São Brandão Edward Reginald Frampton (Public Domain)

Na manhã seguinte, encontraram a mesa milagrosamente posta, mais uma vez,: e durante três dias, Deus alimentou-os naquele lugar celestial de abundância. No quarto dia, os monges estavam prontos para deixar a ilha, quando um juvenis (um rapazinho) se aproximou deles carregando um cesto cheio de pão e água. Este presente espontâneo de um estranho, que os alimentou até à Páscoa, também não foi uma coincidência, e não seria um acontecimento isolado.

Remover publicidades
Publicidade

Navegaram novamente pelo oceano e, depois de um tempo, avistaram terra e desembarcaram: era Quinta-feira Santa. No Sábado Santo, um homem apareceu trazendo pão e outros mantimentos.; acrescentou que lhes traria mais mantimentos em oito dias, já que sabia onde eles atracariam. Todos estes benfeitores desconhecidos foram claramente enviados por Deus e eram mais uma característica típica dos contos hagiográficos do início da Idade Média.

Por trás do apelo literário desses contos estava a mensagem subjacente de que o cristianismo era a resposta para as questões e medos quotidianos.

Finalmente levantaram âncora e, depois de passar um dia nas costas de um peixe gigante chamado Jasconius (que confundiram com uma ilha), os monges aportaram numa ilha onde os pássaros cantavam salmos e louvavam ao Senhor. Lá, Brandão e os companheiros celebraram a Páscoa, e o mensageiro de Deus apareceu novamente: deu-lhes comida e bebida, e disse-lhe que as provisões seriam mais do que suficientes para sustentá-los até o Domingo de Pentecostes.

O homem cumpriu a palavra: no dia de Pentecostes, voltou e trouxe toda a comida necessária para a celebração; então, oito dias depois, antes de partirem, deu-lhes tantas provisões quanto o seu barco pudesse carregar. Os monges aproximavam-se do seu destino final, mas ainda tinham um longo caminho a percorrer. Agora, eram eles e os mares.

Remover publicidades
Publicidade

Cerca de três meses depois, Brandão chegou à ilha de St. Albeus, onde um velho os recebe e os leva a um mosteiro próximo. Brandão e os companheiros receberam pães brancos e raízes requintadas: alimentos que refletiam os dos eremitas e monges irlandeses, mas que eram mais saborosos, deliciosos, divinos. O pão nos mosteiros podia ser branco (feito com trigo), mas era frequentemente preto (feito com grãos de qualidade inferior): a comida monástica destinava-se a mortificar o corpo, não a agradá-lo. Da mesma forma, as raízes eram normalmente consumidas pelos eremitas nas florestas e não eram consideradas uma iguaria.

Statue of Saint Brendan
Estátua de São Brandão El Gringo (Public Domain)

O abade do mosteiro disse aos estranhos que todos os dias encontrava pães milagrosos na despensa e que Deus lhes dava toda a comida de que precisavam; e disse-lhes que os habitantes daquela ilha não envelheciam, nem sentiam frio ou calor: as ansiedades do mundo humano não pertenciam à ilha de St. Albeus.

A viagem de Brandão à Terra Prometida continuou a ser vigiada por Deus, que ajudaria os monges irlandeses de muitas maneiras. Por exemplo, enviando-lhes um grande pássaro que sobrevoou o barco carregando no bico um galho de uma árvore desconhecida, do qual pendia um cacho de uvas excepcionalmente vermelhas e maduras. A ave deixou cair o ramo no colo de Brandão, e o alimento celestial alimentou os irmãos durante 12 dias (outro número simbólico). Este e outros milagres paralelos na Navigatio Sancti Brendani tinham claramente o objetivo de recordar histórias bíblicas milagrosas, como a do maná do céu ou das codornizes que Deus enviou a Moisés. O cristianismo perpetuaria a memória destas maravilhas ao longo de toda a Idade Média graças às Vitae dos santos, e com razão: tais histórias edificariam os fiéis, mostrando-lhes que o único problema aparente do monoteísmo cristão — a distância que separava o homem de Deus — era muito mais irrelevante do que poderia parecer. Por mais incognoscível e inalcançável que fosse, Deus sacrificou-se na cruz e enviou profetas e santos para realizar milagres e cuidar das pessoas comuns, dos pobres, dos doentes e assim por diante. Por trás do apelo literário destas histórias, havia a mensagem subjacente (mas extremamente poderosa) de que o cristianismo era a resposta para as questões quotidianas, bem como para os medos e ansiedades mais profundos da vida mortal.

Remover publicidades
Publicidade

Quase no final da fantástica aventura, Brandão desembarcou na ilha de Paulo, o eremita, que lhe contou que uma lontra lhe trazia peixe e lenha há 30 anos, uma vez a cada três dias; nunca sentiu fome graças ao Senhor, nem sede, já que todos os domingos uma fonte de água jorrava de uma rocha... não muito diferente de um milagre bem conhecido que aparece no Livro do Êxodo.

Sim, por fim, Brandão e os monges encontraram a Terra repromissionis sanctorum. Mas, como já foi observado, o autor da Navigatio queria fazer um paralelo entre uma viagem tão perigosa por mares e ilhas desconhecidos e a jornada da vida no mundo. Queria que os leitores e ouvintes compreendessem que, se tivessem fé, nunca seriam deixados sozinhos. Era tão fácil quanto isso, por mais difícil que pudesse parecer. Simbolicamente falando, a Navigatio alegoriza esta mensagem nos episódios repetidos de ofertas espontâneas de comida, seja por personagens desconhecidos, animais ou forças misteriosas: uma estratégia retórica que nos lembra — se é que isso era necessário — que comida é linguagem.

Remover publicidades
Publicidade

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
A tradução faz parte do meu ser, desde interpretar o mundo até dominar a arte da transferência linguística. Cursos em turismo, literatura e história culminaram no meu papel como autora independente e coautora de coleções de contos literários.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Maraschi, A. (2025, dezembro 20). Procurando a Terra Prometida: A Viagem de São Brandão. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1330/procurando-a-terra-prometida-a-viagem-de-sao-brand/

Estilo Chicago

Maraschi, Andrea. "Procurando a Terra Prometida: A Viagem de São Brandão." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, dezembro 20, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1330/procurando-a-terra-prometida-a-viagem-de-sao-brand/.

Estilo MLA

Maraschi, Andrea. "Procurando a Terra Prometida: A Viagem de São Brandão." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 20 dez 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1330/procurando-a-terra-prometida-a-viagem-de-sao-brand/.

Remover publicidades