Como Se Tornar um Cavaleiro Medieval

Artigo

Mark Cartwright
por , traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto
publicado em 08 Junho 2018
X
translations icon
Disponível em outras línguas: Inglês, Afrikaans, Espanhol, Francês

Na sociedade medieval os cavaleiros desfrutavam de um elevado status e muitas vezes prósperos, eram temidos no campo de batalha e conhecidos por seus modos corteses fora dele, mas foi necessário muito tempo e um bom número de treinamentos para chegarem até isso. Treinado no manuseio de armas e equitação desde a infância, um jovem podia se tornar um cavaleiro pelo senhor local ao qual ele servia ou por um excepcional ato de bravura no campo de batalha e, pelo menos nos últimos tempos quando os monarcas europeus desesperadamente precisavam de fundos e homens experientes para seus exércitos, a honraria poderia até mesmo ser comprada. De qualquer modo, um cavaleiro submetia-se a uma elaborada cerimônia de iniciação e, em seguida, esperava-se que ele preservasse as tradições da cavalaria de sua classe e enfrentasse corajosamente os mais bem equipados e mais fortemente armados oponentes em batalha, ou seja, os cavaleiros do exército inimigo.

John II Knighting Squires
John II Sagrando Cavaleiros
Unknown Artist (Public Domain)

Embora não existissem princípios normativos estabelecidos, os candidatos tinham idades variadas e alguns jovens nunca se qualificavam para as próximas fases, cujas principais etapas, para se tornar um cavaleiro, eram as seguintes:

Remover publicidades

Advertisement

  • Pajem: Da idade de 7-10 a 13 anos, torna-se familiar com cavalos, caçada e uso de armas simuladas ou falsas e a serviço de um cavaleiro local, barão ou na corte real.
  • Escudeiro: Da idade de 14 a 18-21 anos, assiste um cavaleiro-pleno, aprende a usar armas e armaduras de guerra e cultiva a educação geral, especialmente o código de cavalheirismo.
  • Preparação: Quando na idade de 18-21 anos, aprende a cerimônia de se tornar cavaleiro executada por outro cavaleiro.
  • Serviço: Atua como um guarda para um barão e seu castelo, combate em guerras para o seu soberano e a Igreja

Treinamento 1 - Tornando-se um Pajem

Muitos cavaleiros eram, no mais das vezes, filhos de cavaleiros, mas existem registros de filhos de um burguês ou homem livre sendo colocado para o treinamento necessário, bem como de comerciantes ricos e funcionários governamentais, à medida que essas classes cresciam no final da Idade Média. Um soldado comum podia ser elevado a cavaleiro por demonstração de coragem no campo de batalha. À medida que as guerras se tornavam cada vez maiores em escala e os barões cada vez mais preferindo enviar cavaleiros para servirem em seu lugar, a origem social de um cavaleiro ficou cada vez menos importante durante as guerras, quando um soberano precisava de todos os homens armados que podia conseguir. Geralmente, por volta do século XIII, a ideia de linhagem nobre e a preservação da cavalaria como marca de uma classe com acesso restrito, estabilizou-se através da Europa. Havia exceções, principalmente na França e Alemanha e na base de caso a caso, mas no geral, somente o filho de um cavaleiro podia se tornar um.

um cavaleiro devia ser talentoso ao cavalgar conduzindo um escudo e uma lança, portanto tinha de praticar conduzindo seu corcel usando somente joelhos e pés.

Um cavaleiro devia ser talentoso ao cavalgar conduzindo um escudo e uma lança, portanto tinha de praticar conduzindo seu corcel usando somente joelhos e pés. Deveria ser capaz de portar uma longa e pesada espada pelo período de combate e ter aptidão suficiente para se movimentar ao redor com velocidade, vestido com armadura pesada de metal. Necessária também habilidade com outras armas como punhal ou adaga, alabarda, maça, arco e besta, que poderiam estar disponíveis. Portanto, um rapazinho destinado, por seus pais ou patrocinador, para um dia se tornar um cavaleiro, devia começar seu treinamento já em baixa idade, tipicamente como um pajem a partir dos 10 anos (ou até mesmo 7, em alguns casos), com armas de imitação e habilidades básicas na montaria. Um jovem nobre era, adequadamente, enviado à corte real para tal treinamento, enquanto jovens de família aristocrática mais modesta devia se associar ao castelo local ou a um parente para treinar com cavaleiros e homens-em-armas ali estacionados. Ali poderiam, junto com outros pajens, servir a mesa, trabalhar nos estábulos, realizar trabalhos de empregados e começar a educação que irá prosseguir com determinação como adolescente.

Remover publicidades

Advertisement

Treinamento 2 - Tornando-se um Escudeiro

A próxima etapa no longo caminho para membro da cavalaria era tornar-se um escudeiro, ou seja, um cavaleiro em treinamento ou estagiário, tipicamente a partir dos 14 anos. O nome escudeiro deriva da palavra francesa ecuyer, significando portador de escudo. Além de aprender a respeito de armamentos e equitação, esperava-se do escudeiro que tomasse conta de um cavaleiro pleno(que podia ter dois ou mais escudeiros a seu serviço), limpando suas armas, polindo a armadura, cuidando dos cavalos, ajudando-o a se vestir para a batalha, segurando seu escudo até ser pedido e outras obrigações gerais.

Havia aprendizados não-marciais, também importantes, como conhecimento de música, dança e ler e escrever em latim e francês. Aprendiam a recitar poesia e cultivarem boas maneiras, especialmente frente a senhoras da aristocracia com as quais iriam caçar e jogar, como, p.ex., xadrez. Os assuntos literários poderiam ser ensinados pelo sacerdote local, talvez com alguma participação da senhora do castelo no qual era aprendiz. Caçar animais selvagens, falcoaria e servir a mesa do cavaleiro com pratos de carnes escolhidas pelo escudeiro eram outras habilidades do currículo. Os escudeiros também tinham de treinar e cuidar dos pajens, inclusive repreender e discipliná-los, uma obrigação que sem dúvida faziam com prazer.

Remover publicidades

Advertisement

Wolfram von Eschenbach & His Squire
Wolfram von Eschenbac e seu EscudeiroRei
Unknown Artist (Public Domain)

O treinamento de um escudeiro envolvia a prática com a lança e espada; algumas vezes as armas eram, propositalmente, fabricadas mais pesadas do que aquelas usadas em batalha para fortalecer os músculos e fazer o combate real parecer um pouco mais fácil do que realmente era. O bastão, o arco e a balestra eram todos aprendidos, embora não fossem, geralmente, usados pelos cavaleiros na guerra. Havia dispositivos específicos para o treinamento, como o quintain – uma haste giratória com um escudo em uma ponta e um peso na outra. Um cavaleiro devia acertar o escudo e manter-se cavalgando para evitar ser atingido nas costas pelo peso enquanto cavalgava em volta. Outro dispositivo era um anel suspenso que tinha de ser removido utilizando-se a ponta da lança. Outra técnica comum de treinamento era cavalgar a galope pleno e cortar a pele de um animal ou um poste de madeira com sua espada.

se o cavaleiro ficasse seriamente ferido, era o escudeiro o responsável para tirá-lo do campo de batalha.

Na guerra real, um escudeiro acompanhava seu cavaleiro. Quando em movimento, os escudeiros, em geral, cavalgavam na dianteira, com os cavalos extras e a bagagem. Na batalha, após entregar a lança e escudo a seu cavaleiro, o escudeiro o acompanhava em outro cavalo, no caso da montaria do cavaleiro tornar-se incapacitada. Se o cavaleiro ficasse seriamente ferido, era o escudeiro o responsável para tirá-lo do campo de batalha.

Quando finalmente completamente treinado, um escudeiro podia ser feito cavaleiro por seu senhor ou outro cavaleiro, em geral quando entre 18 e 21 anos de idade. Não está bem claro o que acontecia com os escudeiros que falhavam no treinamento, embora uma carreira na Igreja ou na Justiça poderia ser uma alternativa comum para alguns filhos de nobres. Um celebrado personagem que nunca passou de escudeiro a cavaleiro foi Geoffrey Chaucer (c.1343-1400), autor dos Canterbury Tales (Contos de Canterbury). Outros escudeiros continuavam como escudeiros na vida adulta e serviam a um cavaleiro durante toda sua carreira. A perda de meios financeiros poderia ser outra razão para nunca atingir a membro da cavalaria devido aos elevados custos das montarias, armaduras e equipamentos. Os escudeiros que possuíam material de cavaleiro e os meios para progredir, submetiam-se a uma elaborada cerimônia de iniciação para lhes dar as boas-vindas na irmandade dos cavaleiros. Alguns cavaleiros eram sagrados pouco antes de uma batalha, e neste caso, a cerimônia seria realizada mais tarde, mas certamente valia esperar.

Remover publicidades

Advertisement

Cerimônia de Sagração de um Cavaleiro

A preparação para se tornar um cavaleiro (ou dubbing, como às vezes era chamada), que poderia incluir qualquer número de candidatos a cavaleiro, começava no dia anterior, com o escudeiro se cuidando com um banho e cortando ou aparando a barba. À noite, poderia passar as horas em vigília dentro de uma capela com sua espada colocada sobre o altar, sem dúvida contemplando sua boa sorte ao conseguir seu objetivo e meditando a respeito dos riscos e apuros da vida que ainda enfrentaria.

King David I Knighting a Squire
Rei David I Sagrando Cavaleiro um Escudeiro
Unknown Artist (Public Domain)

No dia da cerimônia, o escudeiro era vestido, por dois cavaleiros, com uma túnica e cinto brancos, simbolizando pureza, meias marrons ou pretas, representando a terra para a qual um dia retornará e um manto escarlate para o sangue que ele se encontra pronto a derramar por seu barão, soberano e Igreja. A cerimônia propriamente dita, com variações através dos tempos e locais, podia ter lugar ao ar livre, em uma capela ou, para aqueles felizardos, dentro do palácio real, quando a cerimônia de sagração do cavaleiro comumente fazia parte de uma celebração mais ampla como bodas reais e coroações. O escudeiro usava esporas douradas e recebia de volta sua espada, que fora abençoada por um sacerdote com a condição de que ele sempre protegeria o pobre e o fraco. A lâmina possuía duas laterais cortantes – uma para representar a justiça, e a outra lealdade (ou mais comumente, cavalaria).

Em seguida, perante testemunhas, o escudeiro ajoelhava-se em frente ao cavaleiro ou rei respeitosamente. A pessoa que fazia a sagração ou padrinho estava realmente correndo um risco com sua própria reputação, pois qualquer glória ou desonra do novo cavaleiro também refletia sobre aquele que o consagrou. O padrinho podia colocar uma espora ou uma espada e cinto no escudeiro e dar-lhe um beijo no rosto. O escudeiro ficava finalmente elevado a cavaleiro por um simples toque nos ombros ou pescoço com a mão ou espada ou mesmo um forte tapa (colée ou elogio) – destinado a ser a última pessoa de quem receberia um golpe sem retaliar e para lembrá-lo de suas obrigações e dever moral de não desonrar o homem que lhe desferiu o golpe. Umas poucas palavras podiam ser ditas, mas nada muito sofisticado, talvez um simples “Seja tu um cavaleiro”. O novo cavaleiro podia prestar um juramento de homenagem (homage) e tal fidelidade poderia ser prestada a um barão local e era especialmente desempenhada por cavaleiros arrendatários – aqueles que ocupavam terras que eram parte da propriedade do barão. Agora o cavaleiro, que recebeu seu cavalo, pago por seu pai ou pela pessoa que o fez cavaleiro e, portanto, seu escudo e sua bandeirola poderiam exibir um brasão de família. Para um escudeiro de família rica, a ocasião de sua elevação à cavalaria podia justificar uma grande festa – na qual ele poderia se sentar à mesa com os outros cavaleiros pela primeira vez, ao invés de ser somente o garçom – e mesmo um torneio.

Remover publicidades

Advertisement

Medieval Soldier Being Knighted
Soldado Medieval Sendo Sagrado Cavaleiro
Mohawk Games (Copyright)

Os Cavaleiros na Guerra

Após a preparação e a cerimônia, um cavaleiro encontrava-se pronto para cumprir sua meta: sair-se vitorioso do campo de batalha. Os cavaleiros envolviam-se na guerra por várias razões: encontravam-se no serviço pago de um barão local como parte de sua força permanente de cavaleiros da propriedade, eram enviados, pelo barão, a realizar alguma obrigação para seu soberano ou não possuíam nenhuma ligação particular com ninguém, porém ganhavam a vida como mercenários. Cavaleiros também podiam combater por uma causa religiosa, como durante as Cruzadas ou pertencer a uma ordem de cavaleiros, como os Cavaleiros Templários.

Os cavaleiros eram geralmente pagos por seus serviços, mas nem sempre, como no caso de estarem em serviço para o rei em uma guerra contra outro país ou barões rebelados. Havia vantagens para a guerra nacional, pois o rei podia conceder terras e títulos após terminada a conflagração e haveria sempre a honra de não combater para seu rei por simples remuneração.

Na guerra medieval, sítios de cidades e castelos fortificados eram mais comuns do que batalhas em campo, porém ainda se esperava que um cavaleiro cumprisse sua parte. Os cavaleiros podiam se reunir e formar grupos para incursões em castelos sitiados, por exemplo, mas estes tinham de ser encontrados. Na batalha, os cavaleiros formavam a linha de frente de um exército e cavalgavam em formação cerrada, usando primeiramente a lança, até que se quebrasse. Em seguida, empunhavam a espada e desmontavam, se seu cavalo estivesse ferido, o que geralmente acontecia. Durante um sítio, esperava-se que um cavaleiro fizesse parte de uma torre de sítio ou estivesse pronto para entrar em uma fortificação, a partir do momento que fosse rompida. Quando não estivesse combatendo, havia expectativa que os cavaleiros exibissem suas habilidades participando de torneios onde se realizavam batalhas de cavalaria simuladas, justas a cavalo e combate a pé um a um.

Remover publicidades

Publicidade

Sobre o tradutor

Jose Monteiro Queiroz-Neto
Monteiro é um pediatra aposentado interessado na história do Império Romano e da Idade Média. Tem como objetivo ampliar o conhecimento dos artigos da WH para o público de língua portuguesa. Atualmente reside em Santos, Brasil.

Sobre o autor

Mark Cartwright
Mark é um historiador que vive na Itália. Seus interesses incluem cerâmica, arquitetura, mitologia e a descoberta das ideias que todas as civilizações partilham entre si. Tem Mestrado em Filosofia Política e é o Diretor de Publicação na Enciclopédia da História Mundial.

Citar este trabalho

Estilo APA

Cartwright, M. (2018, Junho 08). Como Se Tornar um Cavaleiro Medieval [How to Become a Medieval Knight]. (J. M. Queiroz-Neto, Tradutora). World History Encyclopedia. Recuperado de https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1240/como-se-tornar-um-cavaleiro-medieval/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Como Se Tornar um Cavaleiro Medieval." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. World History Encyclopedia. Última modificação Junho 08, 2018. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1240/como-se-tornar-um-cavaleiro-medieval/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Como Se Tornar um Cavaleiro Medieval." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. World History Encyclopedia. World History Encyclopedia, 08 Jun 2018. Web. 07 Ago 2022.