Assaradão

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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King Esarhaddon (by Osama Shukir Muhammed Amin, Copyright)
Rei Assaradão Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Assaradão (ou Esarhaddon) (reinou 681-669 a.C.) foi o terceiro rei da dinastia Sargónida do Império Neo-Assírio. Ele era o filho mais novo do rei Senaqueribe (reinou 705-681 a.C.), e a sua mãe não era a rainha, mas uma esposa secundária, Zakutu (também conhecida como Naqi'a-Zakutu, viveu cerca de 728 a cerca de 668 a.C.). Ele é mais conhecido por reconstruir Babilónia, que foi destruída por Senaqueribe.

Assaradão é mencionado na Bíblia em II Reis 19:37, Isaías 37:38 e Esdras 4:2. Além da restauração da Babilónia, ele também é conhecido pelas suas campanhas militares no Egito e por garantir uma sucessão tranquila para o seu filho Assurbanípal (reinou 668-627 a.C.). Ávido seguidor da astrologia, consultava os oráculos regularmente durante todo o seu reinado, muito mais do que qualquer outro rei assírio.

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Alegou que os deuses o haviam designado para restaurar a Babilónia e habilmente omitiu das suas inscrições qualquer coisa que pudesse implicar o seu pai na queda da cidade, apresentando-se assim como um benfeitor sem interesse pessoal no projeto. Nas suas cartas diplomáticas, parece igualmente cuidadoso ao se caracterizar como um monarca justo e objetivo. Ele manteve e depois ampliou o império que o pai lhe deixara, e o seu reinado garantiu a estabilidade e prosperidade na região. Ele morreu em campanha no Egito em 669 a.C. e deixou o trono para o seu filho, Assurbanípal, o último grande rei do Império Neoassírio.

Ascensão ao Trono

Senaqueribe teve mais de onze filhos com as suas várias esposas e escolheu como herdeiro o seu favorito, Assur-nadin-shumi, o mais velho dos filhos nascidos da rainha Tashmetu-sharrat († 684/681 a.C.). Assaradão, nascido em 713 a.C., era filho de Zakutu, uma das mulheres secundárias de Senaqueribe. Senaqueribe nomeou Ashur-nadin-shumi para governar a Babilónia e, enquanto cumpria as suas funções, o príncipe foi sequestrado pelos elamitas e levado para Elão. Senaqueribe organizou uma enorme expedição para resgatar o seu filho, mas foi derrotado. Acredita-se que Ashur-nadin-shumi tenha sido morto pelos seus captores por volta de 694 a.C.

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Após a derrota do exército assírio pela coalizão elamita, Senaqueribe regressou à sua capital em Nínive e ocupou-se com projetos de construção e com a administração do império. Precisava escolher um novo herdeiro, mas parece ter demorado para decidir quem seria. É possível que, durante todo esse tempo,estivesse a avaliar os seus filhos, ou simplesmente ainda estivesse de luto pela perda do seu filho favorito e não quisesse substituí-lo. De qualquer forma, foi somente em 683 a.C. que Senaqueribe declarou Assaradão, o filho mais novo, como herdeiro.

Ele reconstruiu toda a cidade: templos, casas e ruas. E, para garantir que todos se lembrassem do seu benfeitor, inscreveu o seu nome nos tijolos e nas pedras.

Os seus irmãos mais velhos não aceitaram bem a notícia. Nas inscrições de Assaradão, ele escreve:

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Dos meus irmãos mais velhos, eu era o mais novo

Mas por decreto dos [deuses] Ashur e Shamash, Bel e Nabu

Meu pai me exaltou, em meio a uma reunião com meus irmãos:

Ele perguntou a Shamash: "Este é o meu herdeiro?"

E os deuses responderam: "Ele é o seu segundo eu."

E então meus irmãos enlouqueceram.

Eles sacaram as espadas, impiedosamente, no meio de Nínive.

Mas Ashur, Shamash, Bel, Nabu, Ishtar,

Todos os deuses olharam com ira para os atos destes canalhas,

Reduzindo a sua força à fraqueza e humilhando-os diante de mim.

Embora sua inscrição conte a história básica, ela não é completa. Parece que, depois que Senaqueribe anunciou a escolha, os irmãos deixaram claro o seu descontentamento e Zakutu mandou Assaradão esconder-se Não se sabe exatamente para onde foi, mas foi para algum lugar na região anteriormente controlada pelos mitanni. Por volta de 689 a.C., Senaqueribe saqueou e destruiu a cidade da Babilónia, levando consigo a estátua do grande deus Marduk, o que não foi aprovado pela corte assíria nem pelo povo do império. A Babilónia e a Assíria compartilhavam muitos dos mesmos deuses, e uma afronta a Marduk da Babilónia era um sacrilégio que não podia ser tolerado.

Em 681 a.C., Senaqueribe foi assassinado por dois dos seus filhos. Embora eles certamente pudessem ter sido motivados a matá-lo para tomar o trono (e assim privar Assaradão da sua herança), eles precisariam de uma justificação, e a destruição da Babilónia teria servido bem a esse propósito. Os seus nomes não são conhecidos fora das versões bíblicas apresentadas em II Reis 19 e Isaías 37:38, onde são chamados de Adrameleque e Sarezer. Após o assassinato, os dois príncipes fugiram de Nínive e procuraram refúgio com o rei de Urartu, Rusas II.

Nesse momento, Assaradão foi chamado de volta do exílio (provavelmente por sua mãe) e lutou contra as facções do seu irmão pelo trono. Após uma guerra civil de seis semanas, ele saiu vitorioso, executou as famílias do irmão, seus associados e todos os que se juntaram à causa deles, e assumiu o trono.

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Reinado e Restauração da Babilónia

Entre os seus primeiros decretos estava a restauração da Babilónia. Na sua inscrição, escreve:

Grande rei, monarca poderoso, senhor de tudo, rei da terra de Assur, governante da Babilónia, pastor fiel, amado por Marduk, senhor dos senhores, líder zeloso, amado pela consorte de Marduk, Zurpanitum, humilde, obediente, cheio de louvor por sua força e impressionado desde os seus primeiros dias na presença da sua grandeza divina [sou eu, Assaradão]. Quando, no reinado de um rei anterior, houve maus presságios, a cidade ofendeu os seus deuses e foi destruída por ordem deles. Foi a mim, Assaradão, que eles escolheram para restaurar tudo ao seu devido lugar, para acalmar a sua ira, para apaziguar a sua cólera. Marduk, confiou-me a proteção da terra de Assur. Os deuses da Babilónia, por sua vez, disseram-me para reconstruir os seus santuários e renovar as devidas práticas religiosas do seu palácio, Esagila. Convoquei todos os meus trabalhadores e recrutei todo o povo da Babilónia. Coloquei-os para trabalhar, cavando o solo e carregando a terra em cestos. (Kerrigan, pág. 34)

Stone Monument of Esarhaddon
Monumento de Pedra a Assaradão Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Assaradão distanciou-se cuidadosamente do reinado do seu pai e, especialmente, da destruição da Babilónia. Embora ele se identifique como filho de Senaqueribe e neto de Sargão II noutras inscrições, a fim de deixar claro que ele é o rei legítimo, nas suas inscrições sobre a Babilónia ele é simplesmente o rei que os deuses designaram para consertar. Senaqueribe é referido apenas como "um rei anterior" em tempos passados. A propaganda funcionou, na medida em que não há registros de que ele tenha sido associado de alguma forma à destruição da cidade, apenas à sua reconstrução. As suas inscrições também afirmam que participou pessoalmente do projeto de restauração. O historiador Michael Kerrigan comenta isso mesmo, escrevendo:

Assaradão acreditava em liderar pela frente, assumindo um papel central no que hoje chamamos de "cerimónia de inauguração" do novo Esagila. Depois que o templo danificado foi demolido e o seu local totalmente limpo, ele diz: "Derramei libações do melhor azeite, mel, ghee, vinho tinto e vinho branco para incutir respeito e temor pelo poder de Marduk no povo. Eu mesmo peguei a primeira cesta de terra, levantei-a sobre minha cabeça e a carreguei.” (pág. 35)

Ele reconstruiu toda a cidade, desde os templos até aos complexos religiosos, às casas das pessoas e às ruas e, para garantir que todos se lembrassem de seu benfeitor, inscreveu o seu nome nos tijolos e nas pedras. A estudiosa Susan Wise Bauer observa:

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Ele escreveu os seus próprios elogios nas próprias estradas sob os seus pés: dezenas de tijolos que pavimentavam a aproximação ao grande complexo do templo de Esagila foram estampados com a seguinte inscrição: “Para o deus Marduk, Assaradão, rei do mundo, rei da Assíria e da Babilónia, fez a via processional de Esagila e Babilónia brilhar com tijolos cozidos num forno ritualmente puro. (pág. 401)

Embora as profecias sobre a reconstrução da Babilónia dissessem que a cidade não seria restaurada por 70 anos, Assaradão manipulou os sacerdotes para que lessem a profecia como onze anos. Fê-lo fazendo com que eles lessem o número cuneiforme para 70 de cabeça para baixo, de modo que significasse onze, que era exatamente o número de anos que ele havia planeado para a restauração. Como manteve um interesse ao longo da vida por astrologia e profecias, pareceu estranho para alguns estudiosos que manipulasse os sacerdotes desta maneira e desacreditasse a integridade dos oráculos. Parece, no entanto, que tinha uma visão muito clara para o seu reinado e, embora acreditasse nos sinais dos deuses, não permitiria que essa crença o impedisse de alcanlçar os seus objetivos.

Sam'al Stele of King Esarhaddon
Estela da Vitória de Assaradão de Sam'al Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Campanhas Militares

Com a Babilónia restaurada, Assaradão começou a expandir e a melhorar o seu império. Os cimérios, uma tribo nómada do norte, ameaçavam as fronteiras ocidentais, e o Reino de Urartu, que o seu avô tinha derrotado em 714 a.C., tinha ressurgido no norte. Os seus dois irmãos, que tinham matado o pai, ainda lá estavam, sob a proteção do rei Rusas II que, tal como os reis de Urartu antes dele, não nutria qualquer simpatia pelos assírios.

Para manter os cimérios afastados, Assaradão firmou um tratado com os citas, outra tribo nómada conhecida pela sua habilidade na guerra de cavalaria. Embora sentisse que precisava da sua ajuda, não confiava neles como aliados. Assaradão consultou os seus oráculos sobre Urartu, os cimérios e os citas, e as suas perguntas foram preservadas em tabuinhas de adivinhação (orações ou pedidos inscritos em tabuinhas que eram então lidos no templo na presença do deus). Duas das tabuinhas diziam:

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Shamash, grande senhor, Rusas, rei de Urartu, virá com seus exércitos e os cimérios (ou qualquer um dos seus aliados) e travará guerra, matará, saqueará e pilhará?

Shamash, grande senhor, se eu der uma de minhas filhas em casamento ao rei dos citas, ele me dirá palavras de boa fé, palavras verdadeiras e honestas de paz? Ele manterá meu tratado e fará tudo o que me agrada?

Enquanto Assaradão consultava os oráculos, os cimérios invadiram o oeste em 679 a.C. Em 676 a.C., tinham avançado ainda mais nas terras controladas pela Assíria e conquistado a Frígia (na atual Turquia), destruindo cidades e templos. Assaradão enfrentou os cimérios em batalha na Cilícia derrotando-os. Ele afirma nas suas inscrições ter matado o rei deles, Teushpa, com a sua própria espada.

Ao mesmo tempo em que os cimérios invadiram, a cidade de Sídon, no Levante, rebelou-se contra o domínio assírio e Assaradão marchou pela costa do Mar Mediterrâneo, derrotou o rei rebelde e executou-o. Ele então se virou e marchou contra os aliados de Urartu, os manaeanos, ao nordeste e, no início de 673 a.C., estava em guerra com a própria Urartu. Não se sabe o que aconteceu aos seus irmãos, mas Urartu foi novamente derrotada pelo exército assírio e, se os irmãos ainda estivessem vivos quando Assaradão derrotou Urartu, ele sem dúvida os teria executado.

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As Campanhas Egípcias e a Morte

Tendo agora assegurado as suas fronteiras, Assaradão procurou expandi-las. O Egito tinha sido um problema para os assírios durante o reinado do pai e ainda incentivava a dissidência e a revolta no Império Assírio. Em 673 a.C., Assaradão lançou a primeira campanha militar contra o Egito e, pensando em invadi-lo num único ataque furioso, marchou com o seu exército em grande velocidade. Isto provou ser um erro. Quando encontraram as forças egípcias sob o comando do faraó cuchita Tirhakah, fora da cidade de Ascalão, os assírios estavam exaustos e foram rapidamente derrotados. Assaradão retirou-se do campo de batalha e o seu exército regressou a Nínive.

Assaradão aprendeu com seu erro e, em 671 a.C., tomou o seu tempo e levou um exército muito maior lentamente através do território assírio até às fronteiras egípcias; então ordenou o ataque. As cidades egípcias caíram rapidamente nas mãos dos assírios e Assaradão conduziu o exército pelo delta do Nilo e capturou a capital, Mênfis. Embora Tirhakah tenha escapado, Assaradão capturou seu filho, mulher, a sua família e a maior parte da corte real e enviou-os, juntamente com grande parte da população de Mênfis, de volta para a Assíria.

Em seguida, colocou funcionários leais em cargos-chave para governar o seu novo território e retornou a Nínive. A sua vitória é comemorada na famosa Estela da Vitória de 671 a.C., hoje no Museu Pergamon de Berlim, na Alemanha. A estela retrata Assaradão em toda a sua majestade, segurando uma maça de guerra, com um rei assistente ajoelhado a seus pés e o filho de Tirhakah, também ajoelhado humildemente, com uma corda em redor do pescoço.

O seu filho mais velho e herdeiro, Sin-iddina-apla, tinha morrido em 672 a.C., e Assaradão agora escolheu o seu segundo filho, Assurbanípal, como sucessor. Ele forçou os seus estados vassalos a jurar lealdade antecipadamente a Assurbanípal, a fim de evitar qualquer revolta sobre a futura sucessão. Por volta desta mesma época, a mãe de Assaradão, Zakutu, emitiu o Tratado de Lealdade de Naqi'a-Zakutu (em 670 ou 668 a.C.), que obrigava a corte assíria e os territórios sob o domínio assírio a aceitar e apoiar o reinado de Assurbanípal. A fim de evitar o tipo de conflito que ele havia passado com os seus irmãos, Assaradão também providenciou para que o seu filho mais velho, Shamash-shum-ukin, por decreto deveria ser rei da Babilónia.

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Assaradão parecia ter acabado de colocar os seus assuntos em ordem quando recebeu a notícia de que o Egito se tinha rebelado. Muitos dos oficiais de confiança que tinha deixado no comando das cidades e províncias tinham-se tornado simpatizantes da libertação egípcia e, sem dúvida, estavam a lucrar generosamente com as suas posições e não estavam dispostos a enviar tributos para Nínive. Em 669 a.C., Assaradão mobilizou o seu exército e marchou novamente sobre o Egito. Ele nunca teve boa saúde durante seu reinado e morreu de causas naturais antes de chegar às fronteiras. Caberia a Assurbanípal completar o trabalho do pai e conquistar o Egito para o Império Assírio.

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Perguntas & Respostas

Quem foi Assaradão?

Assaradão (reinou 681-669 a.C.) foi o rei do Império Neo-Assírio que reconstruiu Babilónia e conquistou o Egipto.

Porque é que Assaradão é famoso?

Assaradão é mais conhecido por reconstruir Babilónia, que havia sido destruída pelo seu pai, bem como pelo seu reinado estável e próspero e pelas suas campanhas militares no Egito.

Era Assaradão o filho mais velho de Senaqueribe?

Não. Assaradão era o filho mais novo de Senaqueribe e nem sequer era filho da rainha, mas sim de uma esposa secundária, Zakutu. Desconhece-se por que é que Senaqueribe o escolheu como sucessor.

Como é que Assaradão morreu?

Assaradão nunca teve uma saúde robusta e morreu de causas naturais durante uma campanha militar no Egito.

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2026, janeiro 04). Assaradão. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-771/assaradao/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Assaradão." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, janeiro 04, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-771/assaradao/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Assaradão." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 04 jan 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-771/assaradao/.

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