Octávia a Jovem

A Irmã de Augusto que Auxiliou na Génese do Império Romano
Harrison W. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Octavia Minor (by G.dallorto, CC BY)
Octávia a Jovem G.dallorto (CC BY)

WIP Octávia a Jovem (cerca de 69 a.C. – 11 a.C.) foi uma aristocrata romana que assumiu particular protagonismo durante os anos formativos do Império Romano. Irmã do imperador Augusto (reinou entre 27 a.C. e 14 d.C.) e mulher de Marco António (83 a.C. – 30 a.C.), era reconhecida e respeitada em todo o mundo romano por personificar as virtudes tradicionais da época, vindo a tornar-se uma das primeiras matriarcas da dinastia Júlio-Claudiana.

Família e Primeiros Anos de Vida

Octávia nasceu na cidade de Nola, no sul de Itália, provavelmente por volta de 69 a.C. — embora alguns estudiosos sugiram uma data ligeiramente posterior, com Katrina Moore a apontar 66 a.C. como o possível ano de nascimento. Pertencia à gens Octavia, uma família da aristocracia plebeia de origens modestas. Segundo o historiador Suetónio, a família terá recebido a cidadania romana por intermédio de Lúcio Tarquínio Prisco, o quinto rei de Roma. Durante o período da República Romana, a linhagem não alcançou feitos de particular relevo até 230 a.C., data em que um membro da família assumiu o cargo de questor. A partir de então, diversos Octavii ascenderam a altos cargos políticos. Contudo, à data do nascimento de Octávia, os seus antepassados eram ainda considerados uma família relativamente obscura.

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Quando jovem, Octávia era vista como um peão para promover os interesses políticos da sua família.

O seu pai, Caio Octávio, era um político promissor cuja trajetória visava colocar a família na vanguarda da esfera pública. À data do nascimento de Octávia, ele já tinha servido como tribuno militar e questor; com o tempo, alcançaria também o cargo de pretor e serviria como procônsul da Macedónia — uma carreira notável para um novus homo (literalmente, um 'homem novo', a designação romana para o primeiro membro de uma linhagem a ingressar no Senado). Inicialmente, Octávio foi casado com uma mulher chamada Ancária, de quem teve uma filha, Octávia a Velha (nascida por volta de 70 a.C.). Desconhece-se o desfecho deste matrimónio, sendo provável que Ancária tenha falecido durante o parto. De qualquer modo, Octávio contraiu segundas núpcias com Átia, sobrinha de Júlio César. Desta união nasceram mais dois filhos: Octávia a Jovem e Caio Octávio — que ficaria imortalizado como Augusto (nascido em 63 a.C.).

Em 58 a.C., Octávio faleceu quando se preparava para concorrer ao consulado, a magistratura suprema da República Romana. Durante o ano que mediou entre a morte do pai e o novo matrimónio da mãe, Octávia e Octaviano viveram sob a tutela materna e terão recebido instrução de preceptores masculinos — embora os nomes desses tutores se tenham perdido na História, Katrina Moore sugere que não é inverosímil considerar que o próprio Júlio César possa ter exercido alguma influência sobre eles. No ano de 57 a.C., Átia contraiu segundas núpcias com Lúcio Márcio Filipo, um homem proveniente da aristocracia plebeia, com um estatuto social ligeiramente superior aos Octavia. Durante este período, Octávia recebeu uma educação condizente com uma jovem da elite do final da era republicana. À semelhança da sua mãe, seria certamente alfabetizada e terá adquirido as competências inerentes ao papel feminino na Roma Antiga, como a fiação da lã e a tecelagem. Terá também sido instruída para se tornar uma esposa e mãe dedicada, virtudes imperativas para uma matrona romana.

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Julio-Claudian Dynasty of the Roman Empire
Dinastia Júlio-Claudiana do Império Romano Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Casamento com Marcelo

Dada a natureza patriarcal da sociedade romana antiga, torna-se impossível dissociar a biografia de Octávia das suas relações com as figuras masculinas que a rodeavam. Todavia, lendo nas entrelinhas, é possível vislumbrar a mulher em que se terá tornado. Em data anterior a 54 a.C. — quando contaria aproximadamente 15 anos — o seu padrasto deu-a em casamento a Caio Cláudio Marcelo, membro do ramo plebeu da influente gens Claudia. Desta união nasceram, pelo menos, três filhos em rápida sucessão: Marco Cláudio Marcelo (nascido em 42 a.C.), Cláudia Marcela a Velha (nascida em 41 a.C.) e Cláudia Marcela a Jovem (nascida em 40 a.C.).

Na sua juventude, Octávia era vista como um mero peão destinado a promover os desígnios políticos da família. Em 54 a.C., o seu tio-avô, Júlio César, solicitou que ela se divorciasse do marido para que se casasse com Pompeu, o Grande (106–48 a.C.), o seu rival com quem mantinha uma aliança instável. Pompeu fora casado com Júlia, a única filha reconhecida de César e prima de Octávia; a morte desta durante o parto deixou Pompeu não só viúvo, mas também como o solteiro mais cobiçado de Roma. César compreendeu que deveria agir com celeridade para consolidar novamente a aliança através de um enlace dinástico. Na ausência de parentes solteiras disponíveis, voltou-se para a adolescente Octávia, pressionando-a a divorciar-se de Marcelo. Importa notar que o divórcio na Roma Antiga não era o tabu em que se tornaria na Europa cristã; os romanos repudiavam frequentemente os seus cônjuges por pragmatismo político. Todavia, Octávia resistiu à ideia de se separar de Marcelo. Felizmente, não foi compelida a fazê-lo: Pompeu declinou a proposta de César e acabou por casar com Cornélia Metela.

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Nos anos subsequentes, à medida que o poder de César se expandia através da sua controversa conquista da Gália, crescia no Senado a apreensão relativamente às suas intenções. Marcelo posicionou-se convictamente no campo anti-cesariano — após assumir o consulado em 50 a.C., exigiu que o tio-avô da sua mulher abdicasse do comando das suas legiões e regressasse a Roma para responder pelos seus crimes. Face ao insucesso desta via, Marcelo recorreu a Pompeu, instando-o a defender o Senado na eventualidade de um conflito armado. Esta guerra civil eclodiu no ano seguinte, quando César cruzou o Rubicão e invadiu a Península Itálica. Octávia ter-se-á sentido assolada por lealdades contraditórias. Enquanto mulher romana, era expectável que demonstrasse pietas — um misto de lealdade, devoção e dever moral — tanto para com o seu marido como para com as demais figuras de autoridade masculina da família. Quando César entrou em Roma, em janeiro de 49 a.C., e foi nomeado ditador, é plausível que Octávia tenha tentado mitigar esta contradição, atuando como mediadora entre o Senado e o seu tio-avô.

Embora Marcelo se opusesse abertamente a César, nunca pegou em armas contra ele. Em parte devido a essa contenção, César concedeu-lhe o perdão após a vitória sobre Pompeu na Batalha de Farsalo, no ano de 48 a.C. Marcelo e Octávia parecem ter mantido a benevolência de César nos anos subsequentes, enquanto este acumulava poderes sem precedentes e era nomeado ditador vitalício. Contudo, nos Idos de Março (15 de março) de 44 a.C., César foi assassinado por um grupo de sessenta senadores, liderados por Marco Júnio Bruto e Caio Cássio Longino.

Assassination of Julius Caesar
A Morte de Júlio César Vincenzo Cammuccini (Public Domain)

O assassinato de Júlio César constituiu um novo ponto de viragem para a família de Octávia, ao revelar-se que, no seu testamento, César adotara Octaviano e o nomeara seu herdeiro. O irmão mais novo de Octávia, com apenas 18 anos, tornava-se subitamente um dos homens mais poderosos de Roma, herdando não apenas o nome de César, mas também a lealdade inabalável das suas legiões. Em 42 a.C., Octaviano aliou-se a um dos antigos oficiais de César, Marco António, derrotando Bruto, Cássio e os demais conspiradores na Batalha de Filipos. Com esta vitória, Octaviano não só vingou a morte de César, como também começou a desbravar o caminho para a sua própria ascensão ao poder absoluto.

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Casamento com António

Otávia foi a primeira mulher viva identificável a aparecer nas moedas romanas.

Em maio de 40 a.C., Marcelo faleceu enquanto Octávia se encontrava grávida da sua terceira filha. Apenas cinco meses depois, por decreto do Senado, casou-se com Marco António. Naquela época, Octaviano e António tinham estabelecido uma aliança precária de partilha de poder, designada por Segundo Triunvirato. O Império fora dividido entre ambos: ficou acordado que Octaviano governaria as províncias ocidentais, incluindo a própria Roma, ao passo que António assumiria o controlo do Oriente (o terceiro triunviro, Marco Lépido, ficou incumbido da administração de África). Octávia foi dada em casamento a António com o propósito de selar esta aliança política. Obediente, partiu para o Oriente com o novo marido, residindo com ele na sua mansão em Atenas e acompanhando-o nas deslocações às províncias orientais. Desta união, Octávia teria mais duas filhas: Antónia a Velha (nascida em 39 a.C.) e Antónia a Jovem (nascida em 36 a.C.).

Apesar da sua reputação de boémio e libertino, António parece ter guardado fidelidade a Octávia durante os primeiros anos de casamento, muito provavelmente para não comprometer a sua relação com Octaviano. Pouco depois do enlace, António mandou cunhar uma série de moedas de ouro, prata e bronze com a sua efígie e a de Octávia. Com o intuito de celebrar a aliança dinástica entre António e Octaviano, esta foi a primeira ocasião em que uma mulher viva e identificável figurou na numismática romana, bem como a primeira vez que a imagem feminina foi utilizada como instrumento de propaganda para alicerçar a carreira política do cônjuge. Nas moedas, Octávia surge retratada com um penteado sóbrio, mas de grande elegância, designado por nodus (literalmente, 'nó'), no qual o cabelo é puxado para cima e rematado com um coque na zona occipital. Esta estética apresentava-a como o expoente da austeridade e da virtude, tal como se impunha a uma proeminente romana.

Coin Depicting Mark Antony & Octavia
Moeda com as Efígies de Marco António e Octávia Classical Numismatic Group, Inc. (CC BY-SA)

Em 37 a.C., as fricções entre Octaviano e António intensificaram-se, ameaçando implodir a sua aliança e mergulhar Roma num novo ciclo de guerras civis. Apesar de se encontrar grávida de Antónia a Jovem, Octávia foi convocada a Tarento para mediar o conflito entre o seu irmão e o marido. Os cronistas da Antiguidade atribuem-lhe o mérito de ter apaziguado os ânimos, sustentando que apenas a sua serenidade permitiu alcançar um consenso e evitar a guerra. Octávia negociou um compromisso através do qual ambos os triunviros se obrigavam a fornecer tropas e navios para as respetivas campanhas militares eminentes — a de Octaviano na Sicília e a de António na Pártia. Pelo seu papel fundamental na restauração desta aliança precária, Octávia foi celebrada em todo o mundo romano, sendo descrita como 'um prodígio da condição feminina' (citado em Freisenbruch, pág. 21).

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A Queda de António

Em 36 a.C., António enviou Octávia e os seus filhos de regresso à sua propriedade em Roma, sob o pretexto de que, estando prestes a embarcar na campanha da Pártia, desejava assegurar que a família permanecia em local seguro. Todavia, ele teria, sem dúvida, segundas intenções. Cinco anos antes, fora seduzido pela magnética rainha do Egito, Cleópatra VII (69 a.C. – 30 a.C.). Desse breve romance resultara no nascimento de gémeos, Cleópatra Selene II e Alexandre Hélio, nascidos precisamente no ano do matrimónio de António com Octávia. Embora pareça ter mantido o decoro durante os primeiros três anos de casamento, António reatou o idílio com a rainha mal regressou ao Oriente para a sua campanha contra os partas. Mais de um milénio depois, na sua tragédia António e Cleópatra, William Shakespeare sugere que terá sido a austeridade de Octávia — a sua 'conversa santa, fria e silenciosa' — a impelir António de volta aos braços de Cleópatra (2.6, 153-154).

Independentemente da veracidade da tese de Shakespeare, Octávia era, inequivocamente, uma mulher de uma dedicação inabalável. Em 35 a.C., deslocou-se à mansão de António em Atenas, munida dos fundos e recursos que considerava essenciais para a campanha do marido. À chegada, foi confrontada com uma missiva de António, ordenando-lhe que interrompesse a viagem. Rejeitada, Octávia regressou a Roma, onde continuou a residir na casa de António, zelando não apenas pelos seus próprios filhos, mas também pelos descendentes dos anteriores matrimónios do esposo. A forma como António subjugou Octávia serviu apenas para alienar a opinião pública, tornando-o 'amplamente odiado por ultrajar uma mulher de tão excelsas qualidades' (citado em Freisenbruch, pág. 24). Este sentimento de repulsa agravou-se quando António se divorciou formalmente de Octávia em 32 a.C., enviando emissários a Roma para a expulsar da sua própria residência. A partir de então, a sua efígie desapareceu da numismática oriental; em sua substituição, António passou a ser retratado ao lado de Cleópatra.

Silver Tetradrachm Portraying Antony and Cleopatra
Tetradracma de Prata Retratando Antônio e Cleópatra Sailko (CC BY)

Mestre na manipulação da percepção pública, Octaviano não desperdiçou a oportunidade de utilizar o prestígio da sua irmã para enxovalhar a reputação do seu rival. Em 35 a.C., com o intuito de contrastar a 'rainha estrangeira' de António com as virtuosas matronas romanas do seu círculo íntimo, Octaviano outorgou três honras sem precedentes tanto a Octávia como à sua própria esposa, Lívia Drusila (59 a.C. – 29 d.C.). A primeira foi a prerrogativa da sacrosanctitas, que tornava ilegal qualquer insulto verbal dirigido a ambas — esta foi a primeira ocasião em que tal proteção, habitualmente reservada a magistrados masculinos (como os tribunos da plebe), foi concedida a mulheres. A segunda foi a dispensa da tutela (guarda masculina), o que conferia a Octávia e a Lívia a plena autonomia para gerirem os seus próprios bens e assuntos sem interferência de terceiros. Esta era uma distinção extraordinária, até então apenas usufruída pelas Virgens Vestais. Por fim, Octaviano mandou erigir estátuas de ambas para serem exibidas em espaços públicos.

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Ao elevar a sua irmã e a sua mulher desta forma, Octaviano fez da sua própria família o epítome da virtude romana. Simultaneamente, empreendeu uma campanha de difamação destinada a retratar António como um homem efeminado e despojado de identidade romana. Em 32 a.C., procedeu à leitura ilegal do testamento de António perante o Senado: aparentemente, este legara a sua fortuna aos filhos que tivera com Cleópatra, em detrimento dos seus descendentes legítimos em Roma, e solicitara ser sepultado em Alexandria, ao lado da rainha, e não na capital. Tais revelações foram eficazes em alienar o apoio dos romanos a António. Em 31 a.C., Octaviano derrotou o seu rival na Batalha de Áccio. No ano seguinte, António e Cleópatra suicidaram-se. Ao eliminar o seu único adversário de peso, Octaviano tornou-se o senhor absoluto do mundo romano. Poucos anos depois, o Senado outorgou-lhe o título de Augusto («O Venerável») e o cargo de princeps («Primeiro Cidadão»), o que o consagrou, efetivamente, como o primeiro Imperador Romano.

No Reinado de Augusto

Durante os primórdios do reinado de Augusto, Octávia afirmava-se como uma das figuras femininas mais influentes do Império Romano, apenas precedida em importância por Lívia. A sua efígie esculpida encontrava-se em todo o lado. Foi descoberto na cidade italiana de Velletri um busto de mármore que se presume retratar Octávia; nas palavras da historiadora Annelise Freisenbruch, a escultura revela 'uma mulher de uma beleza serena, de traços simétricos e regulares, e de um olhar profundo e pesado, com o cabelo arranjado segundo o estilo nodus, de onde escapam apenas algumas madeixas sobre a linha acima das orelhas' (pág. 26). Na época, os artistas preteriam a fidelidade fisionómica em favor da representação de Octávia como o símbolo máximo da virtude romana.

Portrait of a Woman, Possibly Octavia Minor
Retrato de uma Mulher, Possivelmente Octávia a Jovem J. Paul Getty Museum (Public Domain)

Octávia residia com Augusto na sua villa, no exclusivo Monte Palatino, em Roma, desde que o divórcio de Marco António. Consciente da obsessão do irmão com a sua imagem pública, Octávia colocou os seus dotes ao serviço para o apresentar como um homem humilde e próximo do povo, de modo a camuflar a verdadeira extensão dos seus poderes autocráticos. Diariamente, Augusto envergava um modesto manto de lã, tecido pelas mãos de Octávia, de Lívia e da sua filha, Júlia, a Velha. No intuito de promover um ideal de tranquilidade doméstica entre as famílias romanas, Augusto permitia ocasionalmente que a sua residência fosse aberta ao público; aí, os curiosos podiam observar Lívia e Octávia dedicadas arduamente ao tear. Embora se tratasse, inequivocamente, de uma manobra publicitária orquestrada, a mensagem era perentória: até as mulheres mais poderosas de Roma cumpriam os seus deveres tradicionais, tal como se esperava de qualquer esposa ou mãe.

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Em 27 a.C., Augusto reformou um pórtico situado na zona sul do Campus Martius (Campo de Marte), rededicando-o à sua irmã. O Pórtico de Octávia consistia num 'elegante pátio dotado de fontes em cascata e de um jardim que albergava uma galeria de prestigiadas pinturas e esculturas' (Idem, pág. 44). A própria Octávia viria a patrocinar a edificação de diversas estruturas públicas no interior do seu pórtico, incluindo um salão de assembleias (curia), salas de aula e uma biblioteca, esta última erigida em memória do seu filho. Octávia colaborou com alguns dos arquitetos mais eminentes de Roma; no seu Tratado de Arquitetura (título original em latim De Architectura Libri Decem), o arquiteto e engenheiro Vitrúvio expressa a sua gratidão a Octávia por o ter apresentado a Augusto e por ter recomendado o seu trabalho ao princeps.

Mãe do Herdeiro

Em meados da década de 20 a.C., tornou-se evidente que Augusto e Lívia não teriam descendência comum. Embora ainda não tivesse atingido os 40 anos, Augusto estava ciente da necessidade premente de um herdeiro, voltando a sua atenção para os membros da família alargada. Perfilavam-se dois candidatos imediatos: Tibério (42 a.C. – 37 d.C.), filho de Lívia de um matrimónio anterior, e o filho de Octávia, Marco Cláudio Marcelo. Apesar dos jovens terem a mesma idade, Marcelo cedo se destacou como o favorito — era charmoso e popular, contrastando com o temperamento sombrio e recluso de Tibério; além disso, Marcelo era parente de sangue de Augusto, ao passo que Tibério era apenas seu enteado. Em 25 a.C., Augusto pareceu selar este desígnio ao dar a sua filha, Júlia, em casamento a Marcelo. Octávia assumiu então o prestigiado, embora informal, papel de mãe do herdeiro, o que lhe permitiu, temporariamente, suplantar até mesmo Lívia como a 'primeira mulher' de Roma.

Virgil Reading the Aeneid to Augustus and Octavia
Virgílio lendo a Eneida a Augusto e Octávia Jean-Joseph Taillasson (Public Domain)

Contudo, seria efémera. Em 23 a.C., Marcelo adoeceu gravemente e acabou por falecer. O facto de ser tão jovem — contava apenas 19 anos — alimentou rumores de que teria sido envenenado por Lívia, de modo a desimpedir o caminho de Tibério rumo à sucessão. Todavia, a historiografia contemporânea inclina-se maioritariamente para a tese de morte por causas naturais. Independentemente da verdadeira causa, Octávia ficou inconsolável. A sua dor revelar-se-ia devastadora, como ilustra um episódio memorável: o poeta Virgílio (70–19 a.C.) recitava uma passagem da sua epopeia, a Eneida (título original em latim Aeneis), perante Augusto e a família imperial. Ao chegar ao momento em que o herói Eneias, no submundo, vislumbra um desfile de futuros heróis romanos e reconhece o fantasma do jovem Marcelo, Octávia terá desfalecido, caindo nos braços de Augusto

Durante a última década da sua vida, Octávia permaneceu reclusa nos confins da villa de Augusto. Raramente comparecia em atos públicos e, sempre que o fazia, apresentava-se invariavelmente trajada de luto. O seu afastamento da esfera pública permitiu que Lívia se impusesse novamente, recuperando o estatuto de 'primeira mulher' de Roma. Segundo o filósofo Séneca, este cenário terá provocado uma ruptura entre ambas, com Octávia a acusar Lívia de beneficiar politicamente com a morte do seu filho. Em 11 a.C., Octávia faleceu, contando cerca de 58 anos. Foi a primeira pessoa a ser sepultada no Mausoléu de Augusto, o monumental túmulo que o irmão mandara erigir para acolher as cinzas da família. Octávia ficaria na memória como uma das mulheres mais influentes da história romana, tendo sabido conciliar as suas virtudes morais com os seus dotes políticos para navegar os anos conturbados da guerra civil e ascender à proeminência nos primórdios do Império.

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Perguntas & Respostas

Quem foi Octavia a Jovem?

Octávia Menor, ou Octávia, a Jovem, era irmã do imperador romano Augusto e terceira esposa de Marco António.

Por que é que Marco António se casou com Otávia?

Marco António casou-se com Otávia para consolidar a sua aliança com o irmão dela, Octaviano (o futuro imperador Augusto).

Qual foi o papel de Octavia a Jovem na política romana?

Octávia a Jovem ajudou a mediar disputas entre o seu irmão Otaviano (Augusto) e o seu marido Marco António. O tratamento desrespeitoso de António para com ela também foi usado como propaganda por Otaviano para virar o povo romano contra António.

Bibliografia

A Enciclopédia da História Mundial é uma Associada da Amazon e recebe uma contribuição na venda de livros elígiveis

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Harrison W. Mark
Harrison Mark é pesquisador e escritor para a World History Encyclopedia. Ele é graduado pela SUNY Oswego, onde estudou História e Ciência Política.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, H. W. (2026, fevereiro 02). Octávia a Jovem: A Irmã de Augusto que Auxiliou na Génese do Império Romano. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-25874/octavia-a-jovem/

Estilo Chicago

Mark, Harrison W.. "Octávia a Jovem: A Irmã de Augusto que Auxiliou na Génese do Império Romano." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, fevereiro 02, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-25874/octavia-a-jovem/.

Estilo MLA

Mark, Harrison W.. "Octávia a Jovem: A Irmã de Augusto que Auxiliou na Génese do Império Romano." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 02 fev 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-25874/octavia-a-jovem/.

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