O Comício de Nuremberga, ou Congresso do Partido do Reich, foi um evento anual realizado entre 1927 e 1938 em Nuremberga, na Alemanha. Organizadas a uma escala massiva pelo Partido Nacional-Socialista (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei - Nazi), estas operações de pompa, cerimónia e propaganda contavam com a presença de centenas de milhares de membros do partido. O ponto alto era invariavelmente um discurso do líder nazi, Adolf Hitler (1889-1945).
O Poder da Propaganda
Os comícios do Partido Nacional-Socialista realizaram-se pela primeira vez em Nuremberga, na Baviera, em 1927, e prolongaram-se até ao eclodir da Segunda Guerra Mundial (1939-45). Anteriormente, os comícios nazis tinham tido lugar em Munique e Weimar, mas Nuremberga permitiu aos nazis tirar partido da sua rica história, uma vez que, na época medieval, a cidade tinha sido a sede da Dieta do Sacro Império Romano-Germânico. Os nazis chegaram mesmo a apelidar Nuremberga de "a mais alemã das cidades alemãs" (Range, pág. 115). A cidade apresentava ainda a vantagem de possuir um amplo espaço aberto para reuniões de massas, o parque Luitpoldhain.
Estes eventos anuais, realizados todos os meses de setembro e frequentados por membros do partido nazi, estendiam-se por vários dias. Ao contrário de reuniões de outros partidos políticos, Nuremberga foi concebida desde o início como um local de exibição e espetáculo, e não para as habituais moções e debates sobre as complexidades da política partidária. Hitler pretendia unidade e decretou que os comícios deveriam ser uma "demonstração clara e compreensível da vontade e da força juvenil" do Partido Nacional-Socialista (Range, pág. 149). Este era, contudo, ainda um período em que o partido nazi lutava pelo reconhecimento eleitoral, e foi apenas em 1933, quando os nazis assumiram o poder, que os comícios de Nuremberga se tornaram eventos verdadeiramente grandiosos.
Os nazis compreendiam o poder da apresentação e os efeitos positivos de uma pompa e cerimónia bem orquestradas sobre uma população que, talvez, ainda estivesse por convencer totalmente das políticas nazis e das suas ambições desmedidas para a Alemanha. Hitler tinha dedicado dois capítulos do seu livro Mein Kampf (A Minha Luta, 1.ª Ed.ª portuguesa de 1934/Minha Luta - 1.ª Ed.ª no Brasil de 1934), publicado em 1925, ao tema da propaganda, em particular ao poder das imagens e dos slogans sobre as massas. Hitler e o seu mestre da propaganda, Joseph Goebbels (1897-1945), que assumiu este cargo em 1928, procuravam constantemente oportunidades onde o povo pudesse ser impressionado por visões, sons e palavras. Como observou Hugh Greene, um jornalista britânico sediado em Berlim no final da década de 1930:
A encenação era muito importante para os nazis. Creio que Hitler queria, de forma bastante consciente, manter o povo alemão, ou a grande massa dele, num estado de constante intoxicação. O evento anual em Nuremberga era de particular importância.
(Holmes, pág. 38)
As pessoas chegavam a Nuremberga em comboios especiais e ficavam alojadas em quartéis militares, armazéns vazios, tendas e carruagens ferroviárias. Convidados especiais eram chamados pelo seu prestígio, tais como o Príncipe Augusto Guilherme (1887-1949), filho do Kaiser Guilherme II (reinou 1888-1918), e Winifred Wagner (1897-1990), nora do compositor Richard Wagner (1813-1883) e organizadora do importante festival de música de Bayreuth. Estrangeiros simpatizantes, particularmente diplomatas e jornalistas, também eram convidados para os comícios, para que pudessem reportar favoravelmente nos seus países sobre Hitler e a Alemanha Nazi.
Projetar o Campo Zeppelin
Os comícios de Nuremberga eram cuidadosamente planeados, orquestrados e adornados para alcançar o grau desejado de intoxicação e, acima de tudo, incutir um sentimento de pertença. Como Goebbels observou outrora, a presença num comício transformava o participante "de um pequeno verme em parte de um grande dragão" (Hite, pág. 254). O primeiro elemento importante era o local em si, mas o recinto de Nuremberga precisava de ser expandido. "Um distrito inteiro de Nuremberga foi reservado para o complexo do comício, o qual foi planeado (e, em certa medida, construído) em moldes gigantescos" (Stone, pág. 77). Um teatro de sonhos (ou seriam pesadelos) estava prestes a ser erguido: um estádio massivo num grande espaço aberto que ficou conhecido como o Campo Zeppelin (Zeppelinfeld).
Para construir e adornar este cenário gigantesco, Hitler recorreu a Albert Speer (1905-1981), o homem que rapidamente se tornaria o seu arquiteto favorito. Speer remodelou Nuremberga no verão de 1933, de modo a torná-la adequada para acolher aquele que era agora o partido no poder. Speer descreveu uma das suas primeiras intervenções de design da seguinte forma: "Providenciei uma águia gigantesca, com mais de trinta metros de envergadura, para coroar o Campo Zeppelin. Preguei-a a uma estrutura de madeira como uma borboleta numa coleção" (Speer, pág. 62). Em 1934, Speer foi incumbido de ampliar as estruturas do Campo Zeppelin e, pela primeira vez, de as construir em pedra (granito rosa e branco). Speer descreveu a sua abordagem a este projeto, que era dos mais importantes:
Esforcei-me sobre os primeiros esboços até que, num momento de inspiração, me surgiu a ideia: uma imponente escadaria encimada e delimitada por uma longa colunata, ladeada em ambas as extremidades por pilares de pedra. Sem dúvida que foi influenciada pelo altar de Pérgamo... Com algum receio, pedi a Hitler que olhasse para a maquete. Estava preocupado porque o design ia muito além do âmbito da minha tarefa. A estrutura tinha um comprimento de cerca de quatrocentos metros e uma altura de vinte e quatro metros. Tinha quase o dobro do comprimento das Termas de Caracala, em Roma.
(Speer, pág. 96)
Hitler concordou com o plano. O estádio concluído tinha capacidade para centenas de milhares de espetadores. Muitos membros do partido ficariam tão longe do palco que necessitariam de óculos especiais para conseguirem ver o que estava a acontecer, mas isso era secundário; o objetivo era que o estádio e a multidão tivessem um aspeto formidável em filme. Acima de tudo, a estrutura era permanente. Tanto Hitler como Speer tinham os olhos postos na história, e isso influenciou a escolha do design e dos materiais, como o arquiteto aqui explica:
Hitler gostava de dizer que o propósito da sua construção era transmitir o seu tempo e o seu espírito à posteridade. Em última análise, tudo o que restava para lembrar aos homens as grandes épocas da história era a sua arquitetura monumental... Ao utilizarmos materiais especiais e ao aplicarmos certos princípios de estática, deveríamos ser capazes de construir estruturas que, mesmo num estado de decadência, após centenas ou (tais eram os nossos cálculos) milhares de anos, se assemelhassem mais ou menos aos modelos romanos... Para ilustrar as minhas ideias, mandei preparar um desenho romântico. Este mostrava como seria a tribuna de honra do Campo Zeppelin após gerações de negligência, coberta de hera, com as suas colunas caídas, as paredes a desmoronar-se aqui e ali, mas com os contornos ainda claramente reconhecíveis.
(Speer, pág. 97)
Speer alcançou o sonho que projetara, uma vez que a estrutura ainda hoje permanece, tal como planeado: uma ruína aparentemente indestrutível. Outros edifícios permanentes acrescentados por Speer ao complexo de Nuremberga incluíam um enorme salão para eventos culturais. Os planos massivos, que ganharam um prémio na Exposição Mundial de 1937 em Paris, nunca foram concluídos na totalidade. Todo o complexo do comício deveria ter coberto 16,5 quilómetros quadrados (6,5 milhas quadradas), mas a guerra interveio na sua execução final.
Outra característica da Nuremberga de Speer foi a utilização da bandeira nazi, uma disposição impressionante que se repetia em estandartes enormes por toda a área do estádio e pelas ruas da cidade. A bandeira tinha um significado deliberado e particular, tal como aqui resumido pelo historiador F. McDonough:
A bandeira nazi, com o seu logótipo distintivo e visualmente memorável da Suástica – desenhado por Hitler – era um símbolo potente da identidade do partido. Era fundamentalmente vermelha, pedindo essa cor emprestada à popular bandeira vermelha comunista, mas no seu centro figurava um círculo branco – para representar a herança ariana pura – com o símbolo da suástica negra, visualmente memorável e herdado de seitas Völkisch anteriores, no centro. A bandeira incorporava engenhosamente o vermelho do socialismo com o tradicional preto e branco da bandeira imperial anterior a 1914.
(pág. 72)
O passo seguinte foi acertar na iluminação, uma vez que os desfiles mais importantes eram realizados à noite. Speer sugere nas suas memórias que optou pelos desfiles noturnos apenas para disfarçar a fraca capacidade de marcha e o físico ainda mais debilitado dos milhares de membros idosos do partido que neles participavam; contudo, percebeu depois o potencial dramático de uma iluminação poderosa. Speer desenhou o sistema de iluminação em Nuremberga para acentuar a arquitetura e fazer com que o seu Führer parecesse uma divindade. Luzes com feixes potentes, incluindo 130 projetores de busca da força aérea, foram colocadas em redor e acima do estádio, lançando os seus raios a 6 km de altitude. Os holofotes podiam ser direcionados para um ponto específico ou movidos rapidamente para criar espetáculos de luz cegantes. Um relato da imprensa pró-nazi faz a seguinte descrição das pirotecnias lumínicas utilizadas no comício de Nuremberga de 1936:
À medida que Adolf Hitler entra no Campo Zeppelin, 150 projetores da força aérea acendem-se. Estão distribuídos por todo o recinto e cortam a noite, erguendo uma cúpula de luz no meio da escuridão… O vasto campo assemelha-se a uma imponente catedral gótica feita de luz… Celebra-se aqui uma hora devocional do Movimento… Os braços dos homens erguem-se em saudação… o aplauso que surge dos 150.000 espetadores… dura vários minutos.
(Hite, pág. 254)
A Pompa e a Cerimónia
Os comícios abriam sempre com uma representação de Die Meistersinger von Nürnberg (Os Mestres Cantores de Nuremberga) de Wagner, pela Ópera Estatal de Berlim. Seguiam-se quatro dias de marchas, desfiles, discursos, música e fogo-de-artifício. Realizavam-se cerimónias com significado para a história do partido, como o desfile em que as bandeiras distritais do partido eram tocadas individualmente no canto da bandeira ensanguentada que tinha sido usada no Putsch da Cervejaria, o golpe de Estado nazi fracassado de 1923. O grande final do comício era sempre o mesmo: o discurso de Hitler. Para este clímax, os projetores focavam-se no local por onde Hitler entrava na arena. As luzes moviam-se então com o ditador à medida que este se dirigia lentamente para o pódio, seguido por um cortejo adequadamente numeroso de membros leais do partido. À medida que Hitler se aproximava do pódio, a música ecoava de múltiplas bandas, orquestras e altifalantes — música que incluía sempre um andamento de uma sinfonia de Anton Bruckner (1824-1896). A música era frequentemente abafada pelos vivas e aplausos espontâneos da multidão. Hitler, um mestre na manipulação de audiências, só começava a falar quando o silêncio absoluto reinava novamente por todo o estádio.
A multidão de apoiantes nazis era sempre obrigada a esperar pela comparência de Hitler, uma tática deliberada para aumentar a expectativa e a tensão palpável no estádio. Pelo menos, enquanto a multidão se inquietava nos seus lugares, tinha muito para admirar além das proporções gigantescas do próprio estádio: águias maciças pintadas a ouro segurando suásticas (e, mais tarde, globos terrestres, quando Hitler sonhava com a dominação mundial), paramilitares em marchas perfeitamente sincronizadas com as suas Camisas Castanhas (a SA) e Camisas Negras (a SS), Coortes adoradoras da Juventude Hitleriana, grandes massas de portadores de tochas e 25 000 estandartes coloridos representando todas as organizações nazis em todo o Terceiro Reich. Toda esta organização teatral e coreografia rigorosa enfatizavam a mensagem de controlo nazi. A multidão, contudo, tinha vindo para ver e ouvir apenas uma coisa: o discurso de Hitler.
Os Discursos de Hitler
Os discursos de Hitler em Nuremberga (ou, aliás, em qualquer outro lugar) centravam-se menos em conteúdos significativos e mais na criação de um impacto dramático, recorrendo a uma amálgama de estereótipos, recursos retóricos e linguagem emocionalmente carregada. O próprio Hitler era um grande crente no poder da fala, como se nota em Mein Kampf (A Minha Luta, 1.ª Ed.ª portuguesa de 1934/Minha Luta - 1.ª Ed.ª no Brasil de 1934): "Todos os grandes eventos que abalaram o mundo foram provocados não por matéria escrita, mas pela palavra falada" (McDonough, pág. 117). No discurso de cada ano, Hitler expandia temas específicos estreitamente relacionados com o título do comício desse ano, tais como "Liberdade", "Trabalho", "Honra" e "Grande Alemanha".
O fluxo de palavras de Hitler era pontuado com mestria por silêncios grávidos de sentido, expressões faciais enfáticas e gestos dramáticos — estes últimos frequentemente copiados das estrelas do cinema mudo da época e diligentemente ensaiados por Hitler em frente a um espelho.
Infra encontra-se uma abertura típica de um dos discursos do Führer:
Assim, vieram neste dia das vossas pequenas aldeias, das vossas vilas de mercado, das vossas cidades, das minas e fábricas, ou deixando o arado, até esta cidade. Saem do pequeno mundo da vossa luta diária pela vida, e da vossa luta pela Alemanha e pela nossa nação, para experienciar este sentimento por uma vez: agora estamos juntos, estamos com Ele e Ele está connosco, e agora Nós somos a Alemanha.
(Stone, pág. 78)
Hitler focava-se habitualmente na cultura e em temas gerais, instando o povo a maiores esforços para tornar a Alemanha grandiosa novamente e vociferando contra os "inimigos" do Estado, tais como as potências estrangeiras e os judeus. Por vezes, Hitler utilizava o seu discurso de Nuremberga para fazer anúncios significativos relativos às políticas nazis. Por exemplo, no comício de 1935, anunciou a Lei para a Proteção do Sangue e da Honra Alemães, que proibia casamentos entre aqueles definidos pelo Estado como judeus e os definidos como arianos. No mesmo comício, anunciou a Lei da Cidadania do Reich, que retirava a cidadania alemã aos indivíduos definidos como judeus, e a Lei para a Proteção da Saúde Genética do Povo Alemão, que estipulava que qualquer pessoa que pretendesse casar-se tinha primeiro de se submeter a um exame médico para obter um certificado de boa saúde.
Os comícios de Nuremberga intoxicavam certamente os fiéis do partido, mas eram tão bem coreografados que, muito frequentemente, visitantes estrangeiros neutros viam-se irresistivelmente arrastados por uma onda de histeria perante a retórica de Hitler. Michael Burn, um jornalista britânico de visita, testemunhou o comício de 1935 e descreveu-o numa carta à sua mãe:
O Comício do Partido terminou esta manhã. Não consigo pensar de forma coerente depois desta semana. Tem sido maravilhoso ver ao que Hitler reconduziu este país e o que o ensinou a ansiar. Ouvi-o fazer um discurso ontem, no final de tudo isto, que creio que nunca esquecerei e que vou mandar traduzir.
(Boyd, pág. 162)
Para William L. Shirer (1904-1993), o célebre historiador do Terceiro Reich que testemunhou Hitler em Nuremberga, o comício foi uma "semana exaustiva de desfiles, discursos, iconografia pagã e a adulação mais frenética por uma figura pública que este escritor alguma vez vira" (pág. 230).
Para aqueles que não podiam estar presentes em pessoa, existiam as transmissões radiofónicas. Os nazis tinham, desde 1933, promovido o fabrico de aparelhos de rádio baratos (Volksempfänger), com a terrível rasteira de que estes apenas conseguiam sintonizar uma estação de rádio: a oficial nazi. Milhões de famílias compraram estes rádios e ouviam as transmissões nazis, frequentemente em reuniões comunitárias organizadas especialmente para que as pessoas pudessem ouvir o seu líder em conjunto. Outras formas de vislumbrar as maravilhas de Nuremberga eram os curtos noticiários cinematográficos e as longas-metragens oficiais exibidas nos cinemas. Um importante filme de propaganda de um dos comícios de Nuremberga (a edição de 1934), O Triunfo da Vontade, foi pessoalmente supervisionado por Hitler e realizado por Leni Riefenstahl (1902-2003), a única mulher oficialmente envolvida na organização dos comícios.
O último comício de Nuremberga realizou-se em setembro de 1938. O comício planeado para setembro de 1939 foi cancelado à última hora, após a Alemanha ter invadido a Polónia nesse mês e a Segunda Guerra Mundial ter começado. Ironicamente, este festival de fumo e espelhos nazi deveria ter-se chamado o "Comício da Paz".
