O SS Great Eastern foi um navio movido a vapor concebido por Isambard Kingdom Brunel (1806-1859), que realizou a sua viagem inaugural de Liverpool para Nova Iorque em junho de 1860. Na época, era, de longe, o maior navio de passageiros alguma vez construído, um recorde que manteria durante 49 anos. O Great Eastern instalou o primeiro cabo telegráfico transatlântico em 1866.
Brunel e os Navios a Vapor
Isambard Kingdom Brunel foi um engenheiro britânico conhecido principalmente como um magnata ferroviário de sucesso, mas, em 1835, formou a Great Western Steamship Company. O primeiro navio a vapor gigante de Brunel, o SS Great Western (a sigla SS designa que se trata de um navio a vapor), foi concluído em 1838. Construído em madeira e propulsionado por rodas de pás gigantescas, o Great Western demonstrou que navios grandes movidos a vapor podiam transportar combustível, passageiros e carga suficientes para tornar as longas viagens rentáveis. O Great Western ficou em segundo lugar, atrás do SS Sirius, construído pela Transatlantic Steamship Company, na "corrida" de abril de 1838 para se tornar o primeiro navio a vapor a atravessar o Atlântico da Grã-Bretanha para Nova Iorque. Contudo, o navio de Brunel tinha partido vários dias depois do Sirius e era muito mais eficiente em termos de consumo de combustível. Brunel provara que a energia a vapor podia funcionar nos navios tal como funcionava nos comboios e estava agora determinado a construir um navio a vapor transatlântico ainda mais moderno, desta vez com um casco de ferro. Os lucros do Great Western foram reinvestidos diretamente na construção do SS Great Britain.
O maior navio de passageiros do mundo na época, com 98 metros (321 pés) de comprimento, o Great Britain realizou a viagem inaugural de Liverpool para Nova Iorque em maio de 1845. O Great Britain era propulsionado por um sistema de hélice inovador em vez das tradicionais rodas de pás, embora também tivesse seis mastros para velas quando as condições eram favoráveis. O navio realizou várias travessias do Atlântico, com uma média de 13 a 15 dias por viagem. Infelizmente, o enorme navio encalhou na Irlanda em setembro de 1846, mas, por esta altura, Brunel já ambicionava um navio ainda maior e mais grandioso. O terceiro grande navio a vapor de Brunel foi o SS Great Eastern.
O Grande Sonho
A ideia de construir um terceiro navio a vapor de ferro visava proporcionar um serviço de passageiros entre a Europa, o Extremo Oriente e a Austrália. A Australian Mail Company estava particularmente interessada num meio mais rápido de entrega de correio entre a Grã-Bretanha e a Austrália. Brunel teve a ideia de que, se um navio fosse suficientemente grande, poderia transportar combustível bastante para dar a volta ao mundo. Tal navio não precisaria, como era a norma, de parar em estações de reabastecimento de carvão regulares, como a Cidade do Cabo, e poderia, assim, realizar longas viagens muito mais rapidamente do que qualquer rival. O problema com esta ideia era que a Australian Mail Company não estava convencida com o projeto de Brunel e encomendou dois navios mais pequenos para satisfazer as suas necessidades. Brunel avançou mesmo assim, formando a Great Eastern Steam Navigation Company em 1853. Durante este período de construção, o navio era conhecido como Leviathan; para Brunel, era a sua 'grande menina'. Tratava-se de um navio gigante que nenhuma empresa tinha encomendado. Brunel esperava que, quando a sua 'grande menina' se tornasse realidade, os clientes batessem à sua porta. Era um risco tão grande como o navio que esperava construir. Brunel "nunca antes tinha estado tão profundamente empenhado num projeto, financeira e moralmente, bem como intelectual e praticamente" (Brindle, pág. 134).
Como não existia uma doca suficientemente grande para acomodar este monstro dos mares, foi construído sobre vigas de madeira especialmente concebidas para o efeito, cravadas na linha costeira. Este berço de madeira consistia em 12.000 toneladas de madeira. Quando, ou se, fosse alguma vez concluído, o navio teria de ser lançado lateralmente ao rio Tamisa, utilizando correntes maciças operadas por motores a vapor ainda maiores.
O projeto de Brunel sofreu um segundo golpe quando não conseguiu obter o lucrativo contrato do governo britânico para transportar correio para a Índia, China e Austrália. Os investidores começaram a ficar nervosos com a possibilidade de Brunel nunca terminar o seu grande navio quando o construtor, John Scott Russell, de Millwall, declarou falência em fevereiro de 1856. Ainda apenas meio concluído e com os custos a disparar, Brunel teve de lutar contra credores que queriam vender o Great Eastern tal como estava. O casco foi terminado no final de 1857, mas o lançamento oficial foi um desastre; os guinchos de travagem cuidadosamente desenhados por Brunel, que transportavam correntes com elos que pesavam 27,2 quilogramas (60 libras) cada, ficaram fora de controlo e um homem morreu. Brunel tinha decidido adicionar calhas de ferro ao berço de madeira que suportava o navio, e estas tinham criado demasiada fricção com o casco de ferro do navio. Foi necessário um período agonizante de dois meses para encontrar uma forma de baixar o casco em segurança até ao rio. A 1 de fevereiro de 1858, o Great Eastern estava finalmente a flutuar e pronto para ser equipado. O orçamento original para o lançamento do casco tinha sido fixado em 14.000 libras, mas custou, na verdade, 120.000 libras. O navio parecia ser um poço sem fundo com um apetite insaciável.
No outono de 1858, o navio estava quase concluído, mas ocorreu outra catástrofe financeira quando a Great Eastern Steam Navigation Company faliu. Com os custos a aumentar, os críticos começaram a dizer que o Great Eastern era a grande loucura de Brunel e, não pela primeira vez, o engenheiro foi acusado de tentar construir um sonho em vez de algo real. Formou-se um novo grupo de investidores, em última análise, e criou-se uma nova empresa, a Great Ship Company, que essencialmente comprou a extinta GESNC e assumiu o controlo do navio. A construção do Great Eastern foi retomada e os seus sistemas de rodas de pás e de hélice foram testados durante os meses de julho e agosto de 1859.
O navio estava finalmente pronto para as suas primeiras provas de mar com uma viagem até Weymouth e depois para Anglesey, no País de Gales, no início de setembro. O navio partiu sem problemas, mas, a 8 de setembro, uma explosão, causada por alguém ter deixado descuidadamente uma torneira de purga fechada num aquecedor, matou cinco homens e arrancou a chaminé dianteira do convés. Foram feitas reparações ao navio, mas a sua reputação de embarcação azarada revelou-se mais difícil de remediar. Contudo, com a sua grande resistência estrutural e ênfase em acabamentos de luxo, o transatlântico foi um precursor dos grandes navios transatlânticos que estavam por vir.
As Estatísticas de Recordes
Tudo no Great Eastern quebrava recordes: o navio combinava duas rodas de pás nas laterais com uma hélice na popa, a hélice fornecia cerca de 60% da potência total e as rodas de pás mediam 17 metros (56 pés) de diâmetro e forneciam cerca de 40% da potência necessária para propulsionar o navio; um motor a vapor gigante alimentava a hélice, enquanto um segundo acionava as rodas de pás, cada motor pesava 90 toneladas, eram os maiores alguma vez construídos na época e foram fornecidos pela James Watt & Co., com cilindros maciços que mediam 1,88 metros (6 pés e 2 polegadas) de comprimento. Os motores desenvolviam um total de 3.150 cavalos de potência, o dobro da potência de qualquer navio existente, e combinando as três fontes de energia, o navio dispunha também de seis mastros para velas quando as condições eram favoráveis, cuja velocidade máxima era de cerca de 14 nós.
O Great Eastern era, de longe, o maior navio do mundo, com mais do dobro do tamanho do SS Great Britain. Tinha 211 metros (692 pés) de comprimento e 25,3 metros (83 pés) no seu ponto mais largo; apenas a sua hélice media mais de 8 metros (26 pés) de diâmetro. No total, foram utilizados mais de 3 milhões de rebites para fixar as 30.000 placas de ferro do navio, cada uma medindo 3 x 0,8 metros (10 pés por 2 pés e 9 polegadas). A tonelagem do navio em peso bruto era de 18.915 toneladas, deslocava 27.000 toneladas, podia transportar 4.000 passageiros e 418 membros da tripulação, e cerca de 3.000 toneladas de carga.
O Great Eastern era tão grande que Brunel concebeu-o com vigas intercaladas entre um casco duplo, uma quilha reforçada e vários compartimentos estanques. Existiam também dois anteparos longitudinais para conferir ainda mais resistência e para separar o motor das caldeiras como medida de segurança. Estas características garantiam que o Great Eastern pudesse sobreviver a um encalhe deliberado, o que era necessário, uma vez que nenhum dique seco no mundo era, ainda, suficientemente grande para acomodar o navio quando este inevitavelmente precisasse de reparações.
Um Transatlântico
O Great Eastern realizou a sua viagem inaugural através do Atlântico em junho de 1860, navegando de Liverpool para Nova Iorque. Infelizmente, Brunel não viveu para ver a concretização do seu sonho; faleceu vítima de um acidente vascular cerebral no ano anterior. A saúde de Brunel já estava em declínio há muito tempo, talvez relacionado com o stress do projeto do Great Eastern, mas mais provavelmente devido a uma patologia renal diagnosticada, a doença de Bright.
O Great Eastern nunca foi utilizado, como Brunel pretendia, para transportar passageiros e carga para a Ásia, ao invés foi empregue como transatlântico, mas acabou por ser vítima do seu próprio tamanho, à medida que embarcações mais pequenas o superavam em velocidade. O navio conseguiu obter um pequeno lucro para os seus proprietários até que, em setembro de 1861, ocorreu um desastre: foi atingido por uma tempestade e necessitou de reparações extensas. Em agosto de 1862, a má sorte que parecia assolar os navios de Brunel voltou a atingir o Great Eastern, quando encalhou ao largo da costa dos EUA. Incapaz de suportar os elevados custos destas contrariedades, em 1864 a Great Ship Company foi obrigada a colocar o Great Eastern em leilão. Não houve compradores e o navio foi mais tarde vendido pelo preço reduzido de 20.000 libras, para iniciar uma nova e menos glamorosa função.
O Serviço Posterior
De 1865 a 1873, o Great Eastern foi utilizado para assentar cabos submarinos, incluindo o primeiro cabo telegráfico transatlântico (em 1866, à segunda tentativa), que se estendia da Irlanda até à Terra Nova. O navio era ideal para este tipo de trabalho, uma vez que era muito estável, podia facilmente transportar os enormes rolos de cabo e possuía uma elevada manobrabilidade, tarefa que continuou a desempenhar entre a Inglaterra e a França e da Inglaterra para a Índia.
O navio fez um breve regresso ao serviço de passageiros quando viajou de Liverpool para Nova Iorque em 1867. Um passageiro famoso foi o celebrado romancista francês Júlio Verne (1828-1905) que, tão impressionado ficou com a experiência, ambientou o seu romance de 1871, Uma Cidade Flutuante (tít. original: Une ville flottante), no navio.
O SS Great Eastern foi retirado do serviço de assentamento de cabos e passou 12 anos em doca em Milford Haven. O navio foi comprado por Edward de Mattos em 1885; pagou 25.000 libras por ele e arrendou-o para ser utilizado como um palácio de entretenimento flutuante, mas imóvel, no Rio Mersey. As pessoas pagavam um xelim para serem transportadas até ao navio e desfrutarem da sua sala de concertos e bancas, muito ao estilo dos pontões que se podiam visitar nas estâncias balneares. O antigo transatlântico acabou por ser desmantelado e vendido para sucata em 1888, mas era uma massa de ferro tão gigantesca que foram precisos 200 homens e dois anos dispendiosos para concluir o trabalho. Parecia que o Great Eastern, mais uma vez vítima do seu tamanho prodigioso, nunca conseguiria realmente gerar lucro.
Brunel tinha sido um visionário, e o Great Eastern foi um salto gigante em frente no projeto naval e na função marítima, mas a embarcação talvez tenha forçado demasiado os limites tecnológicos da época. "Demasiado grande, demasiado à frente do seu tempo... era um sonho de engenharia, um triunfo do design sobre a função, da ambição sobre o senso comum" (Brindle, págs. 140-1). Contudo, apesar de todos os problemas, desilusões e tragédias, o Great Eastern abriu o caminho para os transatlânticos ainda maiores do século XX, como o RMS Lusitania (1906) da Cunard Line, o novo recordista em dimensão pura, e, depois, o ainda maior e mais grandioso RMS Titanic (1912).
