Guilherme IV da Grã-Bretanha

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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William IV by Lonsdale (by James Lonsdale, Public Domain)
Guilherme IV por Lonsdale James Lonsdale (Public Domain)

Guilherme IV da Grã-Bretanha (reinou 1830-1837) sucedeu ao seu irmão mais velho, Jorge IV da Grã-Bretanha (reinou 1820-1830), tornando-se o quinto monarca da Casa de Hanôver. Guilherme teve uma carreira naval de sucesso e o seu reinado é recordado, sobretudo, pelas reformas democráticas iniciadas com a Lei de Reforma de 1832. Foi sucedido pela sua sobrinha, a Rainha Vitória da Grã-Bretanha (reinou 1837-1901).

A Casa de Hanôver

A casa real de Hanôver tinha assumido o trono britânico em 1714, na sequência da morte da Rainha Ana da Grã-Bretanha (reinou 1702-1714), que não deixou descendência. Os Hanoverianos eram também eleitores de Hanôver, um pequeno principado na Alemanha, pelo que tanto Jorge I da Grã-Bretanha (reinou 1714-1727) como Jorge II da Grã-Bretanha (reinou 1727-1760) eram, em grande medida, alemães a governar na Grã-Bretanha. Jorge III foi o primeiro Hanoveriano a nascer na Grã-Bretanha e a falar inglês como língua materna, sendo, por conseguinte, mais popular entre os seus súbditos. O rei seguinte, Jorge IV, foi muito menos popular devido ao mau tratamento dispensado à consorte, Carolina de Brunsvique-Volfembutel († 1821), e aos seus gastos excessivos e incessantes.

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O rei tinha uma aparência marcante, com o seu penteado invulgar de grande topete, e era bastante falador.

O Início de Vida e a Família

Guilherme nasceu a 21 de agosto de 1765 no Palácio de Buckingham, filho de Jorge III e de Carlota de Mecklemburgo-Estrélia (1744-1848). Teve muitos irmãos, entre eles o seu irmão mais velho, Jorge, nascido em 1762, e outro irmão mais velho, Frederico (* 1763). Terceiro na linha de sucessão ao trono e, portanto, com poucas probabilidades de vir a ocupá-lo, Guilherme, por insistência do pai, juntou-se à Marinha Real em 1778, quando tinha apenas 13 anos de idade. Guilherme entrou como um humilde aspirante e teve um bom desempenho, atingindo o posto de Contra-Almirante aos 24 anos e tornando-se amigo do grande herói naval de Inglaterra, Horatio Nelson (1758-1805). Guilherme obteve o seu primeiro comando em 1786, o Pegasus. Em 1789, foi nomeado Duque de Clarence e, em 1790, já não precisava de servir no mar, contudo, a sua carreira naval não terminou, uma vez que, em 1811, foi promovido a Almirante da Frota. Em 1827, chegou ao topo quando lhe foi atribuído o cargo, amplamente político, de Lorde Alto Almirante, a figura de proa da Marinha Real. Infelizmente, o marinheiro de linguagem dura não teve sucesso na diplomacia e nas maquinações políticas que o seu novo posto exigia, e viu-se obrigado a demitir-se ao fim de um ano.

A Real Casa de Hanôver na Árvore Genealógica Britânica
A Casa Real de Hanôver na Árvore Genealógica Real Britânica Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

A 11 de julho de 1818, Guilherme casou-se com Adelaide de Saxe-Meiningen (1792-1849), 27 anos mais nova do que ele e filha do Duque de Saxe-Meiningen. O casal teve duas filhas, mas ambas morreram na infância. Guilherme teve dez filhos ilegítimos com a sua amante de longa data, a atriz de comédia Dorothy Jordan. Os filhos do casal ostentavam o apelido FitzClarence. O Príncipe Jorge, entretanto, tinha-se tornado regente do pai, que sofria de doença mental, em 1811, e rei por direito próprio em 1820, como Jorge IV. O rei teve apenas uma filha legítima, mas esta faleceu durante o parto em 1817. Consequentemente, quando Jorge IV morreu devido a uma rutura de um vaso sanguíneo a 26 de junho de 1830, o sucessor na linha de sucessão era Guilherme, uma vez que o seu irmão mais velho, Frederico, Duque de Iorque, tinha falecido três anos antes. Aos 66 anos de idade, o Duque de Clarence tornou-se Guilherme IV do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. Herdou também o título familiar de Rei de Hanôver.

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A Lei de Reforma de 1832 foi uma importante reforma eleitoral que alargou a base democrática e aumentou a representação das novas grandes cidades.

A cerimónia de coroação de Guilherme realizou-se a 8 de setembro de 1831 na Abadia de Westminster e foi, deliberadamente, menos extravagante do que a anterior, numa tentativa de conquistar o público, que se tinha tornado bastante cansado de assistir aos gastos excessivos da realeza. Esta redução na pompa foi tão evidente que a cerimónia de Guilherme ganhou a alcunha de "coroação de meia-coroa", uma alusão à pequena moeda de meia-coroa.

Guilherme era mais popular do que o seu antecessor, um rei gastador que se tinha alienado ainda mais dos seus súbditos ao banir a rainha da sua presença e recusar a sua comparência na sua coroação. O novo monarca, que não apreciava nem a política partidária nem as artes, foi mais uma adição pitoresca à Casa de Hanôver, tal como descrita por R. Cavendish:

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Aqueles que eram próximos de Guilherme consideravam-no rabugento, irascível e obstinado. Tinha uma cabeça com o formato de um coco e fora alcunhado, de forma maldosa, de 'Silly Billy'... Era considerado uma personagem – um marinheiro genuíno e patriota que dizia o que pensava, não gostava de cerimónias e confusões, e detestava estrangeiros, especialmente os franceses.

(pág. 392)

O rei apresentava um aspeto marcante, com o seu penteado invulgar de grande topete, e era um pouco falador, com "uma tendência para falar longamente e um pouco fora do contexto" (Starkey, pág. 451). Guilherme era, sem dúvida, popular junto daqueles que viviam nas imediações das residências reais. Tinha o hábito de caminhar por Londres e Brighton em vez de permanecer fechado numa carruagem. No seu aniversário em 1830, o rei organizou um almoço ao ar livre para 3000 pessoas carenciadas, a quem foram servidas iguarias como vitela e pudim de ameixa. Guilherme também concedeu ao público acesso ao Great Park de Windsor.

William IV in Order of the Garter Robes
Guilherme IV com as Vestes da Ordem da Jarreteira Martin Archer Shee (Public Domain)

As Reformas Políticas

O reinado de Guilherme foi curto, mas testemunhou desenvolvimentos importantes e de grande alcance no sistema democrático e na sociedade. Houve a abolição da escravatura na (maior parte da) totalidade do Império Britânico a partir de 1833, o culminar de um longo processo legislativo para limitar a escravatura. Os territórios da Companhia das Índias Orientais na Índia e noutros locais ficaram isentos, e os proprietários de escravos noutras regiões foram compensados financeiramente. Outra melhoria importante na sociedade foi a proibição do trabalho infantil nas fábricas. Finalmente, foi aprovada a Lei de Reforma de 1832, um verdadeiro marco na legislação eleitoral.

A Lei de Reforma eliminou os distritos eleitorais corruptos, aquelas áreas onde um Membro do Parlamento podia ganhar um lugar simplesmente pagando por votos, tal era o seu reduzido eleitorado. Refletindo as mudanças na sociedade e na indústria britânicas, a Lei de Reforma conferiu também representação política aos novos e prósperos centros industriais, como Birmingham e Manchester, que, inacreditavelmente, não tinham qualquer representação, enquanto pequenas circunscrições rurais tinham, por vezes, não um, mas dois deputados. Homens da classe média mais abastada podiam agora candidatar-se ao Parlamento, à medida que o poder dos grandes proprietários de terras diminuía. Finalmente, o sistema eleitoral começava a refletir a população e as mudanças sociais da Grã-Bretanha dos últimos dois séculos.

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Guilherme foi fundamental para que a proposta de reforma fosse aprovada como Lei do Parlamento. Primeiro, para desbloquear o impasse político entre os dois principais partidos, Whigs e Tories (estes últimos opunham-se às reformas), na Câmara dos Comuns, dissolveu o Parlamento, o que conduziu a novas eleições gerais e a uma maioria Whig mais expressiva. Isto permitiu que o projeto fosse aprovado na câmara baixa, mas a câmara alta do Parlamento, a Câmara dos Lordes, permaneceu totalmente contra quaisquer reformas. O então primeiro-ministro, Conde Grey (1764-1845), pediu ao rei que criasse (ou, como se veio a verificar, apenas ameaçasse criar) um número de novos pares simpáticos às reformas, permitindo assim que a mesma passasse o escrutínio dos Lordes. O rei estava relutante em prometer tal coisa, mas compreendeu que era a única forma de aprovar a lei. Em abono da verdade, Guilherme observou que, se pudesse escolher por si mesmo, teria recusado o pedido, mas "como soberano, era seu dever pôr de lado esses sentimentos e preconceitos" (Cannon, pág. 336). As manobras políticas podem ter trazido reformas valiosas e necessárias, mas a forma como foram alcançadas estabeleceu um precedente perigoso, onde a liberdade de um monarca para selecionar pares podia ser fortemente influenciada pelos primeiros-ministros por conveniência política de curto prazo. Foi mais um caso de o Parlamento a corroer o poder real, uma tendência que se tinha tornado o legado constitucional dos Hanoverianos.

The Burning of Parliament by Turner
O Incêndio do Parlamento por Turner J.W.M.Turner (Public Domain)

O Parlamento Destruído

Houve um desastre notável durante o reinado de Guilherme. Um grande incêndio, provocado por um fogão sobreaquecido, destruiu as Casas do Parlamento a 16 de outubro de 1834. Esta catástrofe foi, pelo menos, uma oportunidade para construir uma casa mais grandiosa para o governo da nação – o edifício antigo tinha sido comparado a uma casa de café em ruínas por vários governantes estrangeiros que visitavam o país. O célebre artista J. M. W. Turner (1775-1851) capturou o edifício em chamas em duas pinturas famosas, que se encontram atualmente no Museu de Arte de Filadélfia e no Museu de Arte de Cleveland. O rei, que preferia a sua antiga residência, a Clarence House, à vastidão ostensiva do Palácio de Buckingham, ofereceu este último aos políticos enquanto o seu parlamento era reconstruído (eles recusaram).

De muitas formas, o incêndio e a necessária renovação física do Parlamento refletiram as amplas reformas eleitorais pelas quais o reinado de Guilherme seria mais lembrado. A monarquia britânica estava também prestes a passar por uma grande renovação, à medida que os reis Hanoverianos davam lugar a uma jovem que se tornaria a monarca britânica com o reinado mais longo que o país tinha visto até então.

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A Morte e a Sucessora

Guilherme IV morreu de cirrose hepática e pneumonia a 20 de junho de 1837, no Castelo de Windsor. Foi sepultado na Capela de São Jorge, em Windsor. O rei, sem filhos legítimos, foi sucedido pela sua sobrinha, a Rainha Vitória, filha do falecido filho de Jorge III, Eduardo, Duque de Kent (1766-1820). O rei dava-se bem com a sobrinha e herdeira, mesmo não suportando a mãe desta, Maria Luísa Vitória, Duquesa de Kent. O rei estava determinado, apesar da sua saúde debilitada, a viver o tempo suficiente para que Vitória atingisse a maioridade, de modo a que a sua mãe não pudesse promover-se a regente. Guilherme alcançou o seu objetivo, mas por pouco. Vitória fez 18 anos apenas um mês antes de o velho rei morrer.

A sucessão de Vitória separou finalmente Hanôver do trono britânico, uma vez que não era permitido a uma mulher governar o principado alemão se existisse um herdeiro masculino, por mais remoto que fosse. Assim, o quinto filho de Jorge III, Ernesto Augusto, Duque de Cumberland e Teviotdale (1771-1851), tornou-se o novo Rei de Hanôver, onde residiu permanentemente. Vitória foi a última dos Hanoverianos britânicos, uma vez que os seus filhos foram classificados como parte da nova dinastia de Saxe-Coburgo-Gota (que foi mais tarde renomeada para Windsor), a família do seu marido, o Príncipe Alberto.

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Perguntas & Respostas

Pelo é que o Guilherme IV é mais conhecido?

Guilherme IV é mais conhecido por ter sido o monarca em funções quando foi aprovada a Lei da Reforma de 1832, que tornou o sistema eleitoral britânico mais democrático e representativo.

Quem era Guilherme IV para a Rainha Vitória?

Guilherme IV da Grã-Bretanha era tio da rainha Vitória.

O rei Guilherme IV teve filhos?

O rei Guilherme IV não teve filhos legítimos que sobrevivessem, pelo que a monarca seguinte foi a sua sobrinha, a rainha Vitória.

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Cartwright, M. (2026, julho 16). Guilherme IV da Grã-Bretanha. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-21491/guilherme-iv-da-gra-bretanha/

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Cartwright, Mark. "Guilherme IV da Grã-Bretanha." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 16, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-21491/guilherme-iv-da-gra-bretanha/.

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Cartwright, Mark. "Guilherme IV da Grã-Bretanha." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 16 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-21491/guilherme-iv-da-gra-bretanha/.

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