Guilherme II de Inglaterra

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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William II of England (by Unknown Artist, Public Domain)
Guilherme II de Inglaterra Unknown Artist (Public Domain)

Guilherme II de Inglaterra, por vezes chamado de Guilherme "Rufo" devido ao seu cabelo e tez avermelhados, reinou como rei de Inglaterra de 1087 a 1100. Filho de Guilherme, o Conquistador (que reinou de 1066 a 1087), o mais novo Guilherme foi leal ao pai, ao contrário do seu irmão mais velho, Roberto Curthose, e foi por isso que herdou a coroa de Inglaterra. Guilherme e Roberto, que se tornou Duque da Normandia, acabariam mais tarde por lutar pelo controlo do território um do outro, mas acabariam por chegar a uma reconciliação. Registado nos livros de história como um rei impopular que vivia uma vida de luxo enquanto espoliava o Estado e a Igreja, ele pelo menos consolidou as conquistas do pai e permitiu ao seu sucessor, um outro irmão, Henrique I de Inglaterra (que reinou de 1100 a 1135), desfrutar de um reinado longo e, em grande parte, pacífico, o que proporcionou ao país uma estabilidade muito necessária após a turbulenta Conquista Normanda de Inglaterra.

As Relações Familiares

Guilherme nasceu por volta de 1056 na Normandia; o pai era Guilherme, Duque da Normandia, também conhecido como Guilherme, o Conquistador, ou Guilherme I de Inglaterra após a sua invasão daquele país em 1066. A mãe era Matilde de Flandres (cerca de 1032-1083), filha do Conde da Flandres e sobrinha de Henrique I de França (que reinou de 1031 a 1060). Matilde seria coroada Rainha de Inglaterra na Abadia de Westminster a 11 de maio de 1068. Guilherme era um de quatro irmãos, e foi o mais velho, Roberto Curthose, quem se revelou o mais problemático para com o pai.

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Guilherme era conhecido como Rufo (do latim para vermelho) devido à cor do seu cabelo e à sua tez rosada. Enquanto jovem príncipe, Guilherme fez campanha no País de Gales com algum sucesso em 1075, subjugando o rei galês Caradog ap Gruffudd († 1081), uma vitória que o inspirá-lo-ia a tentar completar a conquista do País de Gales quando se tornasse rei.

Mapa da Conquista Normanda da Britânia, 1066 - 1086
Conquista Normanda da Bretanha, 1066-1086 Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Guilherme permaneceu leal ao pai durante a rebelião do seu irmão Roberto, em 1078, o qual desejava mais terras e poder para si próprio, contando com o apoio de Filipe I, rei de França (reinou de 1060 a 1108), ansioso por desestabilizar o perigosamente expansivo Império Normando. Filipe cedeu a Roberto o castelo de Gerberoi, na fronteira entre a França e a Normandia, para servir de base. O rei, Guilherme, o Conquistador, sitiou o castelo, mas foi derrotado por uma força liderada por Roberto num confronto em campo aberto. Pai e filho reconciliaram-se e, em 1079, Roberto foi enviado para a Nortúmbria para travar os ataques recorrentes vindos da Escócia. Contudo, Roberto continuou ambicioso e, no cerco de Mantes, em 1087, aliou-se ao inimigo contra o pai. Estes problemas familiares não foram benéficos para os reinos de Inglaterra ou da Normandia, mas foram boas notícias para Guilherme Rufo, que se tornou o favorito do pai e o seu sucessor mais provável.

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A Sucessão e a Consolidação do Reino

Após a morte do seu pai por causas naturais enquanto fazia campanha em França, a 9 de setembro de 1087, Guilherme seria coroado rei a 26 de setembro do mesmo ano, na Abadia de Westminster. Entretanto, Roberto Curthose herdou o título de Duque da Normandia e as terras associadas. Um terceiro irmão, Henrique, recebeu dinheiro em vez de terras. O quarto irmão, Ricardo, tinha falecido em 1075. Consequentemente, o reino normando ficou dividido geograficamente em dois, e os três irmãos disputariam a supremacia ao longo das duas décadas seguintes.

O estilo de vida extravagante de Guilherme rapidamente desagradou a figuras da Igreja, uma situação em nada ajudada pelo facto de o rei evitar a nomeação de novos bispos.

Guilherme podia ser rei, mas ainda tinha de continuar o trabalho do seu pai e consolidar o domínio normando em Inglaterra e em partes do País de Gales e da Escócia. Os muitos castelos de tipo de mota e pátio (motte-and-bailey) do seu pai tiveram de ser mantidos e um novo foi construído em Carlisle. Campanhas bem-sucedidas no País de Gales em 1093 asseguraram a lealdade de vários príncipes galeses, enquanto no norte, a Cúmbria foi anexada e a Escócia tornou-se mais amistosa em 1097, ao substituir o hostil Rei Donald III (que reinou de 1093 a 1094) pelos seus sobrinhos mais conciliadores, Duncan II (que reinou em 1094) e Edgar (que reinou de 1097 a 1107). Guilherme tinha apoiado o último par com um exército, o que lhes permitiu destronar o tio.

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O tio de Guilherme, Odo de Bayeux († 1097), que tinha sido nomeado Conde de Kent pelo seu meio-irmão Guilherme, o Conquistador, era um parente ambicioso e perigoso. Odo tinha chegado a ser o segundo homem mais poderoso de Inglaterra, mas caiu em desgraça perante Guilherme I e só recebeu o perdão quando o Conquistador estava no seu leito de morte. Odo apoiou então Roberto Curthose na sua reivindicação à coroa inglesa contra Guilherme II, pelo que o novo rei não teve qualquer paciência para o inescrupuloso ex-conde. Os rebeldes foram derrotados, e Odo perdeu o controlo do Castelo de Rochester após um cerco em 1088; as suas terras foram confiscadas e ele foi permanentemente exilado de Inglaterra. Odo morreu em janeiro de 1097, na Sicília, a caminho de participar na Primeira Cruzada (1095-1102).

Great Seal of William II of England
Grande Selo de Guilherme II de Inglaterra Unknown Artist (Public Domain)

Em 1091, Guilherme invadiu a Normandia e o sempre oportunista Roberto capitulou e aliou-se ao seu irmão-rei, tendo ambos unido forças para derrotar o terceiro irmão, Henrique, em Mont-Saint-Michel, dividindo depois as terras do vencido na península de Cotentin (Cherbourg) entre si. Posteriormente, Roberto penhorou o seu ducado a Guilherme para pagar a sua expedição planeada para se juntar à Primeira Cruzada. Roberto partiu em 1096 e parecia que, finalmente, Guilherme tinha a posse incontestada de um reino estabilizado.

Guilherme, a Igreja e os Impostos

O estilo de vida desenfreado de Guilherme rapidamente desagradou a figuras da Igreja, uma situação em nada ajudada pelo facto de o rei evitar nomear novos bispos e abades para reter as receitas da Igreja para si próprio. O rei chegou mesmo a recusar nomear um novo Arcebispo da Cantuária entre 1089 e 1092, devido a uma disputa sobre quem apoiava qual Papa (existindo dois rivais para esse cargo na altura). Certamente, Guilherme não era muito minucioso quanto à forma como os seus subordinados — nomeadamente o ministro-chefe Ranulf Flambard — enchiam os cofres do Estado, e isto desagradou a muitos barões. Tanto assim foi que as severas políticas fiscais de Guilherme e os pesados impostos para pagar as suas campanhas militares conduziram a um plano de homicídio em 1095. Contudo, a ideia de substituir o rei pelo seu primo direito, o conde de Aumale, não deu em nada. O rei iniciou então uma temível caça às bruxas aos conspiradores, que levou a torturas, mutilações e execuções. Num episódio típico de oportunismo financeiro, Flambard aproveitou a ocasião para multar nobres de todos os lados e, assim, trazer ainda mais dinheiro para o tesouro do Estado.

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O temperamento irascível de Guilherme, o seu espírito sarcástico e a sua baixa estatura parecem ter-lhe custado uma representação favorável na maioria dos livros de história, onde aparece frequentemente como um aventureiro boémio que era demasiado afeiçoado ao vinho e aos resultados da sua paixão pela caça. A descrição pouco lisonjeira pode, no entanto, ter mais a ver com o preconceito dos cronistas religiosos, que estavam aborrecidos com o rei pelo seu tratamento ao arcebispo. Chegaram mesmo a acusar Guilherme de ser pagão e propagador de bruxaria. Rufo foi também acusado de ser homossexual; significativamente, uma acusação apenas declarada após a sua morte, sendo, na verdade, a única prova de que o poderia ter sido o facto de não se ter casado, um ponto dificilmente conclusivo.

Rufus Stone,  New Forest
Pedra de Rufo, New Forest Ethan Doyle White (CC BY-SA)

Um legado mais fiável que Guilherme deixou foi o Grande Salão na principal residência real, o Palácio de Westminster. Construído em 1097 e posteriormente ampliado para cima com um novo telhado por Ricardo II de Inglaterra (que reinou de 1377 a 1399), o salão de Guilherme mede 73 x 20,5 metros (240 x 67.5 pés), sendo a maior estrutura do género na Europa na altura da sua construção. Na procissão inaugural do edifício em 1099, a realeza galesa foi forçada a seguir Guilherme carregando a sua espada cerimonial, um pouco de propaganda para demonstrar o crescente poder do trono inglês na Grã-Bretanha.

A Falecimento e o Sucessor

Guilherme II morreu a 2 de agosto de 1100 na New Forest, como resultado de um acidente de caça, quando o nobre Guilherme Tirel (por vezes escrito Tyrrell) disparou uma flecha fatídica que ricocheteou nas costas de um veado em fuga e atingiu precisamente o centro do peito de Guilherme. Na época, o incidente foi considerado um acidente e Tirel não foi punido pela sua participação na tragédia. É, contudo, curioso que o irmão mais novo e sucessor de Guilherme, Henrique, estivesse no grupo de caça e que Roberto Curthose estivesse, precisamente nessa altura, a combater na Primeira Cruzada, permitindo a Henrique promover-se como o próximo rei. A Igreja tinha outra explicação e culpou as severas leis florestais impostas pelo pai de Guilherme. Em suma, o rei tinha recebido um castigo divino pela ganância real (e por não levar uma vida muito exemplar). Uma terceira explicação é que o rei foi atingido por um caçador furtivo, irritado com as brutais punições de mutilação aplicadas a qualquer pessoa que sequer assustasse os animais nas reservas de caça do rei, quanto mais aos que fossem apanhados a matá-los. É talvez significativo que o próprio parque onde Guilherme foi morto tivesse sido criado pelo seu pai, pelo que muitos locais bem se lembrariam dos dias anteriores à Conquista, quando os animais da floresta eram caça livre.

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Quer tenha sido acidente ou intencional, o rei estava morto e foi sepultado sob a torre da Catedral de Winchester. Sem se ter casado e sem filhos, o trono de Guilherme foi ocupado por Henrique, que não perdeu tempo a assegurar o tesouro real e a sua eleição pelo conselho governante, tudo no espaço de 48 horas após a morte do seu irmão. Assim, a 6 de agosto de 1100, Henrique I de Inglaterra foi coroado na Abadia de Westminster. O rei derrotaria o seu irmão Roberto (de regresso da Cruzada) em Tinchebrai, na Normandia, em 1106, e governaria o seu reino unificado da Normandia e Inglaterra com algum sucesso até 1135. Finalmente, numa nota de rodapé interessante, a torre sob a qual Guilherme Rufo foi sepultado na Catedral de Winchester colapsou em 1107, outro indicador, apontaram os piedosos cronistas medievais, da ira de Deus sobre um rei pagão que não se preocupou em exercer o seu direito divino para o bem do seu povo.

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Cartwright, M. (2026, julho 15). Guilherme II de Inglaterra. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18615/guilherme-ii-de-inglaterra/

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Cartwright, Mark. "Guilherme II de Inglaterra." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 15, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18615/guilherme-ii-de-inglaterra/.

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