Jorge IV da Grã-Bretanha

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations
bookmark_addbookmark_addedGuardar Artigo headphonesVersão Áudio printImprimir picture_as_pdfPDF
George IV by Lawrence (by Thomas Lawrence, Public Domain)
Jorge IV por Lawrence Thomas Lawrence (Public Domain)

Jorge IV da Grã-Bretanha (reinou 1820-1830) foi o quarto dos monarcas da Casa de Hanôver. Reinou primeiro como Príncipe Regente a partir de 1811, em nome do pai, Jorge III da Grã-Bretanha (reinou 1760-1820), que sofria de doença mental. Jorge IV foi um monarca impopular devido aos seus numerosos casos amorosos e gastos excessivos, mas foi um grande patrono das artes e da arquitetura. Foi sucedido pelo seu irmão mais novo, Guilherme IV da Grã-Bretanha (reinou 1830-1837).

A Casa de Hanôver

A casa real de Hanôver tinha assumido o trono britânico em 1714, na sequência da morte da Rainha Ana da Grã-Bretanha (reinou 1702-1714), que não deixou descendência. Os Hanoverianos eram também eleitores de Hanôver, um pequeno principado na Alemanha, pelo que tanto Jorge I da Grã-Bretanha (reinou 1714-1727) como Jorge II da Grã-Bretanha (reinou 1727-1760) eram, em grande medida, alemães a governar na Grã-Bretanha. Jorge III foi o primeiro Hanoveriano a nascer na Grã-Bretanha e a falar inglês como língua materna, sendo, por conseguinte, mais popular entre os seus súbditos.

Remover Publicidades
Publicidade

O Caráter e as Relações

Jorge Augusto Frederico nasceu a 12 de agosto de 1762 no Palácio de St. James, filho de Jorge III e de Carlota de Mecklemburgo-Estrélia (1744-1818). Teve muitos irmãos, entre eles o seu irmão mais novo, Guilherme, nascido em 1765. O herdeiro, como a maioria dos Hanoverianos antes dele, parecia incapaz de se entender com o pai. Jorge era o típico príncipe playboy, apesar do cuidado que o seu pai teve em tentar criar um futuro rei honesto e fiável. Pode ter sido a corte restritiva e austera que o rei geria que empurrou o herdeiro para os seus devaneios e insensatez. O Príncipe Jorge, na sua juventude, é descrito da seguinte forma por um historiador:

Era preguiçoso, irresponsável, um homem mundano e elegante, um imitador soberbo, um sedutor e um gastador que esbanjava dinheiro muito além das suas possibilidades em roupas, cavalos, edifícios, festas luxuosas e uma cavalgada de mulheres.

(Cavendish, pág. 384)

A Real Casa de Hanôver na Árvore Genealógica Britânica
A Casa Real de Hanôver na Árvore Genealógica Real Britânica Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Os casos amorosos do príncipe tornaram-se um grande embaraço para o seu pai. Aos 16 anos, o príncipe escreveu cartas comprometedoras a uma atriz, Mary 'Perdita' Robinson, e quando o caso terminou, ela ameaçou publicá-las. O rei viu-se obrigado a comprar as cartas a Robinson. O Príncipe Jorge casou-se com uma viúva, Maria Fitzherbert († 1837), sem o consentimento do seu pai, em 1785. O facto de Maria ser católica significava que, ao abrigo da lei inglesa, conforme estipulado no Ato de Estabelecimento de 1701, o príncipe não poderia ascender ao trono. Contudo, o casamento foi considerado inválido, uma vez que violava o Ato de Casamentos Reais de 1772, que estipulava que qualquer casamento real em que o protagonista tivesse menos de 25 anos só seria válido se tivesse sido dado consentimento pelo monarca reinante. De qualquer modo, Jorge não permaneceu fiel a Maria durante muito tempo e logo arranjou uma amante, a Condessa de Jersey.

Remover Publicidades
Publicidade
Brighton tornou-se um destino de moda, tal era o tempo que o Príncipe Jorge passava lá.

O estilo de vida luxuoso do príncipe teve duas consequências imediatas. A primeira foi a acumulação de dívidas massivas — o seu tesoureiro lamentou uma vez que estas estavam "além de qualquer cálculo possível" (Starkey, pág. 445). A segunda consequência foi o facto de se ter tornado gravemente obeso, tanto que ganhou a alcunha ignominiosa de "Príncipe das Baleias" (Prince of Whales, um trocadilho com o título de Príncipe de Gales - Wales). Uma terceira consequência, mais duradoura, do gosto do príncipe pelo prazer, foi o facto de a estância costeira de Brighton ter entrado na moda, tal era o tempo que o príncipe lá passava. A cidade balnear beneficiou de maravilhas arquitetónicas como o Royal Pavilion, um pavilhão de lazer construído no estilo de um palácio indiano por John Nash (1752-1835) e utilizado como residência de verão do príncipe.

Jorge, para apaziguar o desejo do seu pai e do Parlamento de um casamento mais respeitável e politicamente útil, desposou a sua prima Carolina de Brunsvique-Volfembutel († 1821) a 8 de abril de 1795. O casal não se dava minimamente bem, mas tiveram a única filha legítima do príncipe, chamada Carlota Augusta, nascida a 7 de janeiro de 1796. Após o nascimento, o casal real viveu permanentemente separado, mas nunca se divorciou. A Princesa Carlota faleceu a 6 de novembro de 1817 durante um parto difícil, no qual a criança também morreu.

Remover Publicidades
Publicidade
Caroline of Brunswick-Wolferbüttel
Carolina de Brunsvique-Volfembutel Thomas Lawrence (Public Domain)

O Príncipe Jorge teve várias outras amantes, incluindo a Marquesa de Hertford, mas Maria Fitzherbert parece ter sido o verdadeiro amor da sua vida, mantendo-a próxima ao ameaçar continuamente cometer suicídio se ela se ausentasse por muito tempo. Quando se tornou rei, Jorge quis o divórcio de Carolina para garantir que ela não se tornasse rainha, o que exigiu uma espécie de julgamento na Câmara dos Lordes. Foram encontradas provas abundantes de que Carolina tinha tido casos fora do casamento, mas o apoio público que ela detinha significou que os políticos se mostraram relutantes em tomar uma decisão que prejudicasse a sua própria popularidade. O caso foi arquivado. Carolina, ainda oficialmente casada com Jorge, regressou a Brunsvique, na Alemanha, em agosto de 1814.

A Regência

A partir do final da década de 1780, o Rei Jorge III começou a mostrar sinais de instabilidade mental. Falava frequentemente de forma incessante e fazia acusações descabidas contra aqueles que o rodeavam, incluindo a rainha. Aparentemente incapaz de controlar os seus acessos, foi visto uma vez no parque de Windsor a falar com uma árvore, acreditando estar em conversa com o Rei da Prússia. O rei poderá ter sofrido de porfiria aguda, um tipo de distúrbio do fígado e do sangue que afeta o cérebro e o sistema nervoso. Jorge chegou a recuperar, mas teve recaídas. Por volta de 1810, e talvez desencadeada pela morte prematura da sua filha mais nova e favorita, Amélia, aos 27 anos, a loucura do rei regressou pior do que nunca. Os médicos reais foram bastante limitados na sua resposta à angustiante doença do rei, não fazendo mais do que sangrar a sua cabeça e contê-lo numa camisa de forças. A 6 de fevereiro de 1811, como o rei estava claramente incapaz de governar, o seu filho mais velho, Jorge, com o consentimento do Parlamento e através do Ato de Regência, foi selecionado para governar como Príncipe Regente. O rei, agora com cabelo e barba compridos, vivia uma vida de recluso no Castelo de Windsor, à medida que ficava cego e quase totalmente surdo.

Foi concedido ao Príncipe Regente o direito de exercer plenamente o poder real, tal como este existia. Permaneceu como um monarca constitucional, com o verdadeiro poder político e militar a permanecer nas mãos do Parlamento. Com a monarquia agora como uma figura de proa do governo, o Príncipe Regente compreendeu a necessidade de pompa e circunstância pública. Uma visita do recém-restaurado Luís XVIII de França, em 1814, foi o motivo para uma procissão pública e gala. Mais tarde, nesse mesmo verão, a 1 de agosto, o centenário dos Hanoverianos no trono britânico foi celebrado com grande luxo. O público foi entretido com parques de diversões, fogo de artifício e uma simulação de batalha naval no lago Serpentine, no Hyde Park.

Remover Publicidades
Publicidade
George IV in Coronation Robes
Jorge IV com as Vestes de Coroação Thomas Lawrence (Public Domain)

As Guerras Napoleónicas

O Príncipe Jorge teve de enfrentar uma crise de imediato: o conflito em curso que ficou conhecido como as Guerras Napoleónicas (1803-1815). O conflito opôs a Grã-Bretanha e uma vasta coligação de aliados europeus ao seu antigo inimigo, a França, liderada por Napoleão Bonaparte (1769-1821), que contava com a Espanha e a Prússia, entre outros, como aliados. A Grã-Bretanha venceu a decisiva Batalha de Trafalgar, ao largo da costa de Espanha, a 21 de outubro de 1805, onde a Marinha Real foi comandada pelo Vice-Almirante Horatio Nelson (1758-1805). O Lorde Nelson morreu no momento da vitória, mas Trafalgar significou que a Marinha Real permaneceu essencialmente incontestada para policiar e expandir o Império Britânico durante os 100 anos seguintes. O investimento substancial e a longo prazo na construção naval e em navios, feito pelos Hanoverianos, tinha dado frutos de forma espetacular.

Entretanto, em terra, Napoleão alcançou o domínio na Europa Continental, mas foi finalmente derrotado na Batalha de Waterloo, a 18 de junho de 1815. Os britânicos foram comandados por Arthur Wellesley, Duque de Wellington (1769-1852), em Waterloo (na atual Bélgica). Com a ajuda dos aliados prussianos, a vitória que pôs termo às Guerras Napoleónicas foi um ponto alto na história militar britânica. O Príncipe Regente comentou: "É uma vitória gloriosa e devemos regozijar-nos com ela. Mas a perda de vidas foi terrível" (Phillips, pág. 201). Cerca de 40 000 homens, de ambos os lados, foram mortos ou feridos na batalha. Napoleão abdicou do título de Imperador dos Franceses e foi exilado para a remota ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul. As guerras tinham sido extraordinariamente dispendiosas e os custos foram suportados pelos contribuintes, o que não tornou Jorge querido aos seus súbditos, especialmente porque as suas grandes dívidas e os elevados gastos em palácios eram do conhecimento público.

A Sucessão

A Rainha Carlota faleceu em 1818 e, seguidamente, Jorge III morreu de pneumonia a 29 de janeiro de 1820, no Castelo de Windsor. O Príncipe Regente, já com 58 anos, tornou-se Jorge IV da Grã-Bretanha e Irlanda e, tal como os seus predecessores, assumiu o título de Rei de Hanôver. A sua extravagante cerimónia de coroação — 25 vezes mais cara do que a do seu pai — realizou-se a 19 de julho de 1821 na Abadia de Westminster. A esposa legal do rei, Carolina, não foi convidada para a coroação e as portas da abadia foram inclusivamente trancadas e guardadas por pugilistas escolhidos a dedo para a impedir de entrar, embora isso não a tenha impedido de viajar até Inglaterra e de tentar entrar na mesma. Carolina morreu subitamente de doença pouco depois da cerimónia, a 7 de agosto. No caixão daquela que quase foi rainha estavam inscritas as palavras: "Carolina de Brunsvique, a Rainha Injustiçada de Inglaterra" (Ralph Lewis, pág. 205).

Remover Publicidades
Publicidade
Royal Pavilion Brighton
Pavilhão Real de Brighton Qmin (CC BY-SA)

Jorge certificou-se, pelo menos, de corrigir os erros dos seus antecessores Hanoverianos, e visitou a Escócia, a Irlanda e o País de Gales durante o seu reinado. A viagem do rei à Escócia no verão de 1822 foi a primeira efetuada por um monarca reinante em 171 anos. Foi particularmente bem recebida graças à direção de todo o acontecimento por parte do célebre romancista Sir Walter Scott e ao facto de o rei ter adotado a cultura das Terras Altas escocesas ao ponto de chegar a usar um kilt, uma decisão que deu início a uma moda para o xadrez (tartan) a sul da fronteira. De volta a casa, as viagens do monarca e o seu desinteresse pela política e pela governação quotidiana significaram que o poder real diminuiu ainda mais durante o seu reinado, enquanto os poderes do Parlamento e do primeiro-ministro aumentaram.

As Artes e a Arquitetura

Jorge IV pode não ter brilhado na política — ele próprio lamentou que "brincar aos reis não é sinecura" (Starkey, pág. 446) —, mas deixou certamente a sua marca nas artes. Jorge era um ávido colecionador de arte e, durante a sua vida, acrescentou muitas obras-primas à já magnífica Coleção Real. Jorge adquiriu pinturas de Peter Paul Rubens (1577-1640) e Rembrandt (1606-1669), entre muitos outros. A escultura não foi negligenciada e Jorge encomendou a Antonio Canova (1757-1822) a criação de Marte e Vénus, uma peça de grandes dimensões que hoje se encontra na Entrada Principal e no Salão de Mármore do Palácio de Buckingham. O rei também ajudou a fundar a National Gallery em 1824.

As artes decorativas começaram então a utilizar elementos observados noutras culturas, à medida que o contacto entre a Grã-Bretanha e o resto do mundo aumentava. Desenvolveu-se um estilo de design distinto conhecido como estilo Regency (que abrange, de facto, também o período do reinado de Jorge como rei), no qual os designers acrescentaram ao bem estabelecido estilo georgiano vários motivos decorativos e materiais inspirados na arte clássica, chinesa e egípcia antiga.

Remover Publicidades
Publicidade

A literatura continuou a florescer tanto no período da Regência como no reinado propriamente dito de Jorge. Duas autoras notáveis deixaram uma marca duradoura nos leitores: Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, foi publicado em 1813, e Frankenstein, de Mary Shelley, saiu em 1818. Quando Austen descobriu que Jorge tinha um conjunto dos seus livros em cada uma das residências reais, dedicou o seu romance seguinte, Emma, ao Príncipe Regente. O interesse de Jorge pela leitura foi ainda comprovado em 1820, quando fundou a Royal Society of Literature.

Cartoon of George IV of Great Britain
Caricatura de Jorge IV da Grã-Bretanha James Gillray (Public Domain)

Os desenvolvimentos arquitetónicos continuaram à medida que o período georgiano avançava. O estilo bastante austero deste período, que reinterpretava modestamente elementos da arquitetura romana e grega, mas que depois acrescentava uma amostra eclética de outros estilos arquitetónicos mais extravagantes, como o gótico e o indiano, tornou-se conhecido como Arquitetura Regency. Jorge IV patrocinou o desenvolvimento da Regent Street e do Regent's Park em Londres, sendo a ideia ter casas requintadas num ambiente de jardim rural, e estes são exemplos típicos da Arquitetura Regency. John Nash, o autor do Pavilhão Real (Royal Pavilion) em Brighton, esteve também por detrás destes projetos. A construção de canais foi outro grande projeto deste período. Finalmente, o rei também dedicou muito tempo e dinheiro à melhoria do Palácio de Buckingham e do Castelo de Windsor.

A Morte e o Sucessor

Jorge IV, que continuava a comer e a beber excessivamente, mas que era agora fortemente dependente de láudano, morreu devido a uma rutura de um vaso sanguíneo no estômago a 26 de junho de 1830, no Castelo de Windsor. O rei foi sepultado na Capela de São Jorge, em Windsor. O impopular monarca não foi sentido por muitos, como declarou o jornal The Times: "Nunca houve um indivíduo menos lamentado pelos seus semelhantes do que este rei falecido" (Cavendish, pág. 384).

Remover Publicidades
Publicidade

Sem filhos legítimos sobreviventes, Jorge foi sucedido pelo seu irmão mais novo, de 66 anos, Guilherme, Duque de Clarence, que se tornou Guilherme IV da Grã-Bretanha. O Rei Guilherme, também sem filhos legítimos, foi sucedido pela sua sobrinha, a Rainha Vitória (reinou 1837-1901), filha do filho de Jorge III, Eduardo, Duque de Kent (1766-1820). Vitória foi a última dos Hanoverianos, uma vez que os seus filhos foram classificados como parte da nova dinastia de Saxe-Coburgo-Gota (que foi mais tarde renomeada para Windsor).

Remover Publicidades
Publicidade

Perguntas & Respostas

Pelo é que o rei Jorge IV é conhecido?

O rei Jorge IV é conhecido por ter exercido as funções de príncipe regente em nome do pai, Jorge III, que sofria de demência, por se ter recusado a permitir que a consorte fosse coroada rainha e por ser um mecenas das artes.

Que relação tinha a rainha Vitória com Jorge IV?

A rainha Vitória era sobrinha de Jorge IV, sendo o seu pai o irmão mais novo desse rei.

Será que Jorge IV foi um rei popular?

Jorge IV não era um rei popular devido à forma como tratava a sua consorte, aos seus inúmeros casos amorosos e ao seu hábito de contrair dívidas avultadas.

Sobre o Tradutor

Sobre o Autor

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2026, julho 16). Jorge IV da Grã-Bretanha. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-21488/jorge-iv-da-gra-bretanha/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Jorge IV da Grã-Bretanha." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 16, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-21488/jorge-iv-da-gra-bretanha/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Jorge IV da Grã-Bretanha." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 16 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-21488/jorge-iv-da-gra-bretanha/.

Remover Publicidades