O povo quicuio (também conhecido como Gikuyu ou Agikuyu) é um grupo de língua banta que ocupou territórios no que é hoje o centro do Quénia, na África Oriental, a partir do século XVII. Estabeleceram-se principalmente como agricultores em redor do Monte Quénia e das Terras Altas. Os quicuio prosperaram e conseguiram utilizar o seu excedente de produtos alimentares para comerciar com vizinhos como o povo massai.
Apesar de, durante grande parte da sua história, os quicuio não terem formado quaisquer instituições políticas centralizadas, acabaram por se tornar a força motriz do nacionalismo queniano e do movimento anticolonial em meados do século XX, em particular com a revolta Mau Mau. Atualmente, os quicuio representam cerca de 20% da população do Quénia, constituindo o maior grupo étnico do país.
As Origens e o Território
Os precursores dos quicuios e de vários outros grupos na África Oriental foram os thagicus, um grupo de língua banta que, a partir do final do século XI, migrou para a região a partir da África Central. Os thagicus começaram a desbastar as florestas em redor das encostas meridionais do Monte Quénia para criar terras propícias à agricultura. Consequentemente, tal como noutras regiões, os povos de língua banta difundiram os seus conhecimentos de fundição de ferro, fabrico de cerâmica e técnicas agrícolas junto de tribos indígenas recolectoras e nómadas. Os vestígios arqueológicos de fundição de ferro e de novos tipos de cerâmica na zona foram datados por radiocarbono como sendo do século XII ou mesmo do século XI.
Verificou-se também a migração de populações para a zona a partir da costa oriental e do nordeste de África (um movimento que figura nas próprias tradições orais dos quicuios), criando um cadinho de intercâmbio cultural e tecnológico que deu origem a comunidades prósperas, capazes de produzir um excedente de géneros alimentícios. Por volta do século XVII, esta mistura de povos tinha evoluído para dois grupos étnicos principais e distintos: os merus e os quicuios, que falavam uma língua de origem banta com o mesmo nome. O nome quicuio provém da língua suaíli, ao passo que o próprio povo utiliza a designação gicuio (pron.: guicúio).
Os quicuios, deslocando-se lentamente para sul, passaram a ocupar o território no que é hoje o centro do Quénia, a sul do rio Tana e entre a costa e o Lago Vitória, a oeste. Esta área é por vezes chamada de Quicuilândia (Kikuyuland). Os seus vizinhos a sul eram os massais e, a norte, os somalis. As rotas comerciais passavam sobretudo a sul da região quicuio, desde Pangani, na costa, até ao norte e sul do Lago Vitória. As tradições quicuios registam um comércio de longa data com o povo acamba (Akamba), a sul, e com os mais próximos massais. Os primeiros trocavam peles de animais e uki (um tipo de cerveja), enquanto os segundos ofereciam gado, leite, peles e mantas de couro em troca de géneros alimentícios básicos e bens manufacturados. Uma prova ilustrativa das relações pacíficas entre estes vários povos é o facto de os acambas trocarem frequentemente o seu trabalho por bens em cada época de colheita.
A Agricultura
O povo quicuio cultivava sobretudo o milho-miúdo, mas também feijão, ervilhas, sorgo, inhame e ndulu (um vegetal de folha verde comercializado em grande quantidade com os acambas). Algumas culturas, como o milho e a batata-doce, tinham sido introduzidas na região pelos portugueses no século XVII. Os métodos agrícolas incluíam o recurso à irrigação e ao cultivo em socalcos, embora não fossem aplicados universalmente por todos os grupos quicuios. As ferramentas englobavam enxadas, machados, catanas e paus de escavação. O gado era criado como fonte de leite, carne e couro para vestuário. Ao contrário dos massais, por exemplo, a pecuária era secundária em relação à agricultura e, por isso, a posse de gado, em particular, constituía um sinal de estatuto na sociedade quicuio. Nem todos os grupos quicuios eram predominantemente agricultores; alguns no sul eram pastores como os massais, ou pelo menos semi-pastores, enquanto os quicuios áti prosperavam com a caça e a recolha de mel e cera de abelha. Atualmente, os agricultores quicuios dedicam-se sobretudo ao cultivo do café, do milho e de fruta.
A Estrutura Social
Entre os séculos XVII e XIX, a habitação típica dos quicuios era uma quinta organizada em redor de uma única família alargada, em que os homens tinham várias mulhers, vivendo cada uma na sua própria palhota. Os edifícios da propriedade eram protegidos por uma paliçada circular de madeira ou arbustos. As construções eram feitas de lama, pedra e matéria vegetal, e havia a tradição de que uma palhota quicuio tinha de ser construída num único dia, o que exigia muita preparação, planeamento e esforço comunitário. A razão para um prazo tão curto devia-se à crença dos quicuios de que uma casa inacabada, se deixada durante a noite, atrairia espíritos indesejados que poderiam apoderar-se dela.
Os quicuios não tinham chefes tribais, mas a população em geral estava dividida em vários clãs e subclãs (atualmente existem nove desses grupos de clãs). Os grupos de famílias alargadas, ou mbari, dentro destes clãs eram chefiados por vários homens mais velhos e aparentados, que eram hierarquizados de acordo com o seu grupo etário. A herança era transmitida pela linha masculina. Cada mbari podia ser composto por um número que variava entre 30 e mais de 300 pessoas. Embora os quicuios tenham abandonado a quinta individual em favor da vida em aldeia, o mbari continua a ser uma unidade social importante. A relevância dos laços familiares reflete-se também na crença de que os espíritos dos antepassados estão presentes e disponíveis para ajudar os vivos. O agrupamento das pessoas por faixas etárias era muito importante para o estatuto social, tal como os ritos de passagem para os adolescentes, que incluíam a circuncisão masculina e feminina.
A predominância das unidades familiares e as barreiras físicas entre os grupos — muitos ocupavam cumeeiras de montanha individuais — significavam que o povo quicuio não tinha um governo centralizado, burocracia ou sequer, talvez, um sentimento de pertença a um grupo étnico mais alargado. Esta situação de comunidades politicamente e culturalmente isoladas era acentuada por fortes tradições localizadas, tais como histórias orais de grupos familiares específicos. No entanto, tal como a UNESCO General History of Africa(História Geral da África da UNESCO) assinala:
A descentralização... não significava desorganização ou falta de coesão política e social. Estas sociedades descentralizadas possuíam conselhos de família, de aldeia e de distrito compostos por anciãos. Os membros de cada família, clã e distrito estavam unidos por relações que definiam e governavam as ações dos indivíduos e estabeleciam obrigações e direitos mútuos.
(Vol. V, 414)
As Práticas Religiosas
Tal como foi referido, o culto dos antepassados era uma componente fundamental das práticas religiosas pré-coloniais dos quicuios. Acreditando-se que eram capazes de ajudar os vivos, eram oferecidos aos antepassados certos sacrifícios e rituais, designados por koruta magongona. Acreditava-se que os antepassados viviam debaixo da terra, mas que podiam manifestar-se entre os vivos quando procuravam comunicar com eles; a doença era considerada uma forma típica dessa comunicação. Os deuses dos quicuios também beneficiavam de tais rituais, sendo o deus supremo Ngai, enquanto outros podiam ser concebidos como seres sobrenaturais sem nome ou forma. Pensava-se que Ngai habitava no Monte Quénia e, por conseguinte, todos os rituais eram direcionados para essa montanha. Um terceiro grupo de espíritos era constituído por aqueles que pretendiam fazer mal aos vivos. As cerimónias religiosas, cujo objetivo era agradar a todos estes seres sobrenaturais e apelar à sua assistência na vida quotidiana, incluíam a oferenda de alimentos e bebidas, sacrifícios de animais (ovelhas e cabras), danças, a observação temporária de tabus e relações sexuais rituais. Os rituais não eram realizados por sacerdotes propriamente ditos, mas constituíam a esfera reservada dos anciãos da comunidade, sendo frequentemente executados debaixo de uma árvore específica, considerada sagrada.
As Invasões Estrangeiras e os Conflitos
Apesar das relações comerciais inter-regionais duradouras e pacíficas, o século XIX assistiu a uma África Oriental geralmente mais violenta. Houve invasões por parte de comerciantes árabes e da costa, bem como de forças de estados europeus. Os quicuios eram tão militaristas quanto qualquer outro povo tribal da região, num período em que a introdução de armas de fogo significava que apenas um pequeno bando de guerreiros era necessário para semear o caos entre os seus vizinhos. As caravanas comerciais que viajavam de e para a costa eram um alvo específico, tal como os recursos de aldeias mal defendidas, que também podiam ser uma fonte de escravos, valiosos para o comércio. Os bandos de raide dos quicuios eram conhecidos como thabari, termo derivado da palavra suaíli safari, que significa uma viagem ou caravana. Os quicuios parecem não ter tido interesse em cultivar relações comerciais pacíficas a longo prazo com os comerciantes árabes e da Costa Suaíli durante o século XIX. Tal foi, talvez, um sintoma da sua falta de um sistema político centralizado, o que poderia ter permitido aos quicuios no seu todo aproveitar essas oportunidades ou enfrentar melhor a ameaça da Grã-Bretanha, ansiosa por estabelecer uma colónia na região a partir do final do século XIX. O Protetorado da África Oriental Britânica foi estabelecido em 1895 e a colónia do Quénia em 1920.
Os Quicuios e o Quénia Moderno
A Associação Central Quicuio (Kikuyu Central Association - KCA) foi fundada em 1924 e defendeu uma agenda nacionalista no Quénia, que visava reparar as injustiças coloniais, adotando uma postura firme contra a propriedade europeia de terras e certos aspetos do trabalho missionário no país. Havia também graves problemas práticos causados pelo aumento da densidade populacional nas terras altas dos quicuios, onde o solo já não conseguia suportar a agricultura intensiva necessária. A Associação Central Quicuio colocou os quicuios na vanguarda do nacionalismo africano no Quénia, mas a organização foi banida pelo governo britânico durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Em 1944, foi criado o sucessor da Associação Central Quicuio, a União Africana Queniana (Kenyan African Union - KAU). Um dos fundadores da Associação Central Quicuio foi Jomo Kenyatta (1891-1978), que continuou a desempenhar um papel proeminente na política queniana do pós-guerra, sendo eleito presidente da União Africana Queniana em 1947.
A chamada revolta «Mau Mau» (um termo britânico de significado contestado) ocorreu entre 1952 e 1960. Tratou-se de um episódio violento na história do país, no qual os quicuios voltaram a assumir a liderança, mas desta vez numa ação de guerrilha anticolonial muito mais militante contra os colonos brancos e contra os quicuios considerados colaboradores do sistema colonial. Um objetivo político específico era a expulsão dos proprietários de terras brancos do antigo território quicuio conhecido como as «Terras Altas Brancas» (White Highlands), uma área particularmente fértil de cuja exploração agrícola os quicuios tinham sido excluídos pelo governo colonial. Kenyatta foi julgado e preso pelo seu papel na insurreição, embora as provas utilizadas contra si tenham sido posteriormente consideradas falsas (fruto de perjúrio). A revolta Mau Mau resultou na morte de 32 civis brancos e 13 000 africanos. Cerca de 80 000 quicuios foram colocados em campos de detenção. Libertado em 1961, Kenyatta foi eleito o primeiro Primeiro-Ministro de um Quénia independente em 1963 e, em seguida, nomeado Presidente em 1964, quando o país se tornou uma república. Após esta década tumultuosa do pós-guerra, o Quénia conheceu um período surpreendentemente pacífico e alcançou um sucesso económico significativo, em particular através de exportações como o chá e o café e do turismo para os seus parques nacionais.
