Píndaro (cerca de 518 a cerca de 448/7 a.C.) foi um antigo poeta lírico grego, provavelmente o maior do seu tempo. As suas obras foram divididas em 17 livros de diferentes géneros de poesia, mas apenas permanecem intactos aqueles que contêm 44 cantos corais de vitória compostos para as celebrações formais nos quatro festivais pan-helénicos, sobrevivendo os restantes apenas sob a forma de fragmentos. As suas obras continham frequentemente referências à história contemporânea, à religião e à mitologia grega, refletindo a sua cultura e origem aristocrática, sendo notoriamente difíceis de ler e traduzir.
A Vida
Apesar de ser mais conhecido como filho adotivo da cidade peloponésia de Tebas, Píndaro era originário da povoação de Cinoscéfalas, na cidade-estado da Beócia. Nasceu numa família aristocrática por volta de 518 a.C.; filho de Daifanto e de Cleódice. Embora existam alguns indícios de que se deslocou a Atenas para prosseguir os seus estudos, sabe-se que em 497 a.C. venceu o primeiro prémio no concurso de ditirambos nas Dionísias. Desconhece-se se esta vitória serviu ou não de catalisador para a sua futura carreira; no entanto, com a tenra idade de 20 anos, foi encarregado por uma família governante da cidade-estado grega da Tessália de escrever uma ode celebrando a vitória atlética de um jovem chamado Hipocleas. Este canto de vitória é simplesmente designado por Pítica 10 — em homenagem aos Jogos Píticos. Na linha de abertura da ode, menciona Lacedemónia, a capital da cidade-estado da Lacónia e outro nome para Esparta, adversária da sua amada Tebas.
Bendita é Lacedemónia, feliz a Tessália. Ambas têm reis de uma só estirpe de Héracles, os melhores na batalha. Será isto gabar-se sem propósito? Mas Pito e Pelina guiam-me a dar a Hipocleas, o louvor resonante de um coro de homens.
(citado em Auden, pág. 243)
Com o tempo, o poeta celebraria vitórias em todos os principais festivais de toda a Grécia: os Jogos Olímpicos, Nemeus, Píticos e Ístmicos. As suas encomendas chegavam de todo o mundo grego: da Macedónia e da Trácia, a norte, até Cirene, a sul; da Sicília e da Itália, a oeste; e da Ásia Menor, a leste. Estas odes não tratavam apenas do vencedor, da sua vitória e dos deuses, mas também das opiniões do poeta sobre a vida.
Píndaro viveu durante um período conturbado da história de Tebas, foi a época das Guerras Médicas, a invasão sob Dário I (492 a.C.), e a aristocracia da cidade e da Beócia optou por seguir uma política pró-persa, enquanto Atenas e Esparta resistiam. Embora Píndaro tivesse lealdade para com a sua amada Tebas, apreciava a resistência ateniense e, apesar da sua fidelidade a Tebas, não deixou de louvar Atenas. A postura pró-persa de Tebas não seria tão cedo perdoada ou esquecida, e a associação de Píndaro com a cidade manchou a sua reputação. No entanto, devido à sua ligação com os tiranos sicilianos Terão de Agrigento e Hierão de Siracusa, que apreciavam as suas obras (esteve na Sicília entre 476 e 474 a.C.), a sua reputação cresceu e a procura pelo seu talento aumentou. Apesar disso e do seu forte sentido de valores, era frequentemente acusado de se vender ao maior licitante, independentemente da respetiva postura moral ou política.
Casou com Megacleia, com quem teve três filhos (duas filhas e um filho): Protomaca, Eumentis e Daifanto. À data da sua morte em Argos, por volta de 448/447 a.C., com a idade de 80 anos, seria reconhecido como um dos principais autores de poesia lírica. Quase dois séculos mais tarde, em 335 a.C., por respeito a Píndaro, Alexandre o Grande (reinou 336–323 a.C.) recusou-se a destruir a casa do poeta em Tebas enquanto os seus macedónios saqueavam a cidade.
O Estilo
A classicista Edith Hamilton, no seu livro O Eco Grego (tít. original: The Greek Way), afirma que ele era o mais difícil de todos os poetas gregos de ler e «de todos os poetas que já existiram» o mais impossível de traduzir. Acrescenta, no entanto, que ele está «sentado entre os imortais». Era, nas suas palavras, o «artífice consumado» e um artista no «pleno domínio da técnica da sua arte» (pág. 69). Norman F. Cantor, no seu livro Antiquity (Antiguidade), designou Píndaro como o «maior dos poetas que compuseram obras corais» (pág. 127). Apesar da sua popularidade, Píndaro foi também um homem que nunca esqueceu o seu nascimento nobre e, como expressou Hamilton, «o último porta-voz da aristocracia grega» (pág. 69).
A antiga sociedade aristocrática e os valores que representava significavam tudo para ele, e os seus ideais moribundos eram claramente visíveis nos seus poemas. A sua atitude e consciência de classe transparecem numa frase simples. Escreveu: «Um estado é mais forte quando governado pelos conselhos dos velhos e pelo espírito guerreiro dos jovens» (Stavropoulos, pág. 169). Evidentemente, temia o declínio da aristocracia mas, ao contrário de outros aristocratas, acreditava que os poderosos deviam usar o seu poder em benefício dos outros e que «a nobreza de nascimento deve ser acompanhada pela nobreza de conduta» (Hamilton, pág. 69). Aqueles que detêm privilégios devem proteger os desprivilegiados.
Embora pudesse ter sido acusado de se associar a tiranos, de se vender e de ser um mercenário, os seus versos continuam a refletir um homem que não mudou as suas crenças. Certa vez, afirmou: «Até a sabedoria tem de ceder ao interesse próprio» (Stavropoulos, pág. 119). Se Píndaro é um poeta difícil de compreender e traduzir, torna-se desafiante discernir o seu papel na história. Hamilton sustentava que o «círculo dos seus verdadeiros admiradores é e sempre foi pequeno» (pág. 65). É certo, contudo, que poetas como o romano Quintus Horatius Flaccus (Horácio), do século I a.C., o imitaram e lhe prestaram homenagem. Ela citou parte de uma ode escrita por Horácio, que afirmou: «A torrente de canto de Píndaro arrasta-se irresistível, de voz profunda, tremenda» (Idem).
As Obras
As obras de Píndaro foram divididas em 17 livros pelos seus editores alexandrinos: hinos, peãs, dois livros de ditirambos, dois livros de prosódios (cantos processionais), três livros de parteniois (cantos para donzelas), dois livros de hiporquemas (cantos dançados), encómios (cantos de louvor), trenos (lamentos fúnebres) e, por fim, quatro livros de epinícios (cânticos de vitória). Destes, os únicos que sobreviveram intactos são os 44 cantos corais de vitória compostos para os festivais pan-helénicos. Estes são considerados por muitos como as suas obras-primas. Os restantes livros sobrevivem apenas em fragmentos e através de citações de outros autores.
As suas odes ou cantos continham frequentemente alusões à história contemporânea, à religião e à mitologia. Habitualmente, escolhia um mito ou herói associado à cidade do vencedor, colocando este último numa relação direta com um deus ou deusa particular. Na Pítica 10, escreve: «Vencedor olímpico duas vezes na armadura guerreira de Ares». Mais tarde, Píndaro faz referência ao herói grego Perseu: «...o filho de Dánae chegou nesse dia, respirando força no coração, e Atena conduziu-o a misturar-se com aqueles homens abençoados. Ele matou a Górgona» (págs. 244-245).
O historiador Anthony Everitt cita uma das odes de Píndaro que demonstra esta relação entre o humano e o divino. Esta não só celebra um vencedor na luta livre infantil nos Jogos Nemeus, como também contém uma perspetiva moral:
Única é a raça, única de homens e de deuses; de uma só mãe ambos colhemos a respiração Mas uma diferença de poder em tudo mantém-nos afastados; pois o um é como o Nada, mas o céu de bronze permanece uma habitação fixa para sempre. No entanto, podemos, na grandeza do espírito ou do corpo, ser semelhantes aos imortais.
(pág. 300)
Píndaro estava extremamente orgulhoso da sua herança aristocrática e era frequentemente acusado pelos seus contemporâneos de falta de tato e subtil elegância. De acordo com Paul Cartledge no seu livro Thebes (Tebas), o objetivo de Píndaro era alcançar fama e glória imperecíveis não apenas para o vencedor e cliente, mas também para si próprio. Acrescenta que as odes de vitória ajudavam Píndaro a exibir a sua vasta erudicção. Curiosamente, as suas odes louvavam frequentemente o vencedor, mas omitiam quaisquer pormenores sobre a vitória; tratava-se de uma fixação no vencedor, e não na proeza alcançada.
Numa das suas odes mais notáveis, fez referência ao príncipe macedónio Alexandre I, o Filéleno (antecessor de Alexandre o Grande), que tivera dificuldades em qualificar-se para uma corrida a pé e para o pentatlo nos Jogos Olímpicos. O jovem príncipe, que tinha sido acossado pelos gregos por ser considerado um «bárbaro», empatou no primeiro lugar. A ode de Píndaro desdenha as provocações dos outros concorrentes, homenageia Alexandre e louva a sua vitória:
É justo que os bons sejam celebrados com os mais belos cantos Pois este é o único tributo que se aproxima das honras Devidas aos deuses, mas cada ato morre, se for passado em silêncio.
(citado em Cartledge, pág. 11-12)
As odes de Píndaro contêm mais do que um simples elogio a um jovem vencedor. Revelam, nas palavras de Everitt, um homem com um profundo sentido da tragédia da vida e da «glória, por mais fugaz que seja, da realização humana» (pág. 97). Cita uma ode que demonstra esse sentido trágico:
Criaturas de um dia! O que é um homem? O que é ele que não é? Um sonho de uma sombra É o nosso ser mortal. Mas quando desce sobre os homens Um clarão de esplendor dado pelo céu Então repousa sobre eles uma luz de glória E abençoados são os seus dias.
(pág. 97)
Uma vez que a maior parte das suas obras se perdeu, os historiadores modernos podem achar difícil avaliar o seu lugar entre os restantes poetas dessa época. No entanto, apesar dessas dificuldades, as odes permitem-lhes perscrutar a vida cultural, social e política daqueles aristocratas e famílias governantes que lhe pagavam as encomendas.

