Chogha Zanbil (literalmente "monte da cesta") é um antigo complexo de templos elamitas localizado na atual província de Cuzistão, no Irão. Também é conhecido como Dur-Untash (Fortaleza/Cidade/Vila de Untash), Tchogha Zanbil e Al Untash Napirisha ("Lugar de Untash Napirisha") e possui não só o maior zigurate do mundo fora da Mesopotâmia como o mais bem preservado.
Foi construído por volta de 1250 a.C., durante o Período Elamita Médio (cerca de 1500 a cerca de 1100 a.C.), pelo rei elamita Untash-Napirisha (reinou por volta de 1275-1240 a.C.) e dedicado aos deuses elamitas Insushinak e Napirisha, mas também incluía santuários para outros deuses, muitos de origem mesopotâmica, a fim de proporcionar à população diversificada de Elão um centro de culto inclusivo.
Untash-Napirisha dedicou originalmente o local exclusivamente a Insushinak, a divindade padroeira da vizinha Susa, e acredita-se que pretendia desviar a atenção de Susa como uma das cidades reais de Elão e estabelecer a nova cidade como capital. No entanto, mudou de ideia, possivelmente após considerar a ampla variedade de tradições religiosas e deuses diversos seguidos pelo povo de Elão, mandou demolir o zigurate original dedicado a Insushinak e construiu um complexo muito mais grandioso, com um zigurate maior, templos, santuários e alojamentos para sacerdotes, tudo cercado por três enormes muralhas concêntricas.
No entanto, o complexo do templo nunca foi utilizado, pois estava incompleto na altura da morte do rei e foi abandonado algum tempo depois. Achados arqueológicos no local comprovam que continuou a ser um local de peregrinação até 1000 a.C., mas o complexo nunca foi concluído, como comprovam os tijolos de barro ainda empilhados para uso na construção e pelos templos inacabados no local.
O complexo foi saqueado pelo rei assírio Assurbanípal (reinou 668-627 a.C.) quando invadiu Elão em 647-646 a.C., mas, ao contrário do que se gabava e do que afirmam os historiadores posteriores, não destruiu o local. Após cerca de 1000 a.C., Chogha Zanbil foi esquecido até ser redescoberto em 1935. Para apreciar plenamente a importância do local, é preciso compreender a cultura de Elão, que o influiu.
Elão
Elão era uma região com uma população diversificada, provavelmente autóctone, que se estendia desde a cordilheira de Zagros, no norte, até ao planalto iraniano, no sul, correspondendo aproximadamente às províncias modernas de Ilão e Cuzistão, no sul do Irão, e parte do sul do Iraque. Nunca teve uma política coesa, exceto pelo breve período do Império Elamita, fundado no Período Elamita Médio pelo rei Shutruk-Nakhkunte (reinou 1184-1155 a.C.), que escolheu a cidade de Susa como capital.
Além do período do império (que não durou muito além do reinado do filho mais novo de Shutruk-Nakhkunte), a região era uma federação de tribos governadas, em diferentes épocas e com autoridade variável, pelas cidades de Awan/Ansã, Simashki e Susa. A história da região é dividida pelos estudiosos modernos em quatro períodos:
- Período Proto-Elamita (cerca de 3200 a cerca de 2700 a.C.)
- Período Elamita Antigo (cerca de 2700 a cerca de 1600 a.C.)
- Período Elamita Médio (cerca de 1500 a cerca de 1100 a.C.)
- Período Neoelamita (cerca de 1100 a cerca de 539 a.C.)
O Período Elamita Médio é o mais bem documentado dos quatro. O elamita é uma língua isolada, o que significa que não corresponde a nenhuma outra língua conhecida, e a escrita elamita, em uso durante todo o Período Proto-Elamita, permaneceu um mistério até 2017-2020, quando foi finalmente decifrada. Após 2700 a.C., e com um contacto mais próximo com as cidades-estado mesopotâmicas da Suméria, os elamitas adotaram a escrita cuneiforme para a sua língua, mas, antes, usavam a escrita elamita e, como esta permaneceu indecifrável por muito tempo, desconhecia-se a história inicial. Agora, com a decifração da escrita elamita, sem dúvida sobra a sua história virá à tona. Mesmo assim, as suas inscrições e documentos cuneiformes (encontrados principalmente em Susa) estão incompletos e, por isso, grande parte da história elamita só é conhecida a partir de registos sumérios, acádios e assírios, que muitas vezes fornecem descrições breves sem maiores detalhes. Talvez os registos mantidos na escrita elamita forneçam informações mais aprofundadas, mas isto ainda é um mistério.
Durante o Período Elamita Antigo, a região foi conquistada pelo rei sumério Enmebaragesi de Kish (Quis) em 2700 a.C., na primeira guerra registada na história, que introduziu a escrita cuneiforme em Elão. Os acádios, sob o comando de Sargão de Acádia (reinou 2334-2279 a.C.), conquistaram-no e mantiveram o domínio até que o Império Acádio caiu nas mãos dos invasores gutis, que foram expulsos pelo rei sumério Ur-Nammu (reinou 2047-2030 a.C.) e seu filho Shulgi de Ur (reinado 2029-1982 a.C.), que então estabeleceram o domínio sumério em Elão.
Foi somente no final deste período que os reis elamitas conseguiram afirmar a sua autonomia, derrotar os sumérios e estabelecerem-se como uma potência significativa na região. Os reis da dinastia Sukkalmah de Elão (cerca de 1970 a cerca de 1770 a.C.) proporcionaram a estabilidade que permitiria aos governantes do período seguinte concentrarem-se mais nas políticas internas e nos projetos de construção do que na defesa da pátria contra invasões.
Período Elamita Médio
Como observado, a população de Elão era diversificada, unida por uma língua comum, mas aparentemente diferente em costumes e crenças religiosas ou, pelo menos, em quais deuses do panteão elamita-mesopotâmico escolhiam elevar. Durante o Período Elamita Médio, os reis de Ansã e Susa implementaram uma política, designada «elamização» pelos estudiosos modernos, pela qual encorajavam a adoção das crenças, língua, costumes e religião elamitas em toda a região, mas especialmente na área de Susiana, a norte, onde as influências mesopotâmicas tinham sido amplamente abraçadas.
Não há provas concretas de coerção ou violência de qualquer tipo nesta elamização da região, e um dos seus benefícios é uma documentação mais extensa do período, uma vez que os reis elamitas emitiram mais decretos. O período foi dominado por três dinastias:
- Dinastia Kidinuid (cerca de 1500 a cerca de 1400 a.C.)
- Dinastia Igihalkid (cerca de 1400 a cerca de 1200 a.C.)
- Dinastia Sutrukid (cerca de 1200 a cerca de 1100 a.C.)
A dinastia Kidinuid iniciou o processo de elamização, a dinastia Igihalkid deu continuidade e a dinastia Sutrukid espalhou a cultura elamita por toda a região e pela Babilónia através da conquista que estabeleceria o Império Elamita. Curiosamente, não há evidências de que Shutruk-Nakhkunte ou os seus filhos tenham imposto a sua religião a qualquer outra região. Se o tivessem feito, talvez houvesse mais documentação sobre as crenças religiosas elamitas, mas, tal como está, pouco se sabe sobre a religião elamita além dos nomes de alguns dos seus muitos deuses e dos tipos de locais que escolheram para os seus rituais.
Religião Elamita
Não se sabe como a religião autóctone elamita era praticada durante o período Proto-Elamita e, mesmo agora que a escrita linear elamita foi decifrada, não há garantia de que tal se vá esclarecer neste aspeto da cultura elamita. Quando as inscrições elamitas relacionadas aos deuses foram registradas, a região já havia sido influenciada pela cultura e religião suméria e acádia. Portanto, ao longo do período Elamita Antigo, as divindades elamitas são referenciadas em conjunto com os deuses e deusas mesopotâmicos na escrita cuneiforme e, talvez, também seja o caso na escrita elamita.
Os elamitas estabeleceram locais sagrados em colinas altas, topos de montanhas, bosques sagrados e cavernas. Com base nas inscrições, selos e impressões, aproximavam-se destes locais em procissão e ofereciam sacrifícios, mas, além disto, desconhece-se sobre os detalhes dos rituais religiosos. Havia mais de 200 divindades no panteão elamita, muitas delas mesopotâmicas (como Ea, Enki, Inanna, Ninhursag, Nisaba, Shamash, Erra e Nergal), enquanto as divindades elamitas correspondiam à região geográfica em que se desenvolveram e ganharam destaque a partir daí. Dez das divindades elamitas mais influentes eram:
- Napirisha – Senhor da Terra e do povo
- Insushinak – Senhor de Susa, juiz dos mortos, protetor dos fracos
- Humban – Senhor de Ansã, guardião do rei (e da família real), deus do céu
- Kiririsha – Esposa e consorte de Insushinak e Humban, mãe dos deuses, uma deusa mãe
- Pinikir – Rainha do céu, deusa do céu
- Nahhunte – Senhor da justiça, deus do comércio justo e dos contratos
- Simut – Deus de Elão e de todos os elamitas
- Narundi – Deusa da vitória
- Ismekarab – Deusa do submundo, ouvinte/protetora dos juramentos
- Lamagal (também conhecido como Lakamar) – Deusa dos mortos e juíza das almas
Napirisha, que ao que tudo indica vem de Ansã, acabou por ser considerado o chefe dos deuses, o deus nacional de Elão, reconhecido em todos os pontos. Insushinak era originalmente um deus da região norte de Susiana e, embora continuasse a ser a divindade padroeira de Susa, era venerado também noutras regiões. Humban seguiu este mesmo paradigma, apenas com Ansã como sua cidade ao sul. Inicialmente, com base em estátuas e impressões, parece que os elamitas adoravam uma deusa mãe – talvez até mesmo uma tríade de divindades femininas – que provavelmente estavam combinadas na figura de Kiririsha, frequentemente associada a Insushinak e Humban, mas também retratada como consorte/esposa de Napirisha.
O foco da religião parece ter sido a vida após a morte. Oravam e faziam sacrifícios para facilitar a passagem entre esta vida e a próxima, mas desconhecem-se os detalhes da visão elamita da vida após a morte. É provável, dada a estreita associação com a Mesopotâmia, que a sua vida após a morte refletisse a dos sumérios, na qual as almas dos mortos definhavam num mundo sombrio e obscuro presidido por uma divindade feminina (na visão mesopotâmica, Ereshkigal) que garantia que os mortos permanecessem onde estavam e não incomodassem os vivos.
A partir de inscrições, fica claro que havia um conceito de julgamento após a morte, e os dois juízes mais proeminentes eram Insushinak e Lamagal. Não está completamente claro, mas parece que Insushinak era misericordioso, enquanto Lamagal era severa (um dos seus epítetos era «Aquela que não tem misericórdia»), e, portanto, eles se equilibravam e proferiam um julgamento justo e imparcial. No entanto, se todas as almas iam exatamente para o mesmo lugar, isso não faria sentido, e por isso é possível que a visão elamita fosse mais próxima da dos persas, na qual havia níveis da vida após a morte correspondentes ao Paraíso, Purgatório e Inferno, mas tudo isto é especulativo.
Independentemente de como concebiam a vida após a morte e do que acreditavam que os deuses poderiam fazer por eles para garantir uma passagem segura, um aspeto da sua devoção religiosa (comum a todas as culturas antigas) eram os projetos de construção monumental que preservaria o nome, associando-o à sua divindade preferida e, assim, garantirem que seriam lembrados pelas gerações futuras; este foi o mote para a construção do complexo do templo de Chogha Zanbil.
Chogha Zanbil
Chogha Zanbil começou como um zigurate e um pátio circundante dedicado a Insushinak. Um tijolo de barro cozido, de proveniência desconhecida, mas que se pensa ter vindo do local, diz:
Eu, Untash-Napirisha, filho de Humban-Numena, rei de Ansã e Susa, desejando que a minha vida seja próspera, que a extinção da minha linhagem não seja concedida quando for julgada, com esta intenção construí um templo de tijolos cozidos, um templo alto de tijolos vidrados; ofereci-o ao deus Insushinak do Recinto Sagrado. Ergui um zigurate. Que a obra que criei, como oferenda, seja do agrado de Insushinak! (Jones, pág. 1)
Untash-Napirisha dedicou inicialmente o monumento apenas a Insushinak, a fim de atrair fiéis (bem como comércio e prestígio) de Susa, a cidade patrona do deus, para a sua própria cidade, na qual o zigurate de Insushinak seria a peça central (segundo o modelo das cidades mesopotâmicas). A certa altura, depois de ter terminado ou quase terminado o zigurate, mandou-o demolir e embarcou num rumo diferente, com uma visão muito mais grandiosa: um complexo de templos em honra de todos os deuses da região, onde qualquer pessoa pudesse vir e prestar homenagem à sua divindade de devoção.
O zigurate era agora dedicad0 a Napirisha e Insushinak, honrando assim todo o Elão através dos dois deuses mais proeminentes do sul e do norte, mas também, ao escolher Napirisha em vez de, digamos, Humban, criando um centro inclusivo para o chefe dos deuses que presidia não só todas as outras divindades do Elão, mas também todo o seu povo. Era um empreendimento ambicioso, como descrito pelo estudioso Marc Van de Mieroop:
A construção era verdadeiramente monumental: continha milhões de tijolos, uma parte substancial dos quais foi cozida com grande gasto de combustível. O núcleo interno de tijolos secos ao sol foi revestido por uma camada de 2 metros de espessura de tijolos cozidos. Cada décima camada do revestimento externo tinha uma fileira de tijolos com uma inscrição de Untash-Napirisha a Insushinak. Devido à solidez da construção, este é o zigurate mais bem preservado do Próximo Oriente. Muitos dos templos no recinto interno eram dedicados exclusivamente a divindades elamitas, enquanto outros honravam deuses mesopotâmicos populares em Susa. Havia, portanto, uma atenção crescente às tradições elamitas. (pág. 186)
A construção começou no centro com o zigurate, que, quando concluído, tinha 53 metros de altura, com um templo no topo (simbolizando os locais sagrados dos cumes das montanhas) e na base (representando cavernas sagradas). Após o zigurate, construiram-se os templos, os santuários e as casas para os sacerdotes numa área de cerca de 100 hectares, cercada por uma muralha concêntrica com 4 km de comprimento, que por sua vez era cercada por outras duas.
Havia uma entrada real para um pátio e, à direita da entrada, havia quatro templos dedicados às divindades elamitas, entre elas Pinikir (Rainha do Céu). O templo no topo do zigurate era dedicado a Insushinak e Napirisha; o templo na base honrava Kiririsha, e havia santuários para ela e outros deuses em ambos os lados.
Dois grandes edifícios, designados como «palácios» pelos escavadores originais, estavam localizados no chamado «bairro real», que tinha câmaras subterrâneas projetadas como criptas funerárias. Embora somente se tenha encontrado um esqueleto nesta tumba, parece ter sido criada para abrigar os restos mortais de toda a família real. Não se sabe quem era o esqueleto, nem por que razão os outros não foram enterrados ali.
Os palácios eram ornamentados, assim como a zigurate, os templos e os santuários, com pedras preciosas, estátuas de grifos alados e outras iconografias em honra aos deuses. Mesmo no seu estado inacabado, o complexo teria sido impressionante, erguendo-se — como fazia na época — de uma planície alta e gramada com uma floresta em baixo.
A construção ainda estava em andamento quando Untash-Napirisha morreu (de causa desconhecida), e o trabalho foi abandonado. Embora Shutruk-Nakhkunte tenha levado alguns dos tijolos para Susa, o complexo nunca foi saqueado para a obtenção de material de construção (como foi o caso de tantos locais antigos, mais notavelmente a cidade de Mênfis, no Egito, que foi desmontada para construir o Cairo). Embora Chogha Zanbil tenha sido abandonado logo após a morte de Untash-Napirisha, continuou a servir como local de peregrinação até cerca de 1000 a.C., após o que caiu em esquecimento.
O rei assírio Assurbanípal saqueou o local em 647-646 a.C. (possivelmente até 640 a.C.), mas, ao contrário do que ele e os escritores posteriores afirmaram, não o destruiu. Elão foi reivindicada pelos assírios após a conquista de Assurbanípal, passou para os medos após a queda do Império Neo-Assírio em 612 a.C. e foi finalmente absorvida pelo Império Aqueménida persa (cerca de 550-330 a.C.) em cerca de 539 a.C. Nesta altura, o grande complexo de Dur Untash já nem sequer era uma memória.
Conclusão
O local foi redescoberto em 1935, quando os geólogos da região encomendaram um programa de fotografia aérea para identificar campos petrolíferos. Os fotógrafos alertaram uma equipa de arqueólogos franceses que trabalhava na vizinha Susa (onde foram encontrados os tijolos cozidos e inscritos de Dur Untash, levados por Shutruk-Nakhkunte), que chegaram ao local e o identificaram como a antiga Dur Untash. O seu nome moderno, Chogha Zanbil, data aproximadamente desta época, pois achavam que a forma do complexo se assemelhava a um cesto de vime virado ao contrário.
As primeiras escavações foram iniciadas em 1946, mas o trabalho mais significativo no local foi realizado pelo arqueólogo francês Roman Ghirshman (1895-1979) entre 1951 e 1962. Posteriormente, o trabalho foi continuado no local por equipas iranianas e internacionais que trabalhavam para estabilizar e preservar o zigurate e as paredes circundantes. Em 1979, Chogha Zanbil foi declarado Património Mundial da UNESCO, e os esforços de preservação continuam, mesmo com a agitação social na região. Vinham regularmente visitantes de todo o mundo ao local até o início da pandemia da COVID-19 em 2020, quando o turismo mundial foi interrompido. Desde então, as pessoas têm voltado constantemente a Chogha Zanbil para admirar uma das ruínas mais impressionantes da antiguidade, não apenas no Oriente Próximo, mas em todo o mundo.
