Templo Maior

Definição

Mark Cartwright
por , traduzido por Ricardo Albuquerque
publicado em 05 Fevereiro 2016
Disponível noutras línguas: Inglês, francês, espanhol
X
Temple Mayor, Tenochtitlan (by Wolfgang Sauber, CC BY-SA)
Templo Maior de Tenochtitlán
Wolfgang Sauber (CC BY-SA)

O Templo Maior ou Grande Templo (chamado Hueteocalli pelos astecas) dominava o distrito sagrado da capital asteca de Tenochtitlán. Encimado por santuários gêmeos, dedicados aos deuses da guerra, Huitzilopochtli, e da chuva, Tlaloc, era um ponto focal da religião asteca e o verdadeiro centro do seu mundo. Também sediava cerimônias estatais, tais como coroações, além de incontáveis sacrifícios humanos, pois se acreditava que o sangue das vítimas iria alimentar e aplacar os dois grandes deuses aos quais era dedicado.

Construção

O Templo Maior foi erguido no reino de Itzcoatl (r. 1427-1440), melhorado sob seu sucessor, Motecuhzoma I (r. 1440-1469) e novamente aumentado no período de Ahuitzotl (r. 1486-1502). Estes líderes, e outros, empregaram recursos e mão de obra entregues como tributo pelos estados vizinhos para construir um monumento mais impressionante do que seus predecessores.

Remover publicidades
Publicidade

Sua localização fora escolhida cuidadosamente, pois o edifício consistia numa versão aprimorada, em pedra, do santuário original que os primeiros colonizadores de Tenochtitlán ergueram em homenagem a Huitzilopochtli, conforme as lendas de fundação astecas. À medida que o templo se expandia, enterravam-se ritualmente oferendas e pedras preciosas nas novas camadas. Chegava-se à pirâmide através do Caminho Processional sagrado, construído ao longo de um eixo leste-oeste. A pirâmide também fora erguida num eixo similar, de forma que, quando no topo da escadaria, seria possível vislumbrar, a leste, o Monte Tlaloc e, no equinócio, observar o nascer do sol exatamente entre os dois santuários da plataforma superior. Localizado no centro de Tenochtitlán, o Templo Maior era o coração religioso e social do império asteca.

O Templo Maior era uma montanha arquitetônica de 60 metros de altura, dedicada aos deuses Tlaloc e Huitzilopochtli.

Dimensões e Formato

O Templo Maior dominava o centro de um grande distrito sagrado que media 365 metros de cada lado, cercado por um muro que, devido aos seus relevos esculpidos com serpentes, tornou-se conhecido como coatepantli ou "Muro da Serpente". O distrito pode ter contido até 78 estruturas diferentes, mas nenhuma superior ao templo, que dominava o panorama da cidade. A construção consistia numa plataforma piramidal de 60 metros de altura, com quatro andares e duas escadarias no lado ocidental, levando a um cimo no qual havia dois templos ou santuários. Coberto com reboco de cal, o edifício era pintado em cores vivas. O santuário do lado norte (direito) era dedicado a Tlaloc, o deus da chuva, e o outro, no lado sul (esquerdo), a Huitzilopochtli, o deus da guerra. Tlaloc também estava associado com montanhas e é provável que o Templo Maior fosse concebido como uma montanha arquitetônica, em homenagem a este aspecto da divindade, uma imitação humana da Tonacatepetl, a "Montanha de Sustento" de Tlaloc. Ao mesmo tempo, com a típica paixão mesoamericana pela dualidade, também representava Coatepetl, a "Montanha da Serpente" sagrada, onde Huitzilopochtli derrotou os demais deuses.

Remover publicidades
Publicidade

Sacred Precinct, Tenochtitlan
Distrito Sagrado de Tenochtitlán
Steve Cadman (CC BY-SA)

O templo do lado norte, pintado com listras azuis e dedicado a Tlaloc, marcava o solstício de verão (símbolo da estação chuvosa), enquanto o santuário ao sul, de Huitzilopochtli e pintado de vermelho, tinha a mesma função em relação ao solstício de inverno (a estação seca e, portanto, época de guerra). Dentro de cada santuário havia uma estátua de madeira do deus respectivo. Os degraus monumentais que levavam ao templo de Tlaloc, pintados de azul e branco, representavam a água, elemento tão fortemente associado ao deus. Em contraste, os degraus que conduziam ao templo de Huitzilopochtli estavam pintados de vermelho vivo, simbolizando sangue e guerra. As escadarias continham esculturas de cabeças de serpente; as de Tlaloc ostentavam viseiras, enquanto as de Huitzilopochtli exibiam decorações com penas.

Sacrifícios Humanos

Considerava-se Tlaloc tanto um doador da chuva, essencial num ambiente instável, quanto uma força destrutiva devido às tempestades, enchentes e secas. Uma dupla razão, então, para que os astecas fizessem tudo o que podiam para manter esta inconstante divindade de bom humor. Huitzilopochtli, o principal deus do panteão asteca, era a divindade do sol, guerra, ouro, governantes e o patrono de Tenochtitlán.

Remover publicidades
Publicidade

Para os astecas, a melhor forma de conquistar o favor destes dois poderosos deuses era venerá-los com um impressionante monumento sagrado à altura deles, e regularmente oferecer sacrifícios para satisfazer seus vigorosos apetites e perpetuar a harmonia entre deuses e a humanidade. Além disso, consideravam-se as oferendas como um pagamento diante dos sacrifícios realizados pelas próprias divindades quando criaram o mundo. Estas ofertas poderiam tomar as formas de alimentos, flores e objetos preciosos (conchas e corais, por exemplo, foram descobertos no santuário de Tlaloc), mas também sangue, especialmente em períodos específicos do calendário. O sacrifício de animais e a sangria não-fatal entre a classe sacerdotal eram práticas comuns, mas os astecas se tornaram célebres pela sua mais importante e dramática forma de oferenda: o sacrifício humano.

Um sacrifício típico requeria que a vítima fosse estendida sobre uma pedra, enquanto um sacerdote, armado com uma faca de obsidiana, arrancava-lhe o coração e então a decapitava e desmembrava. Em seguida, atirava-se o cadáver pelos degraus para que caíssem na base da pirâmide, onde uma enorme pedra redonda retratava Coyolxauhqui, a divindade que havia sido tratada de forma similar por Huitzilopochtli na mitologia asteca, como castigo por ter liderado uma rebelião contra o grande deus. Finalmente, as cabeças das vítimas eram dispostas em plataformas conhecidas como tzompantli, instaladas na base da pirâmide.

Escolhiam-se como vítimas sacrificiais geralmente os prisioneiros de guerra, além de crianças, cujas lágrimas eram consideradas uma conexão favorável com as gotas de chuva doadoras de vida de Tlaloc. Os sacerdotes que se encarregavam desta carnificina, em certas ocasiões, comiam a carne das vítimas, com especial predileção pelo coração, se este não tivesse sido queimado como oferenda aos deuses. O governante asteca, nobres privilegiados e aqueles que tinham capturado os prisioneiros na guerra também participavam deste banquete simbólico.

Remover publicidades
Publicidade

Principais Cerimônias no Templo Maior

Os sacrifícios também poderiam ocorrer para comemorar eventos estatais importantes. Um dos mais célebres foi a carnificina de prisioneiros de guerra que durou quatro dias, em 1487, quando Ahuitzotl rededicou o templo e o aumentou ainda mais para comemorar seus triunfos imperiais. Outro evento relevante era a Cerimônia do Fogo Novo, realizada a cada 52 anos - um ciclo solar completo no calendário asteca - quando a primeira tocha flamejante vinha do Monte Huixachtlán para acender o fogo sagrado no topo do Templo Maior, e, em seguida, em todos os demais santuários da cidade.

O Templo Maior tornava-se também um ponto focal durante as celebrações do nascimento de Huitzilopochtli, na cerimônia de Panquetzalitzli, realizada no mês do mesmo nome. Outro importante festival ocorria durante o mês de Toxcatl, quando uma efígie do deus feita de massa e com sua vestimenta ritual percorria a cidade para ser comida no templo. Ali aconteciam os funerais de estado, notavelmente a cremação de três líderes: Axayacatl, Tizoc e Ahuitzotl. Finalmente, as coroações também eram realizadas no templo, como, por exemplo, a do último rei asteca legítimo, Motecuhzoma Xocoyotzin, mais conhecido como Montezuma, em 1502.

Greenstone Mask, Teotihuacan
Máscara de Pedra Verde de Teotihuacan
Dennis Jarvis (CC BY-SA)

História Posterior e Escavação

A pirâmide foi destruída após a Conquista Espanhola – os astecas a haviam usado como um ponto de reunião e a defenderam vigorosamente – e uma cruz cristã colocada em seu topo. Ao longo dos séculos, desapareceu gradualmente em meio às construções coloniais do século XIX, no centro da Cidade do México. Nunca esquecido, o sítio foi escavado sem muito vigor no início do século XX e, então, sistematicamente a partir da década de 1970. Descobriu-se então que havia uma sucessão de pirâmides, cada qual construída sobre a predecessora menor até a plataforma primitiva original, datada com o auxílio de hieróglifos gravados na pedra como sendo de 1390.

Remover publicidades
Publicidade

Muitos artefatos, propositalmente sepultados pelos astecas, também foram recuperados no sítio, incluindo cerâmica fina, figurinhas, joias de jade e madrepérola, esqueletos animais (até de peixes), um crocodilo, duas águias douradas e um jaguar e objetos de civilizações mesoamericanas anteriores, como uma máscara olmeca e outra de Teotihuacan. Três dos maiores achados relacionados ao templo são a pedra de 3,5 metros de diâmetro retratando Coyolxauhqui, na base da pirâmide; um chacmool esculpido (usado para queimar corações de vítimas) do santuário de Tlaloc; e um monólito retangular de 12 toneladas representando a deusa da terra, Tlaltecuhtli. O sítio continua a ser escavado nos dias atuais e periodicamente há descobertas que fornecem informações adicionais para a história do maior dos monumentos astecas.

Remover publicidades
Publicidade

Sobre o tradutor

Ricardo Albuquerque
Ricardo é um jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o autor

Mark Cartwright
Mark é autor, pesquisador, historiador e editor em tempo integral. Seus principais interesses incluem arte, arquitetura e descobrir as ideias que todas as civilizações compartilham. Ele possui mestrado em Filosofia Política e é diretor editorial da WHE.

Citar este trabalho

Estilo APA

Cartwright, M. (2016, Fevereiro 05). Templo Maior [Templo Mayor]. (R. Albuquerque, Tradutor). World History Encyclopedia. Obtido de https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14388/templo-maior/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Templo Maior." Traduzido por Ricardo Albuquerque. World History Encyclopedia. Última modificação Fevereiro 05, 2016. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14388/templo-maior/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Templo Maior." Traduzido por Ricardo Albuquerque. World History Encyclopedia. World History Encyclopedia, 05 Fev 2016. Web. 25 Mai 2024.