Sir John Hawkins (1532-1595) foi um marinheiro, comerciante e administrador naval da época elisabetana, a quem cabe o registo pouco glorioso (embora não totalmente exato) de ter sido o primeiro traficante de escravos da Inglaterra. Na década de 1560, Hawkins traficou escravos da África Ocidental em três viagens, transportando-os através do Atlântico para venda aos assentamentos coloniais espanhóis no Novo Mundo e obtendo lucros enormes para si próprio e para os investidores, entre os quais se contava a Coroa. O marinheiro esteve envolvido no infame incidente em San Juan de Ulúa, ao largo do México, em 1568, que marcou o início do agravamento das relações entre a Inglaterra e a Espanha. Mais tarde na sua carreira, Hawkins supervisionou reformas na Marinha Real e a construção de navios modernos e bem armados, que ajudaram a derrotar a Armada Espanhola de 1588. Hawkins morreu de doença em 1595, durante uma viagem às Caraíbas para atacar navios espanhóis carregados de tesouros e colónias.
O comércio transatlântico de escravos
John Hawkins, nascido em Plymouth em 1532, tinha sangue de comerciante e marinheiro nas veias, sendo o seu pai William Hawkins, que tinha feito comércio no Brasil na década de 1530. Em 1551, John casou-se com Katherine Gonson, filha do Tesoureiro da Marinha, dando assim início a uma longa ligação com essa instituição. O historiador G.R. Elton faz a seguinte descrição do carácter de John Hawkins:
…era um homem de presença imponente e intelecto notável, com capacidades excecionais como marinheiro, administrador, combatente e diplomata, e dotado de tal charme que até os seus adversários nas colónias espanholas apenas podiam comentar com amargura que, assim que se deixasse Hawkins falar consigo, acabaria por fazer a vontade dele.
(pág. 340)
Em outubro de 1562, John Hawkins liderou uma expedição de três embarcações (a nau Saloman, o galeão Jonas e a barca Swallow) à Guiné, na África Ocidental , onde adquiriu cerca de 500 escravos para transporte para as Américas. Há indícios de que muitos deles, considerados na época tanto pelo comprador como pelo vendedor como uma mera mercadoria sem quaisquer direitos humanos, já eram escravos de governantes africanos antes de Hawkins os ter comprado. O pagamento foi efetuado com rolos baratos de tecido colorido e outras bugigangas. É possível que um número adicional de escravos já estivesse nas mãos de comerciantes portugueses que, ignorando a política comercial protecionista do seu governo, venderam de bom grado a um comprador disposto a adquirir-lhes ali mesmo. Por fim, os escravos também podem ter sido retirados à força das aldeias pelos homens de Hawkins. É difícil distinguir os acontecimentos reais sobre a forma como todos os escravos foram adquiridos dos relatos dos funcionários locais, que provavelmente foram adulterados para apaziguar as autoridades superiores em Portugal. O mesmo padrão de duplicidade viria a repetir-se nas Américas espanholas.
O comércio de escravos já se praticava na África Ocidental há meio século, com os portugueses agora estabelecidos como os principais negociantes e os espanhóis como os principais compradores, mas Hawkins demonstrou que era possível a outros negociarem diretamente com os chefes africanos, com os comerciantes europeus ou com ambos. Hawkins não foi o primeiro inglês a negociar escravos na Baía de Benim, pois outros o tinham precedido, nomeadamente Thomas Wyndham e John Lok na década de 1550. No entanto, é Hawkins quem é consistentemente referido nos livros de história como o iniciador de um comércio que já se encontrava bem estabelecido. É verdade que Hawkins teve muito mais sucesso do que os seus compatriotas e demonstrou que era possível ganhar grandes quantias de dinheiro com o transporte brutal de escravos de África para a Europa e as Américas, tal como várias outras nações europeias já tinham descoberto.
No Novo Mundo, os escravos transportados por Hawkins foram vendidos para trabalhar nas plantações de Hispaniola (atual Haiti). Dois dos navios de Hawkins foram apreendidos quando entraram em portos espanhóis nas Índias Ocidentais, um lembrete de que a Espanha controlava o comércio nesta parte do mundo e não acolhia forasteiros, mesmo que Hawkins procurasse negociar abertamente com quem quer que estivesse disposto a fazer negócios com ele. Hawkins pode ter sido muitas coisas, mas não era um contrabandista. Apesar da perda dos navios, Hawkins regressou a Inglaterra com sacos de dinheiro e uma carga de peles e açúcar. A expedição tinha sido financiada por um consórcio de banqueiros londrinos e gerou tanto lucro que foi repetida em 1564. Assim, estabeleceu-se o triângulo comercial (África Ocidental-América Central-Europa Ocidental) que, nas décadas e séculos seguintes, veria inúmeros africanos serem brutalmente conduzidos de um continente para outro com fins lucrativos.
A Segunda Viagem Negreira
Isabel I de Inglaterra (reinou 1558-1603) apoiou a segunda expedição de Hawkins, que estava acompanhado pelo seu jovem primo Francis Drake (cerca de 1540-1596). A rainha chegou mesmo a disponibilizar a nau «Jesus de Lübeck», um gigante de 700 toneladas, mas lamentavelmente em más condições para uma viagem marítima. Entre os outros investidores contavam-se o favorito da altura de Isabel, o cortesão Robert Dudley, 1.º Conde de Leicester (ccerca de 1532-1588), e o ministro-chefe da rainha, William Cecil, Lord Burghley (1520-1598). Hawkins tinha-se tornado o porta-voz de um consórcio de governantes ingleses que tentava impor o comércio livre com as Américas e quebrar o monopólio espanhol naquela região. O comerciante e marinheiro retribuiu essa boa-fé e todos os que investiram lucraram uma quantia avultada com esta segunda viagem, obtendo cerca de 60% de lucro sobre o seu investimento inicial.
A expedição de 1564 repetiu a fórmula da primeira expedição, mas, desta vez, Hawkins capturou ou simplesmente comprou várias naus portuguesas ao longo da costa da África Ocidental e, adquirindo cerca de 600 escravos através do comércio com chefes locais e comerciantes portugueses, tal como antes, transportou-os através do Atlântico e vendeu-os em povoações na costa norte da América do Sul.
Hawkins e os governadores espanhóis tanto em Borburata como em Curaçao conspiraram para inventar uma história segundo a qual a frota inglesa teria ameaçado os seus assentamentos caso o comércio não fosse realizado, escapando assim, mais uma vez, a sanções por parte do governo espanhol. Hawkins recebeu ouro e prata pelos escravos, bem como promessas de compra de mais no futuro. Na viagem de regresso, Hawkins visitou a Jamaica e, em seguida, um assentamento huguenote na Flórida. A pequena frota abasteceu-se de peixe na Terra Nova antes de atravessar novamente o Atlântico e regressar a Plymouth em setembro de 1565. Mais rico do que nunca e com investidores satisfeitos por todo o lado, Hawkins recebeu o seu próprio brasão, que, de forma bastante apropriada, incluía um escravo africano acorrentado. Este pequeno pedaço de história heráldica é prova suficiente de que Hawkins era menos um corsário e mais um pioneiro oficial do comércio para a Coroa Inglesa.
San Juan D'Ulúa
Em outubro de 1567, Hawkins liderou uma terceira expedição de comércio de escravos. Francis Drake esteve novamente presente e, desta vez, foi nomeado capitão do Judith, uma barca de apenas 50 toneladas. A frota era composta por seis embarcações (naus, galeões, barcas e pinaça) e tinha grandes esperanças de repetir o sucesso das duas primeiras viagens de Hawkins. Entretanto, os portugueses já se mostravam mais vigilantes ao longo da costa da África Ocidental para proteger o seu monopólio sobre o comércio de escravos. Consequentemente, e ao contrário das duas expedições anteriores, Hawkins não pôde recorrer a parceiros comerciais estabelecidos e viu-se obrigado a ajudar um líder tribal africano na Serra Leoa a conquistar um povoado vizinho e a adquirir escravos desta forma. Apenas 260 escravos foram capturados neste ataque e Hawkins perdeu alguns dos seus próprios homens. Duas naus portuguesas foram atacadas devido à sua carga e foram capturados mais 100 escravos. Parecia que Hawkins tinha queimado as suas pontes comerciais quando partiu da África Ocidental pela última vez.
Infelizmente para os marinheiros-empresários, a expedição deparou-se com ainda mais problemas quando chegou ao outro lado do Atlântico. Em Borburata, voltou a realizar-se comércio satisfatório, mas no Rio de la Hacha os espanhóis opuseram resistência armada a estes intrusos. Hawkins tomou o povoado à força e, posteriormente, realizou-se algum comércio. Posteriormente, o comércio decorreu de forma amigável em Santa Marta, mas o governador de Cartagena recusou categoricamente. A fácil disponibilidade para o comércio das expedições anteriores tinha claramente chegado ao fim.
Uma tempestade danificou a frota de Hawkins, obrigando-o a encontrar um porto seguro para efetuar reparações. A 23 de setembro de 1568, aporta no porto espanhol de San Juan D'Ulúa, na costa leste do México. As autoridades espanholas locais estavam agora plenamente cientes de que estes comerciantes ingleses estavam a intrometer-se no seu mercado privado. O novo vice-rei do Império Espanhol, Dom Martin Enriquez, ofereceu inicialmente uma recepção pacífica, permitindo que os ingleses ancorassem num banco de cascalho, mas depois, de forma traiçoeira, voltou atrás na sua palavra numa infame reviravolta que os ingleses usariam como mais uma justificação para a pirataria nos 40 anos seguintes. A frota inglesa foi atacada e perdeu quatro embarcações numa batalha feroz, mas Hawkins e Drake sobreviveram e regressaram à Inglaterra separadamente nas duas restantes. Hawkins descreveu toda a infeliz expedição como uma «viagem dolorosa» (Brigden, pág. 275), uma vez que as provisões se esgotaram e os homens foram obrigados a comer o que pudessem da carga, como os macacos e os papagaios destinados a serem vendidos a preços elevados na Inglaterra. Apenas 15 homens da tripulação de 100 que tinha partido do México sobreviveram à viagem de regresso no galeão de Hawkins, o Minion.
Os espanhóis tinham enviado uma mensagem clara de que não tolerariam forasteiros no seu lucrativo circuito comercial entre a Europa e o Novo Mundo, mesmo que as necessidades das suas colónias fossem superiores ao que a própria Espanha conseguia fornecer, especialmente em termos de escravos. No entanto, o controlo mais rigoroso do governo espanhol e o monopólio contínuo sobre todo o tipo de comércio estavam prestes a ser seriamente postos em causa.
A «Crise do Tesouro»
O ataque a San Juan D'Ulúa foi prejudicial para as relações anglo-espanholas, mas do outro lado do Atlântico desenrolavam-se acontecimentos que levaram a que a situação se agravasse consideravelmente entre Isabel I e Filipe II de Espanha e I de Portugal (reinou 1556-1598). Tratava-se da chamada «Crise do Tesouro» de 1568, que se iniciou em novembro, quando cinco naus do tesouro espanhol, transportando cerca de 85 000 libras em moedas de prata e ouro, foram obrigadas a procurar abrigo nos portos de Plymouth e Southampton, na sequência de tempestades e da perseguição por parte de piratas huguenotes. Esta avultada soma de dinheiro destinava-se a pagar aos exércitos espanhóis nos Países Baixos, então sob o controlo de Filipe. Uma vez em porto seguro, a carga foi desembarcada juntamente com documentos que atestavam que o dinheiro provinha de banqueiros genoveses e que não pertencia oficialmente a Filipe até chegar a território sob domínio espanhol. Isabel decidiu que este era um bom momento para minar os fundos de guerra de Filipe e, por isso, perguntou se os banqueiros genoveses não prefeririam emprestar-lhe o dinheiro. Os italianos, percebendo que era improvável que Filipe conseguisse agora o seu empréstimo, aceitaram. Em retaliação, Filipe ordenou que todos os navios ingleses e mercadorias comerciais nos Países Baixos fossem apreendidos em dezembro de 1568. Isabel respondeu ordenando que todos os navios espanhóis e mercadorias comerciais nos portos ingleses fossem apreendidos. À medida que o jogo de retaliações se prolongava, Filipe ordenou que nenhum navio inglês fosse autorizado a comercializar nos Países Baixos, uma situação que se prolongou por cinco anos.
Foi no meio desta crise que Hawkins regressou a Inglaterra. O marinheiro-comerciante provavelmente não ganhou qualquer honra com o fracasso da sua terceira viagem, mas, pelo menos nas circunstâncias diplomáticas do momento, não foi censurado. Até então, nem a Inglaterra nem a Espanha estavam dispostas a entrar em guerra por questões comerciais, mas um conflito armado era a consequência final das relações anglo-espanholas em constante deterioração. Entretanto, Hawkins caiu no esquecimento durante uma década, mas o início desta guerra significou que ele recebeu outra oportunidade de servir o seu país.
A Marinha Real
A partir de 1569, John Hawkins deixou de partir para o mar em expedições, passando a envolver-se cada vez mais com a Marinha Real Inglesa. Em 1578 (ou 1579 ou 1580 — os historiadores não chegam a um consenso), foi nomeado tesoureiro da marinha e, nessa qualidade, reestruturou esta instituição ainda jovem, melhorando a sua organização e estruturas de comando, bem como modernizando as suas táticas de combate. Hawkins sabia, por experiência própria, o valor de navios rápidos e manobráveis face às embarcações espanholas, maiores, mais lentas e mais pesadas, pelo que a marinha foi reconstruída de acordo com esses princípios. Ao longo da década seguinte, a marinha pôde assim orgulhar-se de possuir embarcações de vanguarda tão notáveis como os galeões «Ark Royal» e «Revenge». Quando terminou o seu trabalho, a Marinha Real contava com 23 veleiros e 18 pinaças (barca leve; embarcações mais pequenas, úteis para operações junto à costa).
Hawkins também tinha constatado por si próprio que um navio capaz de disparar uma boa salva de canhões era muito mais eficaz do que o método mais tradicional de abordar um navio inimigo. Além disso, os canhões estavam montados em carruagens de quatro rodas, o que acelerava os tempos de recarga e permitia disparar projéteis mais pesados. Outras inovações incluíram a criação de embarcações mais arejadas para facilitar a limpeza e reduzir o terrível impacto que as doenças tinham nas tripulações navais. Foram adotadas velas mais planas, que eram mais fáceis de manobrar e proporcionavam maior velocidade. Conseguiu até persuadir o governo a consentir num aumento salarial para os marinheiros, na esperança de atrair indivíduos de maior calibre para o serviço. Tudo isto foi alcançado apesar dos fundos limitados e dos membros do conselho da marinha, irremediavelmente antiquados e praticamente inexperientes. Como Hawkins observou numa carta privada, os membros do conselho eram difíceis de gerir:
Os oficiais superiores que servem neste cargo tornaram-se tão orgulhosos, obstinados e insolentes que nada os satisfaz, e os subalternos são extremamente desobedientes, a tal ponto que um homem poderia preferir morrer a viver sob a obrigação de satisfazer todas as suas exigências desmedidas.
(Bicheno, pág. 281)
Hawkins também apoiava a política de corso, mesmo que a falta de coordenação por parte dos ingleses e o maior recurso a comboios por parte dos espanhóis resultassem em ganhos cada vez menores.
Armada Espanhola
No verão de 1588, a Inglaterra foi ameaçada pela Armada Espanhola de Filipe II de Espanha e I de Portugal, que este pretendia utilizar para transportar um exército invasor proveniente dos Países Baixos. Hawkins serviu como contra-almirante da frota inglesa que enfrentou esta armada e, nessa qualidade, era o terceiro no comando, atrás de Lord Howard e Francis Drake. Hawkins comandou a nau «Victory», de 565 toneladas, mas a sua melhor contribuição para a batalha foi a conceção dos navios que vinha a construir e do seu armamento. A frota inglesa foi imensamente ajudada pelo mau tempo durante as batalhas no Canal da Mancha, mas também dispunha de navios mais rápidos, era muito mais ágil e conseguia disparar os seus canhões a distâncias maiores do que o inimigo. Na sequência da vitória, Hawkins foi nomeado cavaleiro por uma rainha agradecida.
1595: a Expedição Final e Morte
No início da década de 1590, Hawkins dedicou-se à pirataria na região dos Açores. Depois, em agosto de 1595, Hawkins e Drake uniram-se para liderar em conjunto uma grande expedição às Caraíbas. Os homens acorreram às docas de Plymouth, ansiosos por se alistarem e navegarem com dois dos grandes nomes da marinha inglesa. O objetivo da frota de 27 embarcações (galeões de guerra, ~12 a 15 naus, e ~6 a 8 naviospinaças) era atacar o Istmo do Panamá, por onde passavam as caravanas espanholas de prata. Antes disso, os ingleses pretendiam capturar um navio do tesouro espanhol avariado que se encontrava a ser reparado em Porto Rico. Infelizmente, Hawkins faleceu de doença a 12 de novembro, durante a viagem para lá, e o ataque a Porto Rico acabou por ser um fracasso total. As defesas espanholas tinham sido avisadas da chegada da frota inglesa, o que lhes deu tempo para instalar canhões adicionais, e esta informação também fez com que nenhum navio do tesouro se arriscasse a passar pela zona. Atormentados por ventos desfavoráveis enquanto a doença se alastrava entre as tripulações, o próprio Drake morreu de disenteria em Portobelo, a 28 de janeiro de 1596. Foi o fim de uma era na história naval inglesa.
