A peça satírica O Ciclope foi escrita por Eurípides, um dos grandes trágicos gregos, em 412 ou 408 a.C. À semelhança de muitos dos escritores trágicos, Eurípides centra a peça numa história bem conhecida da mitologia grega, ja que O Ciclope tem por base a personagem principal da Odisseia, do poeta épico Homero: Odisseu (Ulisses).
Uma peça satírica, embora semelhante em estilo e frequentemente muito mais curta, não é, por definição, uma tragédia e, na maioria das vezes, tem um final feliz. Estes tipos de peças centram-se num coro de criaturas que são metade humanas e metade bestas (algumas fontes referem cabra, outras cavalo), os devotos seguidores de Dioniso. Tal como na Odisseia, Odisseu e a sua tripulação foram desviados da rota durante a viagem de regresso da Guerra de Troia para a ilha natal, Ítaca, acabando por chegar à Sicília. Em busca de comida, são acolhidos por um sátiro idoso chamado Sileno que, juntamente com outros sátiros, é mantido como escravo na ilha pelo ciclope Polifemo. Diferindo ligeiramente da história de Homero, Odisseu tem de impedir que ele e os seus homens sejam devorados por Polifemo. Eventualmente, consegue cegar o ciclope e escapar. O Ciclope é a única peça satírica grega que chegou aos nossos dias na íntegra.
A Vida de Eurípides
Sabe-se muito pouco sobre o início da vida de Eurípides. Nasceu na década de 480 a.C. na ilha de Salamina, perto de Atenas, numa família de sacerdotes hereditários. Como autor de mais de 90 peças (das quais 19 sobreviveram), foi o mais jovem dos grandes trágicos; os outros dois foram Ésquilo e Sófocles. Embora preferisse uma vida de solidão, na companhia dos seus livros, foi casado, supostamente de forma infeliz, e teve três filhos, um dos quais se tornou um dramaturgo notável. Ao contrário dos escritoress trágicos, Eurípides desempenhou pouco ou nenhum papel nos assuntos políticos atenienses; a única exceção foi uma breve missão diplomática a Siracusa, na Sicília. O poeta fez a sua estreia no concurso das Dionísias em 455 a.C., mas só alcançou a sua primeira vitória em 441 a.C. Infelizmente, a sua participação nestas competições não se revelou muito bem-sucedida, tendo conquistado apenas quatro vitórias; uma quinta vitória surgiu após a sua morte.
O filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) chamou a Eurípides o mais trágico dos poetas gregos. A classicista Edith Hamilton, no seu livro O Caminho Grego (tít. original: The Greek Way), concordou com esta avaliação ao escrever que ele era o mais triste, um poeta do sofrimento do mundo. «Ele sente, como nenhum outro escritor sentiu, a natureza lastimável da vida humana, como a de crianças que sofrem impotentes o que não conhecem e nunca poderão compreender» (pág. 205). Acrescentou que só ele conhecia as «profundezas sombrias da dor». Possivelmente amargurado, e com a Guerra do Peloponeso a decorrer entre Esparta e Atenas, deixou Atenas em 408 a.C., a convite do Rei Arquelau, para viver o resto da vida na Macedónia, onde faleceu em 406 a.C. No seu livro Greek Drama (Teatro Grego), Moses Hadas afirmou que o público passou a apreciar o seu estilo e visão, vendo as suas peças como mais empáticas do que as dos seus contemporâneos. Embora frequentemente incompreendido durante a sua vida e nunca tendo recebido a aclamação que merecia, tornou-se um dos poetas mais admirados muito depois da sua morte, influenciando não só os dramaturgos gregos, mas também os romanos.
O Resumo da Peça
Após a vitória em Troia, Odisseu e os seus homens regressam a casa, a Ítaca, quando, infelizmente, são desviados da rota e desembarcam na Sicília, perto do Monte Etna. A ilha é habitada por um ciclope chamado Polifemo, filho de Posídon, o deus grego do mar. Em busca de alimento, são acolhidos por um sátiro idoso chamado Sileno que, juntamente com os seus filhos, é escravo do gigante ciclope. Sabendo que os sátiros são seguidores de Dioniso, o deus do vinho, Odisseu oferece-se para trocar vinho por comida. Sileno avisa o grego de que o ciclope regressará em breve e que os devorará a todos. Quando Polifemo regressa, Sileno trai Odisseu, acusando-o de roubar a comida. Odisseu e a tripulação são conduzidos para uma gruta onde o ciclope começa a devorá-los.
Com a ajuda dos sátiros, Odisseu elabora um plano para cegar o ciclope e escapar. Depois de embebedar Polifemo, Odisseu cega-o com sucesso usando um atiçador gigante — os sátiros, na verdade, revelam ser de pouca ajuda — e consegue fugir. A fuga é uma ligeira variação da versão da história de Homero. Odisseu e a restante tripulação conseguem embarcar e zarpar. Ao abandonar a ilha, Odisseu identifica-se por erro. O ciclope diz-lhe que um antigo oráculo se cumpriu e que ele irá vaguear pelos mares durante anos.
O Elenco de Personagens
O elenco, bastante reduzido, inclui:
- Sileno, um sátiro idoso;
- Odisseu, o herói grego;
- Polifemo, o ciclope:
- Um coro de sátiros.
A Peça
A peça abre no exterior de uma gruta no sopé do Monte Etna, na ilha da Sicília. Enquanto os filhos estão fora a guardar um rebanho de ovelhas, Sileno — um velho sátiro — diz: «Estou encarregado de ficar, encher os cochos, limpar estas dependências e fazer de cozinheiro para o jantar sem Deus deste ímpio Ciclope.» (pág. 184). Quando os filhos regressam, Sileno vê o navio grego de Odisseu chegar à costa próxima. Vendo que trazem jarros e percebendo que talvez estejam à procura de mantimentos, diz aos filhos: «Eles não podem saber como é este Polifemo, vindo a esta terra inóspita e — que má sorte — às mandíbulas devoradoras de homens do Ciclope.» (pág. 186). Odisseu dirige-se ao velho sátiro, identifica-se e pergunta onde poderá encontrar água. «Viemos de Troia e da guerra que lá decorreu.» (pág. 187). Infelizmente, foram empurrados pelo vento e por uma tempestade para as costas da ilha. Sileno conta como o mesmo lhe aconteceu a ele — quando perseguia piratas que tinham capturado Dioniso. Quando questionado, identifica o local como sendo o Etna — o pico mais alto da Sicília.
Curiosamente, Odisseu perguntou quem vivia ali, num lugar sem muralhas ou casas. Sileno responde: «Os Ciclopes. Vivem em grutas, não em casas.» (pág. 188). Não havia governo, pois os gigantes de um só olho, os ciclopes, são selvagens e alimentam-se de leite, queijo e ovelhas, mas, «Os estranhos, dizem eles, fazem a refeição mais saborosa» (pág. 188). Numa tentativa de ser rápido e escapar antes que o Ciclope regresse, Odisseu oferece-se para comprar pão e carne. O vinho, contudo, tocou o coração do velho Sileno, um devoto seguidor de Dioniso. Sileno entra na gruta, regressando com queijo e cordeiros. No entanto, ao longe, vê o Ciclope a regressar. Sileno diz a Odisseu e aos seus homens que precisam de se esconder na gruta, mas Odisseu recusa com orgulho. «Se temos de morrer, que morramos com honra. Mas se vivermos, viveremos com a nossa antiga glória.» (pág. 193).
Ao regressar, o Ciclope vê os gregos parados fora da gruta. Sileno trai Odisseu, dizendo que os gregos o espancaram e roubaram a comida. «Tentei avisá-los. Mas continuaram a roubar. Tentei impedi-los de levar os teus cordeiros e de comer os teus queijos.» (pág. 194). Odisseu defende-se. «Este indivíduo aqui vendeu-nos alguns cordeiros em troca de vinho — tudo de forma voluntária, sem coação.» (pág. 195). O Ciclope, contudo, acredita em Sileno, e não em Odisseu. Odisseu faz um apelo pelos seus homens: «Não profanes a tua boca comendo-nos.» (pág. 196). Mas Sileno aconselha-o a comê-los a todos. O Ciclope fala diretamente a Odisseu: «Continuarei a mimar-me — comendo-te.» (pág. 198). Por respeito, contudo, deixá-lo-á para o fim. Quando o Ciclope pergunta o nome a Odisseu, o orgulhoso grego responde que «Ninguém» era o seu nome.
O Ciclope arrasta os gregos para a gruta, seguido por Sileno. Odisseu observa enquanto dois dos seus homens são devorados. «Zeus, como posso dizer o que vi naquela gruta? Horrores inacreditáveis, o tipo de coisas de que os homens ouvem falar nos mitos, não na vida real!» (pág. 199). Ele vira-se para o líder do coro: «Ele agarrou dois dos meus homens, os mais saudáveis e robustos. Pesou-os nas mãos.» (pág. 199). Odisseu oferece ao Ciclope uma prova do seu vinho — «as uvas da Grécia». Ao embebedar o Ciclope com vinho, Odisseu consegue libertar-se da gruta. Falando novamente com o líder, conta-lhe o plano que concebeu: continuará a dar vinho ao Ciclope e «...assim que o vinho o fizer adormecer, pegarei na minha espada e afiarei um ramo de oliveira que vi dentro da gruta. Colocá-lo-ei nas brasas e, quando estiver a arder, espetá-lo-ei bem fundo, diretamente no olho do Ciclope.» (pág. 202). Para ter sucesso, porém, precisará da ajuda do líder do coro. O líder do coro está mais do que disposto a ajudar, pois também deseja escapar do Ciclope.
Ao ver Odisseu parado fora da gruta, o Ciclope exige mais vinho — deverá partilhá-lo com os seus irmãos? Odisseu diz-lhe que não precisa de o partilhar com mais ninguém. O Ciclope continua a beber. Odisseu diz-lhe: «Toma, pega nele e bebe até à última gota, e não dês a vitória como certa até que o vinho tenha acabado.» (pág. 208). O Ciclope arrasta então Sileno para o interior da gruta. Odisseu percebe que é altura de executar o seu plano, mas o líder do coro mostra-se relutante em ajudar porque torceu o tornozelo. Um Odisseu furioso grita: «Que cobardes inúteis. Não há qualquer ajuda vinda de vós.» (pág. 211). Odisseu entra na gruta. De repente, o Ciclope grita: «O meu olho foi reduzido a cinzas.» (pág. 212). Enquanto o Ciclope procura freneticamente e às cegas pelos gregos, Odisseu e os seus homens escapam da gruta. O líder do coro começa a dar indicações falsas ao Ciclope cego: «Ali à tua esquerda.» E: «Ele está à tua frente.» (pág. 215). O Ciclope continua a perguntar: «Onde está o Ninguém?» (pág. 213). O líder responde friamente: «Em lado nenhum.» Antes de partir, Odisseu finalmente identifica-se: «Tiveste de pagar pela tua refeição impia.» (pág. 215). O Ciclope responde: «O antigo oráculo cumpriu-se. Dizia que, depois de vires de Troia, me cegarias. Mas que pagarias por isto, dizia, e vaguearias pelos mares durante muitos anos.» (pág. 215). Odisseu retira-se: «O que está feito, feito está.»
Conclusão
Fiel à sua natureza, a peça terminou feliz, pelo menos para Odisseu. Escapou da ilha, mas ainda demoraria algum tempo até ver a sua casa. Embora se desconheça a data exata de quando foi escrita, O Ciclope permanece como o único exemplo completo de uma peça satírica que sobreviveu intacta. A obra é, naturalmente, largamente ofuscada pela epopeia de Homero e não é considerada uma das melhores ou mais populares obras de Eurípides. O trágico recebeu, por exemplo, críticas consideráveis devido a algumas das alterações que fez à história da Odisseia. Apresentou os sátiros como cobardes e alterou a fuga de Odisseu ao eliminar a rocha que cobria a entrada da gruta e que tinha bloqueado a saída dos gregos. A peça foi traduzida pelo poeta inglês Percy Bysshe Shelley em 1819 e ainda é representada ocasionalmente.

