O governo de Cartago baseava-se num sistema de funcionários eleitos, responsáveis perante uma assembleia popular. Ao contrário da sua cidade fundadora, Tiro, na Fenícia, Cartago não tinha uma monarquia, mas a política era dominada por uma elite aristocrática, composta por clãs rivais, que detinha todos os importantes cargos políticos, judiciais e militares. Tal como noutras culturas antigas da época, a participação na vida política e na assembleia popular da cidade estava limitada aos que possuíam cidadania — homens autóctone e livres. Embora o sistema tenha sido elogiado por figuras notáveis como Aristóteles, alguns dos mecanismos exatos do governo cartaginês permaneceram obscuros, uma situação ainda mais confusa pelo facto dos escritores gregos e romanos usarem a sua própria terminologia familiar para descrever as instituições políticas de Cartago.
Sufetes
O cargo mais poderoso no governo cartaginês era ocupado conjuntamente por dois magistrados eleitos anualmente, conhecidos como sufetes (latinizado a partir do púnico sptm ou shophetim e convencionalmente traduzido como "juízes"). Substituíram o sistema monárquico inicial por volta do início do século VII a.C., e, por isso, a sua associação com questões puramente judiciais pode também ter-se alargado no âmbito político à medida que o cargo evoluía. Também é possível que tenha havido apenas um sufete no primeiro século ou algo similar do novo sistema. A partir do século V a.C., tornou-se padrão a eleição de dois sufetes, um que liderava as forças armadas de Cartago em tempo de guerra e o outro que governava em casa. Fontes gregas e romanas indicam que os sufetes operavam em colaboração com o senado e também se ocupavam de processos civis. A riqueza e as origens familiares parecem ter sido os dois fatores mais importantes para ser considerado elegível para a função. A posição de sufete continuou a existir mesmo quando o Norte de África se tornou uma província romana e está registada pelo menos até ao século II d.C.
Senado
Cartago, mesmo sob a sua forma mais antiga de monarquia, tinha um senado composto por cidadãos influentes, conhecidos como drm ou os "grandes" e detinham o cargo vitaliciamente. Não se sabe como estes membros senatoriais eram selecionados, mas é provável que o seu número estivesse entre os 200 e os 300. Reuniam-se num edifício no mercado de Cartago, mas também por vezes no templo de Eshmun, na colina de Birsa. Os sufetes consultavam o senado sobre a política governamental - assuntos militares, diplomáticos e financeiros - e, se as duas partes discordassem, realizar-se-ia uma votação decisiva na assembleia popular de cidadãos (ver abaixo). Além disso, se um sufete não estivesse de acordo, a assembleia seria novamente consultada.
Sabe-se que o senado decidia sobre declarações de guerra, se devia ou não enviar exércitos adicionais para apoiar generais no terreno, punições para comandantes que falhassem nos seus objetivos e se devia aceitar termos de paz oferecidos pelo inimigo. O senado também enviou representantes com o exército de Aníbal a Espanha e Itália e assinou o tratado de paz do comandante com a Macedónia em 215 a.C. No entanto, também é verdade que os comandantes muitas vezes agiam de forma bastante independente quando estavam em campanha pelo Mediterrâneo, o que levou o político ateniense Isócrates a afirmar que Cartago era "governada por uma oligarquia em casa, (e) por um rei no campo" (Miles, pág. 146).
Altos Funcionários
Certos senadores eram selecionados para comissões especiais. Aristóteles descreve-as como consistindo de 5 membros (daí o seu nome 'pentarquias') que atuavam como juízes em tribunais, mas as inscrições púnicas apenas mencionam uma comissão de 10 homens responsáveis por locais religiosos e uma comissão de 30 homens que supervisionava a tributação. Além disso, havia um tesouro de estado (mhsbm) chefiado por um tesoureiro (rb) que é mencionado numa inscrição como impondo penalizações a mercadores que não pagassem as taxas aduaneiras. Outros importantes funcionários estatais eram o chefe dos sacerdotes (rb khnm) e o chefe do exército (rb mhnt), sendo o último muito frequentemente também um sufete em conflitos importantes.
Todas estas posições eram elegíveis e parecem ter tido um mandato limitado, com exceção do general que servia durante o período de uma guerra. Estas limitações eram, sem dúvida, para evitar que os indivíduos se tornassem demasiado poderosos, mas não parece ter travado a corrupção. O suborno - para votos, decisões favoráveis e acesso a posições elevadas - e o desvio de fundos eram um problema tão grande que a primeira tarefa de Aníbal, ao ser eleito sufete, foi melhorar a corrupção endémica que estava a paralisar as finanças do estado. A corrupção não era ajudada pela ausência de um salário para os funcionários estatais, um facto que também significava que tais posições só estavam abertas a quem tivesse uma fonte de rendimento privado.
A partir do século V a.C., um ramo especial do senado, composto por 104 membros, reuniu-se para avaliar o desempenho militar dos comandantes no final das suas campanhas. Imaginamos que o número seja derivado de 100 senadores mais os dois sufetes, o tesoureiro e o chefe dos sacerdotes. A participação no conselho dos 104 era vitalícia. Era responsável por decidir o destino de generais e almirantes que falhavam numa campanha, com punições que iam desde multas até à crucificação.
Outro grupo importante de funcionários era o dos administradores selecionados para governar as províncias controladas por Cartago. Cidades aliadas como Útica e Cádis, e territórios no Norte de África, tinham um alto grau de autonomia política, exceto em assuntos militares e estrangeiros. Em troca da proteção de Cartago, tinham de pagar um tributo em dinheiro, armas e homens para o serviço militar. Os funcionários regionais supervisionavam e recolhiam impostos adicionais, como as taxas aduaneiras.
Todos os cargos políticos-chave no governo cartaginês eram dominados por uma elite governante. Esta aristocracia era caracterizada e dominada por famílias rivais (mizreh), nomeadamente os Bárquidas e os Magónidas. No entanto, para cidadãos empreendedores, especialmente mercadores ricos, havia a possibilidade de se juntarem a esta aristocracia, pois a riqueza era o fator preponderante para o sucesso na política. Por outro lado, a elite tradicional era composta por aqueles que podiam alegar descendência dos pais fundadores da colónia, e é claro que a genealogia era uma consideração importante. Isto talvez explique a repetição bastante confusa de nomes de geração em geração, resultando em literalmente centenas de 'Hánones', 'Amílcares' e 'Aníbais'.
Assembleia e Cidadania
A assembleia popular de Cartago era conhecida como ‘m (pronuncia-se ham), que se traduz como "o povo". Reuniam-se na praça do mercado da cidade, e os seus principais poderes eram votar em questões propostas pelos sufetes e pelo senado, e a eleição de funcionários, incluindo os sufetes, o sumo sacerdote e o tesoureiro, e comandantes militares. A qualificação para participar na assembleia, para além de possuir cidadania, e o sistema de votação não são conhecidos.
A cidadania era reservada aos homens da cidade de Cartago; as mulheres, os escravos e os estrangeiros não podiam desfrutar do estatuto de cidadão. Existem alguns indicadores no registo histórico de que poderia ter havido um segundo nível de cidadãos composto por ex-escravos e artesãos estrangeiros, mas continua a ser debatida entre os historiadores a existência de dois níveis de cidadania. Os cidadãos eram organizados em associações (mizrehim) ou clubes familiares que se distinguiam uns dos outros pela sua devoção a um deus específico, a profissão dos seus membros, ou, talvez até, por serem compostos por quem tenha combatido junto em batalha. Tais associações frequentemente uniam-se através de banquetes partilhados.
Os cidadãos das cidades aliadas no Norte de África tinham um estatuto semelhante ou igual aos seus homólogos em Cartago no que diz respeito ao direito civil. Desconhece-se o estatuto daqueles que viviam nos assentamentos menores das áreas sob controlo cartaginês. O mais certo é que o nível de integração dos povos no império cartaginês fosse bastante baixo, com a consequência de que em tempos de perigo, como as Guerras Púnicas com Roma, muitas cidades desertaram para o lado romano. Cartago explorava as suas colónias, mas não fez verdadeiros esforços para fomentar um sentimento de pertença nos seus estados aliados e conquistados, o que significou que quando Cartago caiu, também desmoronou o seu império.
