Qanat

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Corey S. Vaughan
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Qanat Cross-Section (by Samuel Bailey, CC BY)
Perfil Transversal de um Qanat Samuel Bailey (CC BY)

A antiga técnica de irrigação do Médio Oriente qanat (designado foggara no Norte de África e no Levante; falaj nos Emirados Árabes Unidos e em Omã; kariz no Irão; e puquios no Peru) consiste na escavação de um longo túnel em terrenos áridos para aceder à água de aquíferos subterrâneos, disponibilizando-a para consumo da população local e viabilizando a sobrevivência de grandes colonatos, apesar das condições ambientais hostis.

Os qanats têm início em poços profundos escavados em terrenos elevados e culminam em fluxos de água que correm através de canais até aos aglomerados populacionais. Estes caudais sustentam as comunidades, fornecendo água para as culturas agrícolas e para o abastecimento público.

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Alimentadas exclusivamente pela força da gravidade, estas maravilhas simples da arquitetura antiga permitiram que povoações em climas áridos tivessem um acesso fiável à água, por vezes ao longo de séculos. Atualmente, dezenas de milhares de qanats continuam em funcionamento em cerca de 35 países por todo o mundo.

A Origem e a Difusão dos Qanats

Qanat é o termo árabe para "conduta" e é a designação mais amplamente utilizada para este sistema de irrigação entre os falantes de língua inglesa (e portuguesa). Os exemplos mais antigos de qanats foram encontrados na antiga Pérsia (o atual Irão), na Arábia, no Iraque e na Turquia, sendo a perspetiva mais consensual a de que os qanats são uma das invenções e inovações da antiga Pérsia, tendo-se difundido por toda a região durante a expansão do Império Aqueménida (cerca de 550–330 a.C.). Esta visão era partilhada pelo historiador da Grécia Antiga, Políbio, que escreveu na obra Histórias (título original: Ἱστορίαι - Historíai):

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Diz-se que, na época em que os persas governavam a Ásia, estes concediam àqueles que levassem água a locais anteriormente não irrigados o direito de cultivar a terra por cinco gerações; consequentemente, como o Monte Tauro tem muitos caudais caudalosos que dele descem, as pessoas incorriam em grandes despesas e trabalhos para construir canais subterrâneos que se estendiam por longas distâncias, de tal forma que, nos dias de hoje, quem usufrui dessa água não sabe de onde provém o abastecimento dos canais.

(X.IV)

Contudo, uma perspetiva emergente sugere que os qanats tiveram origem no sul da Arábia (atuais Omã e Emirados Árabes Unidos) e que, a partir daí, se difundiram para a Pérsia ou se desenvolveram nesta última de forma independente. Seja qual for o local exato de origem do qanat, as evidências arqueológicas sugerem que já existiam povoações no ano 1000 a.C. dependentes de sistemas de irrigação por qanat, o que significa que estes têm, pelo menos, 3000 anos.

A fonte de abastecimento de água de um qanat são as águas subterrâneas, e não um lago, um rio ou uma nascente.

Os historiadores divergem quanto à trajetória de desenvolvimento da tecnologia dos qanats por todo o Norte de África e pela região mediterrânica nos anos que se seguiram ao Império Aqueménida, com alguns a defenderem um desenvolvimento independente, outros uma via mediterrânica e outros ainda uma via saariana.

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Aqueles que sustentam a ocorrência de um desenvolvimento independente sugerem que a tecnologia dos qanats foi uma resposta natural às condições áridas encontradas no Norte de África, no Deserto do Sara e em todo o Médio Oriente. Esta perspetiva também contempla a difusão tecnológica, reconhecendo a expansão dos qanats para a Europa e por todo o Médio Oriente em resultado das ligações entre povos.

A via mediterrânica de desenvolvimento sugere que a conquista e o repovoamento foram as forças motrizes por detrás da difusão desta tecnologia. Os romanos aprenderam com os persas e, mais tarde, conquistaram territórios no Norte de África, introduzindo a tecnologia adquirida nestas regiões áridas a partir do outro lado do Mediterrâneo. Entretanto, os persas que procuravam refúgio fugiram através do Saara, levando consigo os seus avanços tecnológicos.

Por fim, a via saariana de desenvolvimento sugere que a tecnologia dos qanats se expandiu para oeste em direção ao Norte de África — transitando dos aqueménidas para o Egito, depois para a Líbia e a Argélia —, avançando finalmente para norte, rumo ao Império Romano e à Europa continental.

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Independentemente de qual tenha sido a trajetória ocidental desta tecnologia nos anos posteriores ao Império Aqueménida, os académicos concordam, de um modo geral, que a presença de qanats nas Américas foi o resultado da colonização espanhola, e que a difusão oriental destas estruturas para o Afeganistão, Paquistão, China e Japão se deveu à interconectividade ao longo das rotas comerciais, particularmente da Rota da Seda.

Os qanats são semelhantes a outros aquedutos de civilizações antigas pelo facto de transportarem água através de túneis subterrâneos; contudo, diferem na medida em que a fonte de abastecimento de um qanat são as águas subterrâneas, e não um lago, um rio ou uma nascente. Por exemplo, o Império Neoassírio (912–612 a.C.) desenvolveu um sistema de aquedutos alimentado por rios que incluía, inclusivamente, o mesmo tipo de poços de ventilação vertical encontrados nos qanats. Ao longo do tempo, reis célebres como Assurnasirpal II, Tiglate-Pileser III, Assaradão e Senaqueribe foram acrescentando túneis e canais a este sistema.

Contemporâneos dos assírios, como o reino de Israel, também construíram aquedutos subterrâneos semelhantes. Em Israel, o Rei Ezequias supervisionou a construção de uma conduta abastecida por uma nascente subterrânea. Mesmo os prestigiados aquedutos romanos eram, na sua maioria, alimentados por nascentes e rios, até adotarem a tecnologia dos qanats nos seus territórios do Médio Oriente e do Norte de África. Foi a utilização de águas subterrâneas que distinguiu os qanats dos seus congéneres.

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A Construção dos Qanats

A sustentabilidade e a longevidade de um qanat devem-se ao seu desenho. No antigo Irão eram construídos exclusivamente por muqqanis, artesãos persas profissionais e itinerantes, e estes antigos arquitetos começavam por identificar um cone de dejeto (ou leque aluvial) como fonte de água subterrânea e, em seguida, escavavam um "poço-mãe" para atingir o lençol freático. Os poços atingiam frequentemente cerca de 100 metros (328 pés) de profundidade, sendo que o poço mais profundo de que há registo mede 300 metros (984 pés). Se o aquífero fornecesse água suficiente, os muqqanis começavam a traçar o percurso do qanat desde o poço-mãe até à superfície. Os construtores levavam em conta a inclinação da encosta descendente para que o fluxo de água permanecesse constante, mas sem levantar sedimentos ou danificar o túnel.

Alluvial Fan
Cone de Dejeto Andrew Smith (CC BY-SA)

Assim que o percurso estivesse totalmente traçado até à foz do túnel, os muqqanis começavam a escavar poços de ventilação a intervalos regulares ao longo do trajeto delineado para o qanat. Estes poços não só forneciam ventilação aos operários, como também serviam de guia visual à medida que estes escavavam o túnel. A escavação começava na foz do túnel, onde as paredes eram frequentemente reforçadas com pedra, e avançava a montante até alcançar o poço-mãe e o aquífero. Uma vez totalmente escavado o qanat, a construção estava concluída; contudo, os muqqanis continuavam a trabalhar, assegurando a manutenção para garantir que o qanat permanecia funcional ao longo do tempo. Estas técnicas mantiveram-se como o padrão na construção de qanats em todo o mundo durante milénios, visto que os exemplares mais recentes foram construídos recorrendo a métodos semelhantes.

Os qanats podiam ser tão curtos como 1 km (3,280 pés) ou tão longos como 50 km (31 milhas), mas atraíam sempre populações graças ao seu abastecimento constante de água. Em muitos casos, o qanat servia para identificar o estatuto social. As elites instalavam-se frequentemente nas secções superiores, perto do poço-mãe, enquanto os mais desfavorecidos se fixavam junto à secção inferior, onde os caudais eram menores e a água tinha maior probabilidade de estar poluída pelos utilizadores a montante. Apesar das desvantagens de estarem localizados perto da foz do qanat, os mais pobres podiam, ainda assim, contar com um abastecimento de água constante, dado que a evaporação ocorre a um ritmo muito mais lento em condutas subterrâneas. Esta vantagem, somada à sua dependência exclusiva da gravidade como fonte de energia, fez do qanat uma solução ideal para os colonatos antigos em climas áridos. A sua fiabilidade e sustentabilidade ambiental têm, inclusivamente, atraído as atenções renovadas dos climatologistas modernos.

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O Impacto do Qanat

Apesar dos avanços tecnológicos ao longo do tempo, os qanats mantiveram-se como uma fonte de água fiável para o Irão desde o primeiro milénio a.C. até aos dias de hoje.

O Médio Oriente é uma das regiões mais secas do mundo, compreendendo áreas onde a precipitação anual permanece abaixo dos 50 mm (1.9 polegadas). Níveis tão baixos de abastecimento de água são incapazes de sustentar uma população em crescimento, razão pela qual os persas encontraram uma forma tão inovadora de aceder às águas subterrâneas. Apesar dos avanços tecnológicos ao longo do tempo, os qanats mantiveram-se como uma fonte de água fiável para o Irão desde o primeiro milénio a.C. até aos dias de hoje.

Atualmente, existem ainda mais de 30 000 qanats no Irão. Mesmo agora, estas estruturas fornecem um abastecimento de água substancial para compensar a falta de chuva. Por exemplo, o sistema de qanats de Gonabad, na província de Coração, foi construído por volta do século VI a.C. pelos aqueménidas, mas este longo complexo de túneis, poços e canais permanece em uso hoje em dia. Os caudais provenientes do sistema de Gonabad podem descarregar até 150 l/s (39 galões/s), permitindo a irrigação de 150 hectares (370 acres) de terrenos agrícolas. Do mesmo modo, mais de 3 000 qanats em Yazd continuam em funcionamento nos dias de hoje. Alguns têm mais de 1000 anos. Os qanats de Yazd descarregam cerca de 340 milhões de metros cúbicos (mais de 92 mil milhões de galões) de água por ano, fornecendo cerca de 25% do total de águas subterrâneas da província. Trata-se de uma proeza extraordinária, considerando os escassos 60 mm (2,4 polegadas) de precipitação total que Yazd recebe anualmente.

Os qanats também causaram um grande impacto no abastecimento de água e na irrigação em regiões áridas fora do Irão. Um desses exemplos encontra-se na Depressão de Turfan (ou Turpan), em Xinjiang, na China. O sistema de qanats do Oásis de Turfan transporta água das montanhas Tianshan para a Depressão de Turfan. Esta bacia, localizada no oeste da China, possui um clima desértico seco, com uma média de apenas 17 mm (0,67 polegadas) de precipitação anual. No entanto, graças à utilização de mais de 1000 qanats, a Depressão de Turfan consegue receber uns 150 milhões de metros cúbicos (39 mil milhões de galões) adicionais de água todos os anos. O abastecimento constante de água assegurado pelo sistema de qanats sustenta uma população considerável e permite uma irrigação significativa numa área que, de outro modo, seria inabitável.

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Turfan Water System Underground Channel
Canal Subterrâneo do Sistema Hidráulico de Turfan Colegota (CC BY-SA)

O Legado do Qanat

O abastecimento fiável de água viabilizado pela tecnologia dos qanats ajudou a transformar o Médio Oriente e contribuiu para a globalização das rotas comerciais, ao permitir a fundação de povoações e entrepostos comerciais nas regiões áridas do Médio Oriente, do Norte de África e do oeste da China. Além disso, os qanats promoveram mudanças sociais através da instituição de práticas de partilha e gestão dos recursos hídricos provenientes destas estruturas.

Graças aos qanats, desde a Antiguidade áreas muito afastadas de oceanos e mares, com escassa precipitação e sem cursos de água superficiais, têm sido capazes de sustentar o crescimento populacional de forma ecologicamente sustentável e energeticamente eficiente. Este feito serve hoje de inspiração para os especialistas modernos na sua busca por soluções que ajudem a sociedade atual a adaptar os sistemas de produção de água às necessidades de uma população global em expansão.

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Bibliografia

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Vaughan, C. S. (2026, junho 28). Qanat. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14634/qanat/

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Vaughan, Corey S.. "Qanat." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, junho 28, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14634/qanat/.

Estilo MLA

Vaughan, Corey S.. "Qanat." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 28 jun 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14634/qanat/.

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