Pachacuti Inca Yupanqui (muitas vezes chamado simplesmente de Pachacuti ou Pachacutec) foi o 9.º soberano inca (reinou entre 1438 e 1471, tendo fundado o império inca através de conquistas no Vale do Cuzco e além. A Pachacuti é também atribuída a fundação do sítio de Machu Picchu.
O título do soberano inca, Pachacuti, que ele próprio adotou aquando da sua ascensão ao trono, significa «Aquele que inverte o mundo» ou «Aquele que abala a terra», e a mesma palavra era utilizada pelos incas para se referirem ao acontecimento que marcava uma mudança de época ou à «inversão do tempo e do espaço», que acreditavam ocorrer regularmente ao longo da história. Um título bastante apropriado, portanto, para um soberano que colocou o seu povo no caminho da prosperidade e da criação de um império que acabaria por se tornar o maior de sempre nas Américas.
Ascensão ao Poder
De acordo com a história semi-lendária dos primórdios dos Incas, Pachacuti ganhou destaque quando os seus vizinhos belicosos, os Chanca, atacaram Cuzco no início do século XV. O governante inca da época, Viracocha Inca, e o seu filho, Inca Urco, revelaram-se ineficazes para fazer face a esta ameaça e fugiram da cidade. O jovem príncipe Pachacuti (então conhecido como Cusi Yupanki) e um pequeno grupo de guerreiros leais, inspirados por uma visão de uma tábua brilhante enviada pelo deus do Sol, Inti, decidiram ficar e resistir. Ainda assim, a situação parecia desesperada e Pachacuti implorou aos deuses que o ajudassem para além de enviar mensagens de apoio. E assim o fizeram, transformando as rochas espalhadas pelo local em guerreiros incas. Com este exército, Pachacuti expulsou os Chanca de Cuzco. Em agradecimento por esta ajuda divina, o líder colocou os guerreiros de pedra (Pururaucas) em santuários sagrados ao redor da cidade.
A Construção de um Império
Pachacuti foi o primeiro soberano inca a ter ambições para além de Cuzco, e conquistou territórios no Vale de Cuzco (Huantanay) e além, dando assim início ao império inca que viria a crescer e a perdurar até à conquista espanhola, a partir de 1532. Em primeiro lugar, todos os falantes da língua inca, o quíchua, receberam a cidadania, um estatuto privilegiado de que desfrutariam em relação a todos os povos conquistados e que lhes conferia o direito de ocupar todos os cargos governamentais e administrativos importantes.
Avançando para sudeste, Pachacuti conquistou então a bacia do Lago Titicaca, incluindo as culturas dos Colla e dos Lupaqa. Pachacuti retirou-se então para Cuzco, enquanto os seus irmãos e o seu filho, Tupac Inca Yupanqui (com quem poderá ter governado em conjunto), receberam a tarefa de continuar a conquista dos Andes, talvez realizando as suas primeiras incursões para sul, no Equador e na civilização Chimu. Concentrando-se na governação, atribui-se a Pachacuti a introdução dos vários mecanismos do Estado que garantiriam que os Incas pudessem manter o seu domínio regional a longo prazo.
O Governo e Cuzco
O soberano inca (Sapa) introduziu sistemas de tributo e tributação que eram pagos pelos povos conquistados, quer sob a forma de bens, quer de trabalho. Estes tornaram os incas impopulares, mas foram utilizados de forma produtiva para criar uma extensa rede rodoviária que ligava cidades e locais sagrados. Foi também construído um sistema de armazéns (qollqa), espalhados por todo o império, para garantir um abastecimento alimentar abundante, mesmo em períodos de baixo rendimento agrícola. Num esforço para simplificar a sucessão real, Pachacuti instaurou o sistema segundo o qual um soberano nomeava a sua esposa principal, da qual proviriam os herdeiros do trono. Pachacuti mandou que historiadores registassem os episódios importantes da história inca em tábuas pintadas, que eram depois guardadas para a posteridade num edifício na capital, onde ninguém sem autorização podia entrar. Por fim, fixou o calendário dos dias de mercado e dos feriados públicos.
Com as suas conquistas e rendimentos mais assegurados, Pachacuti, talvez na sequência de uma visita inspiradora à monumental Tiwanaku, dedicou-se então a engrandecer a sua capital e a substituir as suas numerosas estruturas de terra por obras em pedra de impressionante qualidade. Drenou a zona norte de Cuzco e construiu ali um novo centro cerimonial, bem como um palácio para si próprio conhecido como Kunturkancha. Também reconstruiu o Templo de Inti no complexo de Coricancha e iniciou a construção de Sacsayhuaman, uma fortaleza destinada a proteger a aproximação a Cuzco pelo norte. Pachacuti construiu complexos que combinavam cidade, templo e fortaleza noutros locais estrategicamente importantes, como Pisac e Ollantaytambo, em cada extremidade do Vale do Urubamba, e muitas estações de passagem nos postos avançados do império, como Tambo Colorado, na costa.
Machu Picchu
Pachacuti Inca Yupanqui fundou provavelmente Machu Picchu (que significa «colina antiga») por volta de 1450 d.C. Os estudiosos não chegam a um consenso quanto à finalidade do local, que pode ter sido uma fortaleza, um retiro imperial, um símbolo do poder inca para o benefício dos povos locais conquistados ou um recinto cerimonial. Talvez a função mais provável tenha sido esta última, uma vez que a maior parte da arquitetura foi concebida para fins religiosos, e as fortificações do local podem muito bem ter sido erguidas para garantir que apenas um seleto grupo pudesse entrar neste local sagrado. A reforçar ainda mais esta interpretação, foi descoberta uma estrada que ligava o local a vários povoados residenciais espalhados ao longo do vale. A cidade tinha capacidade para cerca de 1 000 residentes no seu auge e figurava entre os locais mais sagrados para os incas. Com a morte do soberano, a propriedade do local passou para os sucessores da família de Pachacuti. O local foi abandonado pelos incas pouco antes da chegada de Pizarro e dos conquistadores espanhóis à América do Sul, que nunca o descobriram.
A Morte e o Sepultamento
O soberano inca faleceu em 1471 e, de acordo com os seus desejos, os incas choraram a sua morte durante um ano inteiro. Em seguida, realizaram uma celebração de um mês em honra do seu grande líder, durante a qual os seus objetos pessoais foram exibidos por todo o império, foi encenada uma batalha simulada em Cuzco e foram sacrificadas 2 000 lhamas. Mais mil lamas foram sacrificadas por todo o império e, da mesma forma, crianças foram sacrificadas em todos os locais que o soberano tinha visitado durante a sua vida.
Pachacuti foi mumificado e poderá ter sido sepultado num santuário conhecido como Patallacta, em Kenko (Q'enqo'), nas alturas acima de Cuzco. Mesmo após a morte, o soberano continuou a ser venerado e a sua múmia (mallki), juntamente com as de outros soberanos anteriores, era regularmente levada para passeios no mundo exterior, onde era alimentada ritualmente e, por vezes, até «consultada» em tempos de conflito político. Além disso, o cabelo e as unhas do Inca foram incorporados numa estátua sagrada sua, e o grande pavilhão de caça de pedra de Pachacuti em Tambo Machay, logo acima de Cuzco, foi transformado num local sagrado ou huaca. Nos arquivos oficiais do Estado inca, tal era a sua estatura e as suas realizações que quase todos os desenvolvimentos significativos na arte de governar e no império foram atribuídos a Pachacuti.
Tupac Inca Yupanqui assumiu o cargo de Sapa Inca e deu continuidade aos planos imperiais do seu pai, acabando por duplicar a extensão do império. Em 1559, os espanhóis descobriram a múmia de Pachacuti, que tinha sido secretamente escondida pelos incas após a conquista. Foi enviada para Lima por Juan Polo de Ondegardo, mas perdeu-se durante o transporte ou talvez tenha sido simplesmente destruída, tal como tantos outros símbolos da cultura inca.
