Chandragupta Máuria (cerca de 321 - cerca de 297 a.C.), conhecido como Sandrakottos (ou Sandrokottos) pelos gregos, foi o fundador da Dinastia Máuria (séculos IV a II a.C.) e é-lhe creditada a fundação do primeiro império (quase) pan-indiano. Ajudado pelo seu mentor e mais tarde ministro Chanakya ou Kautilya (cerca de século IV a.C.), ele estabeleceu um vasto império centralizado, cujos detalhes de funcionamento, sociedade, exército e economia estão bem preservados no Arthashastra de Kautilya.
O Período de Chandragupta: O Cenário Político
A Índia por volta do século IV a.C. estava dividida em inúmeros reinos e repúblicas. O principal entre eles era o Reino de Mágada, no leste da Índia, cujos governantes, a começar pelo rei Bimbisara (543-492 a.C.), tinham embarcado numa busca pela construção de um império. As fronteiras de Mágada foram-se, assim, alargando substancialmente ao longo do tempo, englobando uma boa parte do centro, leste e nordeste da Índia. Alexandre o Grande (356-323 a.C.) invadiu a Índia em 326 a.C. e, em consequência disso, grande parte do noroeste da Índia mergulhou no tumulto e no caos político.
O governante de Mágada durante este período era Dhanananda (329-322/321 a.C.), da Dinastia Nanda. Ele possuía um vasto tesouro e um exército que contava com 20 000 cavaleiros, 200 000 infantas, 2000 carros de guerra e 3000 elefantes, de acordo com o historiador romano Cúrcio (c. século I d.C.). Conhecido pelos gregos como Xandrames ou Agrammes, o conhecimento do seu poderio em Mágada também contribuiu para o desespero das tropas macedónias no noroeste da Índia, que já estavam exaustas da guerra, forçando-as, entre outras razões, a não avançar mais pelo território indiano.
O Debate sobre as Origens
Grande parte da vida e das origens de Chandragupta permanece envolta em mistério. A maior parte do que se sabe sobre ele provém mais de lendas e do folclore do que de fontes históricas reais; “A única referência epigráfica definitiva a Chandragupta encontra-se na inscrição de Junagarh do século II…” (Singh, pág. 330.) O historiador K.A.N. Sastri observa:
Para os detalhes dos acontecimentos transcendentais que conduziram à substituição dos Nandas pelos Máurias, devemos recorrer aos cronistas e contadores de histórias indianos. Nenhum relato contemporâneo sobreviveu. A história tradicional é contada de forma diferente por diferentes escritores.
(Sastri, pág. 145).
As origens sociais de Chandragupta, particularmente a sua casta, ainda são alvo de debate. Obras literárias antigas budistas, jainistas e outras dão todas versões diferentes. Ele é mencionado variadamente como pertencente ao clã Kshatriya Moriya, que governava Pippalivahana na atual fronteira indo-nepalesa; como sendo de uma tribo de domadores de pavões; como filho de uma mulher chamada Mura (daí o título, Máuria); e até como sendo parente próximo ou distante dos Nandas, mas desprezado e escorraçado porque Dhanananda tinha ciúmes dos seus talentos muito superiores.
Os historiadores estão, assim, divididos quanto às suas origens sociais. Alguns afirmam que “ele parece ter pertencido a alguma família comum” (Sharma, pág. 99) e que “não era um príncipe, mas um mero plebeu sem qualquer direito direto à coroa de Mágada” (Tripathi, pág. 146). Outros historiadores referem que ele pertencia, de facto, ao clã Moriya ou Máuria, que por volta do século IV a.C. tinha passado por tempos difíceis, e que por isso Chandragupta “cresceu entre domadores de pavões, pastores e caçadores” (Majumdar, Raychaudhuri e Datta, pág. 92). O historiador romano Justino (cerca de século II d.C.) alude às suas origens humildes. Os textos budistas e as inscrições medievais mencionam-no como um Kshatriya. Assim, pode-se conjeturar que teria pertencido a uma casta Kshatriya (a casta dos governantes/guerreiros) ou a uma casta aparentada, já que o brâmane Kautilya, de acordo com as regras de casta, não o teria favorecido para governar de outra forma.
Chandragupta era ambicioso e procurava formas e meios de alcançar uma posição de autoridade ou até mesmo uma coroa. Este desejo poderia facilmente ter nascido devido às suas circunstâncias. Ele queria restaurar a fortuna perdida do seu clã e estabelecer-se na sua posição legítima como governante Kshatriya. Mesmo que, em alternativa, se aceite a versão de que era parente de Dhanananda, tal intenção teria certamente ganho raízes na mente de Chandragupta e ele teria querido a sua justa parte por ser um príncipe. Mesmo que fosse de uma família completamente comum, Chandragupta não sentia que as suas origens tivessem algo a ver com as suas ambições políticas. De qualquer forma, historicamente, é muito provável que Chandragupta, enquanto jovem, se tenha definitivamente envolvido no esforço de realizar as suas ambições.
O Início de Carreira
Chandragupta sabia que, para completar com sucesso a sua jornada rumo ao poder, a guerra com os reinos estabelecidos seria inevitável. Por isso, focou-se em obter treino e experiência militar. As lendas dizem que ele conheceu Alexandre e obteve talvez a sua permissão para servir no seu exército, de modo a aprender a forma macedónia de fazer a guerra e como esta poderia ser usada contra as táticas da guerra tradicional indiana, além do seu próprio treino militar. Justino e o historiador greco-romano Plutarco (cerca de 46-120 d.C.) mencionam o encontro com Alexandre. No entanto, este encontro foi um desastre e Chandragupta foi forçado a fugir para salvar a vida.
Alguns historiadores defendem que, para Chandragupta, que vivia no reino de Mágada, não seria possível deslocar-se até ao noroeste para se encontrar com Alexandre, isto se a ideia sequer lhe tivesse passado pela cabeça. Em vez disso, ele ter-se-á encontrado com Dhanananda e procurado servir no seu exército. Estes historiadores acreditam que Justino mencionou por engano Alexandre em vez de Dhanananda. Esta perspetiva, contudo, não é aceite por todos os historiadores.
Independentemente de quais tenham sido os primeiros passos de Chandragupta na sua carreira, o que se pode afirmar com certeza é a sua relação com o estadista e filósofo Kautilya. Ele foi o seu melhor aliado, mentor e guia, e aquele que moldou não só a sua carreira, mas também o rumo do Império Máuria sob o comando de Chandragupta. Vishnugupta Chanakya ou Kautilya, por sua vez, tinha decidido assumir o papel de liderança na reconstrução e reformulação da organização política indiana. Embora sendo originalmente de Mágada, por ter sido estudante e mais tarde professor em Takshashila (atual Taxila, no atual Paquistão), Kautilya tornou-se assim testemunha do tumulto político gerado no noroeste da Índia devido à invasão macedónia. Isto levou-o a pensar em termos de estabelecer um império pan-indiano centralizado que pudesse manter os invasores afastados e restaurar a ordem. A existência de inúmeras repúblicas e reinos, desunidos e perenemente em guerra uns com os outros, por razões óbvias, não o conseguiria fazer.
Ele considerava Mágada o território apto para ser o império em questão — a sua proposta para o efeito foi recebida com desprezo e insultos por parte de Dhanananda, ao que se seguiu a determinação de Kautilya em destituir o rei em funções. Mágada era a única entidade territorial que poderia trazer ordem ao caos. Possuía uma posição militar praticamente sem rival, crucial para a existência do tipo de império que Kautilya pretendia. Protegida pelas suas vastas forças militares, desfrutava de uma estabilidade que os outros reinos não conseguiam alcançar. Kautilya estava, assim, determinado a fazer de Mágada a peça central dos seus planos — quer fosse sob o domínio dos Nandas ou de outra pessoa, isso não importava.
Ele decidiu, assim, substituir Dhanananda por un candidato melhor e mais capaz. O homem escolhido foi Chandragupta Máuria. Preparando-o para o papel através do seu mentorado, Kautilya preparou-se para a tomada de poder em Mágada e de tudo o que daí advinha. O próprio calibre de Chandragupta foi, desta forma, aperfeiçoado em termos de guerra, diplomacia e operações secretas.
Como e quando ocorreu o seu primeiro encontro com Chandragupta são factos que não se conhecem claramente. O folclore conta que, após regressar da corte de Dhanananda, o humilhado Kautilya, enquanto planeava a sua vingança, deparou-se com um rapaz numa aldeia que, mesmo numa brincadeira, demonstrava qualidades de um grande rei. Rápido a perceber o seu potencial, Kautilya decidiu adotá-lo como seu protegido e pediu autorização ao chefe tribal ou da aldeia e à mãe do rapaz, Mura, para o levar consigo e treiná-lo para o seu papel futuro. Ele trouxe então o jovem Chandragupta consigo para o noroeste da Índia, a partir de onde, dizem as histórias, Chandragupta cresceu sob o treino de Kautilya e foi, assim, preparado para o seu papel como futuro imperador.
Com toda a probabilidade, estas histórias não podem ser aceites como factos, pois isso implicaria que, na altura em que Chandragupta subiu ao trono de Mágada, tanto Kautilya como Dhanananda seriam velhos decrépitos! Historicamente isto não era verdade, pelo que, tal como defendem os historiadores, o jovem Chandragupta, que já procurava fazer fortuna, conheceu e aliou-se a Kautilya, em quem reconheceu um aliado de valor inestimável. A importância das histórias, contudo, reside no facto de apontarem para as origens humildes de Chandragupta, para as suas circunstâncias e para a forma como estas não eram adequadas ao seu crescimento, tendo, por isso, de se mudar para alcançar os seus objetivos.
O seu encontro com Kautilya teria, assim, ocorrido após o humilhado académico estar a regressar de Pataliputra e depois de os próprios esforços iniciais de Chandragupta para conquistar o poder terem sido mal-sucedidos. Tendo percebido que tinham muito em comum, os dois partiram para alcançar os seus objetivos partilhados. A descoberta de um tesouro subterrâneo permitiu-lhes recrutar um exército de mercenários.
A Guerra pelo Poder
Utilizando a região do noroeste da Índia pós-invasão macedónia como uma base ideal devido às suas condições caóticas e à falta de oposição política e militar, Chandragupta mobilizou os seus homens, desafiou a autoridade greco-macedónia em declínio e obteve vitórias sobre os reinos locais ou o que quer que restasse deles. De seguida, ganhou o controlo sobre o centro da Índia e finalmente avançou em direção ao coração de Mágada.
Percebendo que um conflito com Mágada exigiria necessariamente muito mais do que um exército poderoso, Kautilya optou por uma estratégia de "guerra por outros meios". Recorreu a imensas intrigas, contra-intrigas, conspirações e contra-conspirações para quebrar a força de Dhanananda, afastando os seus principais aliados, leais e apoiantes, com especial destaque para o seu ministro-chefe, Rakshasa. A peça de teatro em sânscrito Mudrarakshasa (“O Anel de Rakshasa”), escrita por Vishakhadatta algures entre os séculos IV e VIII (presumivelmente no século V), fornece detalhes vívidos sobre o assunto. No final, ao recorrer a meios tanto militares como não militares, Chandragupta conseguiu assegurar o trono em Pataliputra. Dhanananda provavelmente escapou ou foi morto.
As Conquistas Indianas
Seguro no trono imperial, Chandragupta direcionou a sua atenção para a expansão dos seus domínios. Os exércitos Máurias avançaram até à costa ocidental da Índia e ao sul do país, particularmente ao atual estado de Karnataka. Plutarco afirma que ele invadiu o país inteiro com um exército de 600 000 homens. O Império Máuria incluía nesta altura os atuais estados de “Bihar e boas partes de Orissa e Bengala, mas também o oeste e o noroeste da Índia, e o Decão… no noroeste, dominavam certas áreas que não estavam incluídas sequer no Império Britânico” (Sharma, pág. 99). O extremo sul e o nordeste da Índia não faziam parte do império.
A Guerra com os Gregos
Chandragupta entrou em conflito com Seleuco I Nicátor, o herdeiro de Alexandre no oriente, com o intuito de reduzir o poder grego e ganhar território e força próprios. A guerra terminou em 301 a.C. com a assinatura de um tratado. Chandragupta obteve as regiões de Aracosia (região de Kandahar no atual Afeganistão), Gedrosia (sul do Baluchistão no atual Paquistão) e Paropamisade (a área entre o Afeganistão e o subcontinente indiano). Foram entregues 500 elefantes aos gregos. A lenda sustenta que Seleuco entregou a sua filha Helena em casamento a Chandragupta, mas as evidências históricas não apoiam esta versão. Ficou também decidida a nomeação de um embaixador grego e, como resultado, Megásteneis chegou à corte Máuria em Pataliputra. Ele escreveu sobre a administração Máuria e, embora a sua obra Indica esteja agora perdida, restam citações dela nas obras de vários escritores gregos posteriores.
O Jainismo e a Morte
O Mudrarakshasa utiliza o termo sânscrito vrishala — empregue para os Kshatriyas e outros que se desviam das regras bramânicas — para designar Chandragupta; “Que Chandragupta de facto se desviou da ortodoxia bramânica é provado pela predileção demonstrada pelo jainismo nos seus últimos anos” (Majumdar, Raychaudhuri e Datta, pág. 92). Tanto as evidências históricas como a crença popular referem que Chandragupta aceitou o jainismo nos seus últimos anos de vida. Inscrições em Karnataka que datam entre os séculos V e XV mencionam um certo Chandragupta em ligação com o santo jainista Bhadrabahu. Chandragupta provavelmente abdicou, tornou-se um asceta, acompanhou Bhadrabahu até Karnataka e mais tarde morreu seguindo o ritual de sallekhana, ou seja, o jejum até à morte. Chandragupta governou assim durante 24 anos e foi sucedido pelo seu filho Bindusara (297- cerca de 273 a.C.), pai de Ashoka, o Grande (268-232 a.C.).
O Império Máuria sob o Comando de Chandragupta
O Governo Máuria
Chandragupta desenvolveu um sistema elaborado de administração imperial. A maior parte do poder estava concentrada nas suas mãos, e ele era assistido nas suas funções por um conselho de ministros. O império estava dividido em províncias e tinha príncipes como vice-reis. Isto proporcionava aos membros da realeza a experiência administrativa necessária, especialmente àquele que viria a tornar-se imperador. As províncias dividiam-se em unidades mais pequenas e foram implementadas medidas tanto para a administração urbana como rural. Foram encontradas evidências arqueológicas da existência de uma série de vilas e cidades. Dessas, a mais proeminente era a capital, Pataliputra. A sua administração era assegurada por seis comités com cinco membros cada um. Algumas das tarefas que lhes foram confiadas incluíam a manutenção de instalações de saneamento, o cuidado de estrangeiros, o registo de nascimentos e mortes, a regulação de pesos e medidas, etc. Foram descobertos em vários locais diversos tipos de pesos utilizados neste período. O governo central mantinha também cerca de duas dezenas de departamentos que cuidavam de várias atividades sociais e económicas.
O Exército Máuria
O Estado possuía um exército enorme. As tropas (maula) eram recrutadas, treinadas e equipadas pelo Estado. Havia muitas comunidades e tribos florestais (atavika) que eram conhecidas pelas suas aptidões militares e valorizadas como tal. Os mercenários (bhrita) também existiam em grande número, tal como as guildas corporativas de soldados (shreni), sendo recrutados sempre que necessário. O exército era composto por quatro braços (chaturanga): infantaria, cavalaria, carros de guerra e elefantes. Havia um ministério da guerra composto por 30 membros, dividido em seis conselhos, que cuidava destes vários braços e também da marinha e dos transportes. De acordo com o escritor romano Plínio (23 – 79 d.C.), Chandragupta possuía 600 000 infantas, 30 000 cavaleiros e 9000 elefantes. Os carros de guerra estavam estimados em 8000. Eram todos mobilizados no campo de batalha em formação (vyuha), conforme decidido pelos comandantes com base em fatores como a natureza do terreno e a composição das forças próprias e do inimigo. Dedicava-se uma grande atenção ao treino dos homens e dos animais. O rei e os príncipes recebiam uma excelente instrução nas artes da guerra e da liderança. Esperava-se que demonstrassem coragem, e eles lideravam frequentemente os seus exércitos em pessoa e participavam na defesa de fortalezas. A marinha criada por Chandragupta desempenhava, na sua maioria, funções de guarda costeira e protegia o vasto comércio do império que era realizado através das vias navegáveis.
O armamento incluía arcos e flechas, espadas, sabres de duas mãos, escudos ovais, retangulares ou em forma de sino (muitas vezes feitos de peles), dardos, lanças, machados, piques, porretes e maças. Os soldados andavam geralmente nus da cintura para cima ou usavam casacos acolchoados de algodão. Também traziam turbantes densamente enrolados, frequentemente fixados com lenços atados abaixo do queixo, e faixas de pano amarradas à volta da cintura e do peito como armadura de proteção. As túnicas eram vestidas durante o inverno. A peça de vestuário inferior era um pano solto usado como saia (kilt) ou ao estilo de calção (com uma das extremidades do pano puxada por entre as pernas e presa na cintura, na parte de trás).
O vasto exército dos Máurias era sustentado pela enorme dimensão do império e pelos recursos que, por conseguinte, ficavam sob o seu controlo. O Estado controlava praticamente todas as atividades económicas e, por isso, conseguia dispor de receitas elevadas e de uma abundância de recursos financeiros.
Chandragupta deixou, deste modo, um legado que sobreviveu nas páginas do Arthashastra. Não só construiu um império através dos seus próprios esforços, superando todos os obstáculos, como também estabeleceu princípios sólidos para a sua governação e trabalhou incansavelmente para o seu crescimento. Foram estas conquistas que o tornaram um dos governantes mais importantes da Índia antiga e uma figura quase mítica do folclore.

