Vidro Romano

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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A vidraria romana inclui algumas das mais belas peças de arte alguma vez produzidas na Antiguidade, sendo que as melhores eram mais valorizadas do que os objetos confecionados com metais preciosos. No entanto, os recipientes de vidro simples, como copos, taças, pratos e garrafas, eram também utilizados como recipientes de uso quotidiano, em particular para guardar e servir alimentos e bebidas. O vidro era igualmente utilizado pelos romanos pelas suas qualidades decorativas, podendo ser incorporado em mosaicos e painéis decorativos, tanto em paredes como em mobiliário. O material era também utilizado em janelas, na criação de joalharia, espelhos, peças de jogos, lupas, esculturas e, na forma de pó, até mesmo como medicamento e pasta de dentes.

Roman Glass Kantharos
Cântaro em Vidro Romano Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

Os Materiais

A utilização do material sintético denominado vidro — uma mistura de soda, sílica e cal — antecede os romanos em mais de 1 500 anos, mas parece que nem mesmo eles compreenderam totalmente a complexidade da mistura de componentes e a necessidade da cal para tornar o vidro impermeável à água e muito mais resistente à passagem do tempo e ao uso. A cal pode ser encontrada naturalmente, por exemplo, como parte do componente de sílica na forma de areia que contém uma percentagem significativa de conchas marinhas trituradas. De facto, duas regiões tornaram-se conhecidas pela elevada qualidade do seu vidro — ao longo do rio Bielorrússia, na Fenícia, e do rio Volturnus, na Campânia — e não por acaso, eram regiões onde a areia era particularmente rica em cal. No entanto, alguns vidreiros romanos, talvez sem saberem exatamente porquê, compreenderam que a adição de pequenas pedras e conchas poderia afetar a qualidade final do vidro produzido.

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Roman Glass Vase
Vaso em Vidro Romano Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

As Técnicas

Antes da época romana, a utilização do vidro limitava-se principalmente a pequenas garrafas opacas ou a grandes taças, muitas vezes fabricadas à imitação de artigos de metal. O vidro primitivo era geralmente opaco devido ao elevado número de minúsculas bolhas de ar no seu interior, resultantes do processo de cozedura, e apresentava normalmente uma tonalidade verde-pálida ou amarela devido à presença de impurezas. A tonalidade do vidro podia, no entanto, ser manipulada aumentando ou diminuindo o nível de oxigénio no forno. Também era possível obter cores adicionando pequenas quantidades de metais à mistura; a adição de cobre produzia azul, verde e encarnado; o manganês, rosa e encarnado; o cobalto, um azul profundo; o cálcio, branco; e o chumbo, uma tonalidade amarela.

Roman Yellow Glass Bowl, Aosta
Taça em Vidro Amarelo Romano, Aosta Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

Com a invenção do sopro de vidro (soprar o vidro enquanto ainda está quente através de uma haste oca de ferro com 1 a 1,5 m de comprimento) no século I a.C., passou-se a produzir vidro de melhor qualidade, e o processo de produção tornou-se mais rápido e mais barato, o que fez com que os recipientes de vidro se tornassem objetos do quotidiano muito mais comuns. Esta tendência foi ainda mais reforçada pela invenção do forno de sopro de vidro no século I d.C. Como Estrabão observou na sua obra Geografia (tít. original: Γεωγραφικά; transliterado: Geōgraphika), no século I era possível comprar um recipiente de vidro por apenas uma moeda de cobre. Não se conhecem o local e a data exatos da invenção deste novo método de produção, mas os primeiros exemplares de vidro soprado datam do século I a.C. nas regiões da Síria e da Palestina. Esta é também a época em que a palavra latina para vidro — vitrum — é registada pela primeira vez.

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Roman Glass Perfume Containers
Recipientes para Perfume em Vidro Romano Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

A técnica de sopro de vidro não só permitiu que os recipientes fossem fabricados com paredes mais finas, tornando o vidro mais translúcido, como também possibilitou a criação de uma gama totalmente nova de formas. O método mais antigo de moldagem do vidro, que utilizava moldes e criava efeitos decorativos através da união de peças pré-fabricadas nas cores branca, castanha, azul, vermelha e verde, continuou a ser utilizado até ao século I, mas limitava-se principalmente à produção de recipientes de maiores dimensões, tais como taças, pratos e jarros. Com o novo e revolucionário método de sopro de vidro, as possibilidades de design passaram a ser limitadas apenas pela imaginação do artesão. Como Sêneca se maravilhava nas Epístolas Morais (tít. original: Epistulae Morales), o soprador de vidro podia, «apenas com o seu sopro, moldar o vidro em inúmeras formas que dificilmente poderiam ser alcançadas pela mão mais hábil».

Roman Opaque Glass Perfume Bottle
Frasco de perfume em Vidro Opaco Romano Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

Os Formatos

Os fabricantes de vidro romanos (vitriarii) e os cortadores de vidro (diatretarii) podiam recorrer a uma vasta gama de técnicas para transformar simples recipientes de vidro em peças altamente decorativas. Os artigos de vidro coloridos, como vimos, eram inicialmente criados através da junção de diferentes peças de vidro pré-fabricadas. No entanto, foi no final do século I que o vidro incolor surgiu pela primeira vez no repertório dos fabricantes de vidro, tornando-se muito procurado pelas famílias romanas. Uma das formas mais populares em que se utilizava o vidro transparente era um grande copo com asas horizontais esculpidas e, por vezes, com incisões decorativas representando volutas de videira e coroas de louro. Outra técnica decorativa consistia em adornar as bordas dos pratos com o motivo «ovo e dardo», tão popular na escultura decorativa arquitetónica.

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Roman Glass Two-handled Cup
Taça de Duas Asas em Vidro Romano Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

O método de produção que consistia em soprar o vidro em moldes esculpidos permitiu a produção em massa e uma variedade adicional de designs, frequentemente criados através da fusão de varas multicoloridas no molde e com padrões em alto-relevo, sendo as saliências decorativas um design particularmente popular no século I. A decoração também podia ser adicionada colocando pequenas peças ou fios de vidro quente sobre o recipiente, e a forma do próprio recipiente podia ser alterada enquanto ainda estava quente, por exemplo, apertando o vidro na base do gargalo das garrafas. As asas eram normalmente adicionadas aos recipientes separadamente e a ausência de tesouras de corte entre as ferramentas do vidreiro é evidente na dobragem das extremidades das asas, de modo a que o vidro pudesse ser afunilado e partido.

O vidro também podia receber desenhos pré-impressos, mas os exemplares que sobreviveram são raros. A abrasão era outra técnica para criar decoração, gerando áreas de contraste entre brilhante e mate no recipiente. Também se utilizava folha de ouro; inserida entre duas camadas de vidro, o ouro era utilizado para criar desenhos e até retratos e cenas figurativas, sendo especialmente utilizado nas bases de copos e taças. A técnica era também comum em medalhões funerários de vidro.

Thetis, Portland Vase
Tétis, Vaso de Portland Jastrow (CC BY-SA)

As Obras-primas

À medida que os artesãos do vidro aperfeiçoavam a sua arte, os artigos de vidro tornavam-se cada vez mais complexos e ambiciosos no design, e o vidro podia agora ser transformado em deslumbrantes obras de arte. Utilizavam-se técnicas de lapidação de pedras preciosas para criar efeitos como os observados nos camafeus. Talvez o exemplo mais famoso desta técnica seja o «Vaso de Portland», que foi fabricado algures durante o reinado de Augusto (27 a.C. – 14 d.C.) e que retrata o casamento de Peleu e Tétis, da mitologia grega.

Lycurgus Cup
Taça de Licurgo Johnbod (CC BY-SA)

Posteriormente, foram esculpidos vasos de forma ainda mais espetacular e, no século IV, esta forma de arte atingiu o seu apogeu com as diatreta, ou «copas em gaiola», altamente esculpidas, e talvez o mais famoso vaso de vidro romano de todos, a «Taça de Licurgo». Estas taças eram criadas esculpindo-se camadas espessas de vidro, deixando um desenho ou figura ligada ao corpo principal do vaso apenas por uma pequena ponte de vidro oculta, criando uma estrutura em treliça decorativa que envolvia todo o vaso. A Taça de Licurgo, atualmente no Museu Britânico, em Londres, foi esculpida no século IV a partir de vidro verde e encarnado e retrata o mito de Licurgo e o seu aprisionamento fatal numa videira. As figuras decorativas em verde são adicionalmente esculpidas por trás para as tornar o mais finas possível, de modo a que se tornem ainda mais translúcidas.

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Embora a indústria do vidro romana nunca tenha atingido a escala de outras indústrias de produção em massa, como a cerâmica e a cunhagem de moedas, os artigos de vidro tornaram-se, no entanto, relativamente comuns e notavelmente uniformes em todo o Império Romano, e a enorme quantidade de artigos de vidro produzidos só viria a ser igualada com o auge do vidro veneziano no século XV.

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Cartwright, M. (2026, setembro 03). Vidro Romano. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-592/vidro-romano/

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Cartwright, Mark. "Vidro Romano." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, setembro 03, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-592/vidro-romano/.

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Cartwright, Mark. "Vidro Romano." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 03 set 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-592/vidro-romano/.

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