A Batalha de Belmont (7 de novembro de 1861) foi um confronto travado durante a Guerra Civil Americana no condado de Mississípi, no Missouri. Foi o primeiro comando de combate do brigadeiro-general da União Ulysses S. Grant na guerra e a primeira experiência de combate da maioria dos homens sob o seu comando. O mesmo se aplicava aos soldados confederados que lutavam sob o comando do major-general Leonidas Polk e do brigadeiro-general Gideon J. Pillow.
A batalha é considerada inconclusiva, uma vez que Grant não conseguiu tomar nem manter a posição confederada que tinha atacado, e as forças sob o comando de Pillow não conseguiram capturar Grant e as suas forças. Os confederados reivindicaram-na como uma vitória porque o exército da União fugiu do campo de batalha desordeiramente.
No entanto, Grant também reivindicou a vitória, pois tinha alcançado os seus dois objetivos: destruir o acampamento confederado situado a jusante de Columbus, no Kentucky, e intimidar Polk para que mantivesse as suas forças próximas da cidade, em vez de reforçar outras posições. A reivindicação de Grant tem mais peso.
Após a batalha, Polk, temendo que Belmont fosse apenas a primeira tentativa de Grant para tomar Columbus, recusou-se a enviar reforços para outros locais, o que contribuiu para o enfraquecimento do centro da linha defensiva do general confederado Albert Sidney Johnston nos fortes Henry e Donelson.
Isto, por sua vez, contribuiu para as vitórias da União sob o comando de Grant na Batalha do Forte Henry (6 de fevereiro de 1862) e na Batalha do Forte Donelson (11-16 de fevereiro de 1862), que abriram os rios Tennessee e Cumberland ao tráfego da União, levaram à queda do centro industrial confederado em Nashville e, eventualmente, à retirada de Polk de Columbus. Visto sob esta perspetiva, a Batalha de Belmont foi, de facto, uma vitória da União, mesmo que isso não parecesse ser o caso no início de novembro de 1861.
Benjamin F. Sawyer
Um dos defensores confederados em Belmont era o então soldado Benjamin Franklin Sawyer (1833-1901), que se alistara em junho de 1861, tendo constituído e equipado a Companhia K do 10.º Regimento do Alabama às suas próprias custas. Sawyer viria a participar em batalhas desde Belmont até ao fim da guerra, deixando o serviço em 1865 com o posto de tenente-coronel.
Após a guerra, desempenhou funções como presidente da câmara da cidade de Oxanna, em Anniston, Alabama, e tornou-se escritor e jornalista, editando e colaborando com vários jornais, incluindo o Philadelphia Weekly Times. Em 1879, aperfeiçoou a máquina inventada por Margaret E. Knight (patenteada em 1871) para o fabrico de sacos de papel de fundo quadrado e faleceu na sequência de uma doença a 19 de julho de 1901.
Tal como muitos dos seus contemporâneos que combateram na Guerra Civil Americana, Sawyer também escreveu sobre as suas experiências de combate e, em 1884, publicou o seu relato da Batalha de Belmont, que desde então se tornou uma importante fonte primária sobre o confronto — especialmente porque a narrativa é apresentada na perspetiva de um soldado raso confederado.
Texto
A tradução infra é do excerto extraído da obra The New Annals of the Civil War (Os Novos Anais da Guerra Civil Americana), editado por Peter Cozzens e Robert I. Gerardi, págs. 18-24. O artigo original, The Battle of Belmont, do coronel Benjamin Franklin Sawyer, foi publicado pela primeira vez no Philadelphia Weekly Times, a 9 de agosto de 1884. As elipses indicam texto omitido por razões de espaço e número de palavras.
Sawyer indica a data do início do confronto como 6 de novembro — data em que Grant partiu de Cairo, no Illinois, com as suas canhoneiras e chegou às proximidades de Belmont, no Missouri — tendo a batalha começado na manhã do dia 7.
Nos combates que se seguiram em sucessão tão rápida, eletrizando o continente e surpreendendo o mundo, a batalha de Belmont, comparativamente insignificante, foi esquecida. Na lista de acontecimentos mais grandiosos, dificilmente será incluída nas listas de batalhas. Foi apenas para aqueles que nela participaram — os novatos que naquele dia se iniciaram na guerra — que as suas cenas se tornaram memoráveis para o resto da vida.
Cerca de dez mil homens viram-se, pela primeira vez, cara a cara com o perigo e com a morte; pela primeira vez compreenderam a tarefa horrível à qual tinham dedicado as suas vidas. É improvável que algum dos que ali estiveram envolvidos venha alguma vez a esquecer a experiência daquele dia.
Por si só, no que diz respeito a quaisquer resultados concretos, a batalha foi quase uma farsa, um exercício tático organizado pelos generais adversários para testar a eficiência e a coragem das suas tropas. Talvez tenha sido isso; parece difícil agora, tal como parecia na altura, por mais que se tente, conceber qualquer outra razão pela qual tenha sido travada.
Nenhum dos generais revelou qualquer estratégia; não havia oportunidade para tal. Os acampamentos periféricos do [Brigadeiro-General Gideon J.] Pillow, no lado do rio Missouri, estavam demasiado bem protegidos pelas baterias de Columbus, com alcance superior, para permitir a sua ocupação, caso fossem capturados. O [Brigadeiro-General Ulysses S.] Grant devia saber disso, pois tinha descido sob bandeira de trégua alguns dias antes e avaliado as possibilidades da situação.
Sendo a posição insustentável, porquê sacrificar a vida de sequer um homem para a capturar? Certamente não foi pelo triunfo de capturar algumas tendas dispersas — o único dano possível que poderia ser infligido — que ele desceu com toda a pompa e circunstância da guerra, com tambores a rufar e estandartes a ondular, para arriscar o destino da batalha. O jogo mal valia a pena.
Mas talvez Grant tivesse pensado melhor. Pode ter atribuído um valor mais importante à lona e à palha do que os extravagantes confederados. Sem dúvida que sim e, enquanto se encontrava no convés do pequeno e atrevido rebocador (o Grampus) que o trouxera para as linhas confederadas alguns dias antes… pode, inspirado pelo seu génio, ter concebido um brilhante manobra estratégica através da qual a destruição das tendas pudesse ser alcançada.
De qualquer forma, ele avançou em formação marcial, com grande alarde e pompa, colocando as suas bravas tropas no coração da batalha, mantendo-as ali por algum tempo e, em seguida, virando-se num abandono total de toda a ordem e disciplina, correndo de volta para as suas canhoneiras, deixando os seus mortos para serem enterrados e os seus feridos para serem cuidados pelo inimigo.
O Corpo do [Major-General Leonidas] Polk, que constituía o então Exército do Mississípi, ocupava a posição fortificada de Columbus, no Kentucky. Os seus pontos naturalmente fortes foram ainda reforçados por uma série de fortes habilmente concebidos e bem construídos, ligados por uma tripla linha de terraplenagens.
As falésias íngremes que dominavam a cidade abaixo, o rio e as planícies de Belmont, do outro lado, estavam coroadas com pesadas baterias, enquanto uma fileira de canhões em casamatas, mais abaixo, varria cada pé de água à vista e tornava impossível qualquer aproximação por via fluvial.
O acampamento, que convidava de forma tão tentadora ao assalto do inimigo, estava ocupado pela Brigada do General Pillow… foi contra este acampamento, protegido pelas formidáveis baterias de Columbus, que Grant, na altura um brigadeiro recém-promovido e de cabelo encaracolado, lançou as suas tropas ansiosas.
Era uma manhã fria e gelada de novembro (dia 6). Ainda estávamos ocupados a reforçar as nossas fortificações e a construir alojamentos para o inverno que se aproximava quando ele chegou.
O nosso regimento (o Blythe do Mississípi) tinha-se posto a trabalhar em tarefas de serviço, quando nos deparámos com os nossos camaradas do 154.º Regimento Sénior do Tennessee, que chegavam a passo acelerado e nos davam o primeiro indício do perigo iminente. Por acaso, eu estava no comando do grupo de serviço naquele dia e, sem esperar por ordens, mandei o meu comando dar meia-volta e regressámos ao acampamento, também a passo acelerado.
Tínhamos avançado apenas uma curta distância quando fomos abordados por um mensageiro que confirmou a notícia e me ordenou que regressasse rapidamente ao acampamento e me preparasse para a batalha.
Ao chegar ao acampamento, deparámo-nos com uma cena caótica de agitação e confusão. Os oficiais, agitados com as novas e estranhas perturbações, corriam de um lado para o outro, balançando desajeitadamente as espadas entre as pernas; os soldados procuravam o equipamento extraviado e lustravam armas há muito negligenciadas; os oficiais de artilharia distribuíam munições de forma confusa, fornecendo cartuchos Enfield para mosquetes, balas e chumbo grosso para espingardas.
Pois, saiba-se que, naquela fase inicial do conflito, o nosso regimento, tal como muitos outros, estava armado com uma variedade incongruente de armas, não havendo duas companhias armadas da mesma forma — uma companhia, a A, tinha espingardas Sharp, outra, a Companhia C, estava equipada com espingardas de cano duplo, e ainda outra, a minha, a Companhia I, possuía espingardas de cano longo, de calibre .32, enquanto as restantes estavam equipadas com velhos mosquetes do exército recolhidos.
Satisfazer as diversas necessidades do regimento teria deixado perplexo até o próprio general de artilharia, mesmo numa hora de deliberação serena. Não é de admirar, então, que o pobre Tenente Brownrigg, empolgado com a surpresa do seu primeiro combate, tivesse perdido a cabeça numa confusão frenética e distribuísse a munição com negligência imprudente.
Os comandantes de companhia, no entanto, não estavam tão nervosos e, trocando entre si, conseguiram rapidamente abastecer as suas respetivas companhias com cartuchos adequados; e quando o regimento se formou para uma inspeção apressada, verificou-se que cada homem estava amplamente abastecido com balas e pólvora para a emergência. A lição da manhã foi, contudo, valiosa, e tomou-se o cuidado, logo que possível, de armar o regimento com armas de calibre uniforme.
Tínhamos formado as nossas linhas e estávamos apoiados nas nossas armas, aguardando nervosamente o desenrolar dos acontecimentos, quando o estrondo dos canhões de Belthoover e um estalido esporádico de tiros de mosquete ao longe, do outro lado do rio, indicaram que não se tratava de um falso alarme. Em breve, os disparos tornaram-se mais rápidos e distintos à medida que a batalha se aproximava. Pela mudança na direção dos disparos, percebíamos que Pillow estava envolvido num combate acirrado e a ser pressionado; no entanto, continuávamos inativos, à espera, impacientes, de ordens para avançarmos para a luta.
Dificilmente há posição mais desgastante para os nervos — e especialmente para os nervos de um recruta inexperiente — do que ficar à vista e ao alcance do som de uma batalha, à espera da própria vez de ser lançado para ela. Sentimo-lo profundamente naquela manhã e, quando o entusiasmo inicial começou a esmorecer e a batalha rugia cada vez mais alto e mais perto, sentíamos a nossa coragem a esvair-se, por assim dizer, pela ponta dos dedos; mas continuávamos a ter de ficar ali, sem que chegassem ordens, apenas com o rumor de que o exército principal da União, sob o comando do [Brigadeiro-General Charles F.] Smith, estava a avançar de Paducah e que o ataque a Pillow era apenas uma manobra de diversão para desviar a atenção de Polk para aquele ponto.
Por fim, porém, por volta do meio-dia, a pressão sobre Pillow tornou-se demasiado forte para continuar a ser suportada… A passo acelerado, partimos e marchámos até ao rio, chegando à margem com vista para o local a tempo de ver as tropas de Pillow, que tinham lutado arduamente, dispersarem-se em desordem, a sua bateria ser capturada e voltada contra ele, e os seus acampamentos em chamas de destruição.
Não era uma visão encorajadora para os novatos, mas tivemos pouco tempo para a contemplar, pois, ao atingirmos o nosso alcance, enquanto em coluna fechada nos amontoávamos a descer para o cais, os canhões capturados de Belthoover foram virados contra nós, gelando-nos até à medula com um medo indescritível. Não me lembro de uma situação mais desmoralizante nos meus quatro anos de experiência de batalha. Ainda hoje estremeço só de pensar nisso.
Dois transportes, grandes vapores de rodas laterais, estavam atracados no cais, prontos para nos receber. A bordo de um deles, o «Prince», embarcámos apressadamente e, sob o fogo inimigo, atravessámos o rio; quatro tiros diretos atingiram o barco durante a travessia, arrancando os degraus da cabine, mas, felizmente, sem causar mais danos.
A Companhia G, do Capitão Faulkner, juntamente com a minha própria Companhia I, estava amontoada no convés de tempestade, cuja posição elevada, embora nos expusesse a uma atenção desagradável por parte do inimigo, proporcionava-nos uma visão comparativamente ampla do campo de batalha. Era uma visão triste e desanimadora a que assistíamos.
Os homens de Pillow, sujos de pólvora e a sangrar, estavam completamente desmoralizados, encolhidos sob o abrigo da margem do rio como bandos de porcos que tinham sido perseguidos por cães num milheiral, com as suas tendas todas em chamas e um inimigo exultante a desafiar-nos com arrogância.
Num espaço de tempo incrivelmente curto, o desembarque foi efetuado e desembarcámos com a mesma rapidez; a banda tentava corajosamente animar os nossos ânimos abatidos, tocando «Dixie». Formando uma linha de batalha assim que desembarcámos e carregando as armas à pressa, estávamos prontos para a ação.
O galante Cheatham estava lá, pronto para nos liderar. «Homens, em frente, e dêem-lhes o que merecem!», foi a sua ordem seca, e avançámos.
Subindo a margem sob a qual nos tínhamos formado e, através de um movimento oblíquo para evitar a vegetação impenetrável de árvores caídas, atacámos o inimigo exultante no seu flanco direito, desferindo um fogo inesperado.
Nesse momento, como se acabassem de despertar de uma paralisia de medo, as baterias pesadas no penhasco de Columbus abriram fogo bem direcionado de balas e granadas, causando mortes e espalhando consternação nas fileiras adversárias. É surpreendente ver a transição mágica da derrota para a vitória, de uma coragem deliberada para uma covardia desmoralizada. Todos os homens estão sujeitos a essa fraqueza.
Não é, portanto, qualquer desmerecimento à bravura das galantes tropas de Illinois, que tinham lutado tão arduamente durante toda a manhã e que, apenas um instante antes, se mantinham firmes com o orgulhoso sentimento de vitória, que agora ficassem por um momento aparentemente perplexas perante o nosso ataque repentino e depois começassem a recuar — a princípio lentamente e em ordem, mas depois a retirada transformou-se numa corrida e, da corrida, degenerou numa debandada desordenada. As armas foram atiradas para o chão, assim como as baionetas, os cartucheiros e até mesmo as mochilas, e toda a ordem foi esquecida na corrida desenfreada pela sobrevivência.
Com um pouco menos de desmoralização, seguimos atrás deles, desordenadamente, por campos e bosques, carregando e disparando enquanto corríamos, abatendo de vez em quando um pobre coitado com uma crueldade pouco menor do que o homicídio. Todo o acontecimento era tão diferente das nossas ideias pré-concebidas sobre uma batalha que mal conseguíamos perceber a sua trágica realidade. A perseguição foi tão desordenada e inglória quanto a fuga. Se não tivéssemos oficiais e se cada homem estivesse embriagado, dificilmente teríamos formado uma multidão mais desenfreada, mais imprudente e mais indisciplinada do que aquela em que nos encontrávamos.
Se o general Grant tivesse mantido sob controlo, com sangue-frio, uma única companhia, poderia ter capturado todos os homens dos dois regimentos que o seguiram através daquele pântano do Missouri até às suas canhoneiras, a seis milhas de distância. Mas não tinha tal companhia; todo o seu exército fugiu perante aquela ralé dispersa, nem sequer parando para formar uma linha de escaramuça para proteger o embarque das suas tropas fugitivas, mas apressou-se para os seus transportes de forma desordenada, deixando os mais lentos à mercê do destino.
Seguíamo-los tão de perto que o barco a vapor «City of Memphis» teve de cortar as amarras e recuar no rio, deixando alguns na margem para se renderem como prisioneiros. Ao aproximarmo-nos, abrimos fogo vigoroso contra os transportes em retirada, causando baixas consideráveis. Mas estes retiraram-se rapidamente para além do nosso alcance e as canhoneiras «Essex» e «Lexington», interpondo-se entre nós, abriram por sua vez fogo contra nós.
Felizmente para nós, o rio estava tão baixo nas suas margens que o ângulo de tiro teve de ser tão elevado que os projéteis passavam a zunir bem acima das nossas cabeças, por entre as copas das árvores, explodindo na floresta bem atrás de nós. Deitados no chão, estávamos perfeitamente seguros, onde permanecemos até que, vendo que os transportes já não corriam qualquer perigo da nossa parte, as canhoneiras se retiraram e nos deixaram livres para regressar aos nossos quartéis…
Estava quase a pôr-se o sol quando, já com as canhoneiras totalmente desaparecidas, iniciámos o nosso regresso rio abaixo. Por mais cansados que estivessem, os homens não conseguiram resistir à tentação de se carregarem com troféus da batalha à medida que passávamos pelo campo de batalha a caminho… Por volta das 22h00, voltámos a atravessar o rio e regressámos exaustos aos nossos quartéis, demasiado cansados para comer o jantar que o dia emocionante e agitado exigia tão urgentemente… O resto da noite foi passado a vigiar e a ansiar pela chegada da manhã…
Depois do pequeno-almoço, acompanhei um destacamento até ao campo de batalha com o objetivo de retirar os feridos e enterrar os mortos. Fiquei surpreendido ao encontrar tantos feridos espalhados pela floresta e escondidos sob o mato, ainda sem cuidados. Tinham-se arrastado até ali em busca de segurança e passaram ali a noite inteira a gemer de dor.
Mal tínhamos começado a nossa triste tarefa, tratando amigos e inimigos da mesma forma, quando chegou uma bandeira de trégua do General Grant a pedir permissão para cuidar dos seus feridos e enterrar os seus mortos. O pedido foi prontamente concedido e, em breve, juntaram-se a nós um corpo de ambulâncias e um grupo de trabalho; juntos, com solidariedade amigável, concluímos o trabalho melancólico…
Cumprido o nosso dever para com os mortos, retomou-se a rotina habitual da vida no acampamento, que não voltaria a ser perturbada até que, quase quatro meses depois, as salvas triunfantes de artilharia em Cairo, a doze milhas de distância, nos anunciaram o desastre de Fort Donelson e nos alertaram para a ira que se avizinhava.
