Como os Diamantes Transformaram a África Austral

Sangue, Suor e Segregação em Kimberley
Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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A descoberta de diamantes em 1867 na Griqualândia transformou, em última análise, toda a região da África Austral. Seguiram-se vultuosos investimentos financeiros europeus e uma imigração significativa. Os diamantes levaram a que a Grã-Bretanha assumisse o controlo da Griqualândia e da república bóer do Transvaal, bem como à conquista do Reino Zulu. Quando às riquezas das minas de diamantes de Kimberley se somou a descoberta de enormes jazidas de ouro em Witwatersrand, em 1886, a Grã-Bretanha entrou em guerra com os bóeres e procedeu à anexação de territórios africanos para garantir o seu completo domínio da região. As minas de diamantes e de ouro, que exigiam um fornecimento insaciável de mão de obra barata, transformaram também as economias e as culturas locais, lançando os alicerces de um sistema de segregação racial que só viria a ser abolido no final do século XX.

Cullinan Diamonds I-IX
Diamantes Cullinan I-IX Unknown Artist (Public Domain)

No início do século XIX, a África Austral tinha apenas um interesse estratégico real para os britânicos; a Colónia do Cabo (fundada em 1806) e o Cabo da Boa Esperança serviam como um importante ponto de paragem para os navios que navegavam de e para a Grã-Bretanha e as suas possessões na Ásia, particularmente a Índia Britânica. Os britânicos enfrentavam concorrência, não só dos africanos indígenas, mas também dos bóeres. Os bóeres eram colonos brancos na África Austral com ascendência holandesa ou francesa. O nome "bóer" significa "agricultor". Eram também conhecidos como afrikaners por falarem africâner. Ao longo da década de 1830, à medida que os britânicos proibiam a escravatura e o crescimento populacional exercia demasiada pressão sobre a terra e os recursos em redor do Cabo, mais de 14.000 bóeres migraram para encontrar terras noutros locais. Andries Waterboer foi um desses bóeres, tendo reivindicado o território de Griqua, situado acima do rio Orange, que reconhecida pelos britânicos em 1834, mas contestada pelos chefes locais Tlhaping.

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Por volta de 1890, a África do Sul era, de longe, o maior produtor mundial de diamantes.

Em 1843, os britânicos fundaram a colónia Natal. Entretanto, os bóeres criaram duas repúblicas: o Transvaal, em 1852, e o Estado Livre de Orange, em 1854. Até este momento, estas colónias brancas obtinham apenas uma fonte modesta de rendimento através da agricultura e do comércio. Tudo isto mudou em 1867, ano em que foram descobertos diamantes na Griqualândia. O primeiríssimo grande diamante em bruto foi, apropriadamente, encontrado num local chamado Hopetown e era utilizado por crianças como se fosse um berlinde bonito, até ser enviado para Grahamstown (Makhanda) e devidamente identificado. O secretário colonial do governo do Cabo, Richard Southey, pôs as mãos na pedra e declarou com confiança: "Cavalheiros, esta é a rocha sobre a qual se erguerá o sucesso futuro da África do Sul" (Fage, pág. 359). Em termos de investidores brancos, colonialistas e trabalhadores, ele tinha toda a razão. Já os africanos negros teriam muito menos motivos para celebrar a descoberta dos diamantes.

Mais diamantes foram encontrados em 1870 naquilo que viria a chamar-se Kimberley (nomeada em honra do Conde e secretário colonial). As primeiras jazidas de rocha diamantífera foram descobertas na quinta de Johannes Nicolas de Beer. As descobertas de diamantes ao longo dos rios Orange, Harts e Vaal levaram a um vultuoso investimento financeiro britânico na Griqualândia e a um enorme influxo de imigrantes. Havia prospetores experientes vindos da Austrália e da Califórnia, empresários britânicos implacáveis, sonhadores sem esperança e alguns criminosos. "Cinco anos após a descoberta na Griqualândia, eram exportados anualmente mais de 1,6 milhões de libras em diamantes (o equivalente a 170 milhões de libras nos dias de hoje)." (Boahen, pág. 183)

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The Big Hole, Kimberley
The Big Hole (O Grande Buraco), Kimberley Lubor Ferenc (CC BY-SA)

Kimberley foi o local de uma cratera gigantesca, feita pelo homem, conhecida simplesmente como o Big Hole (Grande Buraco). O escritor Anthony Trollope (1815-1882) visitou o local em 1877 e descreveu-o da seguinte forma:

É como se estivéssemos a olhar para uma bacia vasta, cujas paredes são tão lisas quanto deveriam ser as paredes de uma bacia, enquanto ao fundo se encontram várias incrustações maravilhosas entre as quais as formigas trabalham com a energia habitual da sua tribo... Olhamos para baixo e vemos o enxame de formigas negras ocupadas em cada buraco e canto com as suas picaretas, movendo e escavando o solo azul solto.

(Jackson, págs. 12-13)

Gradualmente, as pedras preciosas concentraram-se em cada vez menos mãos, à medida que homens como Alfred Beit e Barney Barnato compravam os seus concorrentes. Em 1871, existiam 3.588 concessões, mas, em 1881, estas haviam sido consolidadas em apenas 71. O maior vencedor de todos foi Cecil John Rhodes (1853-1902), filho de um vigário britânico e chegou pela primeira vez à África do Sul em 1870, para trabalhar na plantação de algodão do irmão. Rhodes chegou a Kimberley em 1871 e construiu rapidamente a sua fortuna através dos diamantes, dominando astutamente o mercado das bombas de água, essenciais para evitar a inundação das minas. Rhodes fundou a empresa De Beers Consolidated Mines Ltd. Por volta de 1890, a África do Sul era, de longe, o maior produtor mundial de diamantes, ultrapassando facilmente fontes tradicionais como o Brasil. De facto, Rhodes e a De Beers tinham obtido o controlo de cerca de 90% dos diamantes mundiais. O monopólio da De Beers em Kimberley permitiu à empresa fazer duas coisas: controlar a produção de diamantes para manter os preços elevados; e reduzir os custos da mão de obra. De forma a evitar e reduzir o furto, os trabalhadores eram obrigados a viver em complexos fechados com redes de arame, mas, naquele que foi o primeiro passo em direção à segregação, isto aplicava-se apenas aos africanos negros e não aos mineiros brancos.

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Agora que o interior parecia oferecer recursos valiosos, o governo britânico assumiu também um papel mais ativo nesta região de África. A Griqualândia, renomeada pelos britânicos como Griqualândia Ocidental, foi tornada Colónia da Coroa em 1871, mas acabou por ser anexada pela Colónia do Cabo em 1873. A apropriação flagrante das minas de diamantes de Kimberley por parte dos britânicos foi amargamente ressentida pelos bóeres do Transvaal e do Estado Livre de Orange. Foi igualmente contestada pelos chefes Griqua, a quem pertencia a terra que todos escavavam (agora com máquinas), à medida que as minas se tornavam vastos poços a céu aberto que marcaram a região permanentemente. Um tribunal de terras chegou mesmo a decidir que os Griqua eram, de facto, os proprietários da terra, mas isso não impediu os governantes coloniais de se apoderarem dela de qualquer forma. As minas passaram a ser dominadas por grandes empresas, as únicas com capacidade para suportar o custo da maquinaria dispendiosa necessária para escavar cada vez mais fundo na terra.

Diamond Miners, Kimberley, 1896
Mineiros de Diamantes, Kimberley, 1896 Wellcome Images (CC BY)

As Consequências do Boom Mineiro

Os "efeitos deste boom mineiro na África do Sul foram verdadeiramente fenomenais e abrangentes" (Boahen, pág. 183). As exportações aumentaram drasticamente, com os diamantes a representarem um terço do total. As minas constituíram uma fonte de postos de trabalho — embora árduos e inseguros — com 50.000 pessoas a encontrarem emprego na indústria diamantífera na década de 1870. A combinação de capital e mão de obra barata rendeu elevadíssimos lucros, mas apenas para os poucos que se encontravam no topo da pirâmide capitalista. Como observa o historiador R. Reid, a necessidade de garantir um fornecimento permanente de mão de obra barata teve consequências duradouras, uma vez que "...moldou a política social e económica na África do Sul ao longo do século XX, e em torno da qual se formou grande parte da ideologia racial" (pág. 183).

Os britânicos estavam determinados a criar uma federação na África do Sul que pudesse proteger as suas lucrativas minas de diamantes.

Outra consequência das minas foi o crescimento massivo da cidade de Kimberley, que rapidamente passou a contar com mais de 50.000 residentes. Um enorme influxo de novos colonos chegou de toda a África Austral e de outras regiões. Este boom proporcionou um mercado imediato e lucrativo para produtos alimentares cultivados localmente, o que permitiu a prosperidade de alguns camponeses africanos. No entanto, também criou uma competição indesejada por terras aráveis, e a prosperidade revelou-se temporária, uma vez que os colonos brancos, privilegiados pelas leis coloniais, começaram cedo a assumir o controlo e a cultivar em maior escala.

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À medida que a África Austral se desenvolvia economicamente, foram construídas estradas e caminhos de ferro, recorrendo novamente à mão de obra africana barata. Tais desenvolvimentos ao nível da urbanização e das infraestruturas foram invulgares noutras colónias africanas, pelo menos em termos de rapidez e escala. Em 1860, a África Austral tinha meros 3 quilómetros (1,8 mi) de linha férrea e nenhumas estradas adequadas a veículos de rodas. Por volta de 1889, existiam 3.300 km (2,050 mi) de caminhos de ferro e, em 1914, havia já 75.000 km (46,600 mi) de estradas. Estes sistemas de transporte constituíram uma nova perturbação para as comunidades agrícolas tradicionais e apenas intensificaram o processo de urbanização. A urbanização e o crescimento das minas estavam agora a afetar gravemente o meio ambiente, nomeadamente através de uma desflorestação severa, uma vez que eram necessárias quantidades tremendas de madeira para combustível. Contas feitas, o povo Griqua provavelmente desejaria que ninguém tivesse tropeçado naquela primeira pedra de um branco leitoso em 1867.

Map of the Zulu Kingdom and British Imperial Expansion
Mapa do Reino Zulu e da Expansão Imperial Britânica Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Os britânicos, particularmente o novo Secretário das Colónias, Sir Michael Hicks Beach, estavam agora empenhados em unificar a Colónia do Cabo e o Natal com as duas repúblicas bóeres numa espécie de federação, mas estas últimas desconfiavam do que isso significaria para a sua própria independência. Uma derrota dos bóeres perante um ataque dos Pedi deu aos britânicos a desculpa para anexarem o Transvaal em janeiro de 1877, alegando que apenas uma presença militar britânica garantiria a segurança. Os britânicos estavam determinados a criar uma federação na África do Sul que pudesse proteger as suas lucrativas minas de diamantes. Este plano deu mais um passo em frente quando os britânicos derrotaram o Reino Zulu em 1879; a Zululândia tornou-se uma colónia da coroa em 1887 e foi absorvida pelo Natal em 1897. Entretanto, os britânicos adquiriram tanto o Protetorado da Basutolândia (atual Lesoto) em 1884, como o Protetorado da Bechuanalândia (atual Botsuana) em 1885. A Suazilândia e a Pondolândia foram adicionadas à heterogénea coleção de estados da África Austral da Grã-Bretanha em 1893 e 1894, respetivamente.

A rivalidade britânica com as repúblicas bóeres continuou e intensificou-se após a descoberta de ouro em Witwatersrand, no Transvaal, em 1886. "Por volta de 1890, eram exportados 10 milhões de libras em ouro, o que tornou o ouro a principal exportação da África do Sul; este valor subiu para 25 milhões em 1905 e para entre 45 e 50 milhões [o equivalente a 5.000 milhões de libras hoje] em 1910" (Boahen, pág. 183). Em 1915, a África do Sul produzia 40% do ouro mundial. As minas de diamantes e de ouro inspiraram aventureiros imperialistas como Rhodes a avançar para norte do rio Limpopo, na crença (que se revelou errada) de que riquezas semelhantes seriam certamente encontradas por lá.

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Com uma indumentária bastante modesta, a única coisa extravagante em Rhodes era o seu desejo de domínio britânico sobre o mundo. Kimberley tornou-se a sede da British South Africa Company, fundada por Rhodes em 1889. Rhodes tornou-se Primeiro-Ministro da Colónia do Cabo em 1890. Com uma riqueza tremenda e, agora, com influência política, Rhodes lançou-se na construção de um império após obter uma carta real para colonizar o território que viria a chamar-se Rodésia (atuais Zimbabué, Zâmbia e Maláui). Rhodes governou o estado que partilhava o seu nome, formado à custa dos povos Mashona e Matabele, como um ditador.

À medida que o século XIX chegava ao fim, a Grã-Bretanha teve de defender as suas aquisições contra os bóeres em duas guerras: a Primeira Guerra Anglo-Bóer (1880-81) e a Segunda Guerra Anglo-Bóer (1899-1902). A Grã-Bretanha saiu vitoriosa do segundo conflito e, assim, finalmente, o sonho colonial britânico concretizou-se com a formação da União da África do Sul em 1910. Esta colónia era composta pela Colónia do Cabo, Natal, Transvaal e Estado Livre de Orange, incluindo o que tinham sido a Zululândia, Tongalândia, Suazilândia e Griqualândia

British Imperial State Crown
Coroa de Estado Imperial Britânico Cyril Davenport (Public Domain)

O ouro e os diamantes, que juntos representavam 75% das exportações da África do Sul, tinham, então, não só levado os britânicos a colonizar quase toda a região da África Austral, como também alterado completamente as relações entre colonos e africanos indígenas, lançando as sementes para as futuras políticas de segregação racial que durariam até ao final do século XX. Os mineiros brancos recebiam, em média, mais de dez vezes o salário de um mineiro negro. Foram aprovadas várias leis, como a Lei das Minas e Obras de 1911, que excluía os africanos de certos postos de trabalho especializados na mineração, e a Lei de Terras dos Nativos de 1913, que retirava terras aos africanos para os forçar a tornarem-se trabalhadores nas minas. Como observa Reid:

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Estas descobertas alterariam dramaticamente o equilíbrio de poder, transformando a história da África Austral e provocando uma verdadeira revolução económica que acabaria por destruir a autossuficiência africana e levaria à criação de uma economia capitalista no final do século XIX. Levaria, também, à destruição da independência política africana, pelo menos temporariamente.

(pág. 75)

As minas de diamantes da África do Sul continuam a produzir gemas deslumbrantes nos dias de hoje, mas nenhuma foi tão impressionante como o Diamante Cullinan, de mais de 3.000 quilates, descoberto em Cullinan em 1905. Lapidado para criar duas pedras enormes, o Cullinan I, de 530 quilates — também conhecido como a Estrela da África —, encontra-se agora no cetro real das Joias da Coroa Britânica na Torre de Londres. É o maior diamante lapidado incolor do mundo. A segunda maior pedra, o Cullinan II — a Segunda Estrela da África, de 317 quilates —, foi cravada na parte frontal da Coroa do Estado Imperial, que é utilizada nas coroações dos monarcas britânicos.

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Cartwright, M. (2026, maio 12). Como os Diamantes Transformaram a África Austral: Sangue, Suor e Segregação em Kimberley. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2926/como-os-diamantes-transformaram-a-africa-austral/

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Cartwright, Mark. "Como os Diamantes Transformaram a África Austral: Sangue, Suor e Segregação em Kimberley." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, maio 12, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2926/como-os-diamantes-transformaram-a-africa-austral/.

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Cartwright, Mark. "Como os Diamantes Transformaram a África Austral: Sangue, Suor e Segregação em Kimberley." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 12 mai 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2926/como-os-diamantes-transformaram-a-africa-austral/.

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