As Frentes Internas na Primeira Guerra Mundial

Os Efeitos da Guerra Total sobre os Civis
Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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A Primeira Guerra Mundial (1914-18) foi palco de combates a uma escala sem precedentes, bem como envolveu os civis como nunca antes acontecera. Pela primeira vez, as populações a centenas de quilómetros da frente de combate ficaram vulneráveis a ataques aéreos. A guerra no mar reduziu drasticamente a disponibilidade de mantimentos e de outros bens, o que levou à imposição do racionamento. Os governos revelaram-se tão preocupados com a manutenção do apoio público como com as vitórias militares no terreno, fazendo com que a propaganda e o controlo se tornassem características duradouras da vida quotidiana. Ocorreram, também, mudanças sociais, à medida que as mulheres substituíam os homens recrutados em muitas indústrias, e as classes baixas começaram a questionar a sua deferência tradicional para com as elites governantes, enquanto o mundo experienciava o conflicto mais devastador até então visto na história.

Bomb-Damaged House, WWI
Casa Danificada por Bombardeamento, Primeira Guerra Mundial Imperial War Museums (CC BY-NC-SA)

Ataques Diretos contra Civis

Os civis, que tiveram a infelicidade de ser apanhados nas frentes de combate reais, sofreram terrivelmente. À medida que as cidades eram ocupadas pelo inimigo, pessoas inocentes eram espancadas, presas, violadas e assassinadas, pois as populações civis eram frequentemente tratadas com dureza para dissuadir quaisquer revoltas. Os agricultores viram os campos destruídos por barragens de artilharia e pela construção de sistemas de trincheiras e postos militares fortificados. Paris esteve, por duas vezes, sob fogo direto de artilharia proveniente dos canhões gigantes da Alemanha; uma barragem, na primavera de 1918, matou 256 civis. Estima-se que, só em França, mais de 300 000 civis tenham morrido na guerra, vítimas de acções militares, da fome ou de doenças.

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Na Grã-Bretanha os ataques aéreos de todos os tipos causaram 1413 mortos e 3407 feridos.

Mesmo aqueles que se encontravam longe da frente estavam vulneráveis neste novo tipo de guerra mecanizada. Ambos os lados para semear o terror entre as populações civis utilizaram os aviões e dirigíveis. Muito frequentemente, o bombardeamento de civis era impreciso ou até inteiramente acidental, uma vez que a tecnologia da época não permitia o lançamento de bombas com qualquer precisão; contudo, vidas inocentes foram ainda assim ceifadas. Em março de 1918, aviões Gotha alemães bombardearam Paris matando 120 pessoas. Quando os gases foram utilizados nas frentes de combate, os civis recearam que as mesmas terríveis armas químicas pudessem vir a ser usadas também contra eles.

Os ataques de bombardeamento por dirigíveis Zeppelin, durante a Primeira Guerra Mundial, tiveram como alvo a França, a Bélgica, a Grã-Bretanha, a Rússia e a Roménia, e resultaram em mais de 4.000 baixas civis. O primeiro ataque de um Zeppelin a Paris ocorreu em agosto de 1914; ao todo, a capital francesa seria atingida por 30 ataques de bombardeamento durante a guerra. O primeiro ataque de um Zeppelin a Londres foi realizado em maio de 1915. Os alvos incluíam docas e terminais ferroviários. Os ataques penetraram profundamente na Grã-Bretanha, atingindo não só Londres, mas também alvos nas Midlands, em Yorkshire, Tyneside e até na Escócia. No total, durante a guerra, os ataques aéreos de todos os tipos na Grã-Bretanha causaram 1.413 mortos e 3.407 feridos. David Kirkwood descreve um ataque de um Zeppelin a Edimburgo em abril de 1916:

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Subitamente, ocorreu uma explosão aterradora. As janelas estremeceram, o chão tremeu, os quadros balançaram. Ficámos todos ofegantes. Corri para a janela e vi o Vesúvio em erupção. Abri a janela. Um clarão imenso saudou-me vindo do castelo e depois, por cima do estrondo, ouvi os gritos e a guinchos mais medonhos.

(Williams, pág. 41)

WWI Public Service Poster for a Gas Attack
Cartaz de Serviço Público da Primeira Guerra Mundial sobre Ataques com Gás. Unknown Artist (CC BY-NC-SA)

Houve danos materiais incalculáveis ao longo da guerra, à medida que os locais estrategicamente importantes, como estaleiros navais, nós ferroviários e zonas industriais, eram bombardeados. "Em França, estima-se que 250 000 edifícios tenham sido destruídos, 500 000 danificados e 6000 milhas quadradas de território devastadas" (McDonough, pág. 43).

Os trabalhadores civis podiam tornar-se vítimas de eventos inesperados que nada tinham a ver com a acção do inimigo, tais como esta explosão numa fábrica de armamento britânica, recordada por Ethel M. Bilbrough:

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Não chegaram notícias nessa noite, mas no dia seguinte ouvimos dizer que tinha sido a explosão mais terrível do género de que havia memória, pois uma fábrica de munições em Silvertown, no leste de Londres, se incendiara de alguma forma (Ah! Como?) e o fogo espalhara-se até atingir todos os explosivos; então, todo o recinto foi lançado pelos ares e quatro ruas foram demolidas, e os mortos, os moribundos e os feridos jaziam por entre as ruínas, de tal modo que, quando chegou uma equipa de socorro, mal sabiam por onde começar. Mais de 100 pessoas morreram e mais de 400 ficaram feridas e incapacitadas.

(Williams, pág. 53)

Indústria e Trabalhadores

Na maioria dos países, embora poucos tenham adoptado uma economia de guerra total até às fases finais do conflito, a indústria foi transformada para fornecer os materiais mais necessários para enfrentar o inimigo. Em particular, as aeronaves, os navios, os tanques e as munições tiveram de ser fabricados em quantidades massivas, e os seus formatos eram constantemente aperfeiçoados para acompanhar as inovações tecnológicas feitas pelo inimigo. Diversas nações já tinham vindo a reforçar as suas indústrias de armamento antes da Primeira Guerra Mundial, começando notavelmente pela Alemanha e pela Grã-Bretanha, à medida que cada uma tentava vencer a corrida armamentista anglo-alemã, que decorreu sensivelmente durante a primeira década do século XX. Como percentagem do Produto Interno Bruto (PIB), os gastos com armamento em 1914 foram os seguintes: Grã-Bretanha – 4,9%; Rússia – 4,6%; França – 3,9%; Alemanha – 3,5%; e Áustria-Hungria – 1,9% (McDonough, pág. 34). Como um todo, "os gastos europeus com armamento subiram de 4 por cento do rendimento nacional em 1914 para uns impressionantes 25 por cento em 1916" (ibid, pág. 44). Os governos viram-se obrigados a aumentar os impostos e a contrair pesados empréstimos, nomeadamente junto dos Estados Unidos, no caso dos Aliados, para pagar este aumento massivo de armamento.

Woman Working in a WWI Ammunitions Factory
Trabalhadora numa Fábrica de Munições da Primeira Guerra Mundial George P. Lewis (CC BY-NC-SA)

Certas áreas da indústria ficaram, comummente, sob o controlo direto do governo, de forma a alcançar a maior eficiência e garantir o fornecimento das matérias-primas necessárias: as minas de carvão, indústrias siderúrgicas, estaleiros navais e fábricas de munições foram direcionados para produzir máquinas de guerra, e os sistemas ferroviários foram controlados para melhor as transferirem para onde fossem necessárias.

Por volta de 1918, um terço da mão-de-obra nas fábricas de munições em França era feminina.

À medida que os trabalhadores do sexo masculino eram recrutados para os exércitos, o seu lugar foi inicialmente ocupado por homens considerados inaptos para combater ou que se encontravam anteriormente no desemprego. A Alemanha introduziu, em 1916, uma nova lei que obrigava todos os homens entre os 17 e os 60 anos a trabalhar. Contudo, eram necessários mais trabalhadores e, por isso, recrutaram-se as mulheres. As normas sociais alteraram-se à medida que profissões anteriormente consideradas adequadas apenas para homens passaram subitamente a ser exercidas por mulheres. As mulheres já trabalhavam em fábricas antes da guerra, mas a expetativa de que abandonariam o seu posto ao casarem, bem como a ideia de que o trabalho feminino era, de algum modo, menos valioso — sendo, por isso, menos remunerado do que o dos homens — começaram a ser postas em causa durante a Primeira Guerra Mundial, pelo menos no que diz respeito às mulheres da classe operária.

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As fábricas de munições tinham uma procura insaciável de trabalhadores e, habitualmente, estes postos ofereciam salários mais elevados do que noutras indústrias. Em França, 75 000 mulheres trabalhavam em fábricas de munições em 1915 e, em 1918, um terço dos operários deste sector eram mulheres. Na Grã-Bretanha, em 1916, 520 000 mulheres trabalhavam nas indústrias metalúrgica e de engenharia. Em 1918, a força de trabalho britânica incluía mais de 7,3 milhões de mulheres, sendo que 90% dos trabalhadores de munições eram mulheres. Na Rússia, em 1917, as mulheres constituíam cerca de 43% da mão-de-obra industrial. Na Alemanha, o número de mulheres a trabalhar na indústria química subiu de 26 749 em 1913 para 208 877 em 1918. Registaram-se aumentos semelhantes nas indústrias de máquinas e de armamento.

Women Munitions Workers, WWI
Trabalhadoras numa Fábrica de Munições, Primeira Guerra Mundial Imperial War Museums (CC BY-NC-SA)

As novas oportunidades surgiram com riscos: o trabalho fabril era frequentemente perigoso por si só. Beatrice Lee, que trabalhou na metalúrgica Yorkshire Copper Works, descreve os efeitos físicos do seu emprego:

Não era o que se pudesse chamar um trabalho saudável. Porque, bem, naquela altura o meu cabelo era preto como a asa da corva e eu tinha de me inclinar sobre os tanques com o ácido. Já viu o estilo de hoje em que as pessoas descolorem o cabelo à frente? Pois bem, o meu cabelo ficou assim, mesmo só à frente, por me inclinar sobre os tanques onde estava o ácido, porque tínhamos de colocar os tubos neste ácido quente. Ora, os tubos quentes aqueciam o ácido e depois os vapores subiam. Era um trabalho muito insalubre mas, apesar disso, eu era muito feliz ali.

(Imperial War Museum/Museu Imperial da Guerra)

A escassez geral de homens nas frentes internas levou a que surgissem novas oportunidades de emprego para as mulheres também fora do sector transformador, nomeadamente na agricultura e nos serviços públicos, como em ambulâncias e nas forças policiais. Os empregos de colarinho branco, como em departamentos administrativos de empresas, bancos e na administração local, foram ocupados por cada vez mais mulheres. Contudo, persistiam barreiras para as mulheres, como nos ofícios dominados por homens que exigiam longos períodos de aprendizagem formal. Das mulheres de classe média que casavam, continuava a esperar-se que priorizassem a família em detrimento da vida profissional. Embora muito mais mulheres se tenham tornado professoras no ensino básico e secundário, as universidades continuavam a proibi-las de lecionar no ensino superior. Por fim, a grande maioria das mulheres trabalhadoras fora das grandes cidades, tal como acontecia antes da guerra, estava limitada a encontrar emprego no serviço doméstico. Contudo, também aqui houve mudanças, uma vez que as mulheres nas áreas urbanas maiores abandonaram o serviço doméstico por empregos mais bem remunerados na indústria e nos serviços públicos sempre que podiam.

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Por toda a Europa, as mulheres trabalhadoras tornaram-se subitamente visíveis em todo o lado, fosse a limpar janelas, a conduzir carrinhas de entregas, a varrer estradas ou a picar bilhetes de autocarro. Mesmo nos Estados Unidos, onde a frente interna foi muito menos afectada pela guerra em comparação com a Europa, as mulheres começaram a trabalhar em fábricas, abandonando os seus papéis tradicionais no serviço doméstico; isto, por sua vez, criou oportunidades para que as mulheres negras, que anteriormente trabalhavam no campo, ocupassem os seus lugares.

Women Police Officers, WWI
Mulheres Agentes de Polícia, Primeira Guerra Mundial Imperial War Museums (CC BY-NC-SA)

A transição do serviço doméstico e do sector agrícola para empregos industriais e de colarinho branco é uma das principais características da força de trabalho feminina em vários países durante a guerra, uma vez que, ao contrário do mito popular, "não houve um afluxo enorme de mulheres que não trabalhavam para empregos de homens" (Strachan, pág. 154). Pelo contrário, a vasta maioria das mulheres trabalhadoras já trabalhava anteriormente, somente mudou de sector laboral. Raramente, também, as mulheres recebiam na prática melhores salários do que os homens, apesar de desempenharem a mesma função. No entanto, os salários eram melhores nas fábricas do que no serviço doméstico e, por isso, o poder de compra de muitas mulheres aumentou drasticamente e, com ele, a sua liberdade de agirem como desejavam — como vestirem as roupas que preferiam ou comerem fora sem companhia masculina. Houve um preço a pagar por esta liberdade, tornada possível apenas devido à escassez de homens e à expansão de certas indústrias. Mais de 4 milhões de mulheres perderam os maridos durante o conflito, enquanto outros milhões perderam pais, irmãos e filhos.

Uma consequência mais positiva do novo papel das mulheres foi o movimento crescente para lhes dar um verdadeiro reconhecimento como membros importantes de uma economia e de uma sociedade até então inteiramente dominadas por homens. As mulheres foram também reconhecidas pelo seu contributo vital para o esforço de guerra nas fábricas, como enfermeiras e membros de outros serviços voluntários, e como mães. Na Rússia, as mulheres conquistaram o direito ao voto em 1917. Na Grã-Bretanha, foi concedido o direito de voto às mulheres com mais de 30 anos em fevereiro de 1918. Na Alemanha, as mulheres receberam o direito ao voto em novembro de 1918, após o armistício. Em França, a câmara baixa do parlamento aprovou uma lei para dar o voto às mulheres, mas esta foi rejeitada pelo Senado (a câmara alta).

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Racionamento

Todos na frente interna sofreram privações de uma forma ou de outra durante a guerra. Enquanto os submarinos alemães (U-boats) tentavam afundar o maior número possível de navios da marinha mercante que fizesse a Grã-Bretanha passar fome, a Marinha Real bloqueou a Alemanha para impor o mesmo sofrimento à população alemã. Muitos bens anteriormente comuns tornaram-se escassos ou indisponíveis. Como consequência da escassez, os preços subiram drasticamente. O governo alemão impôs limites de preços em bens como o açúcar e tentou incentivar as pessoas a comer menos dos bens mais escassos, como a carne, promovendo "dias sem carne". A Alemanha introduziu o racionamento do pão em janeiro de 1915 e, no ano seguinte, a carne, as batatas, o leite, o açúcar e a manteiga também foram racionados. Em 1918, as pessoas na capital, Berlim, tinham autorização para apenas 450 gramas (uma libra) de batatas por semana.

Os hábitos alimentares mudaram ao longo do tempo devido à falta de disponibilidade de artigos anteriormente básicos. Por exemplo, o consumo de nabos aumentou drasticamente para substituir as batatas, muito mais escassas. O consumo semanal médio de carne para um adulto alemão antes da guerra era de 1 kg (2,3 libras), mas este valor caiu a pique para apenas 135 gramas (0,3 libras) em 1918. À medida que o bloqueio aliado prosseguia tornaram-se difíceis de comprar combustível, vestuário, cobertores de lã e artigos de couro. Tal como noutros locais, havia um mercado negro onde aqueles com dinheiro e poucos escrúpulos podiam adquirir bens racionados ou escassos a um preço mais elevado do que o habitual. O próprio dinheiro perdeu o seu valor devido à inflação elevada; em alguns países, os preços subiram entre 40 e 75%; noutros, houve aumentos muito maiores, resultando na hiperinflação. Na Áustria, o valor real dos salários reduziu-se para metade em 1916 e voltou a reduzir-se para metade em 1917. Muitos civis viram-se obrigados a recorrer à troca direta de bens, permutando, por exemplo, cascas de batata por lenha.

Queuing For Food, WWI
Filas para a Alimentação, Primeira Grande Guerra Imperial War Museums (CC BY-NC-SA)

O governo britânico garantiu que fossem utilizados adicionalmente 3 milhões de acres de terra para a agricultura, mas o racionamento foi ainda assim introduzido no último ano da guerra para, pelo menos, assegurar que todos — e não apenas os mais abastados — tivessem acesso à maioria dos bens, embora em quantidades muito limitadas.

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A França sofreu privações semelhantes, e a perda das jazidas de ferro e carvão do país para as forças de ocupação alemãs teve consequências significativas. Sendo predominantemente agrícola, a França era, pelo menos, mais ou menos autossuficiente em termos alimentares, embora o acesso à maioria das fábricas de beterraba sacarina se tenha perdido quando a Alemanha invadiu o norte de França. O controlo do consumo de trigo fez com que o pão mais grosseiro se tornasse mais comum a partir de 1916 (tal como aconteceu também na Grã-Bretanha). Nesse mesmo ano, a cadeia de abastecimento alimentar foi duramente atingida por más colheitas, especialmente de trigo, centeio e batatas. Tal como na Alemanha, os dias sem carne foram incentivados e os talhos apenas abriam três dias por semana. Os restaurantes também reduziram o seu horário de funcionamento. Em 1918, o pão foi racionado para apenas 283 gramas (10 onças) por pessoa, por dia.

Agitação Social

A guerra na frente interna tornou-se tão importante como o combate real. Cada país tentou perturbar o mais possível o modo de vida das populações civis do inimigo, na esperança de que greves e protestos pudessem derrubar o governo e levar à retirada da guerra. Os governos responderam a esta ameaça procurando controlar todos os aspetos da vida quotidiana e emitindo propaganda em massa — através do cinema, rádio, literatura e cartazes — para justificar o conflito e incutir lealdade naqueles que governavam: "O consentimento era um elemento essencial da guerra de massas" (Strachan, pág. 216). Por vezes, a propaganda ia longe demais e, por isso, esse mesmo termo passou a significar 'mentiras' para muitos. Mesmo nas democracias liberais, o controlo governamental foi elevado a níveis sem precedentes, à medida que o espírito tradicional de deferência para com os líderes se evaporava ao longo dos 50 meses de guerra. Tal como as forças militares tiveram de ser mobilizadas para lutar, também a população civil teve de ser mobilizada para apoiar o esforço de guerra.

Revolutionaries in Petrograd
Revolucionários em Petrogrado Unknown Photographer (CC BY)

Surgiram protestos contra alguns destes controlos impostos pelos governos à vida civil. A censura à imprensa verificou-se em muitos países de ambos os lados. Na França, existia uma censura militar sobre as notícias. Na Grã-Bretanha, o governo aprovou a Lei de Defesa do Reino (Defence of the Realm Act) em agosto de 1914, que permitia ao executivo limitar as liberdades pessoais em todas as áreas da vida quotidiana. Os operários protestaram contra as longas jornadas de trabalho que lhes eram impostas, à medida que os governos ficavam desesperados por fornecer aos seus exércitos os materiais necessários para vencer batalhas colossais. Na França, "o número de greves na indústria e nos serviços públicos franceses subiu de forma alarmante, de 98 em 1915 para 689 em 1917" (Simkins, pág. 80). Na Grã-Bretanha, o ano de 1918 registou 688 greves, envolvendo mais de 800 000 trabalhadores. Os manifestantes estavam também descontentes com a subida dos preços, o controlo sobre a sua mobilidade, as más condições de habitação e o racionamento.

A Rússia assistiu ao mais dramático de todos os protestos antigovernamentais. A Revolução Bolchevique de novembro (outubro no antigo calendário) de 1917, liderada por Vladimir Lenine, varreu o regime czarista. O Czar Nicolau II (reinado 1894-1917) fora obrigado a abdicar em março, após uma série de derrotas militares desastrosas, e o seu sucessor, o Governo Provisório, falhara na melhoria da situação. Em abril, os trabalhadores em Petrogrado (São Petersburgo) marcharam em protesto contra a continuação da guerra e, nesse verão, mais de 1.000 greves espalharam-se pela Rússia. A escassez de alimentos provocou revoltas do pão. Os bolcheviques prometeram ao povo russo a retirada imediata da guerra, o combate à inflação galopante e uma solução para as carências no abastecimento alimentar do país. Lenine retirou formalmente a Rússia da Primeira Guerra Mundial com o Tratado de Brest-Litovsk, em março de 1918. A retirada da Rússia e a revolução dos trabalhadores enviaram ondas de choque pelos governos de todos os lados do conflito, que temiam enfrentar uma revolução nos seus próprios países.

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Na Alemanha, o controlo da agitação social foi um factor-chave para a continuação da participação do país na guerra. À medida que o bloqueio aliado começava a fazer-se sentir de forma mais profunda, as pessoas saíram à rua para demonstrar ao governo o seu descontentamento com o rumo da guerra. Na verdade, já tinham ocorrido protestos anti-guerra anteriormente; por exemplo, 500 mulheres alemãs manifestaram-se em frente ao parlamento alemão exigindo o regresso dos soldados a casa. Em 1916, 10 000 operários alemães marcharam pelo fim da guerra. Novos protestos ocorreram ao longo de 1917 e 1918, especialmente em cidades industriais como Hamburgo, Essen, Leipzig e Berlim. Em janeiro, 400 000 trabalhadores entraram em greve em Berlim e pediram a retirada incondicional da guerra. Em resposta, o governo colocou as sete maiores unidades industriais de Berlim sob lei marcial, prendeu os cabecilhas e enviou cerca de 6.000 trabalhadores para as linhas da frente.

Após o fracasso da Ofensiva de Primavera alemã em 1918, aumentaram os casos de protesto público contra o governo alemão e a sua condução da guerra. Estes protestos, juntamente com as derrotas militares na Frente Ocidental e os motins nas forças armadas, convenceram finalmente a liderança alemã a pedir a paz. Os combates cessaram em novembro de 1918, mas os efeitos da guerra na frente interna, tanto aqui como noutros países, sentir-se-iam durante as décadas seguintes.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é Diretor Editorial da WHE e possui mestrado em Filosofia Política pela Universidade de York. Ele é pesquisador em tempo integral, escritor, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações.

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Estilo APA

Cartwright, M. (2026, março 21). As Frentes Internas na Primeira Guerra Mundial: Os Efeitos da Guerra Total sobre os Civis. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2903/as-frentes-internas-na-primeira-guerra-mundial/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "As Frentes Internas na Primeira Guerra Mundial: Os Efeitos da Guerra Total sobre os Civis." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, março 21, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2903/as-frentes-internas-na-primeira-guerra-mundial/.

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Cartwright, Mark. "As Frentes Internas na Primeira Guerra Mundial: Os Efeitos da Guerra Total sobre os Civis." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 21 mar 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2903/as-frentes-internas-na-primeira-guerra-mundial/.

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