Causas da Revolução Russa de 1917

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Mark Cartwright
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Houve várias causas por trás da Revolução Russa de 1917, que variaram desde o impopular regime autoritário do Czar Nicolau II (reinado 1894-1917) até à mobilização radical da classe operária, que exigia melhores condições de trabalho e uma maior representação política. Tratando-se, na verdade, de uma revolução dupla, a primeira resultou na abdicação do czar em Março; depois, após o governo ineficaz do Governo Provisório de 1917, ocorreu uma segunda revolução em Novembro. Esta última é frequentemente designada como Revolução Bolchevique, pois viu os bolcheviques (mais tarde chamados Partido Comunista), liderados por Vladimir Lenine (1870-1924), tomar o poder e estabelecer a Rússia Soviética.

Map of the Russian Revolution & Collapse of Tsarism, 1917–18
Mapa da Revolução Russa em 1917 & Colapso do Tsarismo, 1917-1918 Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

As principais causas da Revolução Russa de 1917 foram:

  • O regime do czar era cada vez mais autoritário.
  • O czar não concretizou as reformas que prometera após a Revolução Russa de 1905.
  • O czar era impopular devido à sua associação a Grigori Rasputine.
  • A participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial causou uma grave crise económica e escassez de alimentos.
  • O czar, enquanto comandante-em-chefe, foi associado às derrotas na Grande Guerra.
  • O czar perdeu o apoio das forças armadas russas, que se tornaram progressivamente indisciplinadas.
  • Os revolucionários socialistas lutavam por uma sociedade mais justa, nos moldes sugeridos por Karl Marx.
  • As classes operárias eram cada vez mais influenciadas pelos revolucionários socialistas.
  • Os operários exigiam melhores salários, melhores condições de trabalho e representação política.
  • Os camponeses pretendiam uma distribuição de terras mais justa e representação política local.
  • As classes médias desejavam reformas sociais e uma maior participação no governo.
  • As mulheres reivindicavam o direito ao voto e a igualdade de direitos jurídicos perante os homens.
  • As nações integradas no Império Russo lutavam pela sua independência.
  • O Governo Provisório falhou a promessa de realizar eleições para uma Assembleia Constituinte.
  • O Governo Provisório não conseguiu resolver os graves problemas económicos e de infraestruturas.
  • Muitos operários e camponeses desejavam que a Rússia se retirasse da Primeira Guerra Mundial.
  • Os bolcheviques radicais, liderados por Lenine, tomaram o poder pela força, dissolvendo o Governo Provisório e declarando a Rússia uma república.

A Perda de Prestígio do Czar

A reputação do Czar Nicolau II perante o seu povo, como um governante sábio e justo, entrou numa espiral descendente a partir de 1905. Uma recessão económica, a derrota na Guerra Russo-Japonesa (1904-05), o massacre de manifestantes pacíficos e desarmados no "Domingo Sangrento" de 1905 e o incumprimento das reformas prometidas fizeram com que o povo questionasse se o czar seria, de facto, a pessoa ideal para liderar a nação. Nicolau parecia alheio às mudanças sociais na Rússia do século XX. Certa vez, confessou a um familiar: "Nunca concordarei com uma forma representativa de governo porque a considero prejudicial para o povo que Deus me confiou" (Montefiore, pág. 521). O czar acreditava que a autocracia era, verdadeiramente, a melhor forma de governação. Nicolau reprimiu implacavelmente qualquer dissidência ao seu regime. Os protestos eram violentamente esmagados pelo exército e pela polícia, e foram efetuadas inúmeras detenções.

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O golpe final no prestígio do czar foi a sua decisão de se tornar comandante-em-chefe das forças armadas.

Exilados, presos e talvez temporariamente subjugados, mas aqueles que clamavam por mudança não desapareceram. Formaram-se partidos radicais clandestinos que trabalhavam por uma monarquia constitucional ou até por uma república. A posição do czar começou a enfraquecer ainda mais na sequência de rumores persistentes e desagradáveis sobre a influência que o estranho e autoproclamado homem santo, Grigori Rasputine (1869-1916), exercia sobre a família real e a política. Rasputine ganhou inicialmente acesso aos corredores do poder porque parecia conseguir trazer alívio ao herdeiro do czar, Alexei, que sofria de hemofilia. Rasputine pode não ter tido um efeito real além de um impacto psicológico de calma no seu paciente, mas a imperatriz ficou particularmente impressionada com ele, e este rapidamente se tornou uma parte aparentemente indispensável da comitiva real. Espalharam-se rumores de que o "homem santo" era, na verdade, um ébrio que se entregava a atividades sexuais com qualquer pessoa que lhe passasse pelas mãos. Revistas escandalosas e jornais menos conceituados publicavam caricaturas lisonjeiras e chegavam a especular se Rasputine teria um caso com a imperatriz. Nicolau recusou-se a reagir aos boatos, mas, como observa o historiador T. Hasegawa, "mais do que qualquer outra coisa, o caso Rasputine contribuiu para a erosão catastrófica do prestígio da autocracia" (pág. 39).

Rasputin & Tsar Cartoon
Caricatura de Rasputin e o Tsar Unknown Artist (Public Domain)

Outro golpe no prestígio do czar foi o seu apoio vigoroso a organizações nacionalistas ultrarreacionárias e antissemitas, como a União do Povo Russo, que levava a cabo ataques cruéis contra os judeus e outros bodes expiatórios tradicionais. Estes pogroms e o "Domingo Sangrento" apagaram eficazmente a crença de longa data de que o Czar da Rússia, escolhido por Deus, era, por definição, um governante justo e equitativo. O golpe final no prestígio do czar foi a sua decisão de se tornar comandante-em-chefe das forças armadas em Setembro de 1915, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18). Sendo completamente desqualificado para tal cargo, o resultado final foi apenas que as derrotas do exército passaram a estar estreitamente associadas ao governante do país e não aos seus generais.

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Talvez ainda pior para Nicolau, enquanto este estava na frente de batalha a "brincar aos soldados", o governo foi essencialmente deixado sob a orientação da Imperatriz Alexandra Feodorovna (1872-1918), o que, para muitos, significava na verdade sob a orientação de Rasputine. Houve, certamente, um turbilhão de demissões e nomeações ministeriais, muitas das quais, dizia-se, tinham sido pagas. Os monárquicos percebiam o dano que Rasputine — ou, mais precisamente, os rumores que o rodeavam — estava a causar à reputação do czar. O rumor mais prejudicial era o de que Rasputine e a imperatriz estariam a formar algum tipo de governo pró-alemão, cuja única prova era o facto de a própria imperatriz ser alemã, tendo o título de Princesa Alix de Hesse-Darmstadt antes do seu casamento. Um grupo de monárquicos urdiu um complô para assassinar Rasputine e o seu corpo — espancado e baleado — foi descoberto num rio no início de Janeiro de 1917.

A Rejeição do Estado Autoritário

O czar tinha criado uma assembleia, a Duma, mas a votação para a mesma era enviesada a favor das classes altas e esta possuía muito pouco poder. Significativamente, o czar podia vetar qualquer nova legislação aprovada pela Duma. O czar detinha também o direito exclusivo de nomear e demitir ministros, e Nicolau promoveu persistentemente os políticos que eram submissos às suas próprias opiniões pessoais. Além da arena política, o czar mantinha o controlo absoluto sobre os militares, a burocracia estatal, a política externa e a Igreja. A polícia secreta do czar, a Okhrana, parecia estar envolvida em todas as facetas da vida. Com o aumento do nível de escolaridade, cada vez mais súbditos do czar se sentiam profundamente insatisfeitos com este estado de coisas. Enquanto outras nações ponderavam questões como o sufrágio alargado e enalteciam as virtudes da liberdade de expressão, de associação e de imprensa, a Rússia parecia estar muito atrasada. Os operários e camponeses tornavam-se progressivamente conscientes do que lhes estava a ser vedado. Ao mesmo tempo, uma classe média florescente, composta por profissionais e estudantes, estava igualmente determinada a promover a mudança.

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Tsar Nicholas II Under House Arrest
Tsar Nicolau II sob Prisão Domiciliar Bain News Service (Public Domain)

A Radicalização das Classes Operárias

Desde 1905, as classes operárias tinham crescido significativamente à medida que a Rússia atravessava o seu processo de industrialização. Em 1917, existiam cerca de 18,5 milhões de operários, aproximadamente 10% da população. Os trabalhadores concentravam-se nas grandes cidades e em certas regiões específicas. "Esta concentração da força de trabalho industrial foi fundamental para facilitar a sua mobilização em 1917, e conferiu à classe operária um peso político desproporcional face ao seu número reduzido" (Shukman, pág. 19). A classe operária cresceu também graças à Primeira Guerra Mundial, quando a conscrição retirou trabalhadores para combater nas forças armadas, sendo os seus postos preenchidos por camponeses e mulheres.

Os operários exigiam melhores salários, um limite para a jornada de trabalho (8 horas por dia) e ambientes de trabalho mais seguros. Pretendiam sindicatos sem restrições e sem a interferência da polícia secreta. Desejavam também uma melhoria nas habitações, muitas vezes semelhantes a bairros de lata, que lhes eram facultadas. Alguns trabalhadores ambicionavam representação política numa assembleia genuinamente popular que influenciasse a criação de novas leis. Progressivamente, os operários recorreram a greves para levar estas reivindicações à atenção do czar.

Os operários fabris formaram sovietes, ou conselhos, inicialmente para organizar greves, mas depois de forma mais abrangente para representar os interesses gerais dos trabalhadores. O Soviete de Petrogrado (o nome de São Petersburgo a partir de 1914) foi formado em Fevereiro de 1917, mas os sovietes surgiram por todo o lado. Em Maio de 1917, existiam 400 sovietes de trabalhadores por toda a Rússia e, em Outubro desse ano, o número tinha subido para cerca de 950. Até o exército começou a ter sovietes, o que causou o enfraquecimento da hierarquia tradicional entre oficiais e soldados rasos. Em suma, os sovietes tornaram-se "órgãos de autoexpressão de massas" (Read, pág. 144).

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The Petrograd Soviet in 1917
A Petrogrado Soviética em 1917 Unknown Photographer (Public Domain)

Os comités executivos dos sovietes passaram a ser dominados por uma intelligentsia socialista radical. Com o tempo, esta liderança foi, por sua vez, dominada pelos bolcheviques, uma fação radical do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR). O POSDR e outros socialistas eram fortemente influenciados pelas ideias do filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), que apelavam a uma redistribuição mais justa da riqueza e do poder político.

Muitos operários sentiam-se cada vez mais frustrados com o agravamento das condições económicas ao longo do verão de 1917.

Após a queda do czar em Março de 1917, os bolcheviques, ao contrário dos socialistas mais moderados, pretendiam uma revolução proletária imediata, na qual os trabalhadores geressem o Estado. De facto, instalou-se um vácuo político após o fim do regime czarista a nível local, onde a antiga burocracia do czar foi substituída por "uma coleção e variedade desconcertantes de conselhos populares, sovietes, comités de fábrica, coletivos de camponeses e outros órgãos de controlo popular" (Alan Wood, pág. 48). Os bolcheviques viram neste caos uma oportunidade para tomar o poder.

A ideia de uma segunda revolução, muito mais profunda, começou a atrair cada vez mais operários à medida que o ano de 1917 avançava. Muitos trabalhadores sentiam-se progressivamente frustrados com o agravamento das condições económicas ao longo do verão de 1917. À medida que os sovietes se tornavam mais militantes, o número de greves aumentou consideravelmente.

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Russian Hamlet by Kryjitski
Vilarejo Russo por Kryjitski Constantin Kryjitski (Public Domain)

A Agitação Camponesa

Desde a emancipação dos servos em 1861, os camponeses russos sofriam de uma escassez crónica de terras e da recusa do czar em redistribuir as vastas propriedades da aristocracia. No entender dos camponeses, a terra só deveria pertencer a quem nela trabalhasse. Os camponeses sofriam também com os impostos elevados e desejavam ter uma maior intervenção nos conselhos locais. Justamente para com o czar, deve referir-se que algumas reformas foram tentadas. O primeiro-ministro, Pyotr Stolypin (1862-1911), criara uma série de alterações que ficaram conhecidas como as Reformas de Stolypin. As reformas tinham boas intenções mas, em última análise, não foram totalmente bem-sucedidas. Os setores da educação e da saúde melhoraram e alguns camponeses proprietários de terras mais ricos (os kulaks) ficaram em melhor situação, mas a condição da maioria dos camponeses permanecia tão frustrante como fora em 1905. Além disso, estas reformas, por mais ligeiras que tenham sido, enfureceram os apoiantes da classe alta do czar, pois consideravam-nas um enfraquecimento do sistema autoritário que pretendiam manter. Outra classe descontente era a crescente classe média urbana. À medida que os camponeses afluíam às cidades para tentar encontrar trabalho, o Estado pouco fez para os acomodar, e a criminalidade era generalizada. Existiam também tensões resultantes da mistura de grupos étnicos nas grandes cidades por todo o império.

A Primeira Revolução e a Primeira Grande Guerra

A primeira revolução de 1917 começou com motins devido à falta de pão em Petrogrado, em Março de 1917, e escalou rapidamente quando as tropas da guarnição de Petrogrado se juntaram aos amotinados. A revolução e a falta de apoio ao czar entre a elite política forçaram a mão de Nicolau, que foi aconselhado a abdicar, o que fez a 2 de Março. O substituto do czar foi o Governo Provisório, mas este órgão de ex-ministros da Duma não podia reivindicar legitimidade, uma vez que não tinha havido eleições para o mesmo.

O Governo Provisório teve de partilhar o poder com o Soviete de Petrogrado num sistema que ficou conhecido como "duplo poder". O Soviete de Petrogrado continuou a ser o mais influente; mesmo antes da abdicação, tinha declarado (Ordens n.º 1 e 2) que, nas forças armadas em Petrogrado, seriam os comités de soldados a assumir a tomada de decisões, descartando a hierarquia tradicional de patentes de oficiais. O soviete insistira também em aprovar todas as ordens gerais dadas a estas forças armadas. Quando estas ordens foram alargadas ao Exército Russo como um todo, o resultado foi uma queda vertiginosa da disciplina e um aumento galopante das deserções. Além disso, a crise alimentar de 1917 obrigou à redução das rações diárias dos soldados de 4 000 para 2 000 calorias. Como Lenine afirmou, os soldados estavam a rejeitar as fontes tradicionais de autoridade e a "votar com os pés" (Alan Wood, pág. 56).

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Alexander Kerensky
Alexander Kerensky Karl Bulla (Public Domain)

O Governo Provisório, na realidade uma sucessão de coligações instáveis, lutou para lidar com a espinhosa questão de saber se, como ou quando poderia a Rússia retirar-se da Primeira Guerra Mundial. Colocava-se a questão do império em desintegração e de como enfrentar a ascensão de movimentos nacionalistas em quase toda a parte. A economia e a inflação galopante eram verdadeiras catástrofes. As indústrias de guerra prosperavam, mas à custa de uma redução drástica na disponibilidade de bens de consumo e até de bens essenciais, como alfaias agrícolas. A agitação civil tornava-se cada vez mais frequente e violenta. O Governo Provisório tão-pouco podia contar com o uso da força, uma vez que o exército fora, em grande parte, doutrinado pelo bolchevismo. O governo prometeu eleições gerais, mas os ministros consideraram prudente esperar pelo fim da guerra. Havia também o problema logístico de milhões de eleitores estarem a combater em várias frentes, o que tornava a organização de tal sufrágio extremamente difícil.

A simples retirada da guerra quebraria as obrigações contratuais da Rússia para com os seus aliados, a Grã-Bretanha e a França. A Rússia necessitava de capital ocidental se pretendesse ter alguma esperança de se reconstruir em tempos de paz. Além disso, uma paz em separado com a Alemanha afigurava-se como muito severa, dado que a Rússia estava a ter um desempenho desastroso no conflito. Alguns militaristas de direita pretendiam instaurar uma ditadura militar e prosseguir com a guerra. Em contraste, os operários marcharam em protesto contra a continuação do conflito a 23 e 24 de Abril, em Petrogrado. A guerra estava a paralisar a economia e mais de 2,5 milhões de russos tinham morrido nos combates. Os camponeses também desejavam o fim de tudo isto, mas, tal como o governo, temiam uma guerra civil em torno desta questão.

O Governo Provisório

As classes médias, as classes altas, a Igreja Ortodoxa Russa (que beneficiou da nova separação entre o Estado e a Igreja), os russos de origem judaica e outros grupos minoritários apoiaram o Governo Provisório. Havia também aqueles que, independentemente da classe ou convicção política, viam como um dever patriótico apoiar qualquer governo que estivesse em funções durante a guerra. Até alguns socialistas radicais, como os mencheviques, apoiaram o governo. E houve conquistas notáveis: as mulheres obtiveram direitos iguais aos dos homens através de uma nova lei, aprovada a 20 de Março, que tornou iguais todos os cidadãos adultos. Houve uma nova liberdade de imprensa e de expressão. O mês de Agosto assistiu à realização de eleições democráticas para os conselhos locais em vilas e zonas rurais.

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Na esperança de alcançar alguma glória e de alargar o seu apoio, o Governo Provisório, liderado por Alexander Kerensky (1881-1971), lançou a Ofensiva de Junho, como ficou conhecida. Esta transformou-se rapidamente num desastre, com 150 000 soldados do exército russo mortos e muitas unidades a recusarem-se terminantemente a combater. O Governo Provisório ficou, tal como o antigo czar, profundamente desacreditado pela sua clara falta de sucesso militar.

Signing the Armistice Between Russia and Germany, 1917
Assinatura do Armistício entre a Rússia e a Alemanha, 1917 Unknown Photographer (CC BY-SA)

Ao longo do verão de 1917, surgiram ainda mais problemas, desta vez económicos, com a escassez de pão e a desvalorização do papel-moeda russo para metade do seu valor. Uma manifestação de operários em Petrogrado contra certos ministros capitalistas do Governo Provisório, entre 16 e 20 de Julho, terminou em banho de sangue e na morte ou ferimento de 400 manifestantes, um incidente infame conhecido como "os Dias de Julho". O governo culpou os bolcheviques pelas manifestações e efetuou inúmeras detenções. Os sovietes responderam aumentando significativamente o número de greves. O verão de 1917 "testemunhou 1 019 greves envolvendo 2 441 850 operários e empregados" (Freeze, pág. 284).

O Governo Provisório enfrentou outra crise em Agosto: o Caso Kornilov. O General Lavr Kornilov (1870-1918) era o chefe das forças armadas russas desde 18 de Julho e exigia liberdade de ação face à ingerência governamental. Kornilov tentou levar a cabo um golpe de Estado, mas este fracassou por completo devido à falta de apoio. Kerensky formou então um núcleo mais restrito de ministros em Agosto, mas saiu prejudicado pelo caso Kornilov de duas formas: foi culpabilizado por ter nomeado Kornilov inicialmente e o armamento dos sovietes, como contramedida ao possível golpe, fez com que estes se tornassem ainda mais perigosos caso fossem persuadidos a lançar um ataque contra o governo.

A Segunda Revolução

O apoio aos bolcheviques entre os operários e camponeses cresceu à medida que a população se tornava cada vez mais frustrada com a letargia do Governo Provisório e com o constante adiamento da data das eleições para uma Assembleia Constituinte. Os bolcheviques prometiam uma mudança imediata. Os bolcheviques e outros grupos revolucionários não tinham falta de fundos, uma vez que recebiam pagamentos regulares do governo alemão, com o intuito de minar o inimigo a partir de dentro. Os bolcheviques conseguiam organizar inúmeras reuniões e comícios. Lenine instruiu deliberadamente os oradores bolcheviques nas reuniões públicas para que não perdessem tempo com argumentos complicados, que o público não teria esperança de acompanhar, mas que se limitassem a slogans simples como "Terra para o povo trabalhador!" e "Nacionalização das unidades de produção e fábricas!" (Beevor, pág. 93). Os bolcheviques acabaram por ganhar vantagem nas diversas organizações de trabalhadores em comparação com outros grupos socialistas, como os mencheviques e os socialistas-revolucionários.

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Vladimir Lenin, 1914
Vladimir Lenin, 1914 Boris Dmitrievič Vigilev (CC BY-NC-SA)

Os sovietes organizaram greves por toda a Rússia durante o verão de 1917, as quais causaram graves problemas ao governo, limitando a produção industrial e de armamento e perturbando severamente os transportes e o abastecimento de alimentos. A inflação situava-se nos 200%. O campesinato, também ele, continuava a desejar a mudança. As queixas incluíam a requisição de excedentes de cereais pelo governo, a ausência de qualquer administração local eficaz que representasse e resolvesse as preocupações dos camponeses, e o sentimento de que estes estavam a ser recrutados em massa para combater na guerra, enquanto os cidadãos nas cidades recebiam isenções devido ao seu trabalho ou estatuto social. As revoltas camponesas ao longo do verão de 1917 resultaram na apreensão de terras, na destruição de colheitas e propriedades de agricultores abastados, sendo que estes últimos foram, eles próprios, espancados ou mortos. O governo parecia impotente para responder a esta desordem, e tanto a produção como a distribuição de géneros alimentícios entraram em declínio, causando escassez ainda pior nas cidades.

Tal como os acontecimentos demonstraram, os bolcheviques contornaram eficazmente a sua base de apoio nos sovietes quando Lenine ordenou que a sua milícia, a Guarda Vermelha, tomasse o poder pela força. O pretexto foi o anúncio do Governo Provisório de que a guarnição de Petrogrado seria transferida para fora da cidade. Os bolcheviques assumiram que tal servia para permitir que o governo assumisse o controlo do soviete. Lenine decidiu agir primeiro.

Os bolcheviques prenderam membros fundamentais do Governo Provisório, ocuparam as estações de correios e telégrafos e as estações ferroviárias, assumiram o controlo do banco central e atacaram, ainda que apenas simbolicamente, o Palácio de Inverno. O Governo Provisório tentou convocar tropas da Frente Norte, mas sem sucesso. No final, foi um golpe quase sem derramamento de sangue. Os bolcheviques tinham lançado, efetivamente, uma revolução inteiramente oportunista. "Não foi de modo algum uma operação suave e executada cirurgicamente", mas era também verdade que "foram os bolcheviques quem mais claramente refletiu, deu voz e implementou a vontade dos operários e camponeses de espírito revolucionário" (Alan Wood, pág. 62).

Russian Delegation at Brest-Litovsk
Delegação Russa em Brest-Litovsk Unknown Photographer (Public Domain)

O Legado

Realizou-se então uma eleição nacional para uma Assembleia Constituinte, mas os resultados revelaram que os bolcheviques não eram tão populares como esperavam; receberam menos de um quarto dos votos. Em Janeiro de 1918, a Guarda Vermelha de Lenine encerrou a Assembleia Constituinte. Lenine conseguiu manter os sovietes, pelo menos nominalmente, alinhados com a sua revolução, uma vez que estes já tinham votado a favor da criação do Sovnarkom o Conselho dos Comissários do Povo. Lenine era o chefe deste conselho e aumentou significativamente a sua popularidade ao declarar a tão ambicionada jornada de trabalho máxima de 8 horas. Lenine emitiu também, astutamente, um decreto estabelecendo que os trabalhadores passariam a controlar todos os aspetos da produção e, de forma mais concreta, prometeu retirar a Rússia da Primeira Guerra Mundial, o que salvaria vidas e reanimaria a economia. A Rússia retirou-se formalmente do conflito com o Tratado de Brest-Litovsk, assinado a 3 de Março de 1918. O assassinato da família Romanov ocorreu a 17 de Julho de 1918. Não havia caminho de volta.

Os bolcheviques tiveram de vencer, seguidamente, a Guerra Civil Russa contra as forças reacionárias apoiadas por potências estrangeiras, algo que conseguiram em 1922. Ao novo Estado de Lenine foi dado o nome de União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), mas esta pouco tinha a ver com os sovietes de trabalhadores, organizações que foram transformadas em agentes locais do governo central e largamente autoritário de Lenine, onde os bolcheviques, agora chamados de Partido Comunista, eram o único partido. Lenine nacionalizou toda a indústria pesada, minas e caminhos-de-ferro, e rejeitou a ideia de que os agricultores proprietários individuais pudessem trazer maior prosperidade para todos. Muitas das queixas de operários e camponeses que tinham causado as revoluções de 1917 permaneceriam por resolver durante muito tempo.

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Cartwright, M. (2026, junho 04). Causas da Revolução Russa de 1917. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2773/causas-da-revolucao-russa-de-1917/

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Cartwright, Mark. "Causas da Revolução Russa de 1917." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, junho 04, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2773/causas-da-revolucao-russa-de-1917/.

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Cartwright, Mark. "Causas da Revolução Russa de 1917." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 04 jun 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2773/causas-da-revolucao-russa-de-1917/.

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