Os Ajudantes Invisíveis é um conto Cherokee sobre a importância da bondade. A generosidade é um valor cultural central da nação Cherokee, tal como o é nas nações nativas americanas em geral, e é considerada especialmente louvável quando quem dá o faz sem esperar recompensa ou reconhecimento, simplesmente porque é a coisa certa a fazer.
Este conceito não é exclusivo da nação Cherokee, mas é comum a todos os povos indígenas da América do Norte. Espera-se que uma pessoa ofereça bondade sem esperar recompensa, da mesma forma que o Grande Espírito concedeu todas as boas dádivas à humanidade. Na crença Cherokee, o Deus Criador, Unetlanvhi, concede livremente a todos os seres vivos e, por isso, para honrar o Criador, deve-se fazer o mesmo, na medida do possível.
Os Ajudantes Invisíveis ilustra este conceito de forma subtil, uma vez que a razão pela qual é prestada ajuda à personagem principal só é revelada no final da história. Por ter sido transmitida oralmente pelos contadores de histórias Cherokee durante séculos, desconhece-se a data da composição, até ter sido registada por escrito no final do século XIX; no entanto, continua-se a contar o conto e mantém-se tão popular nas comunidades Cherokee hoje em dia como era no passado.
A Bondade e os Seres Espirituais
De acordo com a crença Cherokee, ao dar sem esperar recompensa, a pessoa receberá bênçãos inesperadas, muitas vezes nos momentos de maior necessidade. Oferecer comida, roupa ou ajuda aos outros é simplesmente o que se espera, e deve ser entendido como uma recompensa em si mesmo; no entanto, ao dar aos outros, a pessoa também pode receber benefícios adicionais. Nos contos Ulunsuti dos Cherokee, a história do Homem Vermelho e do Uktena ilustra bem este conceito. Um caçador, que se encontrava nas montanhas com o irmão, depara-se com um homem enrolado nas garras de uma grande cobra uktena e salva-o. O homem revela-se ser uma entidade sobrenatural, o Homem Vermelho do Relâmpago, que depois recompensa o caçador com a joia mística da cobra uktena, a qual, em primeiro lugar, salva o irmão da morte e, em segundo lugar, permite ao caçador encontrar caça sempre que sai para caçar.
A bondade e a generosidade para com os outros não se aplicam apenas aos nossos semelhantes, mas a todos os seres vivos, plantas e animais, e, segundo a compreensão dos Cherokee, a bondade demonstrada para com os não-humanos é tão importante quanto a interação entre seres humanos, uma vez que não há razão para acreditar que as pessoas sejam mais importantes do que os animais ou as plantas. Além disso, embora a bondade deva ser demonstrada aos animais como algo natural, existe sempre a possibilidade de que a criatura que se alimenta ou ajuda seja, na verdade, um ser espiritual proveniente de um reino superior. O estudioso Larry J. Zimmerman comenta:
Não só as formações geográficas, as plantas e os animais têm um espírito, como podem, na verdade, ser um espírito. Uma águia é uma águia, mas também pode ser um pássaro-trovão com poderes especiais de proteção; um coiote é um coiote, mas também pode ser uma manifestação do malandro, disposto a desviar um humano ou outro animal do caminho certo ou a dar-lhes uma lição. É imperativo que as pessoas que têm de viver ao lado destes inúmeros espíritos o saibam e se comportem em conformidade. Se alguém obedecer a certas regras, poderá haver benefícios; se não o fizer, poderá haver consequências graves. Esta preocupação com os espíritos da natureza não significa, de forma alguma, que o espírito ou a natureza sejam venerados; pelo contrário, a natureza é louvada ao mesmo tempo que se vive com estes poderes invisíveis e se faz uso deles.
(pág. 86)
O conto Os Ajudantes Invisíveis resume esta crença, uma vez que Ganogwioeoñ, da nação Seneca, é ajudado inesperadamente e salvo da morte simplesmente por ter agido como achava que devia ao longo da sua vida. Não há nada no texto que sugira que ele alguma vez tenha esperado uma recompensa ou que estivesse a tentar evitar algum castigo através dos seus atos de bondade e generosidade. Ele limitou-se a fazer o que sabia ser certo e adequado e, sem qualquer expectativa de retorno pelas suas ofertas, é recompensado num momento crucial da sua vida.
O Equilíbrio e a Recompensa
É óbvio que se espera que as pessoas tratem os outros com bondade, mas essa consideração deve também estender-se a todos os seres vivos. Quando se colhem ervas medicinais, apenas se retiram as necessárias, deixando as restantes a continuar a crescer. Quando animais, como o búfalo, eram abatidos, utilizavam-se todas as partes do animal e agradecia-se-lhe pelo seu sacrifício. Esta consideração estendia-se também aos animais geralmente considerados ameaçadores pelos euro-americanos, incluindo os lobos. O estudioso Bobby Lake-Thom escreve:
O lobo é considerado um bom presságio, um protetor, um bom caçador, sábio, astuto, inteligente, forte, gregário e, ainda assim, misterioso. Embora os ocidentais tenham perpetuado o estereótipo de que os lobos atacam e matam pessoas, chegando mesmo a comê-las, tal não tem sido o caso na mitologia e nas tradições indígenas. Os xamãs e os guerreiros retiravam do lobo o seu poder simbólico e espiritual.
(pág. 98)
O lobo, tal como qualquer outro animal, podia por vezes assumir uma forma humana para transmitir uma mensagem ou enfatizar um determinado ponto, ensinando uma lição que, esperava-se, o destinatário recordasse e levasse consigo na sua vida quotidiana. O equilíbrio, viver em harmonia consigo mesmo, com os outros e com o mundo natural, é um valor central dos Cherokee, e espera-se que se viva tendo isto em mente. Ainda assim, como referido, ao agir como se deve, pode-se também ser recompensado de formas que nunca se poderia imaginar, tal como ilustrado em Os Ajudantes Invisíveis.
O Texto
A tradução portuguesa é do texto extraído da colectânea Myths of the Cherokee (Mitos dos Cherokee - 1900), de James Mooney, págs. 359-364, reeditado pela Dover Publications em 1995.
Entre os muitos aspetos interessantes da história destaca-se a personagem central, Ganogwioeoñ, que é um chefe de guerra seneca, e não um cherokee, e que, na verdade, ataca uma aldeia cherokee. A história, segundo Mooney, aparece originalmente num manuscrito seneca, mas foi contada pelos Cherokee. Ao optar por contar uma história com uma figura hostil como personagem principal, o contador de histórias Cherokee estaria a transmitir ao público que as recompensas não se reservam apenas aos amigos e à comunidade, mas são concedidas livremente a todos aqueles que demonstraram bondade e consideração para com os outros, mesmo para com os inimigos.
Ganogwioeoñ, um chefe de guerra dos Seneca, liderou um grupo contra os Cherokee. Quando se aproximaram da primeira aldeia, deixou os seus homens do lado de fora e entrou sozinho. Na primeira casa, encontrou uma anciã e a neta. Elas não o viram, e ele entrou no «âsĭ» e escondeu-se debaixo de um monte de lenha. Quando a escuridão se instalou, ouviu a anciã dizer: «Talvez o Ganogwioeoñ esteja por perto; vou fechar a porta.» Passado algum tempo, ouviu-as a deitarem-se. Quando achou que estavam a dormir, entrou na casa.
O fogo já estava quase a apagar-se, mas a rapariga ainda estava acordada e viu-o. Ela estava prestes a gritar, quando ele disse: «Eu sou o Ganogwioeoñ. Se gritares, mato-te. Se ficares calada, não te farei mal.» Conversaram e ele disse-lhe que, de manhã, ela teria de lhe trazer a filha do chefe. Ela prometeu fazê-lo e indicou-lhe onde deveria esperar. Pouco antes do amanhecer, ele saiu de casa.
De manhã, a rapariga foi até à casa do chefe e disse à filha: «Vamos juntas buscar lenha.» A filha do chefe preparou-se e foi com ela; quando chegaram ao local onde Ganogwioeoñ se escondia, ele saltou de repente e matou-a — mas não fez mal à outra rapariga. Arrancou-lhe o escalpo e soltou um grito tão alto que todos os guerreiros da aldeia o ouviram e saíram a correr atrás dele. Agitou o escalpo na direção deles e, em seguida, virou-se e fugiu. Matou o primeiro que se aproximou, mas quando tentou atirar no seguinte, o arco partiu-se e os Cherokee apanharam-no.
Amarraram-no e levaram-no até às duas mulheres da tribo que tinham o poder de decidir o que fazer com ele. Cada uma dessas mulheres tinha duas cobras tatuadas nos lábios, com as cabeças voltadas uma para a outra, de tal forma que, quando abria a boca, as duas cobras também abriam as suas. Decidiram queimar-lhe as solas dos pés até ficarem com bolhas, depois colocar grãos de milho debaixo da pele e persegui-lo com paus até o terem espancado até à morte.
Despiram-no e queimaram-lhe os pés. Depois, amarraram-lhe uma corda de casca de árvore à cintura, com um ancião a segurar a outra ponta, e obrigaram-no a correr entre duas filas de pessoas, todas com porretes nas mãos. Quando deram a ordem para começar, Ganogwioeoñ puxou a corda, afastando-a do ancião, rompeu a linha e correu até os ter deixado a todos fora de vista. Quando a noite caiu, ele rastejou para dentro de um tronco oco. Estava nu e desarmado, com os pés num estado lastimável, e pensou que nunca conseguiria escapar.
Ouviu passos nas folhas lá fora e pensou que os seus inimigos estavam a aproximar-se. Os passos aproximaram-se do tronco e alguém disse a outro: «Este é o nosso amigo.» Então, o estranho disse a Ganogwioeoñ: «Pensas que estás praticamente morto; mas não é assim. Nós vamos cuidar de ti. Estica os pés.» Ele esticou os pés para fora do tronco e sentiu algo a lambê-los. Passado algum tempo, a voz disse: «Acho que já lhe lambemos os pés o suficiente. Agora temos de nos enfiar dentro do tronco e deitar-nos de cada lado dele para o manter quente.» Eles enfiaram-se a seu lado.
De manhã, saíram a rastejar e disseram-lhe para esticar os pés novamente. Lamberam-nos outra vez e depois disseram-lhe: «Agora já fizemos tudo o que podíamos fazer desta vez. Continua até chegares ao local onde construíste um abrigo de casca de árvore há muito tempo, e debaixo da casca encontrarás algo que te ajudará.» Ganogwioeoñ saiu a rastejar do tronco, mas elas já tinham desaparecido. Os seus pés já estavam melhores e conseguia caminhar confortavelmente. Continuou até por volta do meio-dia, quando chegou ao abrigo de casca de árvore e, debaixo dele, encontrou uma faca, um furador e uma pedra de sílex, que os seus homens tinham escondido ali dois anos antes. Pegou neles e retomou o caminho.
Ao anoitecer, olhou à sua volta até encontrar outra árvore oca e rastejou para dentro dela para dormir. À noite, ouviu novamente os passos e as vozes. Quando voltou a esticar os pés, tal como os estranhos lhe tinham dito para fazer, estes lamberam-lhe os pés como antes e, em seguida, rastejaram para dentro e deitaram-se, um de cada lado, para o manter quente. Ainda assim, não conseguia vê-los. De manhã, depois de terem saído, lamberam-lhe os pés novamente e disseram-lhe: «Ao meio-dia, encontrarás comida.» Depois, foram-se embora.
Ganogwioeoñ saiu da árvore a rastejar e prosseguiu o caminho. Ao meio-dia, chegou a um tronco em chamas e, junto a ele, encontrou um urso morto, que ainda estava quente, como se tivesse sido abatido há pouco tempo. Esfolou o urso e descobriu que estava muito gordo. Cortou a carne e assou o máximo que conseguia comer ou transportar. Enquanto a carne assava, raspou a pele e esfregou-lhe pó de madeira podre para a limpar, até ficar cansado. Quando a noite chegou, deitou-se para dormir. Ouviu novamente os passos e as vozes, e uma delas disse: «Bem, o nosso amigo está deitado. Tem comida de sobra e não parece que vá morrer. Vamos lamber-lhe os pés outra vez.» Quando terminaram, disseram-lhe: «Já não precisas de te preocupar mais. Vais chegar bem a casa.» Antes do amanhecer, deixaram-no.
Quando amanheceu, vestiu a pele de urso como se fosse uma camisa, com o pêlo para fora, e retomou a caminhada, levando tanta carne quanto conseguia carregar. Naquela noite, os seus amigos voltaram a visitá-lo. Disseram: «Os teus pés estão bem, mas vais sentir frio», e deitaram-se novamente ao lado dele. Antes do amanhecer, partiram, dizendo: «Por volta do meio-dia, vais encontrar algo para vestir.» Ele continuou o caminho e, por volta do meio-dia, deparou-se com dois ursos jovens que tinham acabado de ser abatidos. Esfolou-os e preparou as peles, depois assou toda a carne que quis e deitou-se a dormir. De manhã, fez perneiras com as peles, levou um pouco da carne e seguiu em frente.
Os seus amigos voltaram na noite seguinte e disseram-lhe que, de manhã, encontraria outra coisa para vestir. Tal como tinham dito, por volta do meio-dia encontrou dois veados recém-abatidos. Virou as peles e fez para si um par de mocassins; depois, cortou um pouco da carne e continuou a viagem até ao anoitecer, altura em que acendeu uma fogueira e jantou.
Naquela noite, mais uma vez, ouviu os passos e as vozes, e uma delas disse: «Meu amigo, muito em breve chegarás a casa em segurança e encontrarás os teus amigos todos bem. Agora vamos dizer-te porque é que te ajudámos. Sempre que ias caçar, davas-nos sempre a melhor parte da carne e guardavas apenas a menor parte para ti. Por isso, estamos-te gratos e ajudamos-te. De manhã, verás-nos e saberás quem somos.»
De manhã, quando acordou, eles ainda lá estavam — dois homens, pensou ele —, mas depois de lhes ter dito as últimas palavras e de ter seguido o seu caminho, virou-se novamente para olhar, e um era um lobo branco e o outro um lobo preto. Naquele dia, chegou a casa.
