As paisagens urbana e rural da Idade Média caracterizavam-se por possuir um notável e importante ingrediente: as Abadias. Com planejamentos arquitetônicos que refletiam seus definidos propósitos, quer sejam, servir como um local de isolamento monástico e, ao mesmo tempo, elementos úteis e inspiradores para as comunidades. Embora evoluindo durante séculos, muitas características tornaram-se padrões, como a igreja principal, o claustro, a casa capitular, o refeitório, a biblioteca, o calefatório e os dormitórios.
Evolução das Abadias
Um monastério (mosteiro) medieval era uma comunidade fechada de monges ou monjas, muitas vezes em locais remotos, liderada por um abade ou abadessa, que desprezavam os bens mundanos para viverem uma vida simples de oração e devoção à fé cristã. As comunidades monásticas desenvolveram-se, inicialmente, a partir do século IV no Egito e Síria, espalhando-se, a seguir, por todo o Império Bizantino e Europa a partir do século V. O líder dessas comunidades era chamado abba e é a partir dessa palavra que derivou o título abade. O abade italiano São Benedito de Núrsia (cerca de 480 a cerca de 543) é considerado como o fundador do modelo europeu de monastério. O modelo arquitetônico de abadias, como ficaram conhecidos os maiores e mais importantes monastérios, se espalhou via monges viajantes e de conquistas, como por exemplo, Guilherme, o Conquistador (cerca de 1027-1087). Este último deu início à reforma de todas as abadias inglesas ao estilo do norte da França a partir de 1066, um processo amplamente completado dentro de um século.
A principal ideia do monasticismo era o de que uma vida em um local tranquilo e de relativo isolamento, poderia ajudar a melhor compreender e a permitir uma maior proximidade para com Deus. A perseguição aos primeiros cristãos também contribuiu para a ideia de vida em comunidades remotas, daí que as principais abadias primitivas eram construídas nos topos de montanhas, em ilhas remotas ou regiões costeiras escarpadas, o que não impediu que fossem saqueadas por incursões Viking na Bretanha durante os séculos IX e X. Na Alta Idade Média, que presenciou muitos monastérios reconstruídos e ampliados, o oposto de isolamento inicial, pois as comunidades monásticas em claustros tornou-se fundamental para as comunidades seculares que viviam em torno delas. De fato, para muitas ordens monásticas, era uma importante parte de sua missão participar e auxiliar as comunidades locais.
Certas áreas geográficas (tipicamente terras abandonadas devido à morte dos benfeitores) passaram a pertencer às abadias, com a autoridade entregue a instituições subalternas dentro daquela área, como a um priorado (semelhante, porém menor que uma abadia) ou a monastérios mais simples. A riqueza da abadia provinha de aluguéis das terras que ela possuía, de doações, mercados de sua propriedade, benefícios fiscais e a venda de alimentos e livros de produção própria. Mesmo as abadias existentes na zona rural muitas vezes davam origem a povoados e cidades em torno delas, pois riqueza, serviços e trabalho eram gerados por elas e atraía visitantes.
Uma grande abadia como a Abadia de Cluny, na França (fundada em cerca de 910), abrigava 460 monges, mas uma abadia típica possuía em torno de 100 moradores permanentes. Existiam abadias voltadas para homens ou mulheres, mas em algumas a comunidade era mista, notavelmente as abadias em Whitby, em North Yorkshire, Inglaterra e Interlaken, na Suíça. Uma abadia era dirigida por um abade ou abadessa, com tipicamente uma posição de absoluta autoridade pela vida abacial, secundados no comando por um prior ou uma prioresa, os quais poderiam comandar priorados subsidiários, no caso de estar sob os auspícios de uma abadia próxima. Alguns monges sêniores, conhecidos como obedienciários, recebiam algumas responsabilidades, como por exemplo, chefiar a biblioteca ou a adega.
Planejamento Arquitetônico
A arquitetura de uma abadia inspirava-se nos vários papéis que seus moradores deveriam desempenhar, papéis esses determinados pelas regras de cada ordem monástica em particular, porém mais especificamente pela abordagem dada ao assunto pelo abade, dono de um poder absoluto na abadia. É de se observar que algumas ordens eram mais rigorosas que outras, como p.ex., os Cistercienses, que exigiam muito mais sacrifícios pessoais do que aqueles pertencentes à ordem dos Beneditinos.
Um dos fatores que influenciavam um estilo arquitetônico particular de uma abadia incluíam a localização – monastérios nos topos de montanha, como Meteora, na Grécia, ou a abadia beneditina, na ilhota sujeita a marés, do Mont-Saint-Michel, na França, foram construídas como fortalezas. Havia, no entanto, uma notável similaridade entre as abadias européias e seus protótipos no Império Bizantino, esses últimos derivados das antigas villas romanas. Como observa o historiador J.L. Singman: “O monasticismo evoluiu com um grau de planejamento, coordenação e deliberada padronização que não foi possível para as instituições seculares” (172). O historiador bizantino C. Mango fornece o seguinte sumário de um típico complexo abacial-monástico, um modelo copiado mais ou menos intacto pelas abadias através da Europa:
Eram normalmente circundados por uma muralha, possuíam alguma vezes um elaborado portal coberto e com bancos. Os mendigos ali se reuniam para receberem esmolas dos monges. Em teoria, o acesso ao interior era limitado, sendo rigorosamente excluídos os meninos e membros do sexo oposto. Após passarem pelo portal, o visitante se encontrava em um amplo pátio de onde avistava a igreja de todos os lados... Os cômodos habitáveis eram dispostos em todos os lados, seguindo as linhas do pátio. As celas eram retangulares e, no geral, com o teto na forma de um barril abobadado. No mais comum, eram construídos com dois ou mais pavimentos, com uma arcada aberta fronteira a eles. Próximo à igreja encontrava-se o refeitório, isolado ou formando parte do retângulo residencial, no formato de uma estrutura alongada, absidal, mobiliado com longas mesas e bancos. Junto ao refeitório encontrava-se a cozinha, com uma lareira elevada e uma abertura no teto por onde escapava a fumaça. O padrão eram dispensas equipadas com grandes jarros de louça para armazenar grãos, leguminosas, óleo e vinho. Outras estruturas subsidiárias incluíam uma fonte, uma padaria, uma casa de hóspedes, algumas vezes uma enfermaria e um banheiro. (110)
A arquitetura e planejamento das primeiras abadias na Europa evoluíram de complexos celtas de pedra e madeira (do século VI ao VIII), em seguida com as plantas monásticas centradas no claustro, inspiradas no estilo carolíngio (do século. IX ao X) e, finalmente, e então, para o que se tornou o modelo padrão, a abadia normanda (do século XI ao XIII), mantendo vínculos arquitetônicos cruciais com as tradições da arquitetura bizantina e romana. O período normando viu um crescimento explosivo nos monastérios de todos os tipos. A Bretanha, p.ex., possuía algo como 50 monastérios à época da Conquista Normanda da Inglaterra em 1066, porém bem acima de 500 no início do século XIII. À medida que a riqueza monasterial crescia nos séculos XIII e XIV, assim também as abadias se gabavam da imponência e dos edifícios mais decorados, muitos com características da arquitetura gótica.
Materiais de Construção e Decoração
Uma abadia era uma presença imponente na paisagem local, pois era uma das instituições mais ricas e poderosas no mundo medieval, um dos poucos grandes edifícios construídos com pedras. As primeiras abadias utilizavam pedras locais ou reutilizavam tijolos dos edifícios romanos antigos, mas, com o passar do tempo, mais riqueza significava materiais melhores, como calcário ou granito. Se não se fizesse uso de blocos de pedra cortados, rebocava-se o edifício imitando pedra.
Aspectos arquiteturais decorativos das abadias da Alta Idade Média (com exceções, como as abadias cistercienses mais austeras) incluem colunas simples ou compostas encimadas por capitéis planos, almofadados, em forma de concha ou folha. Os edifícios possuíam arcadas (arredondadas nas primeiras versões, pontiagudas nas versões posteriores), arcos reduzindo-se ao redor das portas, arcadas cegas, ameias, molduras e brasões dos benfeitores da abadia esculpidos sobre o portal de entrada e nos tetos. Colocavam-se estátuas em nichos, padrões em V entalhados, intricados arabescos nas janelas e vitrais – particularmente os lancetes (janelas com vãos altos, triplos ou em quinteto, com arco ogival). Já no século XIII, tetos em madeira foram, aos poucos, trocados por abóbadas nervuradas de pedra apoiadas em mísulas esculpidas no interior (muitas dessas ainda visíveis em ruínas de abadias) e lajes de pedra recobertas por chumbo no exterior, que ocultavam as treliças de madeira que lhes davam suporte por baixo.
O Claustro
O claustro era o coração comunal de uma abadia ou de qualquer monastério e tem seu nome derivado da palavra latina claustrum (espaço fechado). Arquitetonicamente, o claustro é constituído por corredores, em geral com colunas, em volta de um espaço central quadrado (pátio), com entrada vedada a estranhos. O espaço central podia ser pavimentado, conter um jardim com ervas ou um elemento com água, sendo o acesso feito, comumente, através do portal de entrada localizado na face noroeste do edifício. No claustro, os membros da ordem podiam conversar livremente, os noviços (monges ou monjas em noviciado) e oblatos (crianças sob os cuidados da abadia) tinham aulas, realizavam-se os trabalhos do dia a dia, como afiar uma faca em uma pedra de amolar ou lavar roupa em um grande tanque de pedra. Alguns grandes monastérios possuíam um claustro adicional, menor em tamanho, reservado para uma contemplação silenciosa ou executar trabalhos em silêncio. Os maiores claustros geralmente encontravam-se em abadias cartusianas (cartuxas), pois essas ordens eram mais rigorosas que a maioria. Os cartuxos viviam como eremitas dentro de uma abadia que possuía poucos edifícios, já que para eles o claustro era mais importante, sendo o único local onde os membros da ordem podiam se relacionar uns com os outros.
A Igreja
A igreja da abadia unia-se ao claustro e, no geral, era construída no formato cruciforme dentro de um eixo Leste-Oeste, tipicamente moldada a impedir que os ventos frios do norte atingissem o claustro diretamente. A entrada principal e mais decorada ficava do lado oeste e, partindo daí, encontravam-se muitos portais, altas janelas em lancetes, às vezes uma rosácea e muitos nichos para imagens de figuras bíblicas e de santos relacionados à história da abadia.
As igrejas cada vez mais se tornavam maiores e monumentais à medida que a Idade Média avançava, podendo a progressão ser traçada nas abadias normandas e, posteriormente, abadias inglesas. Por exemplo, a abadia em Jumièrges possui uma igreja com uma nave com oito vãos (entre colunas), já na Abbaye-aux-Dames em Caen, uma nave com nove vãos, na Ely Abbey 13 vãos e na Winchester Abbey, 14 vãos. Uma nave ampla permitia procissões cerimoniais maiores e o público poderia sentar-se, se lhe fosse permitido entrar na abadia para as celebrações. A ala leste da igreja também se expandia com o tempo, à medida que os coros cresciam, pois era ali que os monges se sentavam e, portanto, à medida que as abadias cresciam em moradores, também o coro devia crescer. Os monges, sentavam-se em bancos de madeira com assento móvel, separados do público por uma grade. Além do coro, e separado dele por um degrau, encontrava-se o presbitério pavimentado com finas pedras e com um altar. Atrás do presbitério encontrava-se à leste a parte final da igreja, podendo assumir a forma semicircular (nos primórdios) e quadrada (nos períodos mais tardios), decorada com altos vitrais que contavam histórias relevantes para aquela comunidade, fundadores ou relíquias sob a guarda da igreja. As próprias relíquias podiam estar em exibição no presbitério, ocasionalmente em uma vitrine em estrutura de madeira dentro de uma parede, de modo que os monges podiam ali estar presentes assegurando que elas permaneceriam a salvo e, ao mesmo tempo, vistas pelo público.
À medida que os ricos procuravam assegurar um lugar confortável na outra vida, muitas vezes deixavam fundos para as abadias com a intenção de que fosse rezada, regularmente, uma missa na intenção deles. Ocasionalmente construía-se um memorial para o benfeitor, o qual podia assumir a forma de uma simples placa, uma capela especial ao lado da igreja ou mesmo um edifício inteiramente separado.
A igreja principal, tipicamente, possuía um campanário para sinalizar as celebrações e cultos ou chamar os moradores para a oração. Um aspecto óbvio da prosperidade de uma abadia era o de acrescentar ou elevar uma torre pré-existente. Na Fountains Abbey em Yorkshire, p.ex., uma alta e maciça torre de 51,8 metros (170 pés) foi acrescentada ao transepto norte da igreja no início do século XVI.
A Biblioteca
A biblioteca de uma abadia possuía uma grande coleção de livros adquiridos por doações ou produzidos pelos próprios monges. Havia certos textos antigos mantidos na abadia para guarda e proteção, com os livros mantidos em armários de madeira colocados em recessos nas paredes. As abadias eram importantes centros de aprendizado local, ensino para crianças dos ricos e aos noviços. Algumas abadias conseguiram grande reputação devido à educação, como a Whitby Abbey, onde muitos bispos foram formados, incluindo São João de Berveley (†721).
O trabalho de escrever e estudar era feito em uma dependência a ele dedicada, o scriptorium. Ali os monges sentavam-se em banquetas e trabalhavam em mesas altas chamadas escrivaninha, que podiam estar em um espaço aberto ou serem colocadas em um cubículo. Manuscritos iluminados eram produzidos com esmero e com isso a biblioteca estava sempre crescendo. Talvez o mais famoso de todos os manuscritos medievais, o Livro de Kells (cerca de 800), que já esteve abrigado, certa vez, na biblioteca de Iona Abbey na costa oeste da Escócia, mas atualmente na Biblioteca do Trinity College, em Dublin, Irlanda.
Bibliotecas e scriptoria foram comumente construídos de face para o Sul para permitir entrada de mais luz e, ao mesmo tempo, o cômodo mais aquecido para se trabalhar. Algumas bibliotecas, como aquela da abadia de Saint-Wandrille, próxima a Rouen na França, incluía também um arquivo real. As mulheres na Idade Média também copiavam e escreviam livros nas abadias, notavelmente a abadessa beneditina alemã Hildegard von Bingen (1098-1179). Ao contrário dos monges, a vida diária das monjas medievais incluía trabalhos de costura, como bordar túnicas e tecidos para uso nas celebrações da igreja.
Dormitório
Considera-se que os moradores de uma abadia vivessem com um mínimo de conforto, em celas simples, pois seus moradores não podiam ter posses. Os dormitórios (dorters em inglês medieval) eram comunais, porém os noviços e os superiores não se misturavam; em períodos posteriores, os dormitórios passaram a ser separados em cubículos de madeira, cada um com uma janela, uma cama e uma mesa. As camas possuíam um colchão de palha ou de plumas e uns poucos cobertores de lã. O dormitório em Cluny possuía 97 janelas envidraçadas, nessa mesma abadia existia uma regra que proibia os monges de dormirem no escuro e o longo dormitório era equipado com inúmeras lamparinas a óleo. Normalmente os dormitórios possuíam uma escadaria que dava acesso à igreja, para no caso de celebrações noturnas não ser necessário sair para ir à igreja.
Os monges cartuxos viviam em relativa solidão em pequenas casas individuais com lareira, sala, quarto de estudos, oficina e um banheiro com uma torneira de água. Essas pequenas casas muitas vezes possuíam um jardim privado murado e ficavam dispostas envolta do claustro, às vezes muito melhores que casas do mundo secular. Portinholas nas paredes indicam que os alimentos podiam ser entregues por um empregado, o que não perturbava a solidão dos monges.
Já na Alta Idade Média, irmãos leigos, trabalhadores assalariados ou servos (trabalhadores não livres) eram empregados em uma abadia para que os monges ou monjas pudessem se concentrar nos assuntos eclesiásticos. Os membros laicos de uma abadia viviam em acomodações próprias em um pátio externo, com cozinha própria, para o preparo de alimentos não permitidos aos monges, como carnes. Os laicos cultivavam frutas e vegetais, cozinhavam e faziam a limpeza. No lado oposto do espectro de residentes da abadia, podiam ser encontrados políticos e nobres falidos ou caídos em desgraça, obrigados por seus monarcas a guardarem um retiro isolado em uma abadia. Peregrinos e viajantes conseguiam uma cama por uma noite em quartos ou um edifício dedicado a isso, em geral localizados no oeste do claustro, para que não perturbassem a vida diária dos monges. Visitantes importantes eram acomodados em apartamentos palacianos na portaria principal. No século XIII, muitos abades possuíam suas próprias acomodações pessoais, que vieram a se desenvolver em um edifício inteiramente separado com proporções cada vez maiores.
Refeitórios e Cozinhas
A abadia era, na maior parte das vezes, autossuficiente para seus alimentos, como vegetais, frutas e ervas, que cresciam em áreas ajardinadas e pomares, já os pescados eram mantidos e procriados na lagoa da abadia. A carne e outros gêneros alimentícios vinham de áreas comandadas pela abadia, chamadas fazendas ou granjas. Havia uma cozinha, comumente posicionada separada, mas próxima ao refeitório, para prevenir incêndios, e consequente a destruição da abadia, ficava em um edifício completamente separado (a Glastonbury Abbey possui um excelente exemplar sobrevivente) e uma passagem coberta conectava a cozinha ao refeitório. A cozinha possuía diversos anexos, como uma área de serviço para limpeza dos pratos, uma padaria e um moinho, uma manteigaria, uma adega, uma farmácia e uma despensa para armazenar alimentos (comumente em um quarto mais frio sob uma grande câmara, chamado de quarto subterrâneo). Como a água era considerada imprópria para se beber, uma cervejaria, fazendo cerveja semanalmente de trigo ou aveia, supria a abadia substituindo a água. Algumas abadias possuíam um pombal, com edifícios impressionantes em si mesmos, assumindo a forma de um quadrado, círculo ou polígono, com um teto alto pontiagudo cheio de nichos de pedra para os pássaros ali se aninharem.
Os monges de uma abadia faziam única refeição principal a cada dia no verão e duas no inverno. O alimento era servido no refeitório (às vezes chamado frater), sentados em bancos em longas mesas, exceto o abade e prior (e qualquer convidado), que se sentavam em pequenas mesas na entrada do refeitório e em uma plataforma elevada. Em um canto do refeitório, colocado na parede em posição elevada e alcançado por pequena escada, encontrava-se um púlpito em madeira ou pedra. Dali um membro da comunidade lia um texto em voz alta, enquanto seus companheiros se alimentavam.
Algumas abadias possuíam um segundo refeitório chamado misericórdia (o nome é derivado de misericórdia ou piedade) usado especificamente para o consumo de carne, que era proibido no refeitório principal, significando um relaxamento de muitas ordens com dietas estritas. Uma bacia de pedra (lavabo) na entrada para os monges lavarem as mãos antes das refeições. O lavabo era suprido de água por meio de uma torneira de água vinda dos tanques de armazenamento logo acima. Um pequeno sino era soado indicando que a refeição estava pronta (distinto do sino da igreja que soava para comparecer aos serviços religiosos). O refeitório era um grande edifício retangular, como o de Cluny:
...era um refinado espaço, iluminado por trinta e seis grandes janelas envidraçadas e decorado com pinturas nas paredes que incluíam cenas do Antigo e Novo Testamentos, uma grande imagem de Cristo cercada pelos principais fundadores e benfeitores do monastério e uma descrição do Juízo Final. (Singman, 175)
Os refeitórios em geral eram construídos ao longo de um lado do claustro, porém quando as abadias cresciam em tamanho e mais espaço era necessário para abrigar novos moradores, o refeitório sofria um aumento em 90 graus e se estendia distante do claustro.
Saneamento
A presença de banheiros e privadas em uma abadia eram o melhor que podia ser encontrado em qualquer lugar do mundo medieval. As privadas eram ligadas ao dormitório e situadas em um edifício chamado reredorter (atrás do dormitório). Cluny possuía um bloco de latrinas com impressionantes 45 cubículos, cada um com sua própria janela. As latrinas, tipicamente, esvaziavam-se em um canal de drenagem, através do qual corria água desviada de um riacho próximo. Grandes abadias possuíam uma casa de banhos, embora seus moradores, ao que se supõe, não se demoravam muito ali, dois ou três banhos por ano era norma, a menos que a pessoa estivesse doente; os banhos eram tipicamente tomados dentro de grandes barris.
Casa Capitular
Na abadia, a cada manhã ocorria uma reunião capitular quando todos os monges se reuniam para discutir os assuntos do monastério, ouvir confissões e advertir qualquer membro da ordem que havia sido negligente em suas obrigações. Essa reunião era realizada na Sala do Capítulo, que devia ser grande o suficiente para acomodar todos os moradores permanentes da abadia. Realizada diariamente por volta das 8 horas da manhã, a reunião iniciava-se com a leitura de um capítulo do livro do fundador da ordem (daí seu nome) e podia incluir a distribuição das obrigações diárias para cada um dos monges, os quais sentavam-se em bancos de pedra colocados junto às paredes da sala. Já na Idade Média Tardia, a Sala do Capítulo deu lugar à Casa do Capítulo, bem espaçosas, com grandes janelas envidraçada e entradas triplas ornamentadas.
Outros Edifícios
Próximo ao refeitório ou abaixo do final deste, uma abadia podia ter um calefactorio, qual seja o único ambiente aquecido em toda abadia (exceto a cozinha), planejado para dar algum conforto devido às rigorosas temperaturas do inverno, ligado o aquecimento em 1 de novembro e desligado na Páscoa.
Uma abadia possuía muitos edifícios domésticos e funcionais extras, onde as pessoas viviam e trabalhavam permanentemente para fornecer aos monges tudo de que precisassem. Abadias foram famosas por prestarem assistência médica, possuindo um hospital ou enfermaria com acomodações e cozinha com alimentação especial para os pacientes, cuidando, além dos doentes, dos monges idosos. É de se observar que muitas vezes possuíam uma segunda enfermaria para tratamento das pessoas não pertencentes à ordem.
Abadias podiam abrigar estábulos e oficinas onde artesãos especializados trabalhavam e viviam, fornecendo tudo que a abadia precisava desde pregos a janelas de vidro. Havia, também, espaços dedicados a dar esmolas aos pobres e um espaço onde as negociações e compras que se realizavam com comerciantes de fora do complexo abacial.
Finalmente, uma abadia possuía seu próprio cemitério, tipicamente localizado a leste da igreja e dividido em duas áreas: uma para os pertencentes à ordem e a outra para os membros mais ricos da comunidade local. Os luminares da abadia, como os abades, eram enterrados dentro da igreja em sarcófagos de pedra. Todos esses edifícios e áreas extras ficavam dentro do circuito da muralha da abadia.
O Fim das Abadias
A partir da segunda metade do século XIV, muitas abadias enfrentaram grandes desafios e até mesmo o desastre total. A chegada da Peste Negra na Europa e uma série de períodos de fome corroeram a riqueza dos monastérios, enquanto o colapso da servidão medieval reorganizou as comunidades em uma existência muito mais independente. Finalmente, muitos dirigentes procuraram se apoderar ou mesmo confiscar a riqueza e renda de impostos dos monastérios, sendo o mais infame o rei Henrique VIII da Inglaterra (reinou 1509-1547), cuja gananciosa dissolução dos monastérios na Bretanha teve início em 1536. O tempo de ouro das grandes abadias estava encerrado. Umas poucas selecionadas, como as abadias e priorados de Chester, Canterbury, Winchester e Durham, para nomear uns poucos, tornaram-se catedrais, porém muitas antigas abadias passaram a ser ruínas permanentes e suas construções de ótima pedras foram saqueadas para utilização em outros locais. Já na Europa Continental, muitas abadias foram convertidas, com o passar do tempo, em hotéis, hospitais, escolas, galerias de arte e coisas mais que seus novos donos imaginaram lucrativas, pois a importância da religião declinou na vida das pessoas.
Algumas abadias simplesmente desapareceram completamente, com novos solares e casas de campo construídos a partir do material que pertencia a elas, permanecendo somente os antigos nomes eclesiásticos, como “A Abadia”, “O Priorado” ou “A Granja” para essas novas propriedades seculares. Apesar das mudanças temporais, algumas abadias continuam a preencher uma função religiosa, como a Abadia Westminster em Londres e muitas outras espalhadas pela Europa. Muito provavelmente a mais famosa de todas é a que se encontra em Meteora, com sua dramática localização no topo de uma montanha de arenito, fornecendo um refúgio para o isolamento daqueles que buscam uma vida monástica.
