A Ressurreição da Filha Única é uma história dos Sioux sobre uma jovem donzela que morre e volta à vida, com a ajuda de um caçador e da sua esposa, e que depois vive até à velhice. A história está aberta a várias interpretações, incluindo o conceito de destino e a ideia de que existe um momento predeterminado para a morte de cada um.
A história pode ser interpretada de acordo com um dos sete ritos sagrados dos Sioux — a «Guarda da Alma» —, no qual uma mecha de cabelo do falecido é retirada, purificada e guardada no feixe sagrado (também conhecido como «saco de remédios») durante um determinado período, geralmente um ano, antes de ser lançada ao ar, libertando a alma para regressar ao Grande Mistério (Wakan Tanka) na hora marcada. O conto também pode ser interpretado como um incentivo para aproveitar ao máximo o tempo que nos foi concedido, para lamentar a perda durante um período culturalmente adequado e, depois, deixar ir e seguir em frente, bem como para enfatizar a importância da hospitalidade e da bondade para com os estranhos — mesmo que estes venham da terra dos mortos.
O conto — apresentado como o relato de um acontecimento histórico — inclui vários detalhes relacionados com os rituais funerários dos Sioux e a sua compreensão da vida após a morte. O cadáver da jovem donzela é erguido num cadafalso fora da aldeia e os seus pais cortam o cabelo curto após a sua morte e entram em luto. O caçador e a sua esposa montam acampamento a meia milha de distância do cemitério para evitar quaisquer «coisas da sombra» — o reino dos mortos — e, no entanto, quando a jovem ressuscitada se aproxima, recebem-na sem medo e oferecem-lhe toda a hospitalidade como se fosse uma estranha viva, em total consonância com a prática de hospitalidade dos Sioux, tanto no passado como nos dias de hoje.
Ao mesmo tempo, os Sioux acreditavam — e continuam a acreditar — que os mortos pertencem ao seu próprio reino e não devem regressar ao mundo dos vivos. A história, portanto, inverte uma crença cultural central, na medida em que a mulher ressuscitada, depois de ser acolhida e curada pelo caçador e pela sua esposa, passa a levar uma vida plena, casa-se três vezes e torna-se uma médica distinta. Mesmo assim, uma vez que a sua vida após a ressurreição parece conduzir à morte dos seus três maridos, a história pode ainda ser interpretada como mantendo a noção de que a interação com os mortos é um assunto arriscado que traz problemas a quem nela se envolve, mesmo que possa resultar em benefício para outros.
Os Ritos Funerários dos Sioux e a Preservação da Alma
Os Sioux, tal como todas as nações nativas americanas, acreditam na natureza eterna da alma. Após a morte física do corpo, aquilo que o animava sobrevive e precisa de ser reconhecido. Os rituais funerários servem apenas para dar descanso aos restos mortais da pessoa, não necessariamente ao seu espírito. O académico Larry J. Zimmerman comenta os rituais funerários dos Sioux:
Um cadáver podia ser cremado, enterrado ou deixado a decompor-se ao ar livre, num andaime ou nas árvores. Os ossos resultantes podem ser deixados no chão ou posteriormente recolhidos para serem enterrados num túmulo cónico ou linear. Tanto as plataformas como os túmulos eram áreas sagradas, consideradas por alguns como espiritualmente perigosas. Entre os Lakota [Sioux], diz-se que os espíritos wanagi («coisas da sombra») guardam os túmulos e podem prejudicar quem perturbar os mortos. (pág. 247)
A própria alma, no entanto, também poderia «montar guarda» sobre o cadáver, especialmente se tivesse sido libertada do corpo antes do tempo determinado. Seja em casos como estes (quando uma pessoa morria jovem ou sem causa aparente) ou em qualquer outro, os Sioux desenvolveram o conceito do ritual da Guarda da Alma, que tem várias etapas. Após a morte de uma pessoa, retira-se uma mecha do seu cabelo, que é purificada sobre o fumo de erva-doce ou salva e, em seguida, colocada num embrulho sagrado. A pessoa que aceita guardar essa mecha de cabelo — e, assim, cuidar da alma do falecido — faz um voto de viver harmoniosamente durante um determinado período — sem se envolver em discussões acaloradas ou noutros tipos de comportamento que possam desonrar o espírito que lhe foi confiado — durante, pelo menos, um ano.
No final desse período (seja ele qual for), numa cerimónia ritual, a alma é libertada para os céus e acredita-se que viaje ao longo da Via Láctea para alcançar a união com o Grande Mistério, a força criadora do universo. Considera-se, assim, que a alma foi libertada no momento adequado para tal união, na medida em que o Grande Mistério (ou Grande Espírito) a estará à espera. Embora não haja qualquer menção a este ritual na história, pode-se presumir que os pais da donzela o teriam realizado e, talvez, seja assim que ela consegue regressar à vida, porque o seu espírito não tinha sido libertado para seguir para a eternidade.
Os fantasmas que permaneciam na Terra para assombrar os vivos, por qualquer motivo que fosse, não eram normalmente bem-vindos — tal como em muitas culturas por todo o mundo ao longo da história —, a menos que fossem reconhecidos como amigos ou familiares que tinham vindo para transmitir alguma mensagem importante. Um dos muitos aspetos fascinantes desta história é que a donzela, morta há dois anos, regressa como um cadáver animado e necessita da bondade e dos cuidados do caçador e da sua esposa para voltar plenamente à vida. Se o caçador fosse simplesmente amaldiçoado posteriormente por ajudar a revitalizar o cadáver vivo, isso estaria de acordo com a compreensão cultural de que era sempre imprudente interagir com os espíritos dos mortos.
Nesta história, no entanto, as ações do caçador e da sua esposa não só reanimam a donzela como também aliviam o luto dos pais dela e, presumivelmente, os reintegram na comunidade e, além disso, proporcionam ao povo uma curandeira excecional que continua a ajudar o seu povo até à velhice. Embora o caçador, e posteriormente os outros dois maridos da donzela, pareçam pagar por isso com as suas vidas, a mensagem geral da história é positiva, o que, de um modo geral, está em contradição com a compreensão dos nativos americanos sobre as interações com os espíritos dos mortos.
Tal como em muitos contos dos nativos americanos, no entanto, a interpretação óbvia nem sempre é a correta. Esta história, tal como muitas outras dos Sioux e de outras nações nativas americanas, oferece muitas possibilidades diferentes de significado e, em última análise, cabe ao público chegar à sua própria conclusão sobre qual poderá ser a mensagem final da obra.
O Texto
A tradução infra é do texto extraído de Myths and Legends of the Sioux (Mitos e Lendas dos Sioux - 1916), de Marie L. McLaughlin, que era parcialmente de origem sioux. A história continua a ser contada pelos sioux de várias formas nos dias de hoje e faz parte do seu rico património cultural.
Havia, outrora, um casal de idosos que tinha uma única filha. Era uma rapariga bonita e muito cortejada pelos jovens da tribo, mas ela dizia que preferia a vida de solteira e, a todas as suas conversas comoventes de profundo afeto por ela, tinha sempre uma única resposta. Essa resposta era «Não».
Um dia, esta donzela adoeceu e, dia após dia, o seu estado piorava. Chamaram todos os melhores curandeiros, mas os seus remédios não surtiram efeito e, duas semanas após o dia em que adoeceu, ela já estava morta. É claro que houve grande luto no acampamento. Levaram o seu corpo a várias milhas do acampamento e envolveram-no em vestes finas e cobertores; depois, deitaram-na numa plataforma que tinham erguido (conforme era o costume de sepultamento entre os índios). Cravaram quatro estacas bifurcadas no solo e, em seguida, amarraram varas resistentes no sentido do comprimento e transversalmente nas extremidades, tendo feito um leito de salgueiros e de ramos robustos de freixo. Este estrado ficava a cinco a sete pés do chão. Após o funeral, os pais doaram todos os seus cavalos, as vestes finas e os cobertores, bem como todos os pertences da rapariga falecida. Depois, cortaram o cabelo rente à cabeça e vestiram as roupas mais pobres que conseguiram arranjar.
Quando passou um ano, os amigos e familiares do casal de idosos tentaram, em vão, convencê-los a pôr de lado o luto. «Já choraram a perda durante tempo suficiente», diziam eles. «Deixem de lado o luto e tentem desfrutar de mais alguns prazeres desta vida enquanto vivem. Estão ambos a envelhecer e não têm muitos anos pela frente, por isso aproveitem ao máximo o tempo que lhes resta.» O casal de idosos ouvia os conselhos, abania a cabeça e respondia: «Não temos nada pelo que viver. Nada em que possamos participar nos traria qualquer prazer, uma vez que perdemos a luz das nossas vidas.»
Assim, o casal de idosos continuou a lamentar a perda da sua amada. Já tinham passado dois anos desde a morte da bela rapariga, quando, uma noite, um caçador e a sua esposa passaram junto ao cadafalso onde repousava o corpo da falecida. Estavam a regressar para casa, carregados com caça, e, por isso, não conseguiam avançar muito depressa. A cerca de meia milha do cadafalso, uma nascente límpida jorrava da encosta de um barranco, e dela escorria um pequeno fio de água, humedecendo as raízes da vegetação que ladeava as suas margens e fazendo crescer uma erva verde e suculenta. Nessa nascente, o caçador acampou e, depois de amarrar os cavalos, começou imediatamente a ajudar a sua esposa a montar a pequena tenda que levavam por conveniência nas viagens.
Quando escureceu completamente, os cães do caçador começaram a ladrar e a rosnar intensamente. «Olha lá fora e vê para que é que os cães estão a ladrar», disse o caçador à sua esposa. Ela espreitou pela porta e recuou, dizendo: «Ali está a silhueta de uma mulher a avançar na direção da forca da rapariga.» «Acho que é a rapariga morta; deixa-a entrar e não te comportes como se tivesses medo», disse o caçador. Pouco depois, ouviram passos a aproximarem-se, que pararam à porta. Olhando para a parte inferior da porta, o caçador reparou num par de pequenos mocassins e, sabendo que era a visitante, disse: «Seja quem for, entre e coma alguma coisa.»
Perante este convite, a figura entrou lentamente e sentou-se junto à porta, com a cabeça coberta e um manto fino bem puxado sobre o rosto. A mulher serviu um jantar farto e, colocando-o diante da visitante, disse: «Come, minha amiga, deves estar com fome.» A figura não se mexeu, nem se dispôs a descobrir o rosto para comer. «Vamos virar as costas para a porta, para que a nossa visitante possa comer», disse o caçador. Assim, a sua mulher virou as costas para a visitante e ocupou-se intensamente a limpar os pequenos pedaços de carne que estavam presos aos tendões da parte traseira do veado que tinha sido abatido (os índios usam-nos como fio). O caçador, enchendo o seu cachimbo, virou-se e fumou em silêncio.
Por fim, o prato foi empurrado de volta para a mulher, que o pegou e, depois de o lavar, guardou-o. A figura continuava sentada à porta, sem emitir nenhum som, nem sequer respirava. O caçador disse finalmente: «És a rapariga que foi colocada naquele cadafalso há dois anos?» Ela inclinou a cabeça duas ou três vezes em sinal de afirmação. «Vais dormir aqui esta noite? Se sim, a minha mulher vai preparar-te uma cama.» A figura abanou a cabeça. «Vais voltar amanhã à noite para nos visitar?» Acenou com a cabeça em sinal de afirmação.
Durante três noites consecutivas, a figura visitou o acampamento do caçador. Na terceira noite, o caçador reparou que a figura respirava. Viu uma das mãos a sobressair do manto. A pele era perfeitamente negra e estava firmemente colada aos ossos da mão. Ao ver isto, o caçador levantou-se e, dirigindo-se ao seu saco de remédios que estava pendurado num poste, tirou o saco, abriu-o, retirou algumas raízes e, misturando-as com óleo de gambá e vermelhão, disse à figura:
«Se nos deixares esfregar-te o rosto e as mãos com este remédio, ele dará nova vida à tua pele, recuperarás a tua tez e ganharás corpo.» A figura concordou e o caçador esfregou o remédio nas mãos e no rosto dela. Depois, ela levantou-se e voltou para o cadafalso. No dia seguinte, o caçador deslocou o acampamento em direção à aldeia natal. Naquela noite, acampou a poucas milhas da aldeia. Quando a noite caiu, os cães, como de costume, começaram a ladrar intensamente e, ao olhar para fora, a esposa viu a rapariga a aproximar-se.
Quando a rapariga entrou e se sentou, o caçador reparou que ela já não mantinha o manto tão bem apertado sobre o rosto. Quando a esposa lhe deu algo para comer, a rapariga estendeu a mão e pegou no prato, expondo assim as mãos, que eles perceberam imediatamente que estavam novamente normais. Depois de ela ter terminado a refeição, o caçador perguntou: «O meu remédio ajudou-te?» Ela acenou com a cabeça em sinal de afirmação. «Queres que te esfregue o meu remédio por todo o corpo?» Mais uma vez, ela acenou com a cabeça. «Vou preparar uma quantidade suficiente para esfregar todo o teu corpo e vou lá fora para que a minha mulher te o esfregue.»
Ele preparou uma boa quantidade e, ao sair, deixou a sua esposa a esfregar a menina. Quando a sua esposa terminou a tarefa, chamou o marido para entrar e, quando ele entrou, sentou-se e disse à menina: «Amanhã chegaremos à aldeia. Queres vir connosco?» Ela abanou a cabeça. «Vens novamente ao nosso acampamento amanhã à noite, depois de termos acampado na aldeia?» Ela acenou com a cabeça em sinal de concordância. «Então, queres ver os teus pais?» Ela acenou com a cabeça mais uma vez, levantou-se e desapareceu na escuridão.
No início da manhã seguinte, o caçador desmontou o acampamento e viajou até bem tarde da tarde, quando chegou à aldeia. Ele instruiu a sua esposa para ir imediatamente informar o casal de idosos do que tinha acontecido. A esposa assim o fez e, ao pôr-do-sol, o casal de idosos dirigiu-se à tenda do caçador. Foram convidados a entrar e foi-lhes servido um excelente jantar. Pouco depois de terem terminado o jantar, os cães do acampamento começaram a ladrar intensamente. «Ela está a chegar, por isso sejam corajosos e em breve verão a vossa filha perdida», disse o caçador. Mal tinha terminado de falar quando ela entrou na tenda, tão natural como sempre fora em vida. Os pais abraçaram-na com força e cobriram-na de beijos.
Queriam que ela voltasse para casa com eles, mas ela preferiu ficar com o caçador que a tinha trazido de volta à vida, e casou-se com ele, tornando-se a sua segunda esposa. Pouco tempo depois de ter tomado a rapariga como esposa, o caçador juntou-se a um grupo de guerra e nunca mais regressou, pois foi morto no campo de batalha.
Um ano após a morte do marido, ela casou-se novamente. Este marido também foi morto por um bando de inimigos que os guerreiros perseguiam por terem roubado alguns dos seus cavalos. O terceiro marido também teve um destino semelhante ao do primeiro. Também foi morto no campo de batalha. Ela ainda era uma mulher bonita na altura da morte do terceiro marido, mas nunca mais se casou, pois os homens temiam-na, dizendo que era sagrada e que quem se casasse com ela seria certamente morto pelo inimigo.
Assim, dedicou-se a tratar os doentes e ganhou a reputação de ser a médica mais habilidosa do país. Viveu até uma idade avançada e, quando sentiu a morte a aproximar-se, mandou que a levassem para o local onde já tinha descansado anteriormente e, rastejando até ao topo do cadafalso recém-erguido, enrolou-se nos seus cobertores e vestes, cobriu cuidadosamente o rosto e adormeceu naquele sono do qual já não há despertar.
