Ulrico Zuínglio (1484-1531) morreu na segunda guerra de Kappel em 1531, um conflito entre Católicos e Protestantes, surgindo duas versões sobre a sua morte – uma católica e outra prostestante – divergindo em detalhe, e um exemplo notável da cisma entre os dois grupos devido ao movimento da Reforma iniciado por Zuínglio.
Líder da Reforma Protestante na Suíça na época, Zuínglio já tinha instigado a Primeira Guerra de Kappel e concordou com um bloqueio dos cantões (províncias) católicos entre 1529 e 1531, numa tentativa dos converter à força à sua visão reformada do cristianismo. Para os protestantes de Zurique – e depois para outros cantões que se converteram à sua fé – era um herói inspirado por Deus e defensor da verdade cristã, enquanto que para os católicos, era um herege perigoso. Quando foi morto na Segunda Guerra de Kappel, uma vitória católica, ambos foram sucintos nos relatos da sua morte.
O relato católico foi escrito pelo dramaturgo e mercenário Johannes Salat (1498-1561), que esteve presente tanto na Primeira quanto na Segunda Guerra de Kappel e poderia facilmente ter sido testemunha ocular do evento. A versão protestante foi obra do admirador de Zuínglio, e seu sucessor no cargo em Zurique, Heinrich Bullinger (1504-1575), que ainda estava na sua cidade natal de Bremgarten em 1531 e não poderia ter sido testemunha dos eventos que descreve.
Após a Segunda Guerra de Kappel, os cantões suíços receberam a liberdade de escolher entre o Catolicismo e o Protestantismo e mantiveram uma paz instável que não ajudou na resolução das animosidades. Os dois relatos da sua morte estão entre os melhores documentos da época a expressar como cada lado entendia as suas próprias crenças e como via o outro.
As Guerras de Kappel
As Guerras de Kappel foram o resultado da crescente tensão entre cristãos protestantes e católicos na Suíça, que vinha aumentando desde que Zuínglio começou a pregar pela Reforma da Igreja em 1519. A Reforma Protestante, embora tivesse defensores anteriores, começou em 1517 na Alemanha através dos esforços do padre e teólogo Martinho Lutero (1483-1546), e em 1519, Zuínglio já rejeitava a liturgia da igreja e clamava por reformas na Suíça. Em 1522, Zuínglio desafiou a prática tradicional da Quaresma e, em 1523, numa disputa pública, apresenta “Os 67 Artigos” (Die 67 Artikel Zwinglis) onde expressa os princípios da sua fé e denuncia as políticas da Igreja como não bíblicas.
Zurique abraçou a visão de Zuínglio e, por volta de 1529, já tinham aderido vários outros cantões. No entanto, cinco cantões católicos recusaram-se a renunciar à sua fé, e Zuínglio, anteriormente um pacifista, defendeu a guerra como forma de conversão. Acreditava que uma Suíça Protestante e unida representaria a verdadeira vontade de Deus para a Igreja na Terra e que os católicos que se recusassem a reconhecê-lo não estavam apenas a opor-se a Zuínglio e aos seus ensinamentos, mas ao próprio Deus. Consequentemente, em 1529, mobilizou os cantões protestantes para atacar os católicos na Primeira Guerra de Kappel.
Este confronto terminou antes que pudesse começar, quando uma delegação do cantão protestante de Berna negociou a paz. Embora a Primeira Paz de Kappel tenha adiado as hostilidades, não resolveu as questões subjacentes e, além disso, havia pontos no acordo que não eram claros, nomeadamente como os cantões católicos deveriam receber – ou permitir – pregadores protestantes nas suas regiões. Para acelerar a conversão dos católicos, Zuínglio voltou a apelar à guerra, mas foi forçado a concordar com a medida menos severa de um bloqueio aos cantões católicos em maio de 1531.
Embora o bloqueio tenha sido levantado mais tarde, os católicos sentiram que precisavam responder antes que Zuínglio voltasse a atacar, e, assim, marcharam sobre Zurique em outubro de 1531, apanhando a cidade de surpresa. Os protestantes estavam em grande desvantagem numérica, mal mobilizados e careciam de uma liderança forte, o que levou à sua derrota em menos de uma hora. Zuínglio estava entre as 500 baixas das forças protestantes.
Salat & Bullinger
O cordoeiro Johannes Salat foi um dramaturgo e historiador a tempo parcial, que, como muitos homens na Suíça na época, era mercenário para várias causas através do sistema dos pensionistas mercenários. Estes 'pensionistas', como por vezes eram chamados, não tinham lealdade ao rei nem ao príncipe por quem lutavam, eram apenas soldados pagos, mas este não era o caso das Guerras de Kappel. As tropas católicas mobilizadas para ambas as batalhas entenderam que estavam a lutar pela sua liberdade de praticar a sua religião como sempre fizeram e, além disso, acreditavam que tinham Deus por si, pois entendiam a Igreja Católica como a verdadeira representante da vontade divina na Terra.
Salat já havia atacado Zuínglio por escrito antes de 1531 e mais tarde atacaria Bullinger e os outros protestantes. Para Salat, e para os católicos em geral, eles não eram heróis a serem admirados, mas hereges anticristos e anticristãos, cujas obras procuravam apenas destruir a Igreja de Deus. A Igreja era entendida há séculos como a única autoridade espiritual, ordenada pelo próprio Jesus Cristo e fundada por São Pedro, e os ensinamentos da Igreja medieval influenciavam completamente a sociedade europeia. Cindir-se da Igreja era entendido como uma afronta à família, à comunidade e aos antepassados, uma quebra de lealdade ao príncipe e um ato de rebelião contra Deus.
Assim que o movimento da Reforma foi posto em marcha desafiou-se, descartou-se e reimaginou-se as práticas, os valores e até mesmo a estrutura social de longa data de acordo com um novo paradigma que muitos rejeitaram como anticristão. O académico Randolph C. Head comenta:
Neste contexto, deixaram de se aplicar muitas premissas medievais sobre hierarquia, ortodoxia e autoridade, pareceu a muitos contemporâneos, mesmo quando as realidades da diferença religiosa e da coexistência levantaram novos problemas e possibilidades... O mais desafiador, talvez, foram os desafios à autoridade que o sucesso do movimento evangélico trouxe à tona. Assim, Zuínglio e os seus companheiros justificaram as suas alegações de falar a verdade sagrada em parte apelando à autoridade da consciência, dos textos e das comunidades; ao rejeitarem a autoridade da igreja existente para falar definitivamente, expandiram outras ideias existentes para justificar os seus novos movimentos. (Rublack, pág. 179).
Zuínglio, tal como Lutero, pregava a Bíblia como a única autoridade espiritual e denunciava a Igreja como uma entidade egoísta mais envolvida em assuntos mundanos do que na causa da salvação espiritual. A insistência de Zuínglio na primazia da interpretação individual da Bíblia e a rejeição de quaisquer ensinamentos ou práticas não apoiados pelas escrituras atraíram muitos clérigos e teólogos, e entre eles estava o jovem ministro luterano Heinrich Bullinger.
[imagem:14839]
O estudioso e teólogo Bullinger, inicialmente influenciado pelos esforços de Lutero e pelas obras de Philipp Melanchthon (1497-1560) e depois por Zuínglio, acompanhou-o ao Debate de Berna em 1528 e pregou a visão da Reforma Protestante na sua igreja em Bremgarten, na região de Argóvia, desafiando a política da Igreja em relação aos ícones. Manteve o seu cargo de pároco até depois da Segunda Guerra de Kappel, quando Bremgarten se tornou católica, mudou-se para Zurique, assumindo o cargo de sacerdote do povo de Zuínglio na Grossmünster (Grande Catedral).
Os Relatos
Como observado, Salat participou em ambas as Guerras de Kappel, ao contrário de Bullinger. Mesmo assim, não são apenas os detalhes da morte de Zuínglio que conferem valor aos documentos, mas o que os relatos revelam sobre como católicos e protestantes se viam a si e o outro na época. A versão de Salat descreve Zuínglio como um agitador vil que recebeu o que merecia e foi justamente morto pela vontade divina, enquanto que para Bullinger, Zuínglio era um representante da 'verdadeira fé de Cristo' que foi maltratado pelos seus assassinos e mais tarde difamado por aqueles que nunca o conheceram ou que o culparam por incitar as guerras.
Os textos infra foram retirados de A Reformation Reader: Primary Texts with Introductions (Antologia da Reforma: Textos Fundamentais com Introduções) de Denis R. Janz. As passagens foram divididas em parágrafos separados e para maior clareza modificou-se alguma pontuação.
O Relato Católico de Salat
Zuínglio foi encontrado na linha de frente onde as forças de Zurique haviam sido posicionadas. Estava deitado de bruços, sem arranhões ou ferimentos no rosto. Um soldado católico, sem saber quem ele era, virou-o e sacudiu-o para que pudesse respirar e ter ar. Ele abriu os olhos e olhou em volta. Então perguntaram-lhe se desejava confessar os seus pecados. Meneou negativamente a cabeça. Em seguida, outro guerreiro ali perto desferiu um golpe fatal no pescoço de Zuínglio, sob o queixo, com a sua espada larga.
Logo chegaram vários homens que conheceram Zuínglio em vida, olharam para ele e procuraram marcas de identificação no corpo. Descobriram que realmente era Zuínglio. Aí tiveram muito a dizer, regozijando-se com a sua morte e chamaram-lhe de muitos nomes totalmente impróprios. Acrescentaram repetidos agradecimentos ao Deus Todo-Poderoso cuja vingança jazia ali no sangue do malfeitor que tinha sido o verdadeiro fundador, originador, criador e iniciador de todos os seus males, calamidades e agoiros. Mesmo assim, Deus graciosamente permitiu que ele morresse na presença e rodeado de homens bons e honrados, talvez porque ele fora sacerdote. Não teria sido notável se houvesse mais demónios ao seu lado no fim do que soldados no campo.
Durante toda a noite, cada vez mais católicos vieram ver o cadáver daquele que tinha sido responsável por trazer mais descontentamento, desordem, problemas, necessidades e ansiedade do que todos os príncipes, senhores, povos e cidades. Agora, ali jazia entregue pela instrumentalidade de Deus nas suas mãos, e tinha pago o preço pela sua maldade. Ali, finalmente, estava o representante de todos os Confederados, e (pela graça de Deus) todos os seus planos pereceram com ele. (pág. 198).
O Relato Protestante de Bullinger
No campo de batalha, não muito longe da linha de ataque, o Senhor Ulrico Zuínglio jazia sob os mortos e feridos. Enquanto os homens saqueavam... ele ainda estava vivo, deitado de costas, com as mãos juntas como se estivesse a rezar, e os olhos olhando para o céu. Então, alguns aproximaram-se, não o reconhecendo perguntaram-lhe, já que estava tão fraco e perto da morte (pois tinha caído em combate e estava ferido mortalmente), se deveria ser chamado um sacerdote para ouvir a sua confissão. Nisto, Zuínglio abanou a cabeça, não disse nada e olhou para o céu.
Mais tarde, disseram-lhe que, se não fosse mais capaz de falar ou confessar, deveria ao menos ter a mãe de Deus no seu coração e invocar os amados santos para intercederem por Graça em seu nome a Deus. Novamente, Zuínglio abanou a cabeça e continuou a olhar fixamente para o céu. Com isto, os católicos ficaram impacientes, amaldiçoaram-no e disseram que era um dos hereges obstinados e rabugentos e que deveria receber o que merecia. Apareceu o Capitão Fockinger de Unterwalden e, exasperado, desembainhou a sua espada e glopeou-o, tendo morrido imediatamente.
Assim, o renomado Senhor Ulrico Zuínglio, verdadeiro ministro e servo das igrejas de Zurique, foi encontrado ferido no campo de batalha juntamente com o seu rebanho (com quem permaneceu até à sua morte). Ali, por causa da sua confissão da verdadeira fé em Cristo, nosso único salvador, o mediador e advogado de todos os crentes, foi morto por um capitão que era um pensionista, um daqueles contra quem ele sempre pregara tão eloquentemente...
A multidão assim [12 de outubro] espalhou pelo acampamento que qualquer um que quisesse denunciar Zuínglio como herege e traidor de uma piedosa confederação deveria ir para o campo de batalha. Ali, com grande desprezo, montaram um tribunal de injustiça sobre Zuínglio que decidiu que o seu corpo deveria ser esquartejado e queimado. Tudo isto foi levado a cabo pelo executor de Lucerna com abundância de abusos; entre outras coisas, disse que embora alguns tivessem afirmado que Zuínglio era um homem doente, ele nunca tinha visto um corpo com uma aparência tão saudável.
Atiraram para o fogo as entranhas de alguns porcos que tinham sido abatidos na noite anterior, e depois reviraram as brasas para que as vísceras do porco se misturassem com as cinzas de Zuínglio. Isto aconteveu perto da estrada principal para Scheuren. Os veredictos sobre Zuínglio de estudiosos e ignorantes foram variados. Todos aqueles que o conheciam foram constantes nos seus elogios. Mesmo assim, havia ainda mais críticos, quer porque realmente não o conheciam, quer porque, se o tinham conhecido um pouco, estavam determinados a mostrar o seu ressentimento e falavam mal dele. (pág. 199).
Conclusão
Após a Segunda Guerra de Kappel, Salat escreveu tratados e panfletos atacando Bullinger, que respondeu da mesma forma. Após a data de 1540, pouco se sabe da vida de Salat ou mesmo a data em que morreu, mas a vida de Bullinger foi bem documentada, já que foi o sucessor de Zuínglio, defendendo-o contra detratores que o culpavam pela custosa guerra. A fonte do relato de Bullinger sobre a morte de Zuínglio é desconhecida, mas a obra está em consonância com a sua defesa posterior de Zuínglio como um visionário chamado por Deus para iluminar o povo numa época de trevas, que eram consideradas a luz da salvação pelos católicos, sendo difícil, senão impossível, o compromisso entre as duas visões do cristianismo.
Bullinger adotou uma postura mais moderada do que Zuínglio, escreveu as Confissões Helvéticas, que serviram à Igreja Reformada da Suíça fundada por Zuínglio, bem como a todas as outras, e fez a ponte entre os esforços radicais de Reforma de Zuínglio e a teologia totalmente desenvolvida de João Calvino (1509-1564), que completaria a Reforma Suíça e sistematizaria a Reforma como um todo. Mesmo assim, a moderação de Bullinger e a justificação teológica de Calvino não foram o suficiente para reconciliar as diferentes seitas cristãs.
O relato de Salat representa a visão dos tradicionalistas que rejeitaram o apelo da Reforma à mudança e viam Zuínglio como um colaborador de Satanás, enquanto o relato de Bullinger o apresenta como um mártir que morreu ao serviço da verdadeira fé. Estas visões opostas de reformadores como Zuínglio, bem como das respectivas visões do cristianismo, continuariam muito depois da Segunda Guerra de Kappel e, em parte, catalizaram a Guerra dos Trinta Anos (1618-48), um dos conflitos mais destrutivos e caros da história europeia.
