Capitais do Império Romano: Constantinopla e Roma

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Oxford University Press
por Greg Woolf / Oxford University Press, traduzido por Filipa Oliveira
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No início, Constantinopla tinha muito em comum com as capitais temporárias dos séculos II e III e com as capitais da tetrarquia. Tratava-se de uma cidade já existente, de média dimensão, bem situada na rede rodoviária e, ao contrário da maioria delas, também com excelentes acessos por via navegável. Situava-se no mar de Mármara, que dava acesso ao mar Negro a norte e ao Mediterrâneo a sul. Encontrava-se suficientemente perto da fronteira do Danúbio para permitir acompanhar a guerra nessa frente, e não demasiado longe dos territórios mais frequentemente disputados com a Pérsia.

Valens Aqueduct, Constantinople
Aqueduto de Valente, Constantinopla Oleg (CC BY-NC-ND)

O nome grego da cidade era Βυζαντιον (Bizâncio), e era assim que os escritores gregos, como Procópio, continuavam a chamar-lhe. Bizâncio tinha resistido a um cerco importante durante a guerra civil severiana e tinha depois sido reconstruída a uma escala impressionante, mais do que duplicando a sua dimensão. Teria constituído uma boa base tetrarquica, se Nicomédia já não estivesse disponível a cerca de 150 quilómetros (90 milhas) de distância, na margem asiática. Não se sabe por que razão Constantino I (reinou 306-337) escolheu este local em detrimento de Nicomédia. Possivelmente, foi para evitar as associações dioclecianas, embora Constantino também tivesse construído em Nicomédia e celebrado lá o vigésimo aniversário do seu reinado, bem como em Roma. Talvez a nova cidade fosse um memorial da sua vitória sobre Licínio na vizinha Crisópolis em 324, um pouco como Nicópolis criada por Augusto (reinou 27 a.C. a 14 d.C.) para assinalar a sua vitória na vizinha Áccio. Talvez Constantino tenha sido atraído pela capacidade de defesa da península onde Bizâncio se situava e pelos seus excelentes portos.

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A construção começou no final de 324, e a "nova" cidade foi inaugurada numa grande cerimónia no Hipódromo em 330.

A construção começou no final do ano de 324, e a "nova" cidade foi inaugurada numa grande cerimónia no Hipódromo em 330. Havia ainda muito por concluir, e as obras de construção continuavam na altura da morte de Constantino, sete anos mais tarde, mas a velocidade com que a nova capital foi concetuada e criada não deixa de ser impressionante. Constantinopla eclipsou largamente as capitais tetrárquicas anteriores em termos de dimensão. A cidade foi refundada segundo antigos rituais romanos, e uma nova muralha através da península quadruplicou o tamanho da cidade severiana.

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No extremo oriental, foi construído um grande palácio ligado ao Hipódromo de Constantinopla. Foram traçadas termas imperiais e vias processionais. Foram construídas grandes igrejas, incluindo as catedrais de Santa Irene e de Santa Sofia. Ainda havia alguns templos dedicados aos deuses tradicionais. A cidade estava também repleta de estátuas de deuses trazidas de outros locais, consideradas espólio e obras de arte por alguns observadores, e ídolos pagãos por outros. O Fórum de Constantino e o Hipódromo estavam decorados de forma particularmente ornamentada. Havia vários acenos à cidade de Roma — sete colinas, um Templo de Fortuna Romae —, mas, na maioria dos aspetos, tratava-se de um recomeço. Foi traçada uma nova malha urbana nos novos bairros (o que nunca aconteceu em Roma), e a cidade foi cercada por portos e celeiros. Para povoar a nova megalópole, foi recrutada uma nova população e criado um segundo Senado. Os aquedutos e as imensas cisternas forneciam água potável e abasteciam as termas de Zeuxipo. O trigo egípcio que antes era enviado para Roma foi desviava-se para alimentar Constantinopla. A Igreja dos Apóstolos poderá não ter sido concluída durante a vida de Constantino, mas este foi sepultado no mausoléu adjacente. Os tetrarcas tinham criado bases administrativas com toda a pompa exigida pela governação da Antiguidade Tardia, mas Constantino tinha criado de forma bem deliberada um novo centro simbólico para o império.

Roman Emperor at the Hippodrome
Imperador Romano no Hipódromo Radomil talk (CC BY-SA)

Os planos de Constantino eram grandiosos o suficiente, mas Constantinopla não tardou a expandir-se para além do seu projeto original. Grande parte do reinado de Constâncio foi passada a concluir e a preencher o projeto inicial, dotando a cidade de um conjunto completo de instituições e tornando-a, talvez de forma mais evidente, numa capital imperial. Parte disto pode observar-se através dos discursos do orador e professor Temístio, que foi elevado ao Senado oriental em 355 e encarregado pelo imperador de aumentar o seu número até igualar o do Senado de Roma. A cidade adquiriu um Prefeito Urbano, tal como Roma tinha, a certa altura em meados do século IV. Panegíricos sucessivos proferidos por Temístio sugeriam (ou alegavam) um papel para o Senado oriental na legitimação do imperador. Enquanto isso, a cidade continuava a expandir-se para oeste. Mais um enorme circuito de muralhas exteriores foi construído no início do reinado de Teodósio II, criando uma grande extensão para leste dentro da qual a horticultura comercial, as residências e as fundações religiosas podiam ser protegidas. O centro da cidade ficou repleto de igrejas, muitas das quais seriam reconstruídas a uma escala espetacular por Justiniano.

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Constantinopla ergueu-se à custa de Roma. Os recursos imperiais foram redirecionados para a nova capital.

Constantinopla ergueu-se à custa de Roma. Os recursos imperiais foram redirecionados para a nova capital. O novo senado foi parcialmente preenchido com membros de famílias mais antigas convidados a deslocar-se para o oriente, os incentivos à construção de habitações atraíram arquitetos, artesãos e capital para Constantinopla, e a redução do trigo estatal tornou mais difícil para Roma sustentar os seus níveis populacionais. Zózimo foi implacável quanto ao desperdício de recursos na nova capital, enquanto Eusébio elogiou as fundações religiosas de Constantino no local. Provavelmente, isto reflete alguma controvérsia em torno do final do reinado de Teodósio II (reinou 408-450). Mas, no início do reinado de Constantino, este certamente não negligenciou Roma. Como os projetos de construção imperial demoravam sempre muitos anos a concretizar-se, ambas as cidades ainda continuavam a receber o seu patrocínio na altura da sua morte. De facto, ao longo do século IV e durante algum tempo a seguir, o império teve dois centros simbólicos, duas Romas.

Após a derrota de Maxêncio em outubro de 312, Constantino comportou-se muito à semelhança de outros vencedores de guerras civis, especialmente Augusto, Vespasiano e Sétimo Severo. Cada um deles tinha recorrido a projetos de construção em Roma para delinear uma espécie de programa para os seus reinados. As estruturas mais inovadoras iniciadas por Constantino foram uma série de grandes igrejas basilicais em redor da cidade. São João de Laterão, iniciada no espaço de um ano após a sua vitória e provavelmente concluída em 320, foi concebida como catedral para a comunidade cristã de Roma. Ao longo do resto do seu reinado, ele e os seus familiares patrocinaram várias outras grandes igrejas perto dos túmulos de mártires localizados nos cemitérios em redor da cidade. As igrejas de São Lourenço fora de Muros, de Santa Inês, de Santos Marcelino e Pedro Diácono, a Antiga Basílica de São Pedro no Vaticano e São Paulo fora de Muros cercavam a cidade, proporcionando instalações para peregrinos e comunidades cristãs locais.

Existe um debate sobre até que ponto a localização destas igrejas foi orientada pela localização dos túmulos dos mártires ou por um sentido de tato para com os adoradores dos deuses tradicionais, cujos templos se situavam maioritariamente no centro da cidade. Havia boas razões práticas para situar as basílicas onde se encontravam; pelo menos algumas delas ficavam em terrenos imperiais. O quão táteis eram estas vastas estruturas, quando eram visíveis para a maioria das pessoas que entravam ou saíam da cidade, é menos claro. A construção da Antiga Basílica de São Pedro e de São Paulo começou provavelmente por volta da mesma altura em que se iniciaram os trabalhos em Constantinopla. A construção de Constantino em Roma não se limitou às igrejas. Construiu outro conjunto de termas romanas, provavelmente bastante cedo no seu reinado, para rivalizar com as de Trajano, Caracala e Diocleciano. Remodelou a recente basílica de Maxêncio no Fórum Romano e instalou nela uma estátua colossal de si próprio. Houve restaurações no Fórum Boário e no Circo Máximo. Constantino foi, no entanto, o último imperador a gastar significativamente com a cidade.

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The Colossus of Constantine
O Colosso de Constantino Dana Murray (CC BY-NC-SA)

A cidade de Roma continuou a ser um importante centro simbólico até ao reino ostrogótico. O final do século IV, em particular, está excecionalmente bem documentado por escritores cristãos e membros da ordem senatorial (os dois grupos sobrepondo-se cada vez mais, naturalmente), e a cultura, a sociedade e a política da cidade têm sido muito bem exploradas. O choque generalizado com o saque gótico de Roma em 410 é prova suficiente de que Roma ainda importava em todo o império. No entanto, a sua centralidade alterou-se ao longo do tempo. De forma mais evidente, nunca mais voltou a ser uma capital política ou sequer a capital de uma entidade italiana antes do final do século XIX.

O Senado continuou a reunir-se e, liderado pelo Prefeito Urbano, continuou a gerir a cidade como um conselho municipal de grande envergadura, enquanto os colégios sacerdotais senatoriais continuaram a realizar os rituais habituais até serem proibidos no final do século IV e início do século V. Mas as funções de tomada de decisão eram locais, e os assuntos importantes tinham de ser remetidos ao Prefeito do Pretório e à corte imperial. Ainda assim, a aristocracia senatorial constatou que era capaz de tomar novamente posse da sua cidade. Durante o século IV, assumiram a responsabilidade pelo tecido urbano, ergueram estátuas de si próprios por todos os espaços públicos e, muito ocasionalmente, receberam visitantes imperiais em grande estilo.

Economicamente, a história é mais complexa. As famílias que integravam o senado ocidental possuíam, coletivamente, uma vasta quantidade de terras e outros bens, especialmente no Ocidente. Durante o século IV, algumas contribuíram financeiramente para a gestão da cidade e a manutenção dos seus monumentos, e muitas viviam em residências sumptuosas. No entanto, com o passar do tempo, a sua riqueza passou a sofrer pressão a partir de duas frentes. Surpreendentemente, nenhuma delas era a corte imperial, que enfrentava dificuldades financeiras. Uma das pressões, difícil de quantificar com precisão, consistia nos donativos feitos por estas famílias a fundações religiosas. A escala das ofertas feitas por Melania, a Jovem, no início do século V escandalizou alguns, embora a maior parte do testemunho sobrevivente a elogie. É notável, contudo, que durante o século V haja cada vez menos indícios de dinheiro gasto em reparações e restaurações de edifícios que não estivessem ligados à Igreja.

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A segunda área de pressão foi a ocupação de grande parte do Ocidente, primeiro por "convidados" bárbaros estabelecidos e, mais tarde, pelos novos reinos. Paralelamente a estas pressões sobre a riqueza das classes proprietárias, verificou-se a contração da população da cidade, em parte decerto como resposta à redução do fornecimento de trigo subsidiado e, em parte, como sinal de que, comercialmente, Roma já não era um mercado tão importante como antes. Contudo, a par destas mudanças, assistiu-se ao crescimento da riqueza da Igreja Cristã, bem como às atividades de construção e à influência crescente dos bispos de Roma, desde Dâmaso no final do século IV até Leão, o Grande, no século V.

Se o século IV tinha sido dominado pelas dinâmicas da relação entre o senado e uma corte distante, a partir do século V a relação entre o papa e a aristocracia passaria a moldar a vida pública e os espaços públicos da cidade. Esta combinação política era bastante diferente em Constantinopla, onde a cerimónia cristã estava cada vez mais ligada à dos imperadores, que se encontravam maioritariamente presentes na cidade, e onde o senado oriental tinha coletivamente muito menos influência. Enquanto isso, à medida que Roma diminuía de tamanho, a nova capital de Constantino crescia cada vez mais, acrescentando novos bairros e novos circuitos de muralhas durante o século V.

Theodosian Walls
Muros de Teodósio Bigdaddy1204 (CC BY-SA)

O império tinha outros centros. Um deles era a própria pessoa do imperador. Essas raras visitas cerimoniais imperiais a Roma tinham tanta carga porque dois centros eram trazidos a contacto por um instante. Em Constantinopla, o imperador e a cidade coincidiam com mais regularidade e, na sua maioria, harmoniosamente, embora as revoltas de Nica ilustrem até que ponto a proximidade podia correr mal. Quanto a outros centros urbanos, as antigas cidades de Antioquia, Alexandria e Cartago continuaram a desempenhar os seus papéis nos sistemas de troca regionais. A conquista de Cartago pelos Vândalos em 439 não interrompeu totalmente este processo. Apesar das tentativas repetidas de reconquistar a cidade, os Vândalos governaram aí até que o general de Justiniano, Belisário, a reconquistou em 534 Antioquia continuou a ser um polo importante também, até ao início do século VI, quando um terramoto devastador foi seguido, poucos anos depois, por um ataque persa que deixou a cidade despovoada. Justiniano tentou revivê-la, mas com sucesso limitado. Alexandria também passou brevemente para mãos persas e depois voltou para mãos romanas durante o início do século VII. Antioquia caiu perante as invasões árabes em 637, Alexandria em 641 e Cartago em 697.

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Depois havia também Jerusalém, uma colónia romana de média dimensão desde o reinado de Adriano (reinado de 117-138), que se tornou o terceiro foco de construção constantiniana depois de Roma e Constantinopla. A Igreja do Santo Sepulcro, que incorporava outra grande basílica, foi construída nos últimos anos do reinado de Constantino. O local tornou-se num dos primeiros centros de peregrinação cristã. Durante o reinado de Teodósio II, o Bispo de Jerusalém foi reconhecido como Patriarca, o que lhe conferiu um estatuto igual ao dos bispos de Constantinopla, Antioquia, Alexandria e (aos olhos de alguns) Roma. Justiniano (reinado de 527-565) construiu aí duas novas grandes igrejas, a Nova Igreja da Theotokos (a Mãe de Deus) e a Igreja de Sião. Jerusalém também foi apanhada nas guerras com a Pérsia do início do século VII e caiu perante os Árabes em 638.

Ancient Walls Surrounding Church of the Holy Sepulchre
Muralhas Antigas ao redor da Igreja do Santo Sepulcro James Blake Wiener (CC BY-NC-SA)

Os processos que conduziram à afirmação de Constantinopla como capital incontestada do mundo romano foram sinuosos e não resultaram propriamente de uma centralização planeada. De certa forma, faz mais sentido pensar em como a geografia política e militar em mutação e os padrões em transformação da atividade económica e cultural impactaram as redes urbanas do império. O Império Romano começou como uma única cidade-estado e terminou da mesma forma, ainda que não tenha regressado exatamente ao mesmo ponto de partida a partir do qual se expandiu. Durante a maior parte da sua história, o império foi um empreendimento demasiado vasto e complexo para ser governado a partir de um único centro.

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Press, G. W. /. O. U. (2026, agosto 11). Capitais do Império Romano: Constantinopla e Roma. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1882/capitais-do-imperio-romano-constantinopla-e-roma/

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Press, Greg Woolf / Oxford University. "Capitais do Império Romano: Constantinopla e Roma." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, agosto 11, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1882/capitais-do-imperio-romano-constantinopla-e-roma/.

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Press, Greg Woolf / Oxford University. "Capitais do Império Romano: Constantinopla e Roma." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 11 ago 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1882/capitais-do-imperio-romano-constantinopla-e-roma/.

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