Tucídides e a Peste de Atenas: Texto e Comentário

Joshua J. Mark
por , traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto
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Entre 429 e 426 a.C., mais provável em 430 a.C., a Peste atacou Atenas, porém antes que fosse reconhecida como uma epidemia, já havia ceifado a vida de 75.000 a 100.000 vidas. Estudiosos modernos acreditam que estas últimas mortes tenham sido causadas por uma eclosão de Varíola ou Tifo, porém não se descartou de todo a possibilidade de que possa ter sido a Peste Bubônica (Bubónica).

A fonte de informação primária a respeito do evento é o historiador Tucídides (nasceu entre 460/455- morreu entre 399/398), um ateniense que sofreu a doença e sobreviveu. Ele se referiu à doença como uma Peste, porém esta designação era usada na antiguidade para qualquer disseminação ampla de um surto de doença. Muitos estudiosos descartam a possibilidade de que o evento tenha sido Peste Bubônica porque Tucídides nunca menciona os bubões (inchaços) nas virilhas, axilas e em volta das orelhas, sintomas padrão acompanhando a Peste Bubônica à medida que ela ataca o sistema linfático e produz tais inchaços.

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Thucydides Mosaic
Mosaico: Tucídides Mharrsch (Public Domain)

Como os bubões apresentam uma coloração negra, foram esses inchaços que deram à famosa pandemia do século XIV o nome de Peste Negra ou Morte Negra. Mesmo assim, a possibilidade de que a Peste de Atenas fosse Peste Bubônica não foi completamente excluída, muito embora os sintomas descritos por Tucídides pareçam se alinhar mais com o diagnóstico de Varíola. Seja qual tenha sido a doença, ela se espalhou rapidamente pela população de Atenas, matando muitas pessoas com grande rapidez, antes de desaparecer na mesma época. Tucídides insiste que não havia nada que nenhuma ação humana pudesse fazer para interromper sua disseminação e termina sua narrativa simplesmente dizendo que ela deixou Atenas em um estado deplorável.

Origem e Contexto da Peste

A Peste chegou a Atenas através do porto de Pireus, logo após o início da Segunda Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.) entre Atenas e Esparta. Tensões entre as duas cidades-estados elevou-se após a derrota da invasão persa de Xerxes I (486- 465 a.C.) em 479 a.C. Embora os gregos tenham saído vitoriosos nas Guerras Persas, havia o temor de que Xerxes I pudesse lançar outra invasão. Devido a essa possibilidade, os líderes atenienses, comandados pelo general Péricles (495-429 a.C.), formaram a Liga de Delos para prepararem a defesa, bem como auxiliar a libertar os companheiros gregos que achavam estarem sob a tirania persa.

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péricles havia ordenado que o povo se retirasse para trás das muralhas de Atenas recém construídas e involuntariamente criou a atmosfera perfeita para a peste.

A Liga de Delos tornou-se muito poderosa e foi interpretada por muitos da época como beneficiando primariamente Atenas. A frota ateniense desenvolveu-se rapidamente e Péricles ordenou que fossem erguidas muralhas em volta da cidade e dos monumentos, templos e edifícios públicos, os quais demonstravam o status e riqueza da cidade. Os espartanos temiam que Atenas estava se tornando muito poderosa e, devido à riqueza gerada pelas ações da Liga de Delos, poderia construir alianças com várias outras cidades-estados. A Primeira Guerra do Peloponeso (460-446 a.C.) se deu primariamente entre Atenas e Corinto (um aliado de Esparta), mas a segunda seria um conflito direto entre os dois antagonistas.

Na época em que a Peste atacou, a guerra já se intensificava e Péricles ordenou que as pessoas se retirassem para dentro das muralhas recém-construídas em Atenas. Ao fazer isso, ele, de forma não intencional, criou a atmosfera perfeita para a Peste encontrar um lugar propício e se espalhar sobre a população.

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Narrativa de Tucídides

A narrativa de Tucídides inicia-se nesse ponto e ele observa como, quando a Peste teve início, a população da cidade portuária de Pireu (fora de Atenas e principal porto comercial ateniense) acreditava que os “Peloponésios” (espartanos) tinham envenenado as fontes de água, como parte de sua narrativa, História da Guerra do Peloponésio, e incluiu a seção, como ele disse, para “o povo estudar no caso de haver sempre novos ataques, para sempre se equiparem, com previsão, de modo que não deixassem de reconhece-lo” (Grant,77). O estudioso Michael Grant explica a intenção de Tucídides e objetivo final para escrever sua história:

Tucídides difere de Heródoto que, de tempos em tempos, demonstrava um ponto de vista moral e didático, pois pretendia, contínua e deliberadamente, ter uma atitude instrutiva. Disse ele que estava escrevendo sua história “como uma obsessão para sempre”, fornecendo um “registro claro” do que havia acontecido no passado e seria, no devido tempo, uma tendência a se repetir com o mesmo grau de semelhança (I.22). Assim, o trabalho de Tucídides contribuía para o esforço do cientista social para fazer, a partir dos princípios gerais e fundamentais, emergirem princípios para ações particulares, assegurando que o conhecimento do passado formasse um guia efetivo para o futuro. (63)

O tratamento dado por Tucídides para a Peste de Atenas é semelhante ao que faz com a guerra, com cuidadosa atenção no relato dos detalhes empíricos, sem sugerir qualquer razão a epidemia. Seu objetivo é totalmente instrutivo na esperança de que as futuras gerações pudessem ser capazes de aprender a partir das lições do passado.

Plague in an Ancient City
A Peste numa Cidade Antiga Los Angeles County Museum of Art (Public Domain)

O Texto

A narrativa seguinte encontra-se na obra História da Guerra do Peloponésio, II.vii.3-54, traduzido para o inglês pelo intelectual P.J. Rhodes e transcrita por Michael Grantt no seu Readings in the Classical Historians (Leituras nos Historiadores Clássicos):

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(A Peste) dizem que eclodiu, primeiramente, em muitos outros lugares, na região de Lemnos e adjacências, porém não existem relatos anteriores de uma pestilência e destruição tão grande da vida humana. Os médicos encontram-se incapazes de enfrentá-la, pois estavam tratando a tal doença pela primeira vez e na ignorância: de fato, quanto mais entram em contato com os que dela padecem, mais ficam expostos a perderem as suas próprias vidas. Nenhum recurso humano é capaz de qualquer auxílio. Além do mais, súplicas em santuários, apelo à adivinhação e coisas semelhantes eram todos inúteis. Ao final, as pessoas eram esmagadas pelo desastre e abandonavam os esforços contra ela.

Dizia-se que a Peste apareceu, primeiramente, em toda a Etiópia e, daí, atingiu o Egito e a Líbia e muitas (outras) terras. Ela eclodiu na cidade de Atenas repentinamente. Os habitantes no Pireu foram atingidos primeiro, e desse modo, já que não havia ainda nenhuma fonte de água ali, alegaram que os Peloponésios haviam envenenado os poços. Em seguida, atingiu a cidade alta e, então, as mortes começaram a ocorrer numa escala muito maior. Todos, sejam doutores ou leigos, podiam dizer por experiência própria, qual a provável origem disso e as causas que acreditam com força suficiente para provocar uma tão grande mudança. Prestarei contas a respeito de algo semelhante, que as pessoas poderão estudar caso ela ataque novamente, para se prevenirem e deixarem de reconhecê-la. Faço esse relato porque eu mesmo sofri da doença, quanto vi outras vítimas dela.

Havia consenso universal de que, especificamente este ano, estava notavelmente livre de doenças, tanto quanto no tocante a outros males preocupantes. Se as pessoas sofressem primeiro de outros males, todas terminavam nisto. Outras pessoas eram tomadas sem nenhum aviso, repentinamente, quando se encontravam em boa saúde. A doença iniciava-se com uma forte febre na cabeça, vermelhidão e queimação nos olhos; os primeiros sintomas internos eram garganta e língua sangrando e a respiração alterada e hálito malcheiroso. Seguiam-se espirros e rouquidão e em pouco tempo a agonia descia para o tórax, produzindo tosse intensa e paroxística. Quando acometia o coração, ocorria convulsão com todos os tipos de evacuações biliosas, conhecidas dos doutores, acompanhadas de grande desconforto. Muitas vítimas sofriam de regurgitações vazias, o que induzia convulsões violentas, diminuindo imediatamente para alguns e mais tardiamente para outros.

O exterior do corpo encontrava-se particularmente não quente ao toque, mas avermelhado, lívido e irrompiam-se pequenas bolhas inflamadas. Mas no seu interior as bolhas queimavam-se tão intensamente, que as vítimas não suportavam vestirem-se com roupas as mais leves, mas permaneciam nus, conseguindo algum alívio mergulhando-se em água fria. Muitos que não dispunham de nada em casa, lançavam-se em poços e fontes, sob a pressão de sede insaciável, mas não havia diferença se bebiam pouca ou grande quantidade de água. Por todo o curso da doença, as pessoas sofriam de insônia e eram incapazes de repousar, o corpo não de desgastava, porém mantinha-se inesperadamente resistente ao sofrimento. Muitos morriam em torno do sétimo ou nono dia desde o início da queimação interna, enquanto ainda tinham alguma fortaleza. Se escapassem, a doença descia para o abdómen: ocorriam violentas ulcerações e evacuações totalmente fluídas e muitos morriam da fraqueza causada por elas.

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A doença seguia seu curso através do corpo desde cima, começando o sofrimento que primeiro se assentava na cabeça. Se alguém sobrevivia aos piores sintomas, a doença deixava sua marca tomando suas extremidades. Atacava as partes íntimas, os dedos dos pés e muitas pessoas sobreviviam perdendo estas partes, enquanto outros perdiam seus olhos. Já outros, quando se recuperavam, sofriam de total perda de memória, incapazes de reconhecerem-se a si próprios e seus parentes.

A natureza da doença encontrava-se acima de sua descrição e os sofrimentos que impunha sobre suas vítimas eram as maiores que a natureza humana pode suportar. Há um ponto particular na qual ela se mostrou diferente na evolução das doenças comuns: os pássaros e animais, que se alimentavam da carne humana, ou se mantinham longe dos corpos, e havia muitos insepultos, ou se dela se alimentavam, mostrava-se fatal a eles. Para isso confirmar, havia uma evidente redução no número de pássaros daquela espécie, os quais não eram vistos próximos das vítimas ou em lugares outros. O acontecido foi particularmente observado no caso dos cães, pois eles vivem com os seres humanos.

A natureza comum da doença era que as características dos seus efeitos eram diferentes nos diferentes indivíduos. Nenhuma outra doença comum ocorreu naquele tempo; ou, se ocorreu, terminou nela.

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Algumas vítimas foram abandonadas e morreram; outras morreram apesar do grande cuidado. Não havia um único remédio que devesse ser aplicado para oferecer algum alívio, pois o que ajudava um sofredor, prejudicava outro. Nenhuma pessoa cuja constituição física, seja forte ou fraca, demonstrou ser suficiente contra a Peste, pois ela matava a todos, seja qual fosse o regime de cuidados para eles. O aspecto mais aterrorizante de todo sofrimento era o desespero que surgia quando alguém se dava conta de estar a sofrer da doença: a pessoa imediatamente perdia a esperança e o seu desejo era o de deixar-se levar ao fim e não resistir. Além disso, a pessoa doente morria como uma ovelhinha, quando seu cuidador era tomado pela doença, o que foi a maior causa da perda de vidas. Se uma pessoa era tomada pelo temor e não se aproximava de outras, morriam isoladas e sem nenhuma assistência, e muitas casas perderam todos os seus ocupantes devido à falta de alguém que pudesse lhes prestar cuidado. Já as pessoas que se aproximavam de outras também morriam, especialmente aqueles que se diziam virtuosos, que por um sentimento de honra, não se afastavam dos necessitados e visitavam seus irmãos, persistindo mesmo quando, ao final, todos os membros da família foram vencidos pelo desastre e não ofereceram seus cantos fúnebres aos mortos.

As pessoas que se recuperaram da doença tinham a maior compaixão para com os doentes e moribundos, pois tiveram uma experiência prévia com ela e agora se sentiam mais confiantes em si mesmos, pois a doença não atacava a mesma pessoa duas vezes ou, caso contrário, não fatalmente. Os que se recuperavam eram cumprimentados pelos outros e tinham a inútil presunção de que, no futuro, estariam imunes à morte por quaisquer outras doenças.

O tormento era agravado pela migração da região rural para a cidade, especialmente no caso daqueles que tomaram a iniciativa. Não havia casas para eles e passaram a viver em sufocantes cabanas na estação mais quente do ano e a devastação os assolava descontroladamente. Os cadáveres e os moribundos eram empilhados e as pessoas cujo destino era a morte vagavam cambaleantes pelas ruas e em volta das fontes pela obsessão por água. Os santuários onde as pessoas acampavam encontravam-se cheios de corpos, pois as mortes tinham lugar mesmo ali: o desastre era esmagador, e como as pessoas não sabiam o que lhes poderia acontecer, tratavam o sagrado e o secular da mesma maneira. Todos os costumes para os funerais, anteriormente observados, estavam agora em confusão e os mortos eram enterrados da maneira que fosse possível. Muitos que deixaram amigos, porque muitos morreram antes deles, voltaram-se para formas desavergonhadas para a eliminação dos corpos: alguns colocavam seus próprios mortos na fogueira de outros e nela tocavam fogo antes que os que a tinham preparado o fizessem; já outros lançavam os corpos que estavam carregando por cima da fogueira de outros, quando ainda estavam com fogo forte, e fugiam em seguida.

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Em outros aspectos, a Peste marcou o início de uma queda no sentido de um grande crescimento na desobediência às leis na cidade. As pessoas encontravam-se mais desejosas de se atreverem a fazer coisas que antes não admitiam fazer, quando viam a súbita mudança na roda do destino, quando alguém próspero morria repentinamente, suas propriedades eram imediatamente tomadas por pessoas destituídas de riqueza. Assim pensavam que seria razoável concentrarem-se no lucro e prazer imediatos, acreditando que seus corpos e suas posses teriam vida curta. Ninguém queria se esforçar em conseguir algo considerado como honrado, pois não tinha certeza de que poderia ou não perecer antes de conseguir o que desejava. O que era agradável no curto prazo, ou que conduzia a isso, podia ser aceite como honrado e útil. Nenhum temor dos deuses ou das leis dos homens constituíam um poder restritivo, pois julgava-se não fazer diferença se alguém possuía ou não compaixão, pois todos em volta pareciam estar morrendo. Ninguém esperava viver o suficiente para pagar a dívida por suas maldades: as pessoas voltavam-se muito mais para pensar que uma sentença já estava dada sobre eles e que antes de ser executada, podiam eles razoavelmente conseguir alguns prazeres da vida.

A partir de então, os atenienses caíram em grande infortúnio e se sentiam esmagados por ela, por um lado, com pessoas morrendo dentro da cidade e, por outro, com a terra sendo devastada do lado de fora. (II.vii.3-54)

Conclusão

A referência de Tucídides para a “terra sendo devastada do lado de fora” significa não somente o progresso da Peste além dos limites das muralhas da cidade, mas ao caminhar da guerra com Esparta. Esparta, na verdade, retirou-se de seu planeado assalto sobre Atenas devido à Peste, porém continuou com os seus esforços de guerra noutros locais.

Quando a Peste deixou Atenas, entre os muitos cidadãos que ela vitimou, encontramos Péricles, que havia conduzido a cidade durante toda a Primeira Guerra do Peloponeso, enriquecendo-a através de Lida de Delos e a adornou com monumentos como a Acrópole e seu Partenon que ele encomendou em 447 a.C. Ele encorajou o desenvolvimento das artes e ciências gregas na cidade, bem como os trabalhos de notáveis filósofos como Protágoras (480-430 a.C.), Zeno de Elea (cerca de 465 a.C.) e um de seus grandes amigos, Anaxágoras (500- cerca de 428 a.C.), e também as carreiras de médicos como Hipócrates e os textos das tragédias gregas da estatura de Sófocles.

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A perda da liderança de Péricles, junto com muitos cidadãos, desequilibrou Atenas, que veio a perder a Segunda Guerra do Peloponésio para Esparta e tornou-a sujeita aos seus ditames. A Peste foi um fator decisivo, não somente na guerra, mas no desenvolvimento da cidade, influenciando a história de Atenas por muitos anos, mesmo após ter deixado a região.

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Sobre o Tradutor

Jose Monteiro Queiroz-Neto
Monteiro é um pediatra aposentado interessado na história do Império Romano e da Idade Média. Tem como objetivo ampliar o conhecimento dos artigos da WH para o público de língua portuguesa. Atualmente reside em Santos, Brasil.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

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Mark, J. J. (2026, março 10). Tucídides e a Peste de Atenas: Texto e Comentário. (J. M. Queiroz-Neto, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1535/tucidides-e-a-peste-de-atenas-texto-e-comentario/

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Mark, Joshua J.. "Tucídides e a Peste de Atenas: Texto e Comentário." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. World History Encyclopedia, março 10, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1535/tucidides-e-a-peste-de-atenas-texto-e-comentario/.

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Mark, Joshua J.. "Tucídides e a Peste de Atenas: Texto e Comentário." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. World History Encyclopedia, 10 mar 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1535/tucidides-e-a-peste-de-atenas-texto-e-comentario/.

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