Invenções e Inovações da Antiga Pérsia

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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A antiga cultura persa contribuiu para muitos dos aspetos do mundo moderno que as pessoas tomam como garantidos, como se tivessem existido desde sempre. A designação «Pérsia» provém dos gregos — sobriedade conferida essencialmente pelo historiador Heródoto —, mas o povo de Pérsis (Pars, a atual Fars) referia-se a si próprio como iranios, termo derivado de Ariano, que significa «nobre» ou «livre», sem qualquer relação com critérios raciais.

Embora esse facto seja reconhecido, qualquer referência à antiga cultura iraniana — pelo menos no Ocidente — continua a ser denominada «persa», por ser esse o legado deixado pelos historiadores gregos.

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Yakhchal
Yakhchāll reibai (CC BY)

Os persas estabeleceram um império que se estendia desde a atual Turquia até à Índia, subindo pela Síria e descendo pelo Egito, tendo ainda inventado e mantido infraestruturas, políticas, práticas, instituições e aspetos da religião que são amplamente conhecidos — embora raramente atribuídos de forma correta — na atualidade. Entre estes destacam-se:

  • A Primeira Declaração dos Direitos Humanos
  • A Irrigação e a Refrigeração
  • Os Jardins Paisagísticos e a Palavra «Paraíso»
  • As Celebrações de Aniversário, a Animação, a Guitarrada/Alaúde e a Sobremesa
  • O Monoteísmo
  • As Unidades Militares de Elite e os Uniformes
  • Os Moinhos de Vento e a Climatização
  • O Sistema Postal e a Rede Viária
  • O Hospital de Ensino
  • A Cavalaria Pesada Armaturada

Embora estas contribuições possam ser entendidas como triviais ou corriqueiras na atualidade, foram inteiramente inovadoras no seu tempo. Ainda que existissem jardins noutras culturas e o monoteísmo tivesse sido sugerido pelo faraó egípcio Aquenáton (reinou 1353–1336 a.C.) séculos antes, os persas foram os primeiros a desenvolver estes conceitos na sua plenitude.

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A Primeira Declaração dos Direitos Humanos

O Cilindro de Ciro é um artefacto de argila em forma de barril, inscrito com escrita cuneiforme, promulgado por Ciro II (o Grande, reinou cerca de 550–530 a.C.) por volta de 539 a.C. Trata-se de um documento oficial que relata a conquista por Ciro, o Grande, das várias regiões que constituíam o Império Aqueménida (cerca de 550–330 a.C.) e a forma como estas acolheram o seu domínio. O soberano descreve em seguida como dignificou a vida das populações através dos direitos e liberdades que lhes concedeu. Este documento foi durante muito tempo (e continua a ser) interpretado como propaganda real destinada a consagrar a grandeza de um monarca; contudo, desde 1971, tem sido cada vez mais reconhecido como a primeira declaração dos direitos humanos no mundo. O Império Aqueménida concedia aos seus cidadãos liberdade de pensamento e de prática religiosa, bem como muitas outras liberdades negadas noutras culturas, incluindo direitos quase equitativos para as mulheres.

The Cyrus Cylinder
O Cilindo de Ciro Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

A Irrigação e a Refrigeração

Os conceitos de irrigação e de refrigeração também são frequentemente atribuídos a Ciro, o Grande; contudo, foram na verdade inventados por inovadores persas anteriores, encontrando-se documentados já durante o reinado do rei assírio Sargão II (reinou 722–705 a.C.). O sistema de qanat — através do qual se escava no solo um canal inclinado com poços verticais a intervalos regulares para extrair água de aquíferos subterrâneos — servia para irrigar terras que, de outro modo, seriam áridas, transformando-as em paisagens exuberantes. O sistema de qanat irrigava campos agrícolas e permitia o cultivo de jardins elaborados. O yakhchāl era uma unidade de refrigeração cúpular feita de argila, utilizada para armazenar gelo mas que, com o tempo, passou também a ser aproveitada para manter os alimentos frescos.

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Os Jardins Paisagísticos e a Palavra «Paraíso»

O qanat possibilitou o cultivo de jardins paisagísticos, que se tornaram um elemento constante do design arquitetónico persa. Diz-se que Ciro, o Grande, passava o maior tempo possível nos seus jardins antes de se dedicar aos assuntos de governação do seu império. Estes jardins constituíam oásis luxuriantes no quotidiano, onde era possível relaxar e estar a sós com os próprios pensamentos ou desfrutar da companhia de terceiros; eram conhecidos como pairi-daeza, termo que deu origem à palavra «paraíso» [o termo foi usado pelo grego (παράδεισος/parádeisos) e pelo latim (paradīsus) originando as restantes designações europeias].

As Celebrações de Aniversário, a Animação, a Guitarrada/Alaúde e a Sobremesa

Os persas foram os primeiros a desenvolver a prática de festejos faustosos por ocasião de um aniversário.

Os persas foram também os primeiros a desenvolver a prática de festejos faustosos do aniversário individual, bem como a arte da animação para entretenimento e o costume de servir uma sobremesa após a refeição. As celebrações de aniversário originaram-se (tal como sucedeu noutras culturas) num festival em honra do nascimento do monarca, mas alastraram-se gradualmente aos membros da nobreza e, posteriormente, às classes populares. Na antiga Pérsia, os aniversários eram comemorados com iguarias especiais ao gosto do homenageado e um bolo de sobremesa com velas. O entretenimento podia incluir animação — como comprovam artefactos como uma taça que, quando rodada rapidamente, mostrava uma cabra a saltar no ar para apanhar folhas de uma árvore — e música com vocalizações acompanhadas por instrumentos de cordas, tais como o chartar (também conhecido como tar) e o setar, antecessores da guitarra moderna. A prática de servir uma sobremesa após a refeição não se reservava apenas aos aniversários, mas encerrava a refeição noturna de todos os dias.

O Monoteísmo

O monoteísmo foi introduzido pela primeira vez no Egito sob o reinado de Aquenáton, e alguns eruditos e autores (entre os quais Sigmund Freud) defenderam a tese de que Moisés teria sido influenciado pela religião de Aquenáton ou que poderia mesmo ter sido um dos seus sacerdotes. Seja como for, a religião monoteísta persa do Zoroastrismo foi fundada por volta de 1500–1000 a.C. pelo profeta Zoroastro e encontrava-se plenamente desenvolvida na altura em que o Judaísmo primitivo começou a estruturar-se (século VI a.C. – 70 d.C.). O Zoroastrismo defendia a existência de um único ser supremo, Ahura Mazda, e que o propósito da vida humana residia em seguir a vontade deste Deus benévolo através dos princípios de Bons Pensamentos, Boas Palavras e Boas Ações. O Zoroastrismo foi também a primeira fé a desenvolver integralmente os conceitos de céu, inferno e purgatório.

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As Unidades Militares de Elite e os Uniformes

O rei Ciaxares (reinou 625–585 a.C.) da Média foi o primeiro na região a dividir as suas forças militares em regimentos e unidades (infantaria, arqueiros, cavalaria), mas Ciro, o Grande, que conquistou a Média, reformou o modelo anterior, organizando o exército com base no sistema decimal, no qual cada unidade era composta por dez unidades menores: 10 homens = uma companhia; 10 companhias = um batalhão; 10 batalhões = uma divisão; 10 divisões = um corpo de exército. As diferentes unidades eram identificadas por uniformes de cores distintas (púrpura, amarelo, azul). Desenvolveram também o conceito de unidade militar de elite: os famosos 10 000 Imortais Persas do Império Aqueménida e os Cavaleiros Savaran sob o Império Sassânida (224–651 d.C.).

Ranks of Immortals
Fileira dos Imortais dynamosquito (CC BY-SA)

Os Moinhos de Vento e a Climatização

Os persas inventaram o moinho de vento por volta de 500 d.C., embora se deva notar que esta é a primeira menção registada e que os dispositivos estariam provavelmente em uso antes dessa data. Os moinhos de vento eram utilizados para bombear água e moer grão. Criavam-se através de canas entretecidas que formavam pás, fixadas em seguida a um eixo central. O conceito foi quase certamente sugerido pelo uso da vela nas embarcações, mas os persas já faziam aproveitamento do vento em terra firme através do sistema de ventilação conhecido como captador de vento (torre de vento), uma estrutura acoplada ao topo de um edifício que puxava o ar fresco para baixo, expelindo o ar mais quente para cima e para fora. Os académicos continuam a debater se foram os persas ou os egípcios os primeiros a desenvolver o captador de vento, mas as evidências parecem favorecer os persas, sendo anteriores ao Período Aqueménida.

O Sistema Postal e a Rede Viária

O lema não oficial do Serviço Postal dos Estados Unidos provém da descrição feita por Heródoto do sistema de mensageiros persa.

O sistema postal e o conceito de rede viária foram igualmente desenvolvidos pelos persas. Dário I (o Grande, r. 522–486 a.C.) instituiu a rede persa de estradas para assegurar a rapidez das deslocações e o contacto entre as suas capitais (Babilónia, Ecbátana, Persépolis e Susa). As grandes vias eram depois utilizadas para o envio de mensagens entre estas e outras cidades, criando assim o sistema postal. O lema não oficial do Serviço Postal dos Estados Unidos — «Nem a neve, nem a chuva, nem o calor, nem a escuridão da noite impedem estes mensageiros de concluir rapidamente os seus percursos designados» —, inscrito no Edifício dos Correios da Cidade de Nova Iorque em 1914 (atualmente conhecido como Edifício James A. Farley), deriva da descrição de Heródoto sobre o sistema de correio persa: «Quaisquer que sejam as condições — quer esteja a nevar, a chover, um calor abrasador ou de noite —, eles nunca falham em completar a jornada atribuída no tempo mais rápido possível» (Histórias, VIII.98). Esta rede viária e este serviço postal continuariam a ser utilizados pelo Império Selêucida (312–63 a.C.), pelo Império Párton (247 a.C. – 224 d.C.), pelos Sassânidas e pelos árabes muçulmanos.

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O Hospital de Ensino

Sob o reinado de Sapor I (240–270 d.C.), foi fundada a Academia de Gundeshapur, tornando-se rapidamente no principal centro intelectual e cultural da região. Pensa-se atualmente que a sua fundação terá sido inspirada pela principal esposa de Sapor I, Azadokht Shahbanu, que trouxe pela primeira vez médicos gregos para a Corte Imperial em Ctesifonte, com o intuito de estabelecer um hospital. Sob o monarca posterior, Cosroes I (reinou 531–579), Gundeshapur floresceu como o primeiro hospital de ensino do mundo, onde jovens médicos em formação trabalhavam sob a supervisão de clínicos mais experientes.

A Cavalaria Pesada Armaturada

Os Pártios foram os primeiros a desenvolver o conceito de cavalaria pesada armaturada em resposta às armas e armaduras dos seus adversários gregos e romanos. O catafracto párton usava um capacete de aço e uma túnica de cota de malha que o cobria do pescoço até abaixo dos joelhos e ao longo dos braços, estando os seus cavalos igualmente protegidos. Os catafractos transportavam arcos compostos, espadas, adagas e lanças. Este conceito foi desenvolvido ainda mais pelos Sassânidas para criar a sua força de elite de cavalaria blindada, os Cavaleiros Savaran, que figuram entre as maiores forças de combate do mundo antigo.

Parthian Cataphract
Catafracto Parto The Trustees of the British Museum (Copyright)

Conclusão

Os persas são responsáveis por muitas mais invenções, inovações e costumes do que apenas estes, naturalmente — incluindo o tapete persa, o banquete e a popularização do chá como bebida diária. Ciro, o Grande, foi o primeiro a reformar o sistema fiscal de modo a que os impostos fossem pagos ao tesouro do império, e não ao monarca, sendo depois utilizados no financiamento de obras públicas. Dário I mandou escavar o antecessor do Canal de Suez, e o seu sucessor, Xerxes I (reinou 486–465 a.C.), criou a mais longa «ponte de barcas» através do Helesponto para a sua invasão da Grécia em 480 a.C.

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Heródoto assinala que «os persas adotam mais costumes estrangeiros do que qualquer outro povo» (I.135), o que é exemplificado pelo talento persa para acolher novas ideias e conceitos e torná-los seus. Embora já existissem hospitais no Antigo Egito durante a era do Império Antigo (cerca de 2613–2181 a.C.), os Sassânidas — cujo império é famoso pela inovação com base em modelos do passado — levaram esse conceito mais longe sob a forma do hospital de ensino, que funcionava igualmente como biblioteca e centro de aprendizagem. O polímata persa Avicena (c. 980–1037 d.C.) elevou o conhecimento médico anterior a um patamar muito mais alto, o poeta Ferdowsi (cerca de 940–1020) expandiu o conceito de epopeia literária, e o matemático Al-Khwarizmi (cerca de 780 – cerca de 850) partiu de princípios matemáticos anteriores para inventar a álgebra.

Muitos dos conceitos, costumes e invenções mais reconhecíveis da atualidade — quando a sua origem chega a ser ponderada — são incorretamente atribuídos aos gregos que sobre eles escreveram, ou aos árabes muçulmanos que, mais tarde, fizeram o mesmo. Contudo, na verdade, tudo o que foi referido acima — e muito mais — resultou da capacidade de imaginação dos persas; da sua faculdade de observar o que existia e conceber de que modo tal poderia ser melhorado.

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Mark, J. J. (2026, outubro 24). Invenções e Inovações da Antiga Pérsia. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1505/invencoes-e-inovacoes-da-antiga-persia/

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Mark, Joshua J.. "Invenções e Inovações da Antiga Pérsia." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, outubro 24, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1505/invencoes-e-inovacoes-da-antiga-persia/.

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Mark, Joshua J.. "Invenções e Inovações da Antiga Pérsia." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 24 out 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1505/invencoes-e-inovacoes-da-antiga-persia/.

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