Embora o historiador grego Heródoto (por volta de 484-425/413 a.C.) seja frequentemente criticado por imprecisões na sua obra Histórias (tít. original em grego antigo Ἱστορίαι: Históriaí), o texto, nele inserido, frequentemente antologiado, Sobre os Costumes dos Persas, é considerado preciso. A passagem é tanto mais interessante quanto ele contrasta o comportamento e os valores dos persas com os dos gregos, apresentando os persas sob uma luz muito mais favorável.
A sua descrição dos persas aqui torna-se ainda mais cativante quando se considera como ele apresenta os monarcas persas Cambises II (reinou de 530 a 522 a.C.) e Xerxes I (reinou de 486 a 465 a.C.) como tiranos frequentemente irracionais, e Dario I (o Grande, reinou de 522 a 486 a.C.) como alguém sob o controlo da sua esposa noutras partes da sua obra. Heródoto terá provavelmente escrito as Histórias quando o rei persa Artaxerxes I (reinou de 465 a 424 a.C.) estava no poder, uma vez que se estima que a obra tenha sido publicada cerca de 430-415 a.C.
Este é outro aspeto interessante das passagens sobre os persas, uma vez que a memória da invasão da Grécia por Xerxes I, em 480 a.C., ainda estaria fresca e Artaxerxes I, rejeitando o confronto direto, estava empenhado em meios mais subtis para derrubar as cidades-estado gregas. Mesmo que se assuma que Heródoto nada sabia sobre os vários estratagemas de Artaxerxes I, não seria segredo que o Império Aqueménida Persa não era, naquela época, um aliado dos gregos. Ainda assim, Heródoto apresenta consistentemente os persas sob uma luz positiva, embora, noutras partes, permita claramente que os seus sentimentos pessoais influenciem a descrição de um indivíduo ou evento.
A Precisão da Passagem
No primeiro capítulo (1.131), Heródoto afirma que os persas "não têm imagens dos deuses, nem templos nem altares", e isto tem sido contestado com base no facto de a religião zoroastrista dos persas incluir, de facto, templos e altares; contudo, deve notar-se que estes não eram, de modo algum, como os templos e altares dos gregos. O resto da sua descrição é inteiramente preciso, uma vez que os templos de fogo zoroastristas estavam localizados em "cumes das montanhas mais elevadas" e noutros lugares altos.
Também é preciso na sua descrição dos aniversários como eventos anuais importantes, uma vez que se sabe que os persas criaram a prática de celebrar aniversários e também a de instituir o serviço de sobremesas após as refeições (I.133). Embora a afirmação tenha sido contestada, ele também está correto na sua passagem, no mesmo capítulo, sobre o amor dos persas pelo vinho e a sua política de tomar decisões enquanto embriagados e, posteriormente, reavaliá-las quando sóbrios.
A descrição elogiosa dos persas — que, como ele nota, consideram "a coisa mais vergonhosa do mundo" dizer uma mentira (I.138) — é contrastada com os gregos sem que Heródoto precise sequer de mencionar os seus compatriotas. A única vez que ele faz referência específica aos gregos é em I.135, quando diz como os persas "aprenderam a luxúria não natural com os gregos". Não haveria necessidade de ele contrastar diretamente o amor persa pela verdade com a tendência grega para prevaricar, pois o seu público estaria bem ciente disso; este mesmo modelo aplica-se ao resto da sua descrição dos costumes persas.
O Texto
George Rawlinson traduziu a obra Histórias para inglês; segue-se a tradução para português de um excerto da mesma:
I.131. Os costumes que sei que os persas observam são os seguintes: não possuem imagens dos deuses, nem templos, nem altares, e consideram o uso deles um sinal de insensatez. Isto advém, penso eu, do facto de não acreditarem que os deuses possuam a mesma natureza que os homens, como os gregos imaginam. O seu hábito, contudo, é ascender aos cumes das montanhas mais elevadas e ali oferecer sacrifícios a Zeus, que é o nome que dão a todo o circuito do firmamento. Prestam culto igualmente ao sol e à lua, à terra, ao fogo, à água e aos ventos. Estes são os únicos deuses cujo culto lhes foi transmitido desde tempos antigos. Num período posterior, iniciaram o culto de Urânia, que tomaram emprestado dos árabes e dos assírios. Mylitta é o nome pelo qual os assírios conhecem esta deusa, a quem os árabes chamam Alitta e os persas, Mitra.
I.132. A estes deuses, os persas oferecem sacrifícios da seguinte forma: não erguem altares, não acendem fogo, não vertem libações; não há som de flauta, não se colocam grinaldas, não há bolos de cevada consagrados; mas o homem que deseja sacrificar leva a sua vítima a um pedaço de terra livre de poluição e, ali, invoca o nome do deus a quem pretende oferecer o sacrifício. É habitual usar o turbante cingido com uma grinalda, muito comumente de murta. Ao que sacrifica não é permitido rezar por bênçãos apenas para si, mas reza pelo bem-estar do rei e de todo o povo persa, entre os quais, por necessidade, está incluído. Ele corta a vítima em pedaços e, tendo cozido a carne, dispõe-na sobre a erva mais tenra que encontrar, especialmente trevo. Quando tudo está pronto, um dos Magos aproxima-se e entoa um hino que, dizem, narra a origem dos deuses. Não é legítimo oferecer sacrifício sem a presença de um Mago. Após aguardar um curto período, quem sacrifica leva consigo a carne da vítima e faz dela o uso que lhe aprouver.
I.133. De todos os dias do ano, aquele que celebram mais é o dia do seu nascimento. É costume a mesa ser servida nesse dia com uma provisão mais abundante do que o habitual. Os persas mais ricos fazem com que um boi, um cavalo, um camelo e um asno sejam assados inteiros e servidos; as classes mais pobres utilizam, em vez disso, os tipos de gado mais pequenos. Comem pouco alimento sólido, mas uma abundância de sobremesas, que são postas na mesa poucos pratos de cada vez; é isto que os faz dizer que "os gregos, quando comem, levam-no a cabo com fome, não tendo nada que mereça menção servido após as carnes; ao passo que, se lhes fosse colocado mais diante, não parariam de comer". São muito afeiçoados ao vinho e bebem-no em grandes quantidades. Vomitar ou satisfazer necessidades naturais na presença de outro é proibido entre eles. Tais são os seus costumes nestas matérias.
É também prática comum deliberar sobre assuntos de peso quando estão embriagados; e depois, no dia seguinte, quando estão sóbrios, a decisão a que chegaram na noite anterior é-lhes apresentada pelo mestre da casa onde a mesma foi tomada; se for então aprovada, agem de acordo com ela; caso contrário, deixam-na de parte. Por vezes, contudo, estão sóbrios na sua primeira deliberação, mas, neste caso, reconsideram sempre o assunto sob a influência do vinho.
I.134. Quando se cruzam nas ruas, pode saber-se se as pessoas que se encontram são de igual estatuto pelo seguinte sinal: se forem, em vez de falar, beijam-se nos lábios. No caso em que um é um pouco inferior ao outro, o beijo é dado na face; quando a diferença de estatuto é grande, o inferior prostra-se no chão. De entre as nações, honram mais os seus vizinhos mais próximos, a quem estimam logo a seguir a si mesmos; aqueles que vivem para além destes, honram-nos em segundo grau; e assim sucessivamente com o restante, quanto mais afastados estão, menos estima têm por eles. A razão é que se consideram muito superiores em todos os aspetos ao resto da humanidade, vendo os outros como aproximando-se da excelência na proporção em que vivem mais perto deles; donde advém que aqueles que estão mais longe devem ser os mais degradados da humanidade. Sob o domínio dos Medos, as várias nações do império exerciam autoridade umas sobre as outras nesta ordem. Os Medos eram senhores de todos e governavam as nações nas suas fronteiras, que, por sua vez, governavam os Estados para além destas, que igualmente exerciam o seu domínio sobre as nações que lhes eram adjacentes. E esta é a ordem que os persas também seguem na sua distribuição de honra; pois esse povo, tal como os Medos, possui uma escala progressiva de administração e governo.
I.135. Não há nação que adote tão prontamente costumes estrangeiros como os persas. Assim, adotaram o traje dos Medos, considerando-o superior ao seu; e na guerra usam a couraça egípcia. Assim que ouvem falar de qualquer luxo, tornam-no instantaneamente seu: e, portanto, entre outras novidades, aprenderam a luxúria não natural com os gregos. Cada um deles tem várias esposas e um número ainda maior de concubinas.
I.136. A seguir à proeza nas armas, é considerado como a maior prova de excelência varonil ser pai de muitos filhos. Todos os anos, o rei envia presentes valiosos ao homem que puder mostrar o maior número: pois sustentam que o número é força. Os seus filhos são cuidadosamente instruídos, do seu quinto ao seu vigésimo ano, em apenas três coisas — montar a cavalo, disparar o arco e dizer a verdade. Até ao quinto ano, não lhes é permitido aparecer perante o pai, passando as suas vidas com as mulheres. Isto é feito para que, se a criança morrer nova, o pai não seja afligido pela sua perda.
I.137. Na minha opinião, é uma regra sábia, assim como a seguinte — que o rei não deve condenar ninguém à morte por uma única falta, e que nenhum dos persas deve punir uma única falta num escravo com qualquer penalidade extrema; mas em todos os casos os serviços do infrator deverão ser pesados contra as suas más ações; e, se estas últimas se revelarem superiores aos primeiros, a parte lesada procederá então à punição. Os persas sustentam que nunca alguém matou o seu próprio pai ou mãe; mas em todos esses casos têm a certeza de que, se os assuntos fossem investigados até ao fundo, verificar-se-ia que a criança era ou um filho trocado ou o fruto de adultério; pois não é provável, dizem eles, que o verdadeiro pai pereça pelas mãos do seu filho.
I.138. Consideram ilícito falar de qualquer coisa que seja ilícito fazer. A coisa mais vergonhosa do mundo, pensam eles, é dizer uma mentira; a segunda pior, contrair uma dívida: porque, entre outras razões, o devedor é obrigado a dizer mentiras. Se um persa tiver lepra, não lhe é permitido entrar numa cidade, nem ter quaisquer relações com os outros persas; deve, dizem eles, ter pecado contra o sol. Estrangeiros atacados por esta doença são forçados a abandonar o país: até pombos brancos são frequentemente expulsos, como culpados da mesma ofensa. Nunca contaminam um rio com as secreções dos seus corpos, nem sequer lavam as mãos num; nem permitirão que outros o façam, pois têm uma grande reverência pelos rios.
I.139. Existe outra peculiaridade, que os próprios persas nunca notaram, mas que não escapou à minha observação. Os seus nomes, que são expressivos de alguma excelência corporal ou mental, terminam todos com a mesma letra — a letra que é chamada San pelos Dórios e Sigma pelos Jónios. Qualquer pessoa que examine descobrirá que os nomes persas, um por um, sem exceção, terminam com esta letra.
I.140. Tanto posso eu declarar sobre os persas com total certeza, a partir do meu próprio conhecimento. Existe outro costume de que se fala com reserva, e não abertamente, concernente aos seus mortos. Diz-se que o corpo de um persa do sexo masculino nunca é enterrado até que tenha sido dilacerado ou por um cão ou por uma ave de rapina. Que os Magos têm este costume está fora de dúvida, pois praticam-no sem qualquer ocultação. Os corpos mortos são cobertos com cera e depois enterrados na terra. Os Magos são uma raça muito peculiar, diferente inteiramente dos sacerdotes egípcios e, de facto, de todos os outros homens. Os sacerdotes egípcios fazem questão, por religião, de não matar quaisquer animais vivos, exceto aqueles que oferecem em sacrifício. Os Magos, pelo contrário, matam animais de todo o tipo com as suas próprias mãos, excetuando cães e homens. Parecem até deleitar-se com a ocupação, e matam, tão prontamente como fazem com outros animais, formigas e cobras, e tais criaturas voadoras ou rastejantes. Contudo, uma vez que este tem sido sempre o seu costume, que o mantenham.
Conclusão
O tratamento aparentemente imparcial e objetivo que Heródoto dedica aos persas é enganador, na medida em que parece estar a recordar silenciosamente ao seu público grego as suas próprias insuficiências — e talvez a recordar-se a si mesmo das mesmas — ao acreditarem ser superiores a outras culturas. O académico Robin Waterfield observa como Heródoto utiliza frequentemente a antítese para expressar um ponto de vista sem ter de o afirmar diretamente:
[Heródoto tinha] um interesse pelo equilíbrio e pela ordem, pela comparação e pelo contraste, e um sentido profundo de limites naturais que permeia as Histórias. A antítese, a noção de duas ideias contrastantes, está profundamente enraizada na língua grega, e Heródoto utiliza repetidamente a comparação e o contraste para descrever povos, lugares, flora e fauna estrangeiros aos seus públicos gregos.
(xxxvii)
Heródoto faz isto em diversos pontos ao longo das Histórias, mas, como notado, a sua passagem Sobre os Costumes dos Persas é especialmente interessante dada a relação que estes tinham com a Grécia na época em que ele escrevia. As críticas à obra de Heródoto concentram-se nos seus exageros ou imprecisões, mas existem muitas passagens que não só são fiáveis, como revelam uma sensibilidade e compreensão no autor que não são tão evidentes em todos os historiadores antigos.
