Entrevista: Sri Lanka, a Ilha das Joias

James Blake Wiener
por , traduzido por Filipa Oliveira
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A primeira exposição abrangente sobre a arte do Sri Lanka organizada por um museu americano, intitulada «The Jeweled Isle: Art from Sri Lanka»(A Ilha Joia: Arte do Sri Lanka), (esteve) em exibição no LACMA, em Los Angeles, Califórnia, com cerca de 250 obras que abrangem quase dois milénios de história e arte do Sri Lanka. Apresentando a coleção de arte do Sri Lanka do LACMA — raramente exibida e uma das mais requintadas e extensas dos EUA — a exposição oferece uma exploração e celebração oportunas de uma nação do Sul da Ásia geograficamente complexa e etnicamente diversa. Nesta entrevista exclusiva, James Blake Wiener, Diretor de Comunicação da Ancient History Encyclopedia, conversa com os curadores Dr. Robert L. Brown e Dr. Tushara Bindu Gude sobre esta exposição inovadora e o papel fundamental do Sri Lanka na história da arte do Sul da Ásia.

Tile with Stilt-Walkers, Sri Lanka
Azulejo com Andarilhos, Sri Lanka Museum Associates/LACMA (Public Domain)

JBW: A arte do Sri Lanka não é, de todo, tão conhecida no Ocidente como a arte das vizinhas Índia, Nepal e Tibete. Porque acredita que isto acontece, dada a rica herança cultural do Sri Lanka e a sua localização estratégica no Oceano Índico? Além disso, porque é que o LACMA decidiu organizar uma exposição focada exclusivamente nas artes do Sri Lanka?

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RB e TBG: Uma das razões pelas quais o LACMA decidiu realizar uma exposição sobre a arte do Sri Lanka, em primeiro lugar, foi precisamente devido a esta enorme lacuna de conhecimento. Tem razão ao afirmar que a arte do Sri Lanka não é tão conhecida como a arte da Índia e dos Himalaias. Isso deve-se, em parte, ao facto de o budismo Theravada, associado ao Sri Lanka, ser considerado muito mais tradicional do que o budismo Mahayana, que surgiu na Índia nos primeiros séculos da nossa era. A sua arte também apresentou um percurso de desenvolvimento diferente.

Outra razão pela qual o LACMA organizou esta exposição é o facto de possuirmos uma excelente coleção de arte do Sri Lanka, cerca de 90% da qual nunca foi exibida.

Foi a tradição Mahayana que se tornou dominante na Índia e que constitui a base do Budismo que encontramos no Nepal, Tibete, China, Coreia, Vietname e Japão. Contudo, as tradições Theravada do Sri Lanka foram tremendamente importantes para o Sudeste Asiático. A Birmânia, o Camboja, a Tailândia e o Laos são todos países budistas Theravada com várias ligações históricas ao Sri Lanka. No entanto, as suas tradições visuais, ao longo do tempo, seguiram uma trajetória diferente, tendo mais em comum entre si do que com o Sri Lanka. Assim, o Sri Lanka ocupou sempre um lugar nas periferias tanto do Sul como do Sudeste da Ásia, tanto na literatura de história da arte como nos museus. O objetivo desta exposição é trazer finalmente a ilha, estrategicamente situada ao longo das rotas marítimas que se estendem para leste e para oeste, para o primeiro plano e para o centro das atenções.

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Outra razão pela qual o LACMA avançou com esta exposição deve-se ao facto de possuirmos uma excelente coleção de arte do Sri Lanka, da qual cerca de 90% nunca foi exibida. Assim que começámos a examiná-la mais detalhadamente, percebemos que a sua qualidade, diversidade e abrangência nos permitiriam organizar uma exposição mais abrangente do que as anteriores mostras sobre o Sri Lanka nos EUA. Estas tenderam a focar-se, sobretudo, nas tradições de escultura budista da ilha. A exposição do LACMA inclui uma série de obras de arte que testemunham a interação de uma vasta gama de tradições religiosas e culturais. A guerra civil no Sri Lanka, que durou quase 30 anos, foi travada em grande parte por motivos étnicos e sectários, mas a arte demonstra como o povo e as religiões da ilha estiveram historicamente muito ligados.

Standing Gilded Copper Buddha
Buda de Pé em Cobre Dourado The Metropolitan Museum of Art, New York (Public Domain)

JBW: As raras imagens de deuses hindus apresentadas em The Jeweled Isle atestam uma longa e constante interação entre o Sri Lanka e o sul da Índia. De que forma a exposição traça e enquadra as multifacetadas ligações do Sri Lanka ao subcontinente indiano?

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RB e TBG:

As ligações do Sri Lanka à Índia constituem um tema de extrema importância ao longo de toda a exposição e são atestadas por obras de arte presentes em todas as secções da mostra. Devemos recordar que apenas 32 km separam a Índia do Sri Lanka nos seus pontos geográficos mais próximos. Houve um fluxo constante de ideias e de pessoas de e para ambos os locais. O Budismo e o Hinduísmo nasceram na Índia. Vijaya, o lendário fundador do povo cingalês e progenitor dos primeiros reis da ilha, era um príncipe indiano. Ao mesmo tempo, a ilha ocupa um lugar de enorme relevo no imaginário indiano devido à sua associação com a ilha-fortaleza do rei-demónio Ravana, imortalizada no épico Ramayana. Neste épico hindu, o deus vitorioso Rama coroa Vibhishana, irmão de Ravana, como rei de Lanca. Vibhishana continua a ser reverenciado pelos cingaleses como um dos grandes deuses guardiões da ilha.

Quisemos reconhecer este aspeto da história cultural do Sri Lanka, mas também demonstrar que a cultura indiana não foi integralmente transplantada para a ilha. Desde os primeiros séculos da Era Comum, a arte do Sri Lanka desenvolveu um caráter único e reconhecível, à medida que as tradições indianas — budistas e hindus — interagiam com as tradições indígenas. Tentámos estabelecer esta abordagem logo no início da exposição. A primeira galeria, por exemplo, inclui um conjunto de 16 painéis de madeira pintada — provavelmente batentes de portas ou janelas — que datam do século XVIII d.C. e que retratam deuses bramânicos, além dos navagraha, ou as nove divindades astrológicas.

The Jeweled Isle: Art from Sri Lanka Exhibition, LACMA [3]
The Jeweled Isle: Art from Sri Lanka Exhibition, LACMA [3] Museum Associates/LACMA (Copyright)

Os deuses bramânicos incluem divindades védicas como Indra, mas também deuses hindus como Xiva, Vixnu e Ganexa. O aspeto mais notável é que estes painéis provêm provavelmente de um santuário budista, a julgar por painéis semelhantes que ainda se encontram in situ. Trata-se de um processo muito complexo, mas o Budismo integrou essencialmente o poder e a proteção destes deuses nas suas próprias cosmologias, histórias e rituais. Num contexto budista, os deuses bramânicos não possuem a mesma importância cósmica que têm para os hindus. Pelo contrário, são intercessores no mundo dos homens e estão subordinados ao Buda, que transcendeu inclusivamente os céus. Além disso, vários deles são considerados protetores dos ensinamentos budistas.

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A exposição inclui também objetos de natureza hindu mais evidente, como uma rara imagem em bronze do século XII de Xiva Nataraja (Xiva como Senhor da Dança), proveniente de Polonnaruwa. Imagens como esta, num estilo associado à dinastia Chola do sul da Índia (séc. IV a.C.–1279 d.C.), começaram a ser produzidas após a invasão do Sri Lanka pelos Cholas no final do século X. Os Cholas governaram durante menos de um século, mas os reis budistas posteriores continuaram a patrocinar templos hindus. Outros objetos na exposição analisam a relação entre a Índia e o Sri Lanka sob diferentes ângulos — revelando, por exemplo, um reportório partilhado de elementos arquitetónicos ou explorando o comércio têxtil entre as duas regiões. Um ponto marcante a ter em conta é que muitos reis e famílias nobres do Sri Lanka mantiveram relações estreitas com os seus homólogos no sul da Índia. De facto, os últimos quatro reis do Sri Lanka descendiam de uma dinastia hindu da Índia e contam-se entre os patronos mais ativos da arte budista na história da ilha.

Ivory Panel Showing Buddha Shakyamuni
Painel de Marfim com a Representação do Buda Shakyamuni Museum Associates/LACMA (Public Domain)

JBW: A história e a cultura do Sri Lanka estão indissociavelmente ligadas à ascensão e ao desenvolvimento do budismo no Sudeste Asiático. Quase 70% dos cingaleses continuam a seguir o budismo Theravada, que surgiu pela primeira vez como uma escola distinta do budismo primitivo no antigo Sri Lanka. Como transmitiram a importância dos locais sagrados budistas e das relíquias do Sri Lanka na exposição?

RB e TBG:

Sim, o Sri Lanka é um país predominantemente Theravada e isto, como é óbvio, reflete-se em grande parte da arte budista que ali foi produzida. Assumimos uma posição deliberada nesta exposição e não tentámos traçar desenvolvimentos estilísticos ou iconográficos. Também não procurámos associar explicitamente os desenvolvimentos doutrinários aos visuais. No entanto, a própria natureza da imagem do Buda no Sri Lanka, e a ausência de figuras como os Budas cósmicos e os bodhisattvas, tornam a distinção visual e doutrinária do Theravada bastante clara ao longo de toda a exposição.

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O Budismo Theravada do Sri Lanka foca-se especialmente no Buda do nosso período histórico, Shakyamuni, e enfatiza a sua vida e os seus nascimentos anteriores. A imagem dominante em todos os templos budistas do Sri Lanka é o Buda, geralmente representado sentado em meditação, de pé num gesto de exposição ou de proteção, ou reclinado no momento da sua morte. Embora as escolas Theravada e Mahayana estivessem ambas presentes e ativas na antiga cidade de Anuradhapura, o Theravada tinha já eclipsado os seus rivais por volta do século XII. O Budismo Theravada não admite quaisquer bodhisattvas, à exceção de Shakyamuni, que foi um bodhisattva antes da sua iluminação, e de Maitreya, o Buda do futuro.

[imagem:9765]

Apenas estão presentes na mostra duas imagens de bodhisattvas ambas bastante raras: uma escultura do século IX, identificável como Avalokiteshvara, e uma figura do século XI que representa claramente um bodhisattva, mas de um tipo mais genérico. De uma forma geral, a predominância da escola Theravada é o que justifica o limitado reportório escultórico que encontramos no Budismo do Sri Lanka. No entanto, as diversas imagens do Buda ao longo da exposição demonstram a grande perícia e inventividade dos artistas cingaleses.

Outro tipo de objeto escultórico budista em destaque na exposição é o relicário fabricado em forma de stupa ou de montículo funerário. As relíquias budistas são um dos prismas através dos quais a exposição examina os locais sagrados do Sri Lanka e a relação entre a monarquia e a custódia do Budismo. Três grandes capitais históricas do Sri Lanka são abordadas em secções distintas da exposição: Anuradhapura, Polonnaruwa e Kandy. O estabelecimento do Budismo no Sri Lanka está associado às viagens lendárias do Buda à ilha e à chegada posterior das suas relíquias, várias das quais foram acolhidas em centros monásticos em Anuradhapura.

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Dois pares de capas de manuscritos na exposição retratam os solosmasthana, dezasseis locais de peregrinação associados ou às visitas do Buda ou ao estabelecimento de relíquias. Uma das relíquias do Buda, um dente, foi trazida da Índia para Anuradhapura no século IV e tornou-se um "paládio do poder". Foi escondida durante períodos de crise, como o saque de Anuradhapura pelos Cholas no final do século X e durante os séculos de governação fragmentada que se seguiram ao colapso da cidade de Polonnaruwa. A relíquia do dente encontra-se agora em Kandy, onde foi instalada durante o século XVI. A sua procissão anual era pretexto para uma grande expressão artística, que a secção de Kandy da exposição analisa detalhadamente.

Painted Ivory Comb, Sri Lanka
Pente de Marfim Pintado, Sri Lanka Museum Associates/LACMA (Public Domain)

JBW: A imagem de uma ilha adornada com joias, evocada em antigos textos sânscritos e em relatos greco-romanos sobre as pedras preciosas do Sri Lanka, inspirou inúmeras descrições literárias da riqueza e da exuberante beleza tropical da ilha. De que forma a noção de «joias» se manifesta ao longo da exposição, tanto figurativa como literalmente?

As joias eram uma metáfora comum para descrever a ilha — as suas copas esmeraldas e as suas águas e céus de safira, por exemplo. ​

RB e TBG: Textos literários e relatos históricos — indianos, gregos e romanos, árabes, persas, chineses e europeus — atestam a fama do Sri Lanka como uma ilha produtora de pedras preciosas. Nas fontes indianas e cingalesas, o Sri Lanka é frequentemente apelidado de "Ratnadvipa", ou "ilha das joias". De certa forma, consideramos que todas as obras de arte na exposição são espécies de joias, mas incluímos de facto algumas gemas mineralógicas impressionantes — incluindo safiras de várias tonalidades, pelas quais o Sri Lanka é ainda hoje famoso — na primeira galeria da exposição. Fizemos isto para sugerir o fascínio lendário do Sri Lanka, mas também para colocar em primeiro plano a noção de joias, tão proeminente no título da exposição, como princípio organizador da mesma.

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As gemas na primeira galeria interagem com várias fotografias do século XIX expostas nas proximidades, que aludem à forma como as joias eram uma metáfora comum para descrever a ilha — as suas copas esmeraldas e as suas águas e céus de safira, por exemplo. Também na primeira galeria, uma impressionante imagem de Buda sentado do século XIX, proveniente da coleção do LACMA, remete para outra compreensão das joias. O Buda (incluindo as suas imagens), a comunidade monástica e os ensinamentos do Buda constituem o que é conhecido no budismo como a tríplice joia, ou triratna. Toda a arte budista na exposição reflete, de várias formas, aspetos da tríplice joia. Por fim, as relíquias do Buda são frequentemente descritas como joias e, como mencionámos anteriormente, as relíquias são conceptualmente importantes para a apresentação desta exposição sobre a história e a prática budistas no Sri Lanka.

The Jeweled Isle: Art from Sri Lanka Exhibition, LACMA [4]
The Jeweled Isle: Art from Sri Lanka Exhibition, LACMA [4] Museum Associates/LACMA (Copyright)

JBW: Fiquei curioso ao ler que «The Jeweled Isle» inclui um grande número de fotografias do século XIX, quando o Sri Lanka era uma colónia da Coroa Britânica. O que revelam essas fotografias e como se relacionam com os outros temas apresentados na exposição?

RB e TBG: Existem cerca de 70 fotografias do final do século XIX na exposição, todas tiradas por fotógrafos britânicos vitorianos — incluindo Joseph Lawton, William Skeen e Charles Scowen — que viveram e trabalharam naquilo que era então chamado de «Ceilão». São uma parte crucial da exposição e são obras de arte extraordinariamente belas por si só. As fotografias estão presentes em todas as galerias da exposição e amplificam os seus temas de várias maneiras. Já mencionámos que as fotografias na primeira galeria, por exemplo, apresentam vistas excecionais da beleza natural da ilha, sugerindo a sua aparência de joia. Noutras secções, as fotografias fornecem contexto.

Por exemplo, entre os objetos na segunda galeria, que aborda a antiga capital de Anuradhapura e o estabelecimento do budismo no Sri Lanka, encontram-se relicários, objetos decorativos adornados com folhas de Bodhi e uma grande pintura da pegada do Buda no Pico de Adão. Os locais associados às visitas de Buda e a relíquias importantes — que incluem o ramo da árvore de Bodhi trazido para o Sri Lanka no século III a.C. — são monumentos vivos que só poderiam ser retratados através do registo fotográfico. Noutras partes da exposição, fotografias da nobreza do Sri Lanka são justapostas com têxteis, armas cerimoniais, pentes de marfim e joias, ajudando a completar o quadro da riqueza e ostentação da corte. Outras fotografias demonstram a relação entre a arquitetura e as artes decorativas.

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Um espetacular conjunto de 13 fotografias botânicas de Charles Scowen, tiradas nos jardins de Peradeniya, em Kandy, constitui um dos pontos altos da exposição. Os jardins de Peradeniya eram os antigos jardins reais dos reis de Kandy. Depois de os britânicos terem deposto o último rei de Kandy em 1815, estes jardins foram apropriados pelo governo colonial e, em 1822, inaugurados como Jardins Botânicos Reais. Como tal, passaram a funcionar como mais um nó na rede imperial britânica de jardins que facilitou a vasta troca global de plantas e conhecimento científico no final do século XIX.

Estas imagens recordam-nos especialmente como objetos de grande beleza foram associados à implementação do domínio colonial. De certa forma, todas as fotografias do século XIX funcionam a este nível. Pretendíamos que servissem como uma espécie de metanarrativa ao longo da exposição, uma vez que o Sri Lanka foi profundamente impactado pelas formas coloniais de conhecimento e representação.

Os fotógrafos do Sri Lanka deste período são desconhecidos, embora certamente fizessem parte do pessoal dos principais estúdios comerciais. Como contraponto às imagens coloniais britânicas, decidimos então incluir, na última galeria da exposição, 20 obras do fotógrafo do Sri Lanka Reg van Cuylenburg (1926-1988). Van Cuylenburg era filho de mãe cingalesa de Kandy e pai inglês, e foi formado por Lionel Wendt, o modernista mais famoso do Sri Lanka, que também era de ascendência mista cingalesa e europeia. Entre 1949 e 1958, Van Cuylenburg realizou várias viagens pelo Sri Lanka, documentando os vários locais que visitou, os festivais a que assistiu e as pessoas que encontrou.

The Jeweled Isle: Art from Sri Lanka Exhibition, LACMA [2]
The Jeweled Isle: Art from Sri Lanka Exhibition, LACMA [2] Museum Associates/LACMA (Copyright)

As fotografias representam a visão de um próprio cingalês sobre uma pátria muito amada, captadas nos anos otimistas que se seguiram à independência do Sri Lanka. De particular interesse é o facto de várias das suas fotografias retratarem as devoções em Kataragama, que é hoje o local de peregrinação mais famoso do Sri Lanka e visitado por budistas, hindus, cristãos e muçulmanos. Como o local ganhou destaque no século XX, existem poucas imagens do mesmo nos arquivos coloniais.

JBW: Como se distingue entre as várias influências que se entrelaçaram na fusão que é a arte do Sri Lanka? Foi isto um desafio para o LACMA quando começou a planear a exposição e a reunir os objetos que iriam ser exibidos?

RB e TBG: Foi definitivamente um desafio, porque as influências eram muitas e o âmbito da exposição — quase dois milénios — era muito vasto. As influências não eram apenas estilísticas, mas tinham a ver com desenvolvimentos religiosos e devocionais, bem como com processos históricos. De certa forma, fomos informados pela própria história escrita do Sri Lanka. Por exemplo, é-nos dito no Mahavamsa, a grande crónica do Sri Lanka do século V, que a ilha era o lar de uma natureza feroz e de divindades serpentinas antes do estabelecimento do budismo.

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A crónica detalha também a vinda do Buda e o estabelecimento da fé. Vimos que estes aspetos da história e da crença — que também destacam as crenças indígenas e a estreita relação da ilha com a Índia — foram expressos na arte e na arquitetura ao longo de um período de 2000 anos. Por isso, sabíamos que esta era uma relação que tinha de ser demonstrada, explorada e explicada mais aprofundadamente. E estas explorações levaram-nos a todo o tipo de áreas interessantes, tais como os papéis dos deuses locais no culto e nos rituais budistas. Ver o que era exclusivamente do Sri Lanka, no final, não foi assim tão difícil, pois houve sempre uma rápida assimilação de formas nas tradições locais.

JBW: O que acham que irá surpreender os visitantes do museu ao percorrerem «The Jeweled Isle»? Além disso, quais são as vossas expectativas pessoais para esta exposição e quais as vossas peças favoritas presentes na mostra?

RB e TBG: Achamos que as pessoas ficarão surpreendidas com a grande complexidade cultural que as obras de arte da exposição demonstram. Aqueles que sabem pouco sobre a história do Sri Lanka também ficarão surpreendidos com a grande sofisticação do pensamento por trás de muitas das obras de arte. A nossa esperança é que as pessoas fiquem encantadas com o poder visual e a presença da arte e que isso, por sua vez, as leve a envolver-se com as ideias e a história por trás delas. Há tantos objetos interessantes e belos nesta exposição; realmente não sabemos como poderíamos escolher os nossos favoritos entre eles. Afinal, fomos nós que selecionámos cada um deles!

JBW: Dr. Robert L. Brown e Dr. Tushara Bindu Gude, muito obrigado pelo vosso tempo e atenção. Desejo-vos muito sucesso e espero que os nossos caminhos se cruzem novamente.

RB e TBG: Muito obrigado pelo seu interesse!

A exposição «The Jeweled Isle: Art from Sri Lanka» patente no LACMA, em Los Angeles, Califórnia, até 23 de junho de 2019.

O Dr. Robert Brown é curador associado de Arte do Sul e Sudeste Asiático no museu LACMA, em Los Angeles. Formou-se na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, com um doutoramento em história da arte indiana em 1981. Imediatamente após a formatura, trabalhou no LACMA e foi promovido a curador de Arte Indiana e do Sudeste Asiático em 1984. Em 1986, começou a lecionar na UCLA, onde atualmente é professor de história da arte. Em 2000, foi renomeado curador no Departamento de Arte do Sul e Sudeste Asiático do LACMA, cargo que ocupa em paralelo com o seu cargo de professor na UCLA. As suas publicações incluem mais de 100 livros e artigos sobre arte budista e hindu, sobre a natureza da influência artística indiana no Sudeste Asiático e sobre as bases coloniais e ocidentais para a compreensão da história da arte da Índia. Atualmente, está a escrever um livro sobre as imagens de Buda do período Gupta de Sarnath (Índia). Quatro publicações recentes incluem livros editados: Art from Thailand (Marg 1999), Roots of Tantra (SUNY 2002), a Encyclopedia of India, 4 vols. (Charles Scribner's Sons 2005) e Studies on the Art of Ancient Cambodia: Ten Articles by Jean Boisselier, trad. e ed. com Natasha Eilenberg (Reyum, 2008). O seu catálogo online da Coleção do Sudeste Asiático no LACMA foi lançado em 2013.

A Dra. Tushara Bindu Gude é curadora associada no Departamento de Arte do Sul e Sudeste Asiático do LACMA, cargo que ocupa desde 2006. Antes de ingressar no LACMA, trabalhou durante seis anos como curadora assistente de arte do Sul da Ásia no Museu de Arte Asiática de São Francisco. Gude obteve o seu doutoramento em História da Arte pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles. As suas áreas específicas de investigação, especialização e interesse incluem a arte budista indiana, a pintura cortesã do Sul da Ásia, a arte do período colonial e a arte moderna e contemporânea do Sul da Ásia. As suas exposições anteriores no LACMA incluem «Pinaree Sanpitak: Hanging by a Thread» (2013) e «India's Fabled City: The Art of Courtly Lucknow» (2010–11). Gude também foi curadora de várias exposições da coleção permanente, incluindo A Connoisseur's Delights: Indian Paintings from the Nasli and Alice Heeramaneck Collection (2007–08), Princely Traditions and Colonial Pursuits in South Asia (2013–14), Landscapes of Devotion: Visualizing Sacred Sites in India (2014–15), Devi: A Imagem da Deusa no Nepal (2015–16), Budismo, Comércio e Diplomacia: Relações entre a Arte Tibetana e a Arte Chinesa (2016–17) e Monção: Pinturas Indianas da Época das Chuvas (2016–17). Para além de várias publicações académicas, contribuiu com ensaios para vários catálogos de exposições, incluindo A Cidade Lendária da Índia: A Arte da Lucknow Cortesã, Reino do Sol: Arte da Corte e das Aldeias Indianas do Estado Principesco de Mewar, Loucura Sagrada: Retratos de Siddhas Tântricos e O Reino do Sião: A Arte da Tailândia Central, 1350–1800. Foi co-curadora da exposição Las Huellas de Buda (Traces of the Buddha) (Museo Nacional de Antropología, Cidade do México, 19 de julho a 14 de outubro de 2018), que foi a primeira exposição budista pan-asiática a ser realizada na Cidade do México, México.

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Wiener, J. B. (2026, maio 06). Entrevista: Sri Lanka, a Ilha das Joias. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1297/entrevista-sri-lanka-a-ilha-das-joias/

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Wiener, James Blake. "Entrevista: Sri Lanka, a Ilha das Joias." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, maio 06, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1297/entrevista-sri-lanka-a-ilha-das-joias/.

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Wiener, James Blake. "Entrevista: Sri Lanka, a Ilha das Joias." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 06 mai 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1297/entrevista-sri-lanka-a-ilha-das-joias/.

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