Ravana

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations
Versão Áudio Imprimir PDF
Ravana the Demon King (by Henryart, Public Domain)
Ravana, o Rei Demónio Henryart (Public Domain)

Ravana é o mítico rei demónio de múltiplas cabeças de Lanca na mitologia hindu. Com dez cabeças e vinte braços, Ravana possuía a faculdade de assumir qualquer forma que desejasse. Representando a própria essência do mal, travou e acabou por perder uma série de batalhas épicas contra o herói Rama, o sétimo avatar de Vishnu.

A Família

Ravana era um terrível demónio (rakshasa), rei de todos os demónios e da ilha-fortaleza de Lanca (a atual Sri Lanka). O seu pai era Visravas (filho de Pulastya, um dos Prajapati criadores) e a sua mãe era Nikasa, também ela uma demónia e progenitora dos demónios canibais, os Pisitasanas. Ravana conquistou o seu trono por meios ilícitos, ao expulsar da ilha o seu meio-irmão Cubera, o deus da riqueza. Ravana teve muitos filhos, destacando-se Aksa — que possuía três cabeças, simbólicas dos três estágios da febre (calor, frio e suor) — e Indrajit (também conhecido como Meghanada), que tinha a capacidade de se tornar invisível.

Remover Publicidades
Publicidade

Ravana possuía uma aparência formidável com as suas dez cabeças (pelas quais também é conhecido como Dasakantha e Panktigriva) e os seus vinte braços. O seu corpo estava coberto de cicatrizes, obtidas em batalhas incessantes contra os deuses. Três ferimentos, em particular, foram causados pelo disco de Vishnu, pelo raio de Indra e pela presa de Airavata, o elefante de Indra. Através da sua devoção e penitência perante o grande deus Brahma, Ravana tornou-se invencível e recebeu o poder de assumir a forma que pretendesse, desde homens a montanhas, ou até a própria morte. Era tão poderoso que conseguia provocar sismos e tempestades. Contudo, fora vaticinado que o fim de Ravana chegaria por causa de uma mulher, e assim viria a acontecer.

Ravana ostentava uma presença aterradora com as suas 10 cabeças, 20 braços e um arsenal de armas letais.

Ravana e Nandisa

O Ramayana é o mais antigo épico em sânscrito, tendo sido escrito por volta do século V a.C., com algumas adições posteriores. Nele, a origem do nome de Ravana é explicada através de um mito pitoresco, no qual o rei demónio desafia Nandisa (que é, na verdade, o grande deus Shiva, também conhecido como Nandisvara) e acaba por levar a pior. Segundo a história, certo dia, enquanto atravessava as montanhas de Saravana, Ravana encontrou um anão de pele escura com rosto de macaco. O anão não permitiu a passagem de Ravana, pois o seu mestre, Shiva, estava ali ocupado a caçar e não deveria ser perturbado. Ravana questionou quem seria esse tal Shiva e, num acesso de fúria, sacudiu a montanha. Este ato perturbou Shiva e a sua esposa Parvati; esta última tremeu de medo enquanto ambos se sentavam no pico oscilante, mas Shiva, calmamente, pousou o seu dedo do pé sobre o solo e a montanha inteira desabou sobre os muitos braços de Ravana. O demónio soltou um grito de dor tão aterrador que Shiva o nomeou Ravana em honra a esse clamor (rava). Ravana só foi libertado do seu suplício após 1.000 anos de súplicas ao grande deus.

Remover Publicidades
Publicidade

Rama e Surpanakha

O Ramayana foca-se essencialmente na história do semidivino Senhor Rama, que muitos hindus acreditam ter sido baseado numa figura histórica. Ele é, talvez, a figura mais virtuosa de toda a mitologia hindu. As suas aventuras ilustram, acima de tudo, a importância e as recompensas de cumprir o dever piedoso ou dharma, tendo ele nascido para uma tarefa específica: responder ao apelo dos deuses e matar o temível demónio de múltiplas cabeças, Ravana, o terror da terra.

Os problemas de Rama começaram quando foi exilado do reino de seu pai, vítima de uma conspiração urdida por Manthara, a escrava corcunda e invejosa de sua mãe. Para além disso, o seu irmão Bharata foi nomeado herdeiro no lugar de Rama. Durante 14 anos, Rama teve de vagar pelo mundo, visitar sábios e aguardar pelo momento de cumprir o seu destino.

Remover Publicidades
Publicidade
Rama & Hanuman
Rama & Hanuman Sowrirajan (CC BY)

Certo dia, Rama, a sua mulher Sita e o seu grande amigo Laksmana acabaram por chegar a Pancavati, junto ao rio Godavari, uma zona assolada por demónios. Uma em particular, Surpanakha, irmã de Ravana, apaixonou-se por Rama e, ao ver as suas investidas rejeitadas, atacou Sita por vingança. Laksmana foi o primeiro a reagir, cortando as orelhas e o nariz de Surpanakha. Nada satisfeita com este tratamento, a enfurecida demónia reuniu um exército de demónios para atacar o trio. Numa batalha épica, Rama derrotou-os a todos; contudo, Surpanakha não deu o assunto por encerrado e persuadiu Ravana de que Sita era uma mulher pela qual valia a pena lutar. Assim sendo, o rei demónio procurou a morada de Rama e, enquanto este se distraía na caça a um veado (que era, na verdade, o mago Maricha, aliado de Ravana, disfarçado), raptou Sita, levando-a para Lanca no seu carro aéreo para ser mantida cativa no belo jardim de Ashoka do seu palácio.

As Batalhas entre Ravana e Rama

Rama partiu em perseguição imediata. Primeiro, teve de combater o monstro Kabandha e auxiliar o rei-macaco Sugriva, mas, como recompensa por este último feito, obteve a ajuda inestimável do general de Sugriva, Hanuman, e do seu exército. Hanuman era também filho do vento, capaz de saltar distâncias colossais e de assumir qualquer forma que desejasse. Foi ele quem transportou magicamente Rama e as suas forças para Lanca, atravessando a ponte de pedra construída pelo hábil general Nala, que ficou conhecida como a "Ponte de Rama".

Seguiu-se uma série de batalhas titânicas entre as forças de Rama e os demónios; por vezes Ravana levava a melhor, noutras ocasiões era Rama quem dominava. Num dos confrontos, Rama conseguiu decepar uma das cabeças de Ravana com uma flecha, mas outra cresceu imediatamente para a substituir. Finalmente, outra das flechas de Rama atingiu certeiramente o peito de Ravana. A flecha atravessou o demónio, viajou sobre os mares e regressou diretamente à aljava de Rama. Ravana estava morto e o mundo livre de uma terrível força sem lei. Por ter sido filho de um brahmana (sacerdote), Ravana teve direito a um funeral digno, sendo o seu corpo queimado de acordo com o ritual correto. Entretanto, Lanca caíra perante o exército de Rama, e o herói regressou a casa para reclamar o seu trono e dar início a uma era dourada de governação.

Remover Publicidades
Publicidade

Ravana na Arte Hindu

Ravana é habitualmente representado com múltiplas cabeças e braços, empunhando todo o tipo de armas letais. Surge na escultura decorativa de templos hindus, mais frequentemente em cenas de batalha com Rama ou a conduzir o seu carro alado. Numa célebre cena em relevo no templo de Kailasanatha em Ellora (século VIII), Ravana é mostrado a sacudir a montanha sagrada Kailasa (tal como na história de Nandisa), onde se sentam Shiva e Parvati. Excecionalmente, nesta obra, Ravana está esculpido em vulto pleno (completamente em redondo). As cenas do Ramayana que envolvem Ravana tornaram-se também muito populares a partir do século XVI nas aguarelas indianas, sendo especialmente estimadas as de Udaipur e as pinturas Pahari.

Remover Publicidades
Publicidade

Sobre o Tradutor

Sobre o Autor

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2026, abril 30). Ravana. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14019/ravana/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Ravana." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, abril 30, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14019/ravana/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Ravana." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 30 abr 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14019/ravana/.

Remover Publicidades