Esta visita encheu-me de um enorme orgulho. Estava prestes a explorar a história da minha região natal. As coisas que aconteceram há eras no lugar a que os meus antepassados chamavam lar. A minha cidade natal, nas margens do rio Estrimão, é um povoado muito antigo, que remonta a 1400 a.C., mas só se tornou uma cidade importante, chegando mesmo a atingir o nível de capital provincial, durante a era bizantina, especialmente durante e após o reinado da dinastia macedónica. A minha cidade natal é Serres, a antiga Síris, e, antes do período bizantino, ocupava um lugar secundário em relação à outra famosa cidade antiga da zona: Anfípolis.
Seguindo o curso do rio Estrimão para sul, pouco antes de este desaguar no norte do mar Egeu, fica a povoação de Anfípolis. Atualmente uma pequena aldeia, foi uma metrópole próspera durante os períodos helenístico e romano, além de se ter tornado uma cidade importante para o cristianismo primitivo, tal como a cidade de Filipos, a nordeste. Estando situada na Via Egnácia, à semelhança de Filipos, transformou-se num centro cultural e económico do mundo mediterrânico. No entanto, a sua história começa muito antes disso, quando, enquanto colónia ateniense antiga, foi motivo de grande polémica durante a Guerra do Peloponeso que assolou a Grécia antiga no final do século V a.C. A sua história cruza-se também com a ascensão do Reino da Macedónia e a subsequente propagação do helenismo no Mediterrâneo oriental, através das campanhas de Alexandre o Grande.
Ao chegar perto da povoação, o primeiro vestígio de história que aguarda o visitante é da era bizantina. Os bizantinos construíram a torre norte em 1367, que se ergue no lado direito da estrada que conduz à aldeia moderna, ao museu e às ruínas antigas. A torre, juntamente com a sua torre gémea na outra margem do rio, proporcionava proteção, entre outros, à península de Atos e à respetiva comunidade monástica. A esta altura, não tinha a certeza se estava a seguir pelo caminho correto, pelo que hesitei em continuar a subir uma vez que já tinha avistado um sinal que indicava a ponte de Anfípolis. Por isso, voltei para trás para ir ver a ponte. Devo referir aqui que sou engenheiro de pontes, pelo que esta seria uma experiência única para mim.
A Ponte Antiga de Anfípolis
A antiga ponte de madeira de Anfípolis foi descoberta em 1977 e constitui um achado único na antiguidade grega e raro em todo o mundo antigo. Foi construída para ligar a cidade de Anfípolis ao seu porto, cruzando o rio Estrimão. Os vestígios da ponte incluem várias estacas de madeira petrificada que sustentavam oabalque sul da ponte. Partes do abalque sul também se mantêm preservadas, construídas em alvenaria de pedra e blocos de mármore que também integram a muralha noroeste da cidade. A ponte situa-se em frente à Porta C das muralhas da cidade. Os restos da ponte cobrem uma área de 13 metros de largura, e o diâmetro das estacas varia entre 70 mm e 290 mm, sendo a maioria de secção circular e algumas de secção quadrada. As suas alturas situam-se entre 1,5 metros e 2,0 metros. Existem também várias vigas horizontais — sendo a mais longa com 4,5 metros de comprimento — que eram utilizadas para suportar o tabuleiro de madeira da ponte. As extremidades inferiores das estacas foram cortadas em bisel, tendo em alguns casos sido aplicadas pontas de ferro. Os arqueólogos descobriram muitas destas pontas de ferro, juntamente com fragmentos de pernos, grampos e ferramentas, junto à margem do rio.
A escavação distingue-se por dois grupos de estacas:
- Estacas de grandes dimensões colocadas a níveis profundos.
- Estacas colocadas mais acima e com diâmetros mais pequenos.
As estacas inferiores dão uma melhor perspetiva do padrão original. A maioria está colocada em pequenos grupos de três ou quatro para reforçar a fundação da ponte. Formam 12 fileiras não paralelas, com uma largura de 6 metros. O comprimento total da estrutura da ponte rondava os 275 metros.
No que diz respeito à idade da ponte, a primeira referência histórica à sua existência data de 422 a.C. No entanto, as técnicas de datação por radiocarbono situam a primeira construção da ponte por volta de 600–550 a.C.
A primeira referência histórica à ponte encontra-se nas obras de Tucídides, o historiador e comandante militar ateniense que escreveu sobre a Guerra do Peloponeso e nela combateu. A ponte desempenhou um papel significativo na batalha de Anfípolis, em 422 a.C., travada entre as forças espartanas e atenienses pelo controlo de Anfípolis, das minas de ouro e prata do Monte Pangeu ali perto, bem como do fornecimento de madeira para a construção naval proveniente dos carvalhais que circundavam (e ainda circundam) o vale do rio Estrimão.
Anfípolis foi inicialmente capturada e rebatizada (perdendo o nome anterior de Ennea Odoi, que significa Nove Estradas) pelos atenienses, quase 40 anos antes do eclodir da Guerra do Peloponeso em 431 a.C., tendo sido integrada na Liga de Delos. Durante os poucos anos que antecederam a guerra, os residentes de Anfípolis sentiram-se frustrados com o tratamento dispensado pelos atenienses e procuraram a independência. Assim, quando o general espartano Brásidas chegou à cidade em 424 a.C., foi recebido como um libertador, e os habitantes de Anfípolis, de Síris e das povoações vizinhas tornaram-se aliados dos espartanos.
Os atenienses não podiam simplesmente deixar que a sua antiga cidade aliada caísse em mãos inimigas, pelo que tentaram retomá-la, numa tentativa que conduziu à Batalha de Anfípolis em 422 a.C. Os espartanos aproveitaram a geografia da área com a ajuda dos locais e utilizaram a ponte para estreitar as forças atenienses. Estas táticas são semelhantes às da famosa Batalha das Termópilas (480 a.C.) ou ainda mais análogas à Batalha de Stirling Bridge (primeira guerra da independência escocesa, 1297). Os espartanos venceram a batalha com a ajuda dos residentes de Anfípolis e de outras localidades do vale do Estrimão. Apesar da vitória, Brásidas foi ferido na batalha e acabou por morrer poucos dias depois. Os habitantes de Anfípolis sepultaram-no como herói na necrópole vizinha. As escavações arqueológicas descobriram o seu ossuário de prata, que se encontra atualmente em exibição no Museu Arqueológico de Anfípolis.
A ponte surge mais tarde na história várias vezes. Foi atravessada por Alexandre o Grande no início da sua campanha histórica, em 334 a.C., depois de este ter possivelmente reunido o seu exército e marinha perto do porto de Anfípolis. Existem registos de trabalhos sistemáticos de reparação e manutenção na ponte durante a era romana, a era bizantina e até meados do período otomano, por volta de 1620, altura em que surge o último vestígio histórico da ponte. A extensão bizantina da ponte, juntamente com uma barragem construída no mesmo período, foi destruída entre 1929 e 1932, quando foram realizadas grandes obras para desviar o leito do rio Estrimão.
O Museu de Anfípolis
Seguindo em direção ao Museu de Anfípolis, fiquei surpreendido por ver que se trata de um edifício imponente, bem organizado para expor as antiguidades e acolhedor para os visitantes. Ordenados cronologicamente, os artefactos levam-nos numa longa viagem através da história, descrevendo os primeiros povoamentos do vale do Estrimão, a próspera colónia ateniense, a Guerra do Peloponeso, os romanos, os primeiros cristãos e assim por diante. Um dos conjuntos de peças mais impressionantes foram os brinquedos infantis. Uma visão muito próxima do quotidiano dos antigos habitantes de Anfípolis, da criação dos filhos e do esforço que dedicavam às suas famílias. Naturalmente, o ossuário de prata do general espartano Brásidas é provavelmente o ponto alto do museu.
Os Sítios Arqueológicos
Depois de sair do museu, dirigi-me mais para cima, em direção aos vestígios da cidade propriamente dita. Os elementos paleocristãos dominam a área, uma vez que os restos das basílicas, os mosaicos cristãos e as inscrições cristãs estão por toda a parte. Mas o visitante também pode ver o ginásio e os vestígios de uma mansão que poderá ter pertencido aos governadores da cidade, ao bispo cristão ou a ambos, ao longo dos tempos.
Ao sair de Anfípolis, dirigi-me para onde sabia que outra cidade antiga está a ser escavada de momento: o povoado de Argilos. Infelizmente, não consegui observá-lo na íntegra porque os trabalhos arqueológicos ainda estão a decorrer, mas consegui tirar algumas fotografias.
Argilos
Segundo Ptolemeu, o nome de Argilos é de origem trácia, apesar de a cidade ter sido uma colónia de colonos oriundos da ilha cicládica de Andros. A lenda conta que os colonos andriotas viram um animal subterrâneo, possivelmente uma toupeira, que era sagrado para o deus-Sol Apolo e, por conseguinte, deram à cidade o nome do terreno argiloso (a palavra grega argilos significa "argila"). Esta ideia é corroborada pelas moedas encontradas na região que ostentam a representação de uma toupeira. A origem andriota da cidade é atestada pelas obras de Tucídides, que acrescenta também que a povoação fazia parte de uma operação colonial mais ampla a partir de Andros (655–654 a.C.), que incluiu várias outras vilas em redor do Golfo de Estrimão, como Estagira, a terra natal de Aristóteles. Na qualidade de porto natural, a cidade servia como centro comercial do norte do Egeu.
A partir da obra de Ateneu, Deipnosofistas, ficamos a saber sobre as culturas locais, que incluíam cereais, vinhas e várias árvores de fruto. Eram também criadores de animais muito hábeis e abasteciam a região, bem como todo o Egeu, com carne. Heródoto também menciona a cidade ao descrever a marcha de Xerxes a sul do monte Pangeu, onde este fez uma breve paragem em Argilos. A cidade de Argilos era a principal cidade portuária da região antes da ascensão de Anfípolis e da sua cidade portuária satélite, Eion. Estrabão também menciona a cidade, pelo que esta ainda se encontrava ativa durante a época romana, mesmo que já tivesse entrado em declínio, sendo esta a última vez que a povoação é referida em relatos históricos e geográficos.
O Leão de Anfípolis
Quase a meio caminho entre Anfípolis e Argilos ergue-se o monumento mais icónico da antiga região de Serres e do vale do Estrimão: o localmente famoso Leão de Anfípolis. Data da época de Alexandre o Grande e constitui um monumento dedicado a um dos seus generais, Laomedonte de Mitilene. Este leão ergue-se como um símbolo para as comunidades regionais, funcionando quase como um brasão para o povo. Até a equipa de futebol da cidade o utiliza como emblema. É um símbolo do que significa ser cidadão de Serres.
Tenho plena consciência de que quem quer que esteja a ler este artigo poderá esperar ver algo sobre a tumba recentemente descoberta. Infelizmente, o local é tão inacessível que não existe uma estrada propriamente dita que lá conduza. É preciso fazer um troço fora de estrada para lá chegar e, ainda assim, não será permitido ver os achados. Por isso, embora adorasse falar sobre a tumba e especular sobre quem lá terá repousado, esta não fez parte da minha visita, pelo que não me posso alargar demasiado.
Esta visita foi a última expedição antiga que empreendi durante essa viagem à Grécia e regressei a casa cheio de imagens, com motivação para a leitura e com um pouco de orgulho nacional saudável! Fiquei também frustrado por ver que existem tantas belezas, tanto naturais como históricas, com que o país deveria estar repleto de destinos turísticos (ainda mais do que já está). Um visitante estrangeiro não consegue localizar e aceder facilmente a estes locais, pelo que a publicidade e a promoção adequadas são urgentemente necessárias. Nenhum dos locais que visitei ficava a mais de uma hora de carro de uma praia virgem, de uma floresta verde ou de uma montanha (no caso de Anfípolis, o mar fica a dez minutos de distância), pelo que o turismo deveria estar a florescer. É um assunto que espero ver resolvido no futuro, ou, pelo menos, ponderado.
