Públio Ovídio Naso, mais comumente conhecido para a história como Ovídio, foi um dos mais prolíficos autores do início do Império Romano. Suas obras de poesia, em sua maior parte escritas na forma de dísticos elegíacos, influenciaram muitos autores posteriores, incluindo Chaucer, Milton, Dante, Shakespeare e Goethe. Amado pelo povo romano, ele cometeu o trágico erro de irritar o imperador Augusto e passou o resto da vida no exílio.
Infância e Juventude
Descendente de uma antiga e reconhecida família equestre, Ovídio nasceu no dia 20 de março de 43 a.C., na cidade de Sulmona, situada na região dos Abruzos, 145 km a leste de Roma. Na época de seu nascimento, a República Romana havia caído e o herdeiro aparente do falecido Júlio César, Otaviano (o futuro Augusto), perseguia os assassinos do ditador; uma guerra civil havia começado. Como tantos outros de sua geração, a família de Ovídio - especialmente seu pai -, queria que ele seguisse carreira no direito e na política, mas os sonhos de uma vida inteira do rapaz indicavam um caminho bem diferente. Ele foi enviado a Roma para completar sua educação sob a tutela do orador Arélio Fusco e do retórico Pórcio Latrão. Destacou-se nos estudos, principalmente na retórica, e mais tarde excursionou pelas ilhas gregas, como faziam muitos estudantes romanos para aperfeiçoar sua educação.
A despeito da insistência dos pais - seu pai, com frequência, o repreendia por escrever poesia -, este amante da linguagem abandonou a vida pública, após uns poucos cargo judiciais menores, em favor da vida de poeta. Graças ao patrocínio do orador e mecenas Marco Valério Messala Corvino, Ovídio logo conquistou sucesso como autor e passou a ser o mais conhecido poeta de Roma. Infelizmente, esta notoriedade não o protegeu e, em 8 d.C., foi banido de Roma.
Obras Famosas
Contemporâneo do historiador romano Lívio, acredita-se que Ovídio, junto com os poetas Virgílio e Horácio, tenha criado um estilo poético comparável aos autores gregos do passado. Porém, ao contrário de Virgílio e Horácio, Ovídio não fazia parte do círculo íntimo do imperador Augusto. Por motivos desconhecidos para os historiadores modernos, ele não caiu nas graças do imperador. A razão pode estar no tipo de poesia que escrevia: conselhos para os jovens amantes. Um historiador chegou a dizer que, para Ovídio, o amor era o único jogo que valia a pena.
Seu primeiro livro de poesia foi o extremamente bem-sucedido Amores ou O Livro do Amor, publicado em 22 a.C. A obra conta, num estilo leve, as desventuras de um jovem e seu amor por uma amada inalcançável. As obras seguintes focam numa variedade de tópicos: Heroides (Heroínas) traz uma série de 15 cartas supostamente escritas por personagens femininas da mitologia grega e romana, como Penélope e Dido, para seus amantes que as teriam maltratado ou abandonado. O livro Mediacamina Faciei Femineae não apenas defendia o uso de cosméticos faciais pelas mulheres romanas, mas também fornecia receitas. Outra obra, Remedia Amoris (Remédios para o Amor) dava orientações para os amantes sobre como encerrar um relacionamento. Ars Amatoria (A Arte de Amar) consiste em três livros, escritos em 2 d.C., que discorrem sobre como fazer a corte e a intriga erótica, dando conselhos tanto a homens quanto para mulheres. Um bom exemplo destes conselhos aparece no Livro I, no qual Ovídio escreveu:
A primeira coisa que você precisa fazer é descobrir um objeto para seu amor, você que, agora, pela primeira vez, parte para a luta neste novo tipo de guerra. A próxima tarefa é conquistar a jovem que o atrai; a terceira tarefa é fazer com que seu amor dure. (Branyon, 57)
Há muito que se considera a publicação de Ars Amatoria como uma das possíveis razões para seu exílio.
Metamorfoses
Sua obra mais famosa, ao menos para os leitores modernos, é Metamorfoses, 15 livros compostos em hexâmetro dactílico, uma coleção de histórias obtidas a partir de mitos e lendas clássicas e do Oriente Próximo, que formam uma cronologia desde a criação do mundo até a morte de César. Trata-se de um poema épico, que aborda não somente a interação da humanidade com os deuses, mas também sobre heróis e heroínas tais como Perseu, Teseu, Heitor e Aquiles. Trata-se de um dos poucos trabalhos de Ovídio não redigidos em dísticos.
Completado antes do seu exílio, ele abre o Livro I com uma declaração de seu propósito:
Minha mente está inclinada a contar sobre corpos transmutados em novas formas. Ó deuses, vocês que também experimentaram mudanças, favoreçam minha iniciativa e conduzam meu poemas em versos ininterruptos desde o início do mundo até os dias atuais. (Metamorfoses, 3)
Ele termina o Livro XV abordando tanto o futuro de Roma quanto o seu próprio:
Onde quer que o poder de Roma se estenda sobre o mundo conquistado, serei mencionado pelos homens e, se as profecias dos bardos forem verdadeiras, através de todas as eras terei renome. (Metamorfoses, 311)
Exílio
Para dizer o mínimo, o tema da poesia erótica de Ovídio estava em nítido contraste com as reformas políticas, sociais e morais de Augusto que, em síntese, acreditava que a morte da República e o atual estado terrível do império deviam-se, em parte, ao declínio da moralidade pública, um problema que o orador Cícero havia abordado há décadas, antes de ser assassinado por ordem do próprio Augusto, em 43 a.C. O imperador queria a obediência estrita a muitas antigas tradições romanas, particularmente em questões de religião e do leito conjugal. Infelizmente, Ovídio não acreditava que estas reformas afetassem a todos de maneira igualitária, especialmente na casa imperial, já que o imperador era bem conhecido por suas várias amantes e sua filha, Júlia, pelos casos extraconjugais; eventualmente, ela seria banida, retornando à Itália somente para morrer de desnutrição em 15 d.C.
Para seu azar, Ovídio não conseguiu manter suas opiniões para si próprio, expressando-as nas linhas de sua poesia. Ele escreveu que a vida privada e o casamento do imperador estavam em nítido contraste com as regras rígidas estabelecidas para o restante da população. Sem rodeios, o poeta também se manifestou sobre a esposa do imperador, Lívia Drusa. Em sua poesia, ele se manifestava a favor do uso de cosméticos pelas mulheres; porém, a respeito de Lívia, ele afirmou que a imperatriz estava muito ocupada para prestar muita atenção à sua aparência, a despeito de ter uma equipe para cuidar de seu guarda-roupa e até uma massagista.
O imperador não ficou satisfeito com Ovídio e, ainda que a verdadeira razão tenha se tornado um segredo de estado, o poeta acabou sendo banido para Tomis, uma cidade da região de Constança, na atual Romênia - ou, em suas próprias palavras, um lugar com um "clima miserável". Alguns historiadores destacam a possibilidade do poeta estar envolvido com o escândalo de Júlia. Qualquer que tenha sido o motivo de seu exílio, Augusto afirmou publicamente que Ovídio estimulava o adultério feminino. Em sua própria defesa, o poeta sustentou que cometera um erro, não um crime. Além disso, todas as suas obras foram banidas das bibliotecas públicas romanas. Felizmente para as futuras gerações, no entanto, a popularidade entre os colecionadores particulares permitiu que seus livros sobrevivessem.
Há quem acredite que seu exílio deveu-se à atmosfera da época. Os habitantes da cidade estavam inquietos e havia risco de rebelião nas províncias. Outros argumentam que ele pode ter ouvido ou visto alguma coisa e o imperador precisou silenciá-lo, adotando o exílio como a escolha mais lógica. A despeito das súplicas públicas e privadas, o imperador e até mesmo seu herdeiro, Tibério, não cederam, e o poeta passou o resto da vida distante de Roma, na longínqua Tomis. Durante seu exílio, ele continuou a escrever; entre as obras deste período estão quatro livros de poemas, intitulados Epistulae ex Ponto (Epístolas do Ponto) e Tristia (Lamentações), dirigidos à esposa. Em 17 d.C., Ovídio morreu, ainda no exílio. Embora tenha pedido para ser sepultado em Roma, não há certeza de que esta solicitação tenha sido atendida.

