Públio Cornélio Tácito (viveu entre os anos de 56 e 118) foi um historiador romano durante todo o reinado de Trajano (98-117) e os primeiros anos de Adriano (117-138). As obras mais conhecidas são a Histórias e os Anais, que cobrem a história do império desde a dinastia Júlio-Claudiana até ao reinado de Domiciano (reinou 81-96). Embora mais conhecido pelos escritos históricos, teve igualmente uma longa carreira pública, servindo como questor no ano de 81; pretor em 88; tribuno da plebe, um cônsul em 97; e procônsul da Ásia de 112 a 113.
Embora criticasse fortemente os imperadores Tibério (reinou 14-37), Nero e Domiciano, as obras ainda revelavam lealdade e devoção ao império; no entanto, é frequentemente criticado pela forma descuidada de como tratou a geografia e a história militar. Muitos historiadores acreditam que a sua personalidade está patente nas obras, demonstrando imaginação e sagacidade, mas também revelando um senso de indignação moral. As obras que chegaram até nós são:
- Agrícola (De vita Julii Agricolae - A Vida de Júlio Agrícola)
- Germânia (De origine et situ Germanorum - Sobre a Origem e Situação dos Germanos)
- Diálogo sobre a Oratória (Dialogus de oratoribus)
- Histórias (Historiae)
- Anais (Annales)
Vida
Considerado por muitos como o maior historiador romano, Públio Cornélio Tácito nasceu por volta do ano de 56, durante o reinado do imperador Nero (reinou 54-68), filho de uma família próspera da província da Gália Cisalpina. Recebeu uma excelente educação, estudando retórica e direito, enquanto lia as obras do grande orador romano Cícero e do retórico Quintiliano. Mais tarde, junto com o seu bom amigo Plínio, o Jovem, chegou a fazer uma breve aparição num tribunal romano. Embora o nome da sua mulher se tenha perdido na história, casou-se com a filha do governador da Grã-Bretanha, Gneu Júlio Agrícola, em 77, que seria tema de uma das obras mais famosas de Tácito, Agrícola (De vita Julii Agricolae), escrita por volta de 97-98. Embora seja principalmente uma biografia, Tácito aproveitou a oportunidade como autor para criticar Roma, dizendo que eram os ladrões do mundo e procuravam o domínio em prol do lucro.
Agrícola
Escrita na mesma época que Germânia, Agrícola foi um elogio moral ao sogro: Agrícola era mais do que um militar, foi um ex-cônsul, que subiu na hierarquia até se tornar governador da Grã-Bretanha romana (74-84). É óbvio para o leitor que Tácito não tinha grande consideração pelo imperador Domiciano: "Sob Domiciano, mais da metade da nossa miséria consistia em observar e ser observado, enquanto os nossos próprios suspiros eram usados contra nós..." (Sobre a Grã-Bretanha e a Germânia, - compilação de Agrícola e Germânia - pág. 97). Domiciano é visto como um déspota paranóico, extremamente ciumento do sucesso de Agrícola, mas que tinha motivos para estar ciumento. O governador granjeou um enorme sucesso durante o seu tempo na Grã-Bretanha, alargando as fronteiras da província até à Escócia (Caledónia) e envolvendo-se numa extensa romanização da ilha com a construção de templos e edifícios de estilo romano. Agrícola certificou-se, igualmente, de que os filhos da elite recebessem uma educação adequada, especificamente em latim. Sobre o tempo de Agrícola na Grã-Bretanha, Tácito escreveu:
Quando o dever tinha sido cumprido, deixava de lado a postura oficial; a dureza, a arrogância e a ganância há muito deixaram de fazer parte da sua personalidade. Ele teve um sucesso onde poucos têm; não perdeu autoridade pela sua afabilidade, nem afeto pela sua severidade. (pág. 59)
Infelizmente, após ter sido chamado por Domiciano para regressar, sentiu toda a ira do imperador, sendo-lhe negada a "honra e glória que merecia". No entanto, Tácito escreveu que o sogro não procurava a fama. Mary Beard, no livro SPQR - Uma História da Roma Antiga (SPQR) disse que "a mensagem predominante é que o regime imperial não deixava espaço para a virtude romana tradicional e a proeza militar" (pág. 494). Após a morte do sogro, o historiador elogiou-o ao dizer:
Feliz és tu, Agrícola, na tua vida gloriosa, mas não menos feliz na tua morte oportuna. ... Parecias feliz por estares a fazer o teu melhor para poupar Domiciano da culpa de te matar. (pág. 91)
Germânia
A obra Germânia (De origine et situ Germanorum - Sobre a Origem e Situação dos Germanos) relata de forma detalhada o povo germânico: costumes, religião, governo e atitude em relação à guerra. Ao fazer uma comparação, Tácito via o povo germânico como socialmente puro, enquanto os romanos eram vistos como decadentes e moralmente laxistas.
Os próprios germânicos, estou inclinado a pensar, são nativos do solo e extremamente pouco afectados pela imigração ou pelo convívio amigável com as outras nações. ... Pessoalmente, aceito a visão de que os povos nunca foram contaminados por casamentos mistos com outros povos e se destacam como uma nação peculiar, pura e única no seu género. (págs. 101-103)
Eram um povo com virtudes simples e, quando não guerreavam, passavam o tempo ociosos: dormindo ou comendo em excesso. Em contraste, como expressou mais tarde nos seus escritos, Tácito acreditava que o Império Romano vivenciava uma decadência moral, uma visão defendida anos antes pelo orador Cícero (106-43 a.C.). E, como em Agrícola, aproveitou a oportunidade para criticar Roma. "A boa moralidade é mais eficaz na Germânia do que as boas leis em alguns lugares que conhecemos." (pág. 117) Embora as tribos germânicas não tivessem gosto pela paz, Tácito acrescenta: "Todos os heróis e guerreiros severos desperdiçam o seu tempo, enquanto o cuidado da casa, do lar e dos campos é deixado para as mulheres, os idosos e os fracos da família." (pág. 113)
Tácito dedica um tempo considerável a discutir a cultura das várias tribos — uma etnografia — da Germânia; entre as muitas estão os Catos, os Têncteros, os Angrivários, os Camavos, os Dulgúbios, os Frísios, os Lombardos e os Suevos. No final, enfatizou que as tribos germânicas, se unidas, poderiam representar um perigo para a Gália romana.
Diálogo sobre Oratória
O Diálogo sobre a Oratória (Dialogus de oratoribus), escrito por volta dos anos 101-102, é uma discussão entre quatro homens (dois advogados e dois literatos) sobre o estado — ou possível perda — da boa oratória em Roma. Nos parágrafos iniciais, Tácito escreveu que era uma conversa que tinha testemunhado quando jovem. Dando a própria opinião, escreve: "... a nossa época é tão desolada e tão desprovida da glória da eloquência, que mal conserva o próprio nome de orador." (Obras Completas, pág. 735). Embora um dos homens afirme que não houve declínio, os outros três insistem que, ao longo do último século, especialmente desde a época de Cícero, a eloquência da oratória tem vindo a decair de forma lamentável. Esta deterioração deveu-se principalmente à mudança política desde o final da República Romana, um período de anarquia política. Desde essa altura, prescindiu-se da oratória.
Tudo isto é tão negligenciado pelos oradores do nosso tempo que detectamos nos seus argumentos o estilo da conversa quotidiana e deficiências impróprias e vergonhosas. Ignoram as leis; não compreendem os decretos do Senado... (pág. 760)
Desde o início dos seus estudos, quando jovem, Tácito desenvolveu um imenso respeito por Cícero e pela sua habilidade de oratória e, falando atraées de um dos homens, Tácito escreveu:
Chego agora a Cícero. Ele travou a mesma batalha com os seus contemporâneos que eu travo convosco. Eles admiravam os antigos; ele preferia a eloquência de seu próprio tempo. Era mais em termos de gosto do que em qualquer outra coisa que ele era superior aos oradores daquela época. (pág. 752)
Histórias
Embora as obras Agrícola e Germânia o tenham consagrado como um historiador respeitado, as suas obras mais conhecidas são as Histórias (Historiae) e os Anais. Juntas, elas cobrem a história do império desde a época dos Júlio-Claudiana até o reinado de Domiciano — um total de 30 livros. Infelizmente, muitos dos livros perderam-se, restando apenas um terço deles. As Histórias cobrem a agitação política que se seguiu à morte de Nero, o ano dos quatro imperadores, Galba (reinou 68-69), Otão (reinou 69), Vitélio (reinou 69) e Vespasiano (reinou 69-79), terminando com a ascensão de Domiciano. Embora tivesse pouco respeito pelos três primeiros dos quatro imperadores, Tácito acreditava que a ascensão de Vespasiano ao trono era um sinal de um futuro promissor, que mesmo tendo sido um pouco ganancioso, era um soldado nato e mudou para melhor assim que assumiu o cargo. Foi durante este tempo que Tácito serviu como procônsul na Ásia Menor.
Na introdução de Histórias escreveu:
Abordo na história um período rico em desastres, assustador pelas suas guerras, dilacerado por conflitos civis e, mesmo em paz, cheio de horrores. ... a época não era tão estéril em qualidades nobres a ponto de não exibir exemplos de virtude. (Obras Completas, pág. 410)
Acrescentou que desejava escrever sobre as condições da cidade, o "temperamento" do exército romano, as atitudes das províncias do império e terminar com as fraquezas e pontos fortes de todo o império. Embora bem recebida, no que diz respeito às realizações militares dos imperadores, a obra foi criticada como: altamente não militar; e carecendo de estratégia, cronologia e topografia. No entanto, escreveu de modo a prender a atenção do leitor.
Anais
Os Anais (Annales) começam com a morte de Augusto (reinou 27 a.C. - 14 d.C.) e terminam antes da morte de Nero; contudo, faltam dois anos de Tibério (reinou 14-37 d.C.), todos os anos de Calígula (reinou 37-41), metade dos de Cláudio (reinou 43-54) e os dois últimos anos de Nero. Ele escreveu:
O meu objectivo não é relatar detalhadamente cada acção, mas apenas aqueles que se destacaram pela excelência ou pela infâmia. Considero tal a função mais importante da história: não deixar que nenhuma acção digna seja esquecida e manter a reprovação da posteridade como um terror para as palavras e as ações malignas. (pág. 137)
Escreveu durante um período importante, quando o Império se estabelecia como potência dominante no Mar Mediterrâneo, mas repetiu o aviso de que a Germânia e a Ásia Menor poderiam representar problemas futuros. Embora parecesse admirar o primeiro imperador, Augusto, Tácito acreditava que, a partir dele, o Senado Romano se tinha tornado um órgão enfraquecido. O imperador Tibério, embora visto como um imperador relutante que achava o cargo intolerável, não escapou à ira de Tácito. Ele é visto como astuto, dissimulado e tirano. "... enquanto a sua mãe (Lívia) foi viva, ele foi uma mistura de bem e de mal; foi infame pela crueldade, embora ocultasse as suas devassidões, enquanto amou ou temeu Sejano." (pág. 227). Sejano, que governou Roma enquanto Tibério permanecia ocioso em Capri, é descrito como perverso e astuto. Cláudio é visto como um homem não apenas com uma personalidade ponderada, mas também dominado pelas suas esposas e libertos. Tácito aproveitou a oportunidade para demonstrar um exemplo único da sua sagacidade. Quando Cláudio foi informado da morte de Messalina, não perguntou como tinha morrido, mas simplesmente terminou a sua refeição. Tácito falou sobre a sua morte às mãos de Agripina:
Todas as circunstâncias foram, posteriormente, tão bem conhecidas que os escritores da época declararam que o veneno foi infundido nalguns cogumelos, uma iguaria favorita, e o seu efeito não foi percebido instantaneamente, devido ao estado letárgico e intoxicado do imperador. (pág. 283)
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O sucessor de Cláudio, o imperador Nero, é descrito como um homem que tratava Roma como se fosse a sua casa, especialmente depois de construir o seu Palácio Dourado: costumava convidar cidadãos para visitar a residência palaciana e os belos jardins. Tácito escreveu que Nero se sentiu livre após a morte, que tinha orquestrado, da sua amada mãe Agripina. Sobre o grande incêndio de Roma no ano de 64 e o palácio de Nero, Tácito escreveu:
Nero, nesta época, estava em Antium e não voltou a Roma até que o incêndio se aproximou da casa, que tinha construído para ligar o palácio aos jardins de Mecenas. (...). Entretanto, Nero aproveitou-se da desolação do país e ergueu uma mansão na qual as joias e o ouro, objetos há muito familiares, e bastante vulgarizados pela nossa extravagância, não eram tão maravilhosos quanto os campos e lagos... (págs. 377-379)
Infelizmente, encontra-se perdida a discussão de Tácito sobre a morte de Nero.
Conclusão
Ao longo das obras, Tácito lamenta a perda da República e fala do declínio do império, que atribui à continua decadência da decência da cidade — algo que o seu amado Cícero viu na sua própria época. Para explicar o propósito das obras e mostrar o seu respeito pelos colegas historiadores, escreveu:
Muito do que relatei e terei de relatar pode, talvez, eu sei, parecer insignificante para ser registado. Mas ninguém deve comparar os meus anais com os escritos daqueles que descreveram Roma nos tempos antigos. Eles contaram sobre grandes guerras, a tomada de cidades, a derrota e captura de reis, ou sempre que se voltavam por preferência para os assuntos internos... (os meus) trabalhos são circunscritos e inglórios; paz totalmente ininterrupta ou apenas ligeiramente perturbada, miséria sombria na capital, um imperador descuidado com a expansão do império, tal é o meu tema. (pág. 162)
Contudo, o historiador David Potter disse que Tácito estava bem ciente da liberdade que lhe era concedida para escrever a seu belo prazer, algo interdito aos autores dos primeiros anos da Roma imperial.

