Xerxes I (519-465, reinou 486-465 a.C.), também conhecido como Xerxes, o Grande, foi o rei do Império Persa Aquemênida. Seu título oficial era Shahanshah que, embora geralmente traduzido como “imperador”, na verdade significa “rei dos reis”. Ele é identificado como o Assuero da Pérsia no livro bíblico de Ester (embora seu filho, Artaxerxes I, também seja uma possibilidade, assim como Artaxerxes II) e é amplamente referenciado nas obras de Heródoto, Diodoro Sículo, Quintus Curtius Rufus e, em menor grau, em Plutarco. Heródoto é a principal fonte da história de sua expedição à Grécia. O nome `Xerxes' é a versão grega do persa `Khshayarsa' (ou Khashyar Shah), e por isso ele é conhecido no oeste como `Xerxes', mas no leste como `Khshayarsa'.
Sua mãe era Atossa, filha de Ciro, o Grande (reinou cerca de 550-530 a.C.), que fundou o Império Aquemênida. Ele foi, portanto, aceito como grande rei antes de ter que provar isso de qualquer forma. Xerxes é célebre pelos seus muitos projetos de construção em todo o seu império, mas é mais conhecido, tanto em fontes antigas como modernas, pela enorme expedição que montou contra a Grécia em 480 a.C., que, segundo Heródoto, reuniu a maior e mais bem equipada força de combate alguma vez colocada em campo até então.
Ele era filho de Dario, o Grande (reinou 522-486 a.C.) que, em um esforço para punir Atenas por seu apoio à revolta das colônias jônicas contra o domínio persa, em 499 a.C., invadiu a Grécia, em 492 a.C. Os persas foram derrotados pelas forças gregas na Batalha de Maratona, em 490 a.C., e Dario morreu em 486 a.C. antes que pudesse montar outra ofensiva. Coube, portanto, a seu filho realizar os desejos de seu pai e, ao reunir um exército de tal tamanho e força, Xerxes sentiu-se confiante em seu sucesso em alcançar o que o grande Dario não foi capaz de realizar, mas acabaria falhando, assim como seu pai.
Campanhas Iniciais
Xerxes não era o filho mais velho de Dario mas, como primogênito do seu casamento com Atossa, foi escolhido como sucessor. Após a morte de Dario, o meio-irmão mais velho de Xerxes, Artabazenes, reivindicou o trono, mas foi rejeitado porque sua mãe era uma plebeia, enquanto a mãe de Xerxes era filha do grande Ciro.
Ele se casou com a princesa Amestris, filha de Otanes, que se tornaria mãe de seus filhos Dario, Histaspes, Artaxerxes I (reinou 465-424 a.C., Aquâmenes, e as filhas Amitis e Rodogune. Ao assumir o trono, o comandante-em-chefe do Exército de Xerxes, Mardônio (que também era seu primo e cunhado), pressionou-o a renovar a campanha contra a Grécia. Os motivos, ao que parece, eram pessoais, pois ele esperava governar a nação conquistada como Sátrapa após a vitória de Xerxes.
O tio e conselheiro de Xerxes, Artabano, tentou persuadi-lo a abandonar a expedição, mas os argumentos de Mardônio prevaleceram. Mesmo assim, havia muitos assuntos a tratar, tais como a insurreição de Babilônia e as revoltas contra o domínio persa no Egito, e Xerxes gastou tempo considerável ao longo do ano 485 a.C. para reprimi-los e restaurar a ordem.
Embora seu avô Ciro fosse amigo da Babilônia, Xerxes subjugou a cidade e derreteu a estátua de ouro de Marduk, sua divindade padroeira. Isto foi uma afronta especial à dignidade e tradição da Babilônia porque um dos deveres religiosos do governante era agarrar as mãos da estátua de Marduk no festival de Ano Novo, a fim de assegurar a prosperidade contínua em todo o país; A Babilônia gozava assim de prestígio entre as cidades da Mesopotâmia como local deste ritual.
Ciro foi diligente em oficiar o festival, assim como Dario, mas Xerxes considerou isso questão de pouca importância. Ele ignorou as relações estabelecidas com antigos aliados, referindo-se a si mesmo como o Rei dos Persas e dos Medos, e tratou todos como sujeitos ao seu governo. A Babilônia se revoltou contra ele duas vezes antes dele sitiá-la e esmagar a rebelião.
Grécia: as Guerras Persas
Com a relativa paz estabelecida em seu império, ele voltou novamente sua atenção para a Grécia e a conquista. Ele passou quatro anos acumulando suprimentos e armamentos suficientes para a campanha e recrutando tantos homens quanto pôde de várias regiões para garantir sua vitória.
Heródoto conta a história de Pítias, o Lídio (descendente do rei Creso), cujos cinco filhos estavam entre os recrutados. Pítias hospedou generosamente o rei e seu exército em Sardes no inverno de 481-480 a.C. e ofereceu dar a Xerxes uma quantia considerável de dinheiro para a campanha, mas Xerxes recusou sua oferta e, em vez disso, recompensou Pítias por sua generosidade, acrescentando muito ao seu tesouro.
Antes da partida de Xerxes para o Helesponto, mau presságio na forma de eclipse apareceu no céu, mas Xerxes, assegurado por seus adivinhos de que isso não significava nada, prosseguiu com seus planos. Pítias, no entanto, reconheceu o presságio como aviso de destruição iminente e, encorajado pela generosidade e bondade de Xerxes, perguntou se o seu filho mais velho poderia ser libertado do exército para que tivesse pelo menos um filho para cuidar dele na sua velhice e continuar como herdeiro. Xerxes ficou furioso com este pedido, pois significava que Pítias duvidava das suas chances de sucesso. Ele removeu o filho mais velho das fileiras, cortou-o ao meio, colocou as duas seções do cadáver em cada lado da estrada e marchou com suas tropas entre eles.
Segundo Heródoto, o tamanho da força expedicionária de Xerxes era superior a dois milhões de homens e quatro mil embarcações. Diodoro Sículo e Quintus Curtius Rufus confirmam a enormidade do exército de Xerxes, embora seus números difiram de Heródoto e entre si. Para movimentar seus navios livremente, ele mandou cavar um canal no istmo de Ácio, perto do monte Athos, cujos restos ainda são visíveis nos dias atuais. Ele reuniu suas forças para cruzar o Helesponto em direção à Europa e, segundo Heródoto, observou-os enquanto estavam em formação. O tamanho do exército e sua majestade
primeiro deu a Xerxes sentimento de profunda satisfação, mas depois ele começou a chorar. Quando seu tio, Artabano (aquele que inicialmente expressou livremente sua opinião e aconselhou Xerxes a não atacar a Grécia) notou que Xerxes estava chorando, ele disse: “Meu senhor, há pouco tempo estava feliz com sua situação e agora está chorando. Que mudança total de humor! "Sim", respondeu Xerxes. "Eu estava refletindo sobre as coisas e me ocorreu quão curta é a soma total da vida humana, o que me fez sentir compaixão. Olhe para todas essas pessoas - mas nenhuma delas ainda estará viva daqui a cem anos"(VII.45-46).
Mesmo assim, Xerxes afastou da mente os pensamentos sobre a brevidade da vida e ordenou a travessia e a invasão da Grécia.
Os presságios, desde o início, não foram favoráveis à causa de Xerxes. Diz-se que o Helesponto se revoltou em sua travessia. Para movimentar sua enorme força, Xerxes construiu pontes sobre a água. Heródoto escreve:
Os Fenícios e os Egípcios a quem foi atribuída a tarefa começaram a construir as suas pontes (os Fenícios usando linho branco e os Egípcios papiro), tomando Abidos como ponto de partida e direcionando os seus esforços para o promontório na costa oposta – distância de sete estádios. Eles tinham acabado de cruzar o estreito quando irrompeu violenta tempestade que destruiu tudo completamente. Esta notícia deixou Xerxes furioso. Ele ordenou que seus homens dessem trezentas chicotadas no Helesponto e afundassem um par de grilhões no mar. Certa vez, ouvi dizer que eles também enviaram homens para marcar o Helesponto. Seja como for, ele disse aos homens que havia mandado bater no mar para insultá-lo em termos que nunca ouviria de um grego. “Água amarga”, disseram eles, esta é a sua punição por ter ofendido seu mestre quando ele não lhe fez mal. O Rei Xerxes irá lhe contrariar, com ou sem o seu consentimento. As pessoas estão certas em não se sacrificar por um riacho lamacento e salobro!” Assim, o mar foi punido por ordem dele e ele mandou decapitar os supervisores da ponte sobre o Helesponto. Os homens encarregados dessa tarefa grotesca cumpriram suas ordens e outra equipe de engenheiros conseguiu construir uma ponte sobre o Helesponto (VII.34-36).
Assim que chegaram ao outro lado, escreve Heródoto, "uma coisa realmente extraordinária aconteceu: um cavalo deu à luz uma lebre. Xerxes rejeitou-o como insignificante, embora o seu significado fosse transparente. Isso significava que, embora Xerxes andasse alto e orgulhoso no seu caminho para atacar a Grécia, ele voltaria ao seu ponto de partida correndo para salvar a sua vida" (VII.57).
Além da revolta das águas do Helesponto e do aparecimento da lebre, houve outros presságios que indicavam que a campanha de Xerxes terminaria mal, mas Xerxes rejeitou todos eles como sem sentido e prosseguiu em direção ao seu objetivo.
Os gregos, entretanto, mobilizaram as suas forças sob a direção de Atenas e enviaram forças para enfrentar a expedição persa e defender o continente. As batalhas de Artemísio e das Termópilas, travadas mais ou menos simultaneamente, proporcionaram aos persas vitórias (completas ou estratégicas) que lhes permitiram o acesso à Grécia, e eles marcharam sobre Atenas assim que puderam. Xerxes ficou tão furioso com a resistência ateniense aos seus desejos que queimou a cidade num ataque de fúria, do qual lamentou tanto que, mais tarde, referiria isso como o seu único remorso em toda a campanha.
A Batalha de Salamina
Neste ponto, os gregos, que tinham abandonado Atenas e a maior parte do campo, reuniram as suas forças ao largo da costa do continente, em Egina e no Peloponeso, e a sua marinha estava ancorada no estreito de Salamina. Xerxes convocou o conselho de guerra para decidir qual o seu próximo passo e se deveria enfrentar os gregos em Salamina, regressar para casa satisfeito com a destruição de Atenas ou considerar alternativas.
Mardônio aconselhou a favor de batalha naval, assim como todos os outros líderes aliados, exceto Artemísia da Cária, que forneceu opções a Xerxes. Ela alegou que ele não precisava fazer nada para garantir a vitória, mas manter os gregos no lugar até que seus suprimentos acabassem e eles pedissem a paz. Embora respeitasse claramente Artemísia e lhe agradecesse pelo conselho, escolheu a opinião da maioria e comprometeu-se com o envolvimento naval.
A Batalha de Salamina que se seguiu foi um desastre para a frota persa e custou caro a Xerxes. Após a derrota, ele consultou novamente Artemísia para obter conselhos e ela lhe disse que ele deveria voltar para casa e aceitar a oferta de Mardônio de permanecer para trás e conquistar os gregos em nome de Xerxes. Desta vez, ele aceitou o conselho dela e deixou o país, deixando Mardônio para trás para continuar o esforço de guerra. Mardônio foi derrotado no ano seguinte na Batalha de Plateia, travada no mesmo dia da igualmente decisiva Batalha de Micala, em 27 de agosto de 479 a.C.
Mardônio foi morto e, com a sua morte, as forças persas dispersaram-se e as ambições de Xerxes de subjugar a Grécia foram esmagadas. Tal como o presságio previra, Xerxes regressou para casa “mancando” com uma fração do seu exército e foi forçado a comer cascas de árvores, ervas daninhas e folhas porque não havia mais comida nas regiões por onde viajaram. Os homens foram devastados por doenças e muitos morreram de disenteria e, por isso, quando Xerxes atravessou o Helesponto e chegou a Sardes, já não tinha quase nenhum exército de que pudesse falar.
Projetos de Construção e Morte de Xerxes
Em casa, Xerxes concentrou seus esforços na construção de monumentos cada vez mais grandiosos e na conclusão de projetos de construção maiores do que os de seu pai. Ao fazê-lo, ele esgotou o tesouro real numa extensão ainda maior do que a sua expedição à Grécia já tinha feito. Ele manteve as estradas por todo o império, especialmente a Estrada Real pela qual as mensagens eram transportadas (o precursor do sistema de correio romano e, mais tarde, do sistema postal moderno) e dedicou tempo e fundos à expansão de locais como Susa e Persépolis.
Embora o palácio de Dario ainda existisse, Xerxes encomendou projeto de construção ainda mais elaborado para erguer seu próprio palácio opulento nas proximidades e também comandou a construção do Salão das Cem Colunas e do edifício que foi designado "O Harém" pelos arqueólogos (por causa da duplicação de salas idênticas em fileira), que pode ter servido como tesouro de Xerxes. O custo exorbitante destes projetos, juntamente com as despesas da expedição à Grécia, colocaram enorme pressão sobre os súbditos de Xerxes mediante pesados impostos. Xerxes, porém, pareceu não notar nenhum problema e continuou a fazer o que queria; por causa disso, alguns estudiosos marcam seu reinado como o início do declínio do Império Aquemênida.
De acordo com Heródoto, o gosto de Xerxes pelas mulheres e a falta de moderação o levaram a perseguir a esposa de seu irmão Masistes. Quando ela o recusou, ele casou um de seus filhos, Dario, com a filha de Masistes, Artaynte, na esperança de que, com essa união, pudesse se aproximar da esposa de seu irmão e conseguir seduzi-la. Ao ver Artaynte, porém, desejou-a mais do que à mãe e, ao se aproximar dela, ela concordou em ter um caso.
Heródoto relata que, mais ou menos nessa mesma época, Amestris, esposa de Xerxes, teceu para ele um lindo xaile, do qual ele gostou tanto que usava em todos os lugares. Artaynte admirou o xiale e, um dia, quando Xerxes lhe disse que lhe daria qualquer presente que ela pedisse, ela solicitou o xaile. Ele tentou fazer com que ela aceitasse qualquer outro presente porque sabia que, se desse o xaile à amante, sua esposa descobriria o caso. Ele havia dado sua palavra, porém, e Artaynte recusou qualquer outro presente, e então deu-lhe o xaile.
Como temia, Amestris ouviu que a amante de Xerxes estava usando o xaile e planejou vingança. Ela decidiu concentrar suas energias, não na amante, mas na mãe de Artaynte, a quem ela culpava por não criar uma filha adequada (e, talvez, porque ela havia adivinhado que Artaynte era a segunda escolha de Xerxes como amante). No banquete real conhecido como Tukta, que acontecia uma vez por ano e no qual o rei concedia presentes aos seus súditos, Amestris pediu que a esposa de Masistes lhe fosse entregue. Tal como aconteceu com Artaynte e o xaile, Xerxes implorou a Amestris que fizesse qualquer outro pedido, mas ela não o fez.
Xerxes então deu a esposa de seu irmão a Amestris que, segundo Heródoto, "mandou chamar os guardas pessoais de Xerxes e com a ajuda deles mutilou a esposa de Masistes. Ela cortou os seios e os jogou aos cães, cortou o nariz, as orelhas, os lábios e a língua, e depois a mandou de volta para casa totalmente desfigurada" (9:112). Em resposta, Masistes tentou levantar revolta em Bactra, mas Xerxes, ao saber de seus planos, prendeu-o e matou-o, a seus filhos e a todos os homens que ele havia reunido em sua causa.
Em cerca de 466 a.C., o general ateniense Címon (cerca de 510- cerca de 450 a.C.) chegou à Ásia Menor controlada pelos persas para ajudar as cidades gregas que haviam declarado sua independência e encorajar mais revoltas. Xerxes enviou grande força terrestre e marítima para lidar com Címon e trazer os gregos jônicos de volta ao controle persa. Posteriormente, a Ásia Menor poderia servir para lançar uma terceira invasão da Grécia que redimiria o fracasso anterior de Xerxes. Suas forças foram derrotadas por Címon, entretanto, na Batalha de Eurimedon em cerca de 466 a.C. e Xerxes abandonaram a esperança de conquistar a Grécia.
Ele então voltou aos seus projetos de construção e projetos de monumentos maiores e mais grandiosos para comemorar seu reinado e distingui-lo de seu pai. Seus planos de desenvolvimento foram interrompidos por seu assassinato por seu ministro Artabanus (homem diferente de seu tio de mesmo nome), que também assassinou seu filho Dario. O outro filho de Xerxes, Artaxerxes I, matou Artabanus, assumiu o trono e completou os grandes planos de construção de Xerxes em seu próprio nome e para sua maior glória.
