O Raid de Jameson foi uma tentativa oficiosa e fracassada por parte dos britânicos de assumir o controlo da República Bóer do Transvaal, na África Austral, em dezembro de 1895. Idealizada pelo milionário imperialista Cecil Rhodes, a incursão não conseguiu obter o apoio da comunidade de imigrantes no Transvaal e foi facilmente esmagada. Rhodes ficou desacreditado após o fiasco, e o aumento da suspeição mútua entre britânicos e bóeres acabou por conduzir à Segunda Guerra Anglo-Bóer (1899–1902).
O Controlo da África Austral
A Grã-Bretanha tinha estabelecido uma colónia na África Austral em 1806, a Colónia do Cabo, que incluía o Cabo da Boa Esperança, um importante porto de escala para os navios que navegavam de e para a Grã-Bretanha e as suas possessões na Ásia, particularmente a Índia Britânica. Em 1843, foi fundada outra colónia britânica, Natal. Os britânicos enfrentavam concorrência, não só por parte dos africanos indígenas, mas também dos bóeres, colonos brancos na África Austral que tinham ascendência holandesa ou francesa., e cujo nome bóer significa "agricultor". Eram também conhecidos como Afrikaners porque falavam africânder. Ao longo da década de 1830, à medida que os britânicos proibiam a escravatura e o crescimento populacional exercia demasiada pressão sobre a terra e os recursos em redor do Cabo, mais de 14 000 bóeres migraram para encontrar terras noutros locais. A partir destes novos territórios, formaram-se duas repúblicas bóeres: o Transvaal (fundado em 1852) e o Estado Livre de Orange (fundado em 1854).
Largamente rural e com apenas um comércio modesto ligado à agricultura, o destino da África Austral transformou-se radicalmente após a descoberta de diamantes em Kimberley, na Griqualândia, em 1867, e, posteriormente, pela notável descoberta de maciços depósitos de ouro em Witwatersrand, no Transvaal, em 1886. Entre estas duas descobertas, os britânicos tinham vindo a expandir estavelmente o seu controlo sobre a região. A Griqualândia, rebatizada pelos britânicos como Griqualândia Ocidental, tornou-se uma colónia da coroa em 1871. Em 1879 um exército britânico derrotou o Reino Zulu e a Zululândia tornou-se uma colónia da coroa em 1887. Os britânicos também adquiriram o Protetorado da Basutolândia (o atual Lesoto) em 1884 e o Protetorado da Bechuanalândia (o atual Botsuana) in 1885. A Suazilândia e a Pondolândia foram adicionadas à heterogénea coleção britânica de estados da África Austral em 1893 e 1894, respetivamente.
O sonho dos colonialistas britânicos era unir as várias colónias num único estado da África do Sul. Os bóeres, naturalmente, valorizavam a sua independência e não viam qualquer razão para se tornarem mais uma parte do Império Britânico. Na verdade, já tinham tido um aviso desta ambição entre 1877 e 1881 quando os britânicos, sob o pretexto de ataques de tribos africanas, tinham assumido temporariamente o controlo do Transvaal. A rivalidade pela terra e pelos recursos explodiu novamente em conflito na Primeira Guerra Anglo-Bóer (1880–1881). Os bóeres venceram este embate de escala bastante reduzida, mas um conflito maior e mais decisivo parecia agora ser apenas uma questão de tempo. Os homens que procuravam precipitar esta crise, mais cedo ou mais tarde, eram os milionários magnatas do ouro.
Os Magnatas do Ouro
Nos anos finais do século XIX, o governo britânico não estava totalmente decidido sobre como abordar os assuntos da África Austral. Por um lado, favorecia uma expansão mais natural do controlo britânico, limitando-se a esperar que a imigração britânica em número suficiente invertesse o equilíbrio e tornasse os bóeres uma minoria sem poder nas suas próprias repúblicas. Por outro lado, estava certamente preocupado com o facto de um Transvaal rico em ouro poder, mais cedo ou mais tarde, aliar-se a uma potência colonial rival, como a Alemanha, e de tal parceria poder ameaçar os interesses britânicos na África Austral e mais além. Outra preocupação prendeu-se com o facto de os investimentos britânicos no Transvaal totalizarem mais de 350 milhões de libras em 1899, sendo dois terços das minas de Witwatersrand propriedade de acionistas britânicos.
Os proprietários das minas de ouro de Witwatersrand incluíam figuras como Julius Wernher, Barney Barnato, Alfred Beit e Cecil Rhodes (1853–1902). Estes homens poderosos, que também estavam fortemente envolvidos nas minas de diamantes em Kimberley, eram conhecidos pelos britânicos como os "Randlords". O Presidente do Transvaal, Paul Kruger (1825–1904), chamava-lhes os "Gold Bugs" (os "Magnatas do Ouro"). Estes "magnatas" não estavam totalmente unidos, pois alguns preferiam um método mais pacífico de influenciar o governo do Transvaal em benefício próprio, enquanto outros estavam dispostos a tudo para aumentar o seu poder pessoal e os seus lucros.
Em meados da década de 1890, Joanesburgo tinha uma população de 100 000 habitantes, à medida que imigrantes de todo o mundo eram atraídos pelas minas de ouro do Transvaal. Os bóeres, zelosos da sua posição privilegiada, aprovaram leis no parlamento do Transvaal, o volksraad, para garantir que estes novos trabalhadores brancos, conhecidos como uitlanders ("estrangeiros"), não pudessem votar e não usufruíssem dos mesmos direitos de cidadania que os bóeres no Transvaal. Kruger aprovou uma lei segundo a qual um imigrante branco só poderia votar em eleições políticas após 14 anos de residência. Os magnatas das minas não viram com bons olhos as restrições impostas à franja mais qualificada da sua mão de obra. Os próprios trabalhadores brancos também não aceitaram de bom grado o facto de não terem direito de voto, mas continuarem a ter a obrigação de pagar impostos e de prestar serviço militar ao governo do Transvaal. As autoridades coloniais britânicas na Colónia do Cabo e em Natal certamente não concordavam com a discriminação de Kruger contra os imigrantes brancos, particularmente os súbditos britânicos, encontrando aqui, talvez, uma boa base moral para uma intervenção no Transvaal que, de outra forma, seria duvidosa.
Outro pomo de discórdia entre os magnatas das minas e o governo do Transvaal era a política deste último relativa ao consumo de álcool. Os proprietários das minas citavam estatísticas segundo as quais entre 15% e 25% dos trabalhadores negros ficavam de tal forma incapacitados pelo álcool que não conseguiam trabalhar. Os proprietários das minas queriam que o governo aprovasse uma lei de proibição da venda de álcool, mas o apelo foi ignorado até 1896 e, mesmo a partir daí, não foi aplicado na prática.
Por fim, os proprietários das minas queriam que o governo do Transvaal alterasse as leis fiscais, que afetavam proporcionalmente mais as minas mais profundas do que as minas de superfície dos pequenos prospetores. Além disso, o controlo que o governo do Transvaal exercia sobre os caminhos-de-ferro e a dinamite também encarecia os custos de extração de ouro daquela que já era uma atividade dispendiosa, dado o teor extremamente baixo do minério aurífero.
O Plano de Tomada de Controlo
O principal motor político entre os magnatas das minas era Rhodes, que era primeiro-ministro da Colónia do Cabo desde 1890. O historiador M. Corey faz o seguinte resumo de um dos imperialistas mais influentes da Grã-Bretanha:
Rhodes era um homem extravagante e dominador, propenso à grandiosidade nas suas ações, quer se tratasse de construir uma ponte ferroviária sobre as Cataratas Vitória ou de receber convidados internacionais em Groote Schuur, o palácio pessoal que renovou em estilo colonial holandês na Cidade do Cabo. Convencido da superioridade racial dos europeus, despossuiu vastos números de africanos negros e contribuiu para gerações de conflito racial na África Austral.
(pág. 378)
Rhodes tentou primeiro minar o Transvaal tentando comprar o único acesso ferroviário da república a um porto de mar, Lourenço Marques, então nas mãos de Portugal. A Alemanha interveio e a pressão diplomática impediu a venda. Rhodes recorreu então a medidas mais drásticas. Urdiu secretamente uma conspiração para derrubar o governo do Transvaal e assumir o controlo da república pela força. As tropas envolvidas foram recrutadas na própria British South Africa Company (BSAC - Companhia Britânica da África do Sul) de Rhodes, uma organização que ele fundara em 1889 e que obteve uma carta régia para colonizar as terras a norte do Transvaal, que se tornaram conhecidas como Rodésia (os atuais Zimbábue, Zâmbia e Maláui). Como se veio a verificar, e talvez de forma significativa para o futuro das repúblicas bóeres, este território não possuía a riqueza mineral encontrada no Transvaal.
Rhodes escolheu o Dr. Leander Starr Jameson (1853–1917), um administrador colonial, magistrado e veterano da guerra da BSAC na Matabelelândia, para liderar o golpe militar. Jameson era "um antigo médico extremamente astuto e beligerante" (James, pág. 261). O grupo de assalto era reduzido, uma vez que Rhodes esperava que, assim que entrasse no Transvaal, se lhe juntassem os uitlanders em Joanesburgo. O Comité de Reforma dos Uitlanders vinha a exigir maiores direitos para os seus membros há vários anos. Os uitlanders há muito que recebiam dinheiro de proprietários de minas como Rhodes, Beit e Wernher para fomentar a agitação.
A força de Jameson, composta por 500 a 600 cavaleiros, que incluía polícias da BSAC, recebeu uma palestra motivacional do Coronel Grey, da polícia da Bechuanalândia, que explicou o motivo do golpe, mas também referiu que nem a Rainha Vitória nem o governo britânico sabiam de nada. Aos homens foi dito simplesmente: "Vão lutar pela supremacia da bandeira britânica na África do Sul" (James, pág. 108). A força estava bem equipada, tendo sido distribuídas a todos os homens as novas espingardas de repetição Lee-Metford. Jameson dispunha ainda de oito metralhadoras Maxim e de três peças de artilharia.
Entretanto, apesar de os agentes de Rhodes terem distribuído incentivos em dinheiro e armamento, a revolta dos uitlanders nunca aconteceu. Rhodes deixou ao critério de Jameson a decisão de avançar ou não de qualquer das formas. Jameson decidiu prosseguir com o golpe independentemente disso. Os invasores entraram no Transvaal a partir dos seus pontos de concentração em Pitsani e Mafikeng, no Protetorado da Bechuanalândia, a 29 de dezembro. A expedição tinha sido bem planeada, com simpatizantes da causa no Transvaal a aguardar com provisões de comida e cavalos frescos. A força devia viajar com o equipamento reduzido ao mínimo, de modo a conseguir percorrer rapidamente as cerca de 273 km (170 milhas) até Joanesburgo em apenas três dias, embora ainda se tenha encontrado espaço para um grande barril de brandy e um par de caixas de champanhe.
A Derrota e a Desonra
Infelizmente para Jameson, o serviço de informações do governo do Transvaal tinha conhecimento da incursão e um comité de receção foi mobilizado. Tinham também descoberto um dos depósitos ocultos de provisões de Jameson. O comando bóer destacado em Lichtenburg foi enviado para os intercetar, mas falhou o grupo de Jameson. Um segundo comando foi mobilizado — esperava-se que os homens bóeres entre os 16 e os 60 anos servissem o Estado sempre que necessário. Este segundo comando dirigiu-se para Krugersdorp, perto de Joanesburgo. A força do Transvaal, liderada pelo General Piet Cronjé, superava em número a coluna de Jameson e derrotou-a facilmente quando os dois grupos se encontraram a 1 de janeiro. Os invasores retiraram-se para a proteção do afloramento rochoso de Doornkop, mas rapidamente se viram com pouca munição. Os bóeres tinham trazido uma peça de artilharia pesada de campanha para bombardear o kop, e Jameson foi obrigado a render-se. Vários prisioneiros foram capturados e Jameson foi detido. Os invasores sofreram 16 mortos e 56 feridos, enquanto os bóeres registaram apenas uma vítima mortal.
Jameson acabou por ser preso em Inglaterra. A acusação foi a de alistamento num exército estrangeiro, uma ação proibida pela Lei de Alistamento Estrangeiro (Foreign Enlistment Act, que ainda hoje se aplica). A sentença foi de 15 meses de prisão, mas tal não prejudicou de forma duradoura a carreira colonial de Jameson, dado que foi eleito primeiro-ministro da Colónia do Cabo em 1904. A reputação de Rhodes, por outro lado, foi gravemente danificada pelo fiasco. A Coroa Britânica repudiou a incursão. Rhodes, quando tudo veio a público após a realização de inquéritos oficiais tanto na Colónia do Cabo como em Londres, foi obrigado a demitir-se, em 1896, tanto do cargo de primeiro-ministro da Colónia do Cabo como do de diretor da BSAC.
A Segunda Guerra Bóer
O secretário colonial em Londres entre 1895 e 1902, Joseph Chamberlain, é frequentemente culpado de alimentar relações hostis com os bóeres, mas existem muito poucas provas incontestáveis de que alguma vez o tenha feito. Alfred Milner, contudo, fê-lo. Milner foi o Alto Comissário Britânico na África do Sul entre 1897 e 1905. Como observa o historiador S. C. Smith, ao "manipular a imprensa tanto na África do Sul como na Grã-Bretanha, Milner criou um clima de opinião que tornou o compromisso difícil" (pág. 90). A situação não foi ajudada pelo facto de o Kaiser Guilherme II da Alemanha (reinado 1888–1918) ter enviado uma mensagem de telegrama muito publicitada a Kruger, congratulando-o pela sua rejeição bem-sucedida do Raid de Jameson.
Uma conferência foi organizada para discutir a questão dos direitos dos uitlanders, a Conferência de Bloemfontein de junho de 1899, mas foi Milner quem interrompeu abruptamente esta conferência, uma ação que "despedaçou a confiança dos bóeres na boa-fé britânica" (Idem). A suspeição do governo do Transvaal em relação ao imperialismo britânico reflete-se no facto de este já ter quadruplicado o seu orçamento militar e assinado uma aliança defensiva com o Estado Livre de Orange. Nos quatro anos seguintes ao Raid de Jameson, Kruger equipou os seus bóeres com 80 000 das mais recentes espingardas alemãs Mauser e 80 milhões de munições.
Talvez inevitavelmente, o conflito eclodiu em outubro de 1899, a Segunda Guerra Anglo-Bóer. Como afirmou o futuro primeiro-ministro da África do Sul, Jan Smuts: "O Raid de Jameson foi a verdadeira declaração de guerra no conflito Anglo-Bóer" (Fremont-Barnes, pág. 22). A Grã-Bretanha acabou por vencer este violento embate em 1902, mas a sua reputação internacional foi gravemente afetada devido ao uso de táticas de terra queimada e de campos de concentração civis. As duas repúblicas bóeres e as colónias britânicas foram depois unidas numa única colónia em 1910, a União Sul-Africana.
