Sam Houston (1793-1863) foi um soldado norte-americano na Guerra de 1812, um estadista, um general na Revolução do Texas, o primeiro presidente da República do Texas e um cidadão da Nação Cherokee. Era um homem branco que vivia entre os nativos americanos, um agricultor que detestava a agricultura, um proprietário de escravos que se opunha à expansão da escravatura, um sulista que apoiava as políticas do Norte e um político que não gostava de política.
Podia ser considerado um homem de dois mundos em qualquer momento da sua vida, movendo-se entre diferentes esferas, sem se sentir completamente à vontade em nenhuma delas. Carismático e um líder nato, Houston atraía as pessoas para si, ao mesmo tempo que, muitas vezes, as afastava. Continua a ser uma das figuras mais fascinantes e controversas da história americana.
A Infância e os Cherokee
Sam Houston nasceu a 2 de março de 1793, filho de Samuel Houston e de Elizabeth Paxton Houston, do condado de Rockbridge, na Virgínia. Tinha cinco irmãos e três irmãs, todos nascidos na plantação de Timber Ridge, onde trabalhavam escravos. Samuel Houston faleceu em 1807 e a sua mulher mudou-se com a família para Maryville, no Tennessee.
Sam Houston frequentou a escola durante cerca de meio ano quando era criança e, mais tarde, pode ter frequentado uma academia perto de Maryville, mas foi, em grande parte, autodidata, passando o tempo na biblioteca do pai a ler literatura clássica e história.
Embora tivesse nascido numa família de agricultores, não tinha apetência para o campo, preferindo passar o tempo a ler ou a explorar os bosques à volta de casa. Os seus irmãos mais velho não acharam piada ao que viam como a sua "disposição ociosa" e tentaram forçá-lo a assumir mais responsabilidades. Em resposta, Houston fugiu de casa quando tinha 16 anos e foi viver com os Cherokee.
Ele foi acolhido pelo chefe deles, Ahuludegi (também conhecido como John Jolly), na Ilha Hiwassee, aprendeu a sua língua, observou as suas tradições e recebeu o nome de "Raven" (Corvo). Permaneceu com os Cherokee durante três anos, regressando ao mundo seu mundo em 1812 e assumindo um cargo de professor em Maryville, na escola de uma só sala.
A Guerra de 1812
A vida sedentária em Maryville não lhe agradava e, por isso, aos 20 anos, alistou-se no exército e, em 1813, foi soldado na Guerra de 1812, combatendo os britânicos e os seus aliados nativos americanos, nomeadamente os Creek. Subiu rapidamente na hierarquia e, na altura da Batalha de Horseshoe Bend (27 de março de 1814), já era terceiro-tenente. O estudioso Michael Wallis descreve as ações de Houston durante a batalha:
Um dos primeiros soldados a escalar o muro para entrar na aldeia foi um tenente ousado do Tennessee chamado Sam Houston… [que] foi atingido na virilha por uma flecha, que pediu a um colega tenente para retirar. Quando o homem tentou, mas não conseguiu, Houston brandiu a espada e gritou uma ameaça, levando o oficial perplexo a arrancar a flecha com farpas e, juntamente com ela, um pedaço de carne e uma torrente de sangue.
Ordenado por Jackson a retirar-se da batalha, Houston pegou num mosquete e regressou à luta, apenas para ser atingido duas vezes por balas no ombro e no braço. Apesar da perda de sangue, Houston conseguiu, de alguma forma, sobreviver, mas a ferida causada pela flecha nunca sarou completamente e atormentou-o durante o resto da sua longa e ilustre vida.
(pág. 120)
Também a servir sob o comando de Andrew Jackson durante as Guerras dos Creek estava o jovem batedor e caçador David Crockett — embora os dois só se fossem realmente conhecer anos mais tarde.
A Política
Jackson ficou especialmente impressionado com o jovem Houston e promoveu-o a segundo-tenente, garantindo que este mantivesse o seu posto após a guerra e ajudando-o a conseguir um cargo como funcionário administrativo do exército. Jackson, ciente da experiência de Houston junto dos Cherokee, nomeou-o subagente na remoção da tribo do Tennessee, em 1817.
Em 1818, quando John C. Calhoun criticou duramente Houston por usar trajes tradicionais cherokee numa reunião entre Calhoun e representantes cherokee, Houston renunciou à sua patente, deixou o exército e regressou por algum tempo à vida indígena, ajudando no reassentamento das tribos cherokee no Oeste.
Voltando novamente ao seu mundo nativo, decidiu tornar-se advogado, estudou com o juiz James Trimble em Nashville, no Tennessee, e foi eleito procurador distrital da cidade em 1819. Em 1823, concorreu a um lugar na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos e venceu. Em 1827, foi eleito governador do Tennessee.
Houston casou-se pela primeira vez em 1829 com Eliza Allen, mas o casamento fracassou rapidamente. Pouco tempo depois, Houston demitiu-se do cargo de governador e regressou à vida entre os Cherokee. O estudioso James L. Haley escreve:
No dia em que se demitiu, Houston recebeu a visita de David Crockett, congressista do Tennessee no seu primeiro mandato e também protegido de Jackson, que lhe perguntou o que o antigo governador tencionava fazer a seguir. Enquanto tenente de infantaria e agente para os índios, Houston tinha exilado os seus Cherokee Hiwassee para oeste, para o Território do Arkansas; agora, respondeu ele, tencionava partilhar o exílio com eles.
(pág. 60)
O regresso ao mundo dos Cherokee não decorreu sem problemas. Houston tinha um longo historial com o álcool, mas agora, na sequência do seu casamento fracassado, bebia mais do que o habitual. Haley observa:
O consumo pessoal de álcool por parte de Houston era repugnante até mesmo para os Cherokee, cuja tolerância para com os bêbados era bem conhecida. Até mesmo o nome indígena de Houston, o Corvo, que ele sempre ostentava com tanto orgulho, era ocasionalmente substituído por uma alcunha menos lisonjeira… «Grande Bêbado».
(pág. 74)
Com o tempo, Houston diminuiu o consumo de álcool e casou-se com Tiana Rogers Gentry, com quem geria um entreposto comercial perto de Fort Gibson. Os Cherokee, no entanto, reconheceram que Houston poderia ser especialmente influente nas relações com o governo dos EUA e, por isso, pediram-lhe que fosse a Washington, D.C., para os ajudar nas negociações relativas aos suprimentos prometidos. Em 1832, o congressista William Stanberry acusou Houston de fraude por ter tentado fornecer rações aos Cherokee e, quando Stanberry se recusou a responder às repetidas negações de Houston quanto a qualquer irregularidade, Houston encontrou o congressista e espancou-o com uma bengala.
A Câmara dos Representantes censurou Houston, que foi multado. Desta vez, em vez de fugir de volta para o mundo dos Cherokee, Houston dirigiu-se para sul, para o território mexicano de Coahuila y Tejas — que em breve viria a ser conhecido como Texas —, deixando para trás a mulher e os Cherokee.
A Revolução do Texas
Os historiadores ainda hoje debatem a razão pela qual Houston se dirigiu ao Texas, mas, independentemente dos pormenores, parece certo que o fez pela mesma razão que tantos outros: para recomeçar a vida. Houston chegou em dezembro de 1832 e, em 1833, foi batizado na Igreja Católica Romana, um requisito do governo mexicano para ter direito a terras. Recebeu a sua concessão de terras e, graças à sua reputação como soldado e político, foi eleito para representar Nacogdoches na Convenção de 1833.
A Convenção de 1832 tinha sido convocada para resolver os problemas entre os colonos anglo-americanos e o governo mexicano. O México tinha convidado colonos anglo-americanos a colonizar o seu distrito setentrional a partir de 1821 — as primeiras famílias trazidas por Stephen F. Austin —, mas, a partir de 1830 e com a escalada dos conflitos de Anahuac em 1832, os texanos mostravam-se cada vez mais favoráveis à declaração de independência do México e à formação da sua própria república.
A Convenção de 1833 teve uma natureza diferente da reunião anterior e centrou-se na declaração de independência. Houston apoiava esta linha de ação e presidiu à comissão que redigiu uma versão preliminar da constituição da nova república. Nesse mesmo ano, Austin deslocou-se à Cidade do México para tentar resolver os problemas pessoalmente e foi detido por incitar à rebelião no Texas. Passou os dois anos seguintes na prisão, o que apenas veio atiçar ainda mais o ímpeto do «Partido da Guerra» no Texas — do qual faziam parte William Barret Travis e James Bowie.
A Revolução do Texas eclodiu na Batalha de Gonzales (2 de outubro de 1835), e Houston foi eleito general do exército em novembro. Um grande problema, no entanto, era que não havia exército, apenas milícia, que era comandada por Stephen F. Austin após a sua libertação da prisão. Austin comandou as tropas no outono de 1835 até se demitir em dezembro e ser enviado como delegado aos Estados Unidos para trazer armas, munições, provisões e recrutas que formariam um exército.
Houston não participou em nenhuma das batalhas da Revolução do Texas no outono de 1835. Edward Burleson assumiu o comando de Austin em dezembro, derrotando as forças mexicanas sob o comando do general Cos no Cerco de Béxar (12 de outubro a 11 de dezembro de 1835), capturando o Álamo e forçando o exército mexicano a abandonar o Texas.
Em janeiro de 1836, Houston enviou James Bowie ao Álamo para retirar o armamento e os suprimentos e, em seguida, destruí-lo, a fim de impedir que o forte fosse tomado pelo presidente/general Antonio López de Santa Anna, pois Houston tinha a certeza de que este regressaria para tentar reconquistar o Texas. Bowie e o coronel James C. Neill insistiram, no entanto, em que o Álamo fosse mantido e enviaram um pedido de reforços e suprimentos.
Houston acreditava que Santa Anna não conseguiria regressar ao Texas até à primavera, talvez no início de março, mas este chegou a San Antonio de Béxar a 23 de fevereiro, dando início ao cerco ao Álamo, que era então comandado conjuntamente por William Barret Travis e James Bowie. A 24 de fevereiro, Bowie adoeceu e Travis assumiu o comando total, enviando nesse mesmo dia a sua famosa carta «Vitória ou Morte», na qual pedia ajuda.
Houston tinha chegado a Washington-on-the-Brazos para a convenção convocada para discutir a declaração de independência, voltou a beber em excesso e, segundo o estudioso William C. Davis, descartou a carta de Travis como «uma maldita mentira», alegando que «não havia forças mexicanas ali» (pág. 547). Haley discorda de Davis quanto a isto (e também rejeita os relatos sobre o alcoolismo de Houston), mas, seja qual for a razão, é claro que Houston não respondeu à carta de Travis e também dissuadiu outros de tomarem medidas para aliviar o cerco ao Álamo.
A guarnição de San Antonio caiu a 6 de março de 1836 na Batalha do Álamo, e todos os defensores, incluindo David Crockett, foram mortos. Quando a notícia da queda chegou a Houston, em Gonzales, a 11 de março, ele descartou-a como mais mentiras até que fosse confirmada no dia 13. Houston ordenou então que Gonzales fosse incendiada e que a população fosse evacuada, dando início à chamada «Runaway Scrape» (fuga em massa).
O coronel Juan Seguín comandou a retaguarda, protegendo o exército de Houston enquanto este fugia de Santa Anna, e comandou uma companhia de cavalaria tejana na Batalha de San Jacinto (21 de abril de 1836), onde Houston derrotou Santa Anna. O governo provisório tinha declarado a independência a 2 de março de 1836 e, agora, com a vitória de Houston, a República do Texas podia ser estabelecida. Naquele outono, Houston derrotou Stephen F. Austin nas eleições e tornou-se o primeiro presidente da nova república.
O Primeiro Presidente da República do Texas
Como «Herói de San Jacinto», Houston era extremamente popular e, em 1837, a nova capital da República do Texas recebeu o seu nome. O povo apoiava a anexação do Texas pelos Estados Unidos, mas a Constituição do Texas de 1836 identificava claramente a República do Texas como uma nação escravocrata, e o presidente Andrew Jackson rejeitou a anexação, uma vez que isso perturbaria o equilíbrio entre os estados escravistas e os estados livres.
Uma vez que a Constituição do Texas proibia que um presidente exercesse um segundo mandato, Houston deixou o cargo em 1838, e o seu vice-presidente, Mirabeau B. Lamar, assumiu o poder, revogando muitas — se não todas — as políticas progressistas que Houston tinha estabelecido e, através de uma série de guerras imprudentes e desnecessárias, mergulhou a república na dívida.
Em 1840, Houston casou-se com Margaret Moffette Lea, de 21 anos. Margaret era uma batista rigorosa e obrigou Houston a deixar de beber, de dizer palavrões e de se envolver em brigas. Também o convenceu a converter-se à sua fé, tendo ele sido batizado mais tarde, em 1854.
Houston regressou à presidência em 1841 e pressionou pela anexação pelos EUA. Renunciou novamente em 1844, e a anexação foi finalmente concretizada por Anson Jones e pelo presidente dos EUA, James K. Polk, em 1845, um acontecimento que desencadeou a Guerra Mexicano-Americana (1846-1848).
O Senador, o Governador e a Guerra Civil
Houston não desempenhou qualquer papel na guerra, tendo sido eleito senador dos EUA pelo Texas em fevereiro de 1846 e viajado para Washington, D.C. Nessa qualidade, rompeu com os seus colegas senadores do Sul ao apoiar legislação antiescravagista, nomeadamente a Lei do Oregon de 1848, que estabelecia o Oregon como um território livre. Também procurou repetidamente obter nomeações para a presidência, mas sem sucesso.
Opôs-se à Lei do Kansas-Nebraska de 1854, acreditando que esta iria fomentar novas divisões políticas e sociais em torno da escravatura e que também resultaria na perda de mais terras por parte dos nativos americanos. Quando a legislação foi aprovada, Houston abandonou o Partido Democrata e alinhou-se com o Partido Americano (parte do Partido Know Nothing). Em 1856, não conseguiu obter a nomeação como candidato presidencial pelo seu partido e, em 1857, cansado da política de Washington, D.C., anunciou a sua candidatura a governador do Texas, cargo que conquistou em 1859.
Em 1861, quando o Texas estava a ponderar a secessão, Houston opôs-se a ela e, quando o estado se separou a 1 de fevereiro de 1861, Houston recusou-se a prestar juramento de lealdade à Confederação e foi destituído do cargo.
Estabeleceu-se em Huntsville, no Texas — como cidadão comum pela primeira vez em décadas — e foi, de um modo geral, rejeitado pelos vizinhos devido à sua posição pró-União. A família, juntamente com os seus escravos, alugou uma habitação de dois andares conhecida como Steamboat House (por se assemelhar a um barco fluvial), e Houston parece ter desfrutado do seu tempo fora do cargo. Contrariamente à lenda, não há provas de que Houston tenha libertado os seus escravos depois de lhes ter lido o rascunho inicial da Proclamação de Emancipação. Os escravos de Houston ainda constavam como sua propriedade quando ele morreu de pneumonia a 26 de julho de 1863. Os escravos de Houston foram emancipados, juntamente com todos os outros no Texas, a 19 de junho de 1865 — data hoje comemorada pelo Juneteenth.
Conclusão
Já foram escritas mais de 60 biografias sobre Houston, e ele foi retratado em peças de teatro, programas de televisão e filmes, desde The First Texan, de 1956 (protagonizado por Joel McCrea), até The Alamo, de 2004, no qual é interpretado por Dennis Quaid. Houston continua a fascinar porque é muito difícil de definir. Haley escreve:
Era uma figura de enormes contradições. O Sam Houston que adorava literatura clássica e conseguia recitar longos trechos de Homero, cujo vocabulário ativo excedia o de qualquer um dos seus contemporâneos, detestava tanto a escola que abandonou as aulas após menos de um ano de educação formal. O Houston cuja energia incansável o impulsionava a passar noites sem dormir a trabalhar e a estudar sentia-se tão entediado com empregos normais que, aos dezasseis anos, fugiu da família para viver com os índios Cherokee. O jovem que viveu como filho adotivo de um chefe Cherokee… mais tarde sofreu ferimentos quase fatais ao lutar contra outros índios – os Creeks… E o Houston que, enquanto senador, procurou proteção para os colonos americanos na fronteira, também se manifestou veementemente contra a traição brutal do governo para com os nativos americanos.
(pág. XII)
O caráter contraditório de Houston garantiu que ele nunca se sentisse completamente à vontade em qualquer papel definível, e é precisamente este aspeto da sua personalidade que contribui para o interesse público contínuo nele. Houston continua a ser hoje o que foi em vida – uma figura enigmática, maior do que a vida, mas com tantos aspetos familiares que parece haver algo nele com que qualquer pessoa se possa identificar.
