A Sturmabteilung (SA - Destacamento de Assalto), popularmente conhecida como os Camisas Castanhas devido ao seu uniforme, era o braço paramilitar do Partido Nazi alemão liderado por Adolf Hitler (1889-1945). A SA foi formada em 1921 e liderada de forma mais célebre por Ernst Röhm (1887-1934), com o propósito de intimidar partidos rivais e atacar aqueles identificados como inimigos do nazismo.
Hitler tornou-se cauteloso em relação ao crescente poder da SA e, envergonhado pela sua ilegalidade após ser chanceler da Alemanha em 1933, mandou assassinar Röhm e figuras-chave da SA a 30 de junho de 1934, um evento conhecido como a 'Noite das Facas Longas'. As funções da SA, tais como a gestão de campos de concentração, foram assumidas por outro grupo paramilitar nazi, as SS (Schutzstaffel).
A Função e Liderança da SA
Hitler tornara-se o líder do NSDAP (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei - Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães), sediado em Munique, em 1921. O partido não era socialista nem estava minimamente interessado nos trabalhadores, mas Hitler tinha escolhido o nome para dar ao partido ultranacionalista o apelo mais amplo possível. Conhecido como o Partido Nazi, era também veementemente antissemita e contra a ordem estabelecida alemã.
O grupo paramilitar SA ou Sturmabteilung foi formado oficialmente em 1921. Como Hitler afirmara: "Devemos lutar com ideias, mas, se necessário, também com os punhos" (Hite, pág. 116). Ele poderia ter acrescentado, também, as armas tradicionais da SA: o cassetete de borracha, tubos de metal e soqueiras. Aos homens da SA não eram dadas armas de fogo, uma vez que tal os tornaria rivais do exército, do qual Hitler precisava do apoio se pretendesse algum dia chegar ao poder. Em 1921, o próprio Hitler liderou um ataque brutal da SA a um político rival que estava a discursar na Baviera. Hitler foi detido e passou um mês na prisão pela agressão. Com a sua popularidade incólume após o incidente, Hitler comentou que "o Movimento Nacional-Socialista impedirá, no futuro, impiedosamente — se necessário pela força — todas as reuniões ou palestras que sejam suscetíveis de distrair as mentes dos nossos compatriotas" (Shirer, pág. 43).
À SA foram atribuídas várias funções para promover a causa nazi:
- proteger as reuniões e os encontros do Partido Nazi;
- distribuir propaganda nazi, tais como cartazes e panfletos;
- agredir partidos políticos rivais e grupos paramilitares opositores;
- intimidar os eleitores nas mesas de voto;
- aterrorizar inimigos em geral (especialmente judeus e ativistas políticos rivais) através de ataques físicos nas ruas, detenções e, em segredo, levar a cabo espancamentos e tortura;
- fazer com que os nazis parecessem bem-sucedidos, disciplinados e importantes.
O primeiro líder da SA foi Hans Ulrich Klintzsch (1898-1959), um antigo tenente da marinha. Hermann Göring (1893-1946), o herói da força aérea da Primeira Guerra Mundial (1914-18), foi selecionado para liderar a SA a partir de março de 1923, uma vez que Hitler pensava que a sua reputação traria um impulso no recrutamento. A partir de maio de 1924, o líder seguinte da SA foi Ernst Röhm, um homem baixo, atarracado e implacável, que ostentava impressionantes cicatrizes faciais resultantes de ferimentos sofridos na Primeira Grande Guerra. Röhm tinha sido fundamental na formação do braço de "ginástica e desporto" do Partido Nazi, que posteriormente se transformara na SA.
O Uniforme e os Membros da SA
Os membros da SA usavam uniformes excedentários do exército alemão; de resto, muitos dos membros tinham servido nas forças armadas. A partir de 1924, a SA começou a usar o uniforme tropical do exército, daí a sua alcunha, os "Camisas Castanhas", que se tornou obrigatório a partir de 1926. A adoção de um uniforme castanho conferiu à SA um visual distintivo, tal como o ditador fascista italiano Benito Mussolini (1883-1945) fizera anteriormente com o seu próprio grupo paramilitar, os "Camisas Negras". Os membros da SA usavam também a bandeira da suástica do Partido Nazi como braçadeira. O respeito pelo uniforme e a forma exata como se comportar ao usá-lo eram estipulados por éditos como os "Dez Mandamentos das Tropas de Assalto":
A camisa castanha é uma veste de honra. Quem a usa deve, acima de tudo, representar a mundividência nacional-socialista e comportar-se de forma adequada. Quando o soldado das tropas de assalto se reúne para uma marcha, é especialmente importante que não tenha as mãos nos bolsos nem um cigarro na boca.
(Range, pág. 176)
Os membros da SA, que eram todos voluntários, provinham de todos os setores da sociedade. A maioria dos recrutas eram homens com idades compreendidas entre os 18 e os 35 anos. Embora a classe operária fosse o grupo social mais representado no seio da SA, os registos policiais mostram que uma proporção significativa dos soldados de assalto provinha da classe média. Muitos recrutas da SA tinham sido anteriormente membros de grupos de jovens e de outros grupos paramilitares, como os Freikorps. Como nota o historiador F. McDonough: "É muito importante enfatizar que a violência na Alemanha não começou com Hitler e os nazis. Eles ampliaram algo que se tinha tornado uma parte integrante da cultura política de Weimar" (pág. 9).
Quando os membros da SA morriam em combate, a máquina de propaganda do partido entrava em ação e produzia em massa artigos sobre os mortos, descrevendo-os repetidamente como mártires. Um jovem nazi da SA, Horst Wessel, foi morto em combate contra comunistas em 1930. Um poema escrito por Wessel foi musicado — a Canção de Horst Wessel (Horst-Wessel-Lied) — e tornou-se o hino da SA. O próprio Hitler proferia frequentemente discursos nos funerais dos soldados de assalto da SA.
Os membros da SA eram muito frequentemente marginais, desempregados ou indivíduos que simplesmente queriam juntar-se a uma organização que sentiam poder melhorar a Alemanha. A alimentação e o alojamento gratuitos inspiraram muitos jovens a alistar-se. Alguns recrutas eram motivados ideologicamente, como por exemplo pelo ódio aos judeus e aos comunistas. O uniforme, o sistema de patentes, os discursos de Hitler e o facto dos grupos da SA estarem habitualmente sediados numa taberna local eram outras fontes de atrativo. Como em qualquer grupo, existia também um sentimento de pertença e camaradagem. Os membros ajudavam-se mutuamente, como no esquema de compra da própria marca de cigarros da SA, cujos lucros revertiam para os soldados que tinham sido gravemente feridos nos confrontos violentos, demasiado comuns, com grupos de partidos rivais. Finalmente, havia aqueles que eram simplesmente viciados no poder e nas oportunidades para a violência sádica que a SA podia proporcionar, não só nas suas batalhas de rua com rivais políticos de esquerda, como a Liga de Combatentes Vermelhos do Partido Comunista (KPD - Kommunistische Partei Deutschlands), mas também na detenção de inocentes e nos espancamentos e torturas invisíveis realizados em caves secretas, que apenas cresceram em frequência à medida que os nazis ganhavam poder político.
A SA manteve-se uma organização útil para os propósitos de Hitler ao longo do início da década de 1930, especialmente quando se considerava necessário algum tipo de banditismo anónimo.
A SA foi quase demasiado bem-sucedida e o crescimento do número de membros no início da década de 1920 colocou Hitler em alerta. O líder nazi decidiu criar um grupo de guarda-costas pessoal, muito menor em termos de contigente mas mais leal, chamado Stoßtrupp-Hitler (Tropa de Choque de Hitler). No entanto, a SA esteve envolvida no infame 'Putsch da Cervejaria' ou 'Putsch de Munique', o golpe nazi fracassado em novembro de 1923. Após o fracasso do putsch, Hitler e os seus principais associados, incluindo Röhm, foram considerados culpados de traição e presos, embora por sentenças que acabaram por ser curtas. O resultado imediato do golpe foi um revés, uma vez que o Partido Nazi e a SA foram temporariamente proibidos (a organização voltaria a ser proibida temporariamente em 1932) e a Stoßtrupp-Hitler foi dissolvida. Contudo, a publicidade do processo judicial contra Hitler e as suas excelentes capacidades de oratória acabaram por aumentar o interesse tanto na causa nazi como na SA. Temporariamente chamada Frontbann enquanto esteve proibida, Röhm, com a bênção de Hitler, supervisionou um enorme aumento no número de membros da SA, passando de 2.000 em 1923 para 30.000 soldados de assalto em 1924.
A Rivalidades com as SS
Receoso de Röhm e do poder da SA, Hitler criou em 1925 um grupo paramilitar rival, a Schutzstaffel ou SS, que lhe era pessoalmente leal. Neste período inicial, Hitler empregou a organização das SS como "esquadrões de proteção", a sua guarda-costas pessoal, como uma espécie de polícia do partido e para, de um modo geral, demonstrar o poder nazi em público. A partir de janeiro de 1929, as SS foram lideradas por Heinrich Himmler (1900-1945), um veterano do 'Putsch de Munique' que supervisionaria uma expansão gigantesca das SS nos anos seguintes.
Como parte desta reorganização dos executores do Partido Nazi, Röhm foi afastado da chefia da SA em maio de 1925. Hitler, preocupado com as ambições de Röhm de criar uma organização militar revolucionária que pudesse rivalizar com o exército alemão (que estava limitado em tamanho pelo Tratado de Versalhes a 100.000 homens), assumiu então o controlo pessoal da SA. Röhm, entretanto, partiu para a Bolívia, onde permaneceu por cinco anos. O novo líder da SA a partir de 1926, escolhido por Hitler, foi Franz Pfeffer von Salomon (1888-1968), cargo que ocupou até 1929.
Em 1929, a SA contava já com 100.000 membros. Otto Wagener (1888-1971) chefiou a SA durante um período, mas Röhm foi reintegrado como chefe da organização em janeiro de 1931. Por esta altura, com os resultados eleitorais a serem inferiores ao esperado, Hitler estava mais disposto a reforçar o músculo militar do Partido Nazi. Consequentemente, em 1933, a SA ostentava 2,3 milhões de membros.
As SA e as SS tornaram-se rivais e envolveram-se frequentemente em confrontos, sendo que o mais infame ocorreu em 1930-31 com a Revolta de Stennes, quando as SS reprimiram uma revolta em Berlim levada a cabo pelas tropas da SA daquela cidade. Foi um aviso sinistro de quão indisciplinada a SA se poderia tornar.
A SA já geria pequenos centros de detenção, muitas vezes em caves, onde os opositores dos nazis podiam ser tratados discretamente. Os campos de concentração foram então estabelecidos quando os nazis tomaram o poder em 1933. Dois dos maiores campos eram Nohra, na Turíngia, e Oranienburg, na Prússia. A SA foi incumbida da gestão destes campos, que cresceram estavelmente em número, para onde os nazis enviavam os seus inimigos políticos e quaisquer outras pessoas que considerassem "indesejáveis", e muito frequentemente detidas sem julgamento. As SS assumiram a gestão dos campos de concentração em maio de 1934.
Os Ataques aos Inimigos dos Nazis
A SA manteve-se uma organização útil para os propósitos de Hitler ao longo do início da década de 1930, especialmente quando era necessário algum banditismo anónimo (sem o uso de uniforme), do qual ele podia, em público, manter uma distância respeitável. O historiador S. Friedländer apresenta o seguinte resumo de apenas um episódio de violência da SA contra judeus quando, como era habitual, os serviços do Estado se mantiveram à margem ou até ajudaram:
Cerca de trinta homens da SA vindos de Heilbronn chegaram a Niederstetten, uma pequena cidade no sudoeste da Alemanha, no sábado, 25 de março de 1933. Invadindo as poucas casas de judeus na zona, levaram os homens para os paços do concelho e espancaram-nos selvajamente, enquanto polícias locais vigiavam a entrada do edifício. A cena repetiu-se nessa manhã na vizinha Creglingen, onde os dezoito judeus do sexo masculino encontrados na sinagoga foram também conduzidos para os paços do concelho. Ali, os espancamentos levaram à morte de Hermann Stern, de sessenta e sete anos, e, alguns dias depois, de Arnold Rosenfield, de cinquenta e três anos.
(pág. 41)
Nas raras ocasiões em que os membros da SA enfrentavam acusações criminais pela sua violência ultrajante, Hitler apoiava-os em privado e, por vezes, renunciava publicamente às autoridades envolvidas, alegando que eram manipuladas pelos judeus. Um exemplo disso foram os cinco membros da SA acusados de assassinar o operário pró-comunista Konrad Piecuch, em agosto de 1932. Quando os cinco soldados de assalto foram considerados culpados e condenados à morte, Hitler enviou-lhes o seguinte telegrama:
Meus camaradas! Perante este veredito criminal incrível, sinto-me ligado a vós numa fidelidade ilimitada. A partir deste momento, a vossa liberdade é a nossa honra; a luta contra um governo sob o qual tal coisa foi possível, o nosso dever.
(Friedländer, pág 111)
Apesar de não ter conquistado a maioria dos assentos no parlamento, o Partido Nazi tinha sido suficientemente bem-sucedido nas eleições de 1932 para que Hitler fosse convidado a tornar-se chanceler da Alemanha. Sem um partido com maioria absoluta, foram convocadas novas eleições para 1933. A SA continuou a ser utilizada para intimidar os rivais políticos. O Incêndio do Reichstag, a 27 de fevereiro de 1933, quando o parlamento alemão foi incendiado, terá sido supostamente causado por um comunista, Marinus van der Lubbe, embora possa ter sido uma operação da Sturmabteilung, uma vez que Hitler estava empenhado em reforçar a já considerável suspeição de muitas pessoas em relação aos comunistas, implicando o movimento em atos anarquistas. Nas eleições de março de 1933, a SA continuou a sua atividade habitual de inibir as campanhas de partidos rivais e intimidar os eleitores nas mesas de voto. Os nazis obtiveram 44% dos votos na eleição.
A Noite das Facas Longas
Hitler, com a sua posição fortalecida, já não precisava do embaraço causado pelo banditismo da SA, uma vez que, como chanceler, possuía a proteção do exército alemão. Em todo o caso, a SA tornara-se demasiado poderosa para o seu próprio bem. Para manter o apoio do exército, que via a SA como uma rival perigosa para a sua própria função no Estado, Röhm e a SA foram acusados, sem qualquer prova, de conspirarem uma revolução contra o regime nazi recém-formado. A homossexualidade de Röhm nunca incomodara Hitler anteriormente, mas agora era utilizada como mais uma desculpa para a purga. Assim começou um abate implacável, conhecido como a Purga de Sangue ou Noite das Facas Longas, mas que foi, na verdade, um período de violência interna do partido que se estendeu de 29 de junho a 1 de julho de 1934. Os nazis chamaram à sua purga, que foi levada a cabo pelas SS em toda a Alemanha e Áustria, Operação Colibri.
Röhm foi detido em Bad Wiessee, retirado da cama e colocado numa cela na prisão de Stadelheim, em Munique. Outros 110 líderes da SA foram identificados para execução. A 1 de julho, foi oferecida a Röhm uma pistola para que se suicidasse, mas ele recusou. Theodor Eicke ou Michael Lippert disparou contra o antigo líder da SA. Seguidamente, o Dr. Hans Frank (1900-1946), o principal perito dos nazis em Direito, referiu as implicações legais das execuções planeadas. Contudo e apesar das preocupações jurídicas foram realizadas mais 20 execuções. Hitler utilizou o caos da purga para eliminar também outros rivais e ameaças ao seu poder, pessoas sem qualquer ligação à Sturmabteilung. No total, 478 pessoas foram assassinadas na purga e as figuras não-nazis mais proeminentes que foram executadas incluíam o político Gregor Strasser (1892-1934), o General Kurt von Schleicher (1882-1934) e mulher. Muitas mortes, como a de Strasser, foram reportadas como suicídio.
Embora a SA nunca mais tenha sido a mesma organização após a Noite das Facas Longas, continuou a ser utilizada, sob um novo comandante, Viktor Lutze (1890-1943), para atacar qualquer pessoa que o regime nazi considerasse uma ameaça. O episódio mais notório de violência da SA foi a Kristallnacht (Reichkristallnacht) ou "Noite de Cristal", quando membros da SA atacaram judeus e as suas propriedades por toda a Alemanha e Áustria, a 9 e 10 de novembro de 1938.
