O Castelo de Chenonceau, pitorescamente localizado sobre o rio Cher, na cidade de Chenonceaux, no Vale do Loire, França, é um magnífico edifício de estilo renascentista também conhecido como «Château des Dames» (Castelo das Damas). Passando de mão em mão ao longo dos séculos, entre festas luxuosas, intrigas complexas e muitos escândalos, é hoje o castelo privado mais visitado da França.
Ao contrário do seu vizinho, o famoso Château de Chambord (Castelo de Chambord), que está associado a muitos homens ilustres, incluindo Francisco I de França (reinou 1515-1547), Leonardo da Vinci (1452-1519) e o dramaturgo francês Molière (1622-1673), entre outros, o Château de Chenonceau foi decorado e embelezado por grandes damas como Diane de Poitiers (1500-1566), Catarina de Médici (1519-1589) e Katherine Briçonnet, para citar algumas.
História Inicial
Durante a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), a residência do Senhor de Marques era uma simples fortaleza medieval, estrategicamente localizada para controlar o tráfego fluvial e defender a cidade de Tours (leal ao rei de França). O castelo foi posteriormente destruído em retaliação por ter sido entregue aos inimigos ingleses por Jean I de Marques em 1412. Outro membro da família Marques, Jean II, recebeu permissão real para começar a construir um novo castelo no mesmo local em 1432. Thomas Bohier (cerca de 1460-1524), um alto funcionário público e presidente da câmara de Tours, há muito cobiçava a propriedade de Chenonceaux e acompanhava de perto o declínio da família Marques. Bohier astutamente encomendou a compra de várias dependências de Chenonceau, domínios vizinhos e várias anuidades sobre as terras. O seu plano era forçar Pierre Marques a vender a sua propriedade principal exigindo pagamentos, o que aconteceu em 1513, mas somente após uma longa batalha judicial.
Bohier e a sua mulher Katherine Briçonnet começaram a construir um castelo original sobre as fundações do antigo moinho fortificado. Mandaram demolir os edifícios antigos e mantiveram apenas a torre de menagem (a torre Marques), que remodelaram no estilo renascentista contemporâneo. Infelizmente, Bohier acompanhou o rei nas suas campanhas italianas e a mulher ficou encarregada de continuar o trabalho, que só foi concluído em 1522. O edifício foi transformado numa magnífica residência de dois andares com torres em saliência fortemente inspiradas na arquitetura italiana, como evidenciado pela escadaria reta com corrimão que leva ao primeiro andar. O casal morreu alguns anos depois e o filho, envolvido num suposto desvio de fundos do pai, foi obrigado a pagar uma multa de 90 000 libras ou entregar o castelo ao rei, o que fez em 1535.
O "Château des dames"
Diane de Poitiers
Assim começou a grande era das damas do castelo. Em 1547, pouco depois da morte de Francisco I, o castelo deixou de pertencer ao seu herdeiro Henrique II de França, passando a pertencer à sua favorita, Diane de Poitiers, uma prima distante da sua mulher Catarina de Médici. Quase 20 anos mais velha que o rei, Diane era deslumbrantemente bela e permaneceu assim até à sua velhice, razão pela qual é frequentemente chamada de Diane à l'éternelle jeunesse ("Diane com juventude eterna"). Cuidava muito bem das rendas da propriedade, controlando de perto os aluguéis das quintas, dos moinhos, dos prados e das vinhas que dependiam dela. Até conseguiu convencer o rei a cobrar um novo imposto, parte do qual lhe seria devolvido: um imposto sobre sinos. Henrique II impôs um imposto de 20 libras sobre as joias e fábricas de cada torre de igreja, apesar dos protestos do povo. Em 1551, Diane de Poitiers projetou os jardins na margem direita do Cher (parterre de Diane). Quis, igualmente, ampliar o castelo construindo uma galeria sobre o rio, mas só teve tempo de construir a ponte. Por acaso, o rei sofreu uma lesão no olho durante um torneio medieval a 30 de junho de 1559 e morreu alguns dias depois como resultado da lesão. Ela teve que entregar o castelo a Catarina de Médici, que lhe concedeu o castelo de Chaumont sur Loire, que nunca ocuparia. Faleceu em 1566, provavelmente envenenada pelo ouro que ingeria regularmente na forma de uma solução bebível, o elixir secreto da longa vida e da beleza usado pela senhora que parecia 20 anos mais jovem do que realmente era.
Catarina de Médici
Foi Catarina de Médici quem encomendou a famosa grande galeria (na verdade, duas galerias sobrepostas com 60 metros (197 pés) de comprimento e 5,8 metros (19 pés) de largura) projetada por Philibert de l'Orme (também escrito Delorme), onde realizava festas suntuosas em homenagem a vários convidados ilustres. Uma delas, em homenagem ao seu filho Henrique III de França (reinou 1574-1589), ocorreu em 9 de junho de 1577 e ficou conhecida como le bal des seins nus (o baile dos seios nus). A autora Florence Macquarez relata o evento nas palavras de um dos participantes:
Nas suas memórias, Pierre de l'Estoile relata: Neste belo banquete, as mulheres mais bonitas e honestas da corte, seminuas e com os cabelos soltos, foram contratadas para servir.
(pág. 61)
Quando Catarina morreu, a sua nora Louise de Lorraine, mulher de Henrique III, herdou o castelo. Foi em Chenonceau que soube do assassinato do marido, em 2 de agosto de 1589, e chorou a sua morte vestida toda de branco (como era costume), ganhando assim o apelido de «Dama Branca». O tempo das festividades terminou, substituído por um silêncio piedoso que ecoava as orações das freiras que viviam nos sótãos do castelo.
Louise Dupin
Em 1733, Louise de Fontaine tornou-se a nova senhora do castelo depois do marido, Claude Dupin, um alto funcionário público, se ter tornado o proprietário. Grande admiradora dos enciclopedistas e das novas ideias, Louise Dupin levava uma vida pacífica e benevolente no local, realizando inúmeros salões aos quais convidava os intelectuais da época, como o dramaturgo Pierre de Marivaux (1688-1763) e Voltaire (1694-1778), que lá se hospedavam, bem como Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que atuou como tutor do filho da família. Durante a Revolução Francesa (1789-1799), a «cidadã» Dupin (os revolucionários aboliram todos os títulos de nobreza e chamavam a todos de «cidadãos», até mesmo ao rei Luís XVI de França, reinou 1774-1792, que se tornou o «cidadão» Capet) transformou a capela num depósito de lenha para evitar ataques dos revolucionários. Ao contrário de outros castelos, Chenonceau não foi atacado, possivelmente por ser a única ponte nas proximidades. Louise Dupin, «a Dama Literária de Chenonceau», morreu em 1799 e foi enterrada nos terrenos do castelo.
Marguerite Wilson
Durante o Primeiro Império Francês, a vida voltou ao castelo, enquanto o castelo permaneceu nas mãos dos seus proprietários. Em 1864, o último herdeiro Dupin vendeu o castelo a Marguerite Pelouze (nascida Wilson), filha de Daniel Wilson, um engenheiro britânico que fez fortuna com a iluminação a gás em Paris. Marguerite era casada com Eugène Pelouze, que pediu a separação após uma «tragédia familiar»: flagrou a mulher numa situação «equívoca» com o próprio irmão, Daniel. Este não seria o único escândalo associado à família Wilson. Marguerite Wilson deu continuidade à tradição literária do castelo, realizando salões e recebendo convidados de prestígio, como o escritor Gustave Flaubert (1821-1880) e o compositor Claude Debussy (1862-1918), além de Jules Grévy (1807-1891), presidente da República Francesa (com quem ela teria tido um relacionamento escandaloso). O escândalo do seu caso com Jules Grévy, agravado pelo facto de o seu pai estar alegadamente envolvido num caso obscuro de tráfico de condecorações da Légion d'honneur (Legião de Honra), acabou por atingi-la. Marguerite ficou desestabilizada e endividada e, como resultado, o Crédit Foncier, um importante banco francês da época, apreendeu o castelo em 1889.
Características Arquitetónicas e Jardins
Todas estas mulheres tiveram, naturalmente, um impacto profundo e duradouro no desenvolvimento do castelo, uma vez que o transformaram de acordo com as modas da época e com os seus gostos pessoais. Katherine Briçonnet e o marido acabaram por demolir o antigo castelo e o moinho (exceto a torre de menagem) para construir um castelo totalmente novo no local onde antes se erguia o moinho. Na verdade, o pátio onde hoje se encontra a torre de menagem é a área onde foi construído o antigo castelo fortificado, delimitado pelo fosso. Profundamente influenciados pelo estilo arquitetónico italiano, o seu legado reside principalmente na torre de menagem, que parece dar as boas-vindas aos visitantes. A antiga torre de menagem, coroada por um parapeito decorativo, era adornada com duas janelas de sótão e uma lanterna encimava o telhado cónico. Ainda hoje é possível sentir a presença de Catarina e Thomas no castelo: os seus respetivos emblemas podem ser vistos na enorme porta de entrada e o lema de Thomas Bohier pode ser lido na porta de carvalho da sala da guarda: S'il vient à point, me souviendra («Se for concluído, serei lembrado»). Infelizmente, Thomas e Katherine morreram antes de poderem realizar tudo o que tinham planeado. No seu livro Les châteaux de la Loire, (Os Castelos do Loire) Jean des Cars cita Jean-Pierre Babelon e dá-nos a seguinte descrição:
Como é o castelo? Típico do período renascentista, o castelo é uma estrutura retangular com quatro torres cilíndricas. A originalidade do projeto reside, no entanto, noutro aspeto: cada piso é composto por uma galeria central iluminada por uma janela francesa que se abre diretamente para o rio, com a escadaria ao lado. «Será que Thomas Bohier não terá emprestado esta ideia extraordinária da Itália? Será que o palácio veneziano não serviu de modelo para uma residência projetada em torno da água, com uma galeria central repetida em cada piso e uma escadaria colocada ao lado, oferecendo assim uma vista desobstruída do canal?»
(pág. 178)
Quanto a Diane de Poitiers, ela deu ao castelo a aparência exterior que conhecemos hoje. Mandou construir magníficos jardins com 12 000 m² (130,000 pés quadrados) de área, com caminhos geométricos, numerosas fontes e uma grande variedade de plantas, incluindo amoreiras brancas para a criação de bichos-da-seda; pediu ao arquiteto Philibert de l'Orme que seguisse os planos de Thomas Bohier e, assim, mandou construir a ponte sobre o rio. A ponte seria concluída, mas a morte prematura do rei impediu-a de prosseguir com os seus planos. Catarina de Médici assumiu Chenonceau e mandou construir a imensa galeria de dois andares na ponte que Diane tanto desejava: 18 janelas iluminam a galeria de 60 metros (197 pés). Catarina também financiou a criação de um jardim, embora menor do que o de sua rival (cerca de 5.500 m² - 60,000 pés quadrados). Este jardim de curiosidades tinha muitas plantas raras e animais exóticos, paisagisticamente estruturado em torno de cinco painéis de relva, agrupados em torno dum elegante lago circular e pontuados por um padrão de bolas de buxo. Numa clareira do parque, criou-se um labirinto com mais de 2000 teixos, com uma folie central que oferece uma vista impressionante de todo o conjunto. Os proprietários subsequentes teriam principalmente um impacto no design interior do castelo.






Gallery of the Chateaux of the Loire Valley
O Castelo nos Séculos XX e XXI
Em 1913, Henri Menier (1853-1913), o famoso fabricante francês de chocolate, tornou-se proprietário de Chenonceau, mas faleceu pouco tempo depois. O seu irmão Gaston herdou a propriedade e criou um hospital militar na galeria do castelo durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Financiou tudo do seu próprio bolso até 1919. De 1940 a 1942, o castelo situava-se na linha de demarcação entre a França ocupada e a França livre. A entrada do castelo ficava, portanto, na zona ocupada (na margem direita) e a galeria, cuja porta sul dá acesso à margem esquerda, permitiu à Resistência Francesa contrabandear muitas pessoas para a zona livre. O século XX também teve a sua quota-parte de hóspedes ilustres, incluindo Harry Truman (1884-1972), Charles Lindbergh (1902-1974) e Giovanni Agnelli (1921-2003), o famoso industrial italiano e presidente da FIAT, para citar apenas alguns.
O castelo foi classificado como monumento histórico em 1840, assim como os terrenos em 1962. O edifício e os seus arredores fazem parte do Vale do Loire, Património Mundial da UNESCO, desde 9 de julho de 2017. Hoje, a família Menier ainda cuida deste magnífico edifício, testemunha do Renascimento e da história da França desde aquela época. Gerido com brio desde 2002 por Laure Menier, viúva do herdeiro legítimo Jean-Louis Menier, foi destituída pela sua cunhada Pauline Menier, que assumiu a gestão em junho de 2023. Ironicamente, embora goze de uma localização única, situado sobre o tranquilo rio Cher, a história do Château de Chenonceau não tem sido tão tranquila. Parece que, no meio de novas ondas de rivalidade e lutas pelo poder, o "Château des Dames" ainda, mais do que nunca, faz jus ao seu nome.
