Castelo de Chenonceau

Babeth Étiève-Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Château de Chenonceau (by Babeth Cartwright, CC BY-SA)
Castelo de Chenonceau Babeth Cartwright (CC BY-SA)

O Castelo de Chenonceau, pitorescamente localizado sobre o rio Cher, na cidade de Chenonceaux, no Vale do Loire, França, é um magnífico edifício de estilo renascentista também conhecido como «Château des Dames» (Castelo das Damas). Passando de mão em mão ao longo dos séculos, entre festas luxuosas, intrigas complexas e muitos escândalos, é hoje o castelo privado mais visitado da França.

Ao contrário do seu vizinho, o famoso Château de Chambord (Castelo de Chambord), que está associado a muitos homens ilustres, incluindo Francisco I de França (reinou 1515-1547), Leonardo da Vinci (1452-1519) e o dramaturgo francês Molière (1622-1673), entre outros, o Château de Chenonceau foi decorado e embelezado por grandes damas como Diane de Poitiers (1500-1566), Catarina de Médici (1519-1589) e Katherine Briçonnet, para citar algumas.

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História Inicial

Durante a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), a residência do Senhor de Marques era uma simples fortaleza medieval, estrategicamente localizada para controlar o tráfego fluvial e defender a cidade de Tours (leal ao rei de França). O castelo foi posteriormente destruído em retaliação por ter sido entregue aos inimigos ingleses por Jean I de Marques em 1412. Outro membro da família Marques, Jean II, recebeu permissão real para começar a construir um novo castelo no mesmo local em 1432. Thomas Bohier (cerca de 1460-1524), um alto funcionário público e presidente da câmara de Tours, há muito cobiçava a propriedade de Chenonceaux e acompanhava de perto o declínio da família Marques. Bohier astutamente encomendou a compra de várias dependências de Chenonceau, domínios vizinhos e várias anuidades sobre as terras. O seu plano era forçar Pierre Marques a vender a sua propriedade principal exigindo pagamentos, o que aconteceu em 1513, mas somente após uma longa batalha judicial.

Map of the Châteaux of the Loire Valley, c.1750
Mapa dos Castelos do Vale do Loire, cerca de 1750 Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Bohier e a sua mulher Katherine Briçonnet começaram a construir um castelo original sobre as fundações do antigo moinho fortificado. Mandaram demolir os edifícios antigos e mantiveram apenas a torre de menagem (a torre Marques), que remodelaram no estilo renascentista contemporâneo. Infelizmente, Bohier acompanhou o rei nas suas campanhas italianas e a mulher ficou encarregada de continuar o trabalho, que só foi concluído em 1522. O edifício foi transformado numa magnífica residência de dois andares com torres em saliência fortemente inspiradas na arquitetura italiana, como evidenciado pela escadaria reta com corrimão que leva ao primeiro andar. O casal morreu alguns anos depois e o filho, envolvido num suposto desvio de fundos do pai, foi obrigado a pagar uma multa de 90 000 libras ou entregar o castelo ao rei, o que fez em 1535.

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O "Château des dames"

Diane de Poitiers

Diane de Poitiers cuidava muito bem das receitas da propriedade, controlando de perto as rendas das quintas, dos moinhos, dos prados e das vinhas que dependiam dela.

Assim começou a grande era das damas do castelo. Em 1547, pouco depois da morte de Francisco I, o castelo deixou de pertencer ao seu herdeiro Henrique II de França, passando a pertencer à sua favorita, Diane de Poitiers, uma prima distante da sua mulher Catarina de Médici. Quase 20 anos mais velha que o rei, Diane era deslumbrantemente bela e permaneceu assim até à sua velhice, razão pela qual é frequentemente chamada de Diane à l'éternelle jeunesse ("Diane com juventude eterna"). Cuidava muito bem das rendas da propriedade, controlando de perto os aluguéis das quintas, dos moinhos, dos prados e das vinhas que dependiam dela. Até conseguiu convencer o rei a cobrar um novo imposto, parte do qual lhe seria devolvido: um imposto sobre sinos. Henrique II impôs um imposto de 20 libras sobre as joias e fábricas de cada torre de igreja, apesar dos protestos do povo. Em 1551, Diane de Poitiers projetou os jardins na margem direita do Cher (parterre de Diane). Quis, igualmente, ampliar o castelo construindo uma galeria sobre o rio, mas só teve tempo de construir a ponte. Por acaso, o rei sofreu uma lesão no olho durante um torneio medieval a 30 de junho de 1559 e morreu alguns dias depois como resultado da lesão. Ela teve que entregar o castelo a Catarina de Médici, que lhe concedeu o castelo de Chaumont sur Loire, que nunca ocuparia. Faleceu em 1566, provavelmente envenenada pelo ouro que ingeria regularmente na forma de uma solução bebível, o elixir secreto da longa vida e da beleza usado pela senhora que parecia 20 anos mais jovem do que realmente era.

Diane de Poitiers
Diane de Poitiers Jean-Pierre Dalbéra (CC BY)

Catarina de Médici

Foi Catarina de Médici quem encomendou a famosa grande galeria (na verdade, duas galerias sobrepostas com 60 metros (197 pés) de comprimento e 5,8 metros (19 pés) de largura) projetada por Philibert de l'Orme (também escrito Delorme), onde realizava festas suntuosas em homenagem a vários convidados ilustres. Uma delas, em homenagem ao seu filho Henrique III de França (reinou 1574-1589), ocorreu em 9 de junho de 1577 e ficou conhecida como le bal des seins nus (o baile dos seios nus). A autora Florence Macquarez relata o evento nas palavras de um dos participantes:

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Nas suas memórias, Pierre de l'Estoile relata: Neste belo banquete, as mulheres mais bonitas e honestas da corte, seminuas e com os cabelos soltos, foram contratadas para servir.

(pág. 61)

Quando Catarina morreu, a sua nora Louise de Lorraine, mulher de Henrique III, herdou o castelo. Foi em Chenonceau que soube do assassinato do marido, em 2 de agosto de 1589, e chorou a sua morte vestida toda de branco (como era costume), ganhando assim o apelido de «Dama Branca». O tempo das festividades terminou, substituído por um silêncio piedoso que ecoava as orações das freiras que viviam nos sótãos do castelo.

Louise Dupin

Em 1733, Louise de Fontaine tornou-se a nova senhora do castelo depois do marido, Claude Dupin, um alto funcionário público, se ter tornado o proprietário. Grande admiradora dos enciclopedistas e das novas ideias, Louise Dupin levava uma vida pacífica e benevolente no local, realizando inúmeros salões aos quais convidava os intelectuais da época, como o dramaturgo Pierre de Marivaux (1688-1763) e Voltaire (1694-1778), que lá se hospedavam, bem como Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que atuou como tutor do filho da família. Durante a Revolução Francesa (1789-1799), a «cidadã» Dupin (os revolucionários aboliram todos os títulos de nobreza e chamavam a todos de «cidadãos», até mesmo ao rei Luís XVI de França, reinou 1774-1792, que se tornou o «cidadão» Capet) transformou a capela num depósito de lenha para evitar ataques dos revolucionários. Ao contrário de outros castelos, Chenonceau não foi atacado, possivelmente por ser a única ponte nas proximidades. Louise Dupin, «a Dama Literária de Chenonceau», morreu em 1799 e foi enterrada nos terrenos do castelo.

Marguerite Wilson

Durante o Primeiro Império Francês, a vida voltou ao castelo, enquanto o castelo permaneceu nas mãos dos seus proprietários. Em 1864, o último herdeiro Dupin vendeu o castelo a Marguerite Pelouze (nascida Wilson), filha de Daniel Wilson, um engenheiro britânico que fez fortuna com a iluminação a gás em Paris. Marguerite era casada com Eugène Pelouze, que pediu a separação após uma «tragédia familiar»: flagrou a mulher numa situação «equívoca» com o próprio irmão, Daniel. Este não seria o único escândalo associado à família Wilson. Marguerite Wilson deu continuidade à tradição literária do castelo, realizando salões e recebendo convidados de prestígio, como o escritor Gustave Flaubert (1821-1880) e o compositor Claude Debussy (1862-1918), além de Jules Grévy (1807-1891), presidente da República Francesa (com quem ela teria tido um relacionamento escandaloso). O escândalo do seu caso com Jules Grévy, agravado pelo facto de o seu pai estar alegadamente envolvido num caso obscuro de tráfico de condecorações da Légion d'honneur (Legião de Honra), acabou por atingi-la. Marguerite ficou desestabilizada e endividada e, como resultado, o Crédit Foncier, um importante banco francês da época, apreendeu o castelo em 1889.

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Château de Chenonceau, France
Castelo de Chenonceau, França Bert Kaufmann (CC BY-NC)

Características Arquitetónicas e Jardins

Todas estas mulheres tiveram, naturalmente, um impacto profundo e duradouro no desenvolvimento do castelo, uma vez que o transformaram de acordo com as modas da época e com os seus gostos pessoais. Katherine Briçonnet e o marido acabaram por demolir o antigo castelo e o moinho (exceto a torre de menagem) para construir um castelo totalmente novo no local onde antes se erguia o moinho. Na verdade, o pátio onde hoje se encontra a torre de menagem é a área onde foi construído o antigo castelo fortificado, delimitado pelo fosso. Profundamente influenciados pelo estilo arquitetónico italiano, o seu legado reside principalmente na torre de menagem, que parece dar as boas-vindas aos visitantes. A antiga torre de menagem, coroada por um parapeito decorativo, era adornada com duas janelas de sótão e uma lanterna encimava o telhado cónico. Ainda hoje é possível sentir a presença de Catarina e Thomas no castelo: os seus respetivos emblemas podem ser vistos na enorme porta de entrada e o lema de Thomas Bohier pode ser lido na porta de carvalho da sala da guarda: S'il vient à point, me souviendra («Se for concluído, serei lembrado»). Infelizmente, Thomas e Katherine morreram antes de poderem realizar tudo o que tinham planeado. No seu livro Les châteaux de la Loire, (Os Castelos do Loire) Jean des Cars cita Jean-Pierre Babelon e dá-nos a seguinte descrição:

Como é o castelo? Típico do período renascentista, o castelo é uma estrutura retangular com quatro torres cilíndricas. A originalidade do projeto reside, no entanto, noutro aspeto: cada piso é composto por uma galeria central iluminada por uma janela francesa que se abre diretamente para o rio, com a escadaria ao lado. «Será que Thomas Bohier não terá emprestado esta ideia extraordinária da Itália? Será que o palácio veneziano não serviu de modelo para uma residência projetada em torno da água, com uma galeria central repetida em cada piso e uma escadaria colocada ao lado, oferecendo assim uma vista desobstruída do canal?»

(pág. 178)

Drawing of the Château de Chenonceau
Esboço de Castelo de Chenonceau British Museum (CC BY-NC-SA)

Quanto a Diane de Poitiers, ela deu ao castelo a aparência exterior que conhecemos hoje. Mandou construir magníficos jardins com 12 000 m² (130,000 pés quadrados) de área, com caminhos geométricos, numerosas fontes e uma grande variedade de plantas, incluindo amoreiras brancas para a criação de bichos-da-seda; pediu ao arquiteto Philibert de l'Orme que seguisse os planos de Thomas Bohier e, assim, mandou construir a ponte sobre o rio. A ponte seria concluída, mas a morte prematura do rei impediu-a de prosseguir com os seus planos. Catarina de Médici assumiu Chenonceau e mandou construir a imensa galeria de dois andares na ponte que Diane tanto desejava: 18 janelas iluminam a galeria de 60 metros (197 pés). Catarina também financiou a criação de um jardim, embora menor do que o de sua rival (cerca de 5.500 m² - 60,000 pés quadrados). Este jardim de curiosidades tinha muitas plantas raras e animais exóticos, paisagisticamente estruturado em torno de cinco painéis de relva, agrupados em torno dum elegante lago circular e pontuados por um padrão de bolas de buxo. Numa clareira do parque, criou-se um labirinto com mais de 2000 teixos, com uma folie central que oferece uma vista impressionante de todo o conjunto. Os proprietários subsequentes teriam principalmente um impacto no design interior do castelo.

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This gallery gives an overview of 25 stunning châteaux in the Loire Valley of France, some very well known and others that deserve to be discovered...

O Castelo nos Séculos XX e XXI

Em 1913, Henri Menier (1853-1913), o famoso fabricante francês de chocolate, tornou-se proprietário de Chenonceau, mas faleceu pouco tempo depois. O seu irmão Gaston herdou a propriedade e criou um hospital militar na galeria do castelo durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Financiou tudo do seu próprio bolso até 1919. De 1940 a 1942, o castelo situava-se na linha de demarcação entre a França ocupada e a França livre. A entrada do castelo ficava, portanto, na zona ocupada (na margem direita) e a galeria, cuja porta sul dá acesso à margem esquerda, permitiu à Resistência Francesa contrabandear muitas pessoas para a zona livre. O século XX também teve a sua quota-parte de hóspedes ilustres, incluindo Harry Truman (1884-1972), Charles Lindbergh (1902-1974) e Giovanni Agnelli (1921-2003), o famoso industrial italiano e presidente da FIAT, para citar apenas alguns.

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Gallery of the Château de Chenonceau
Galeria do Castelo de Chenonceau Steve Collis (CC BY)

O castelo foi classificado como monumento histórico em 1840, assim como os terrenos em 1962. O edifício e os seus arredores fazem parte do Vale do Loire, Património Mundial da UNESCO, desde 9 de julho de 2017. Hoje, a família Menier ainda cuida deste magnífico edifício, testemunha do Renascimento e da história da França desde aquela época. Gerido com brio desde 2002 por Laure Menier, viúva do herdeiro legítimo Jean-Louis Menier, foi destituída pela sua cunhada Pauline Menier, que assumiu a gestão em junho de 2023. Ironicamente, embora goze de uma localização única, situado sobre o tranquilo rio Cher, a história do Château de Chenonceau não tem sido tão tranquila. Parece que, no meio de novas ondas de rivalidade e lutas pelo poder, o "Château des Dames" ainda, mais do que nunca, faz jus ao seu nome.

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Perguntas & Respostas

Por que é que o castelo de Chenonceau é famoso?

O castelo de Chenonceau é famoso por atravessar o rio Cher. Foi construído sobre as estacas de um moinho por Thomas Bohier, um ministro das Finanças. O castelo foi concluído ao longo de muitas décadas pelos seus sucessivos proprietários.

Por que é que o Chenonceau é chamado de castelo das damas?

O castelo de Chenonceau é chamado de castelo das damas porque foi cuidadosamente criado ao longo dos anos por residentes femininas muito influentes, como Diane de Poitiers, favorita de Henrique II da França, e mais tarde, pela mulher de Henrique, Catarina de Médici, entre muitas outras.

Quem é o proprietário do Castelo de Chenonceau?

O castelo de Chenonceau ainda pertence aos herdeiros de Henri Menier, o famoso chocolatier francês que o adquiriu em 1913. Desde junho de 2023, é gerido por Pauline Menier, que perpetua a tradição das damas do castelo.

Bibliografia

  • André Castelot. Les grandes heures des cités et des châteaux de la Loire. LIBRAIRIE ACADÉMIQUE PERRIN, 1962
  • Cécile Catherine. Les châteaux de la Loire. Éditions OUEST-FRANCE, 1991
  • Florence Macquarez. Guide secret des châteaux de la Loire. Éditions OUEST-FRANCE, 2016
  • Jean des Cars. Les châteaux de la Loire. PERRIN, 2018
  • Jean Vassort. L'Histoire des châteaux de la Loire. Éditions OUEST-FRANCE, 2018
  • Production Leconte. Châteaux de la Loire. Éditions VALOIRE-ESTEL, 2004

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Babeth Étiève-Cartwright
Babeth lecionou inglês no British Council de Milão. Fala fluentemente francês, inglês e italiano, e tem 25 anos de experiência na área da educação. Adora viajar e descobrir a história e o património das outras culturas

Cite Este Artigo

Estilo APA

Étiève-Cartwright, B. (2025, novembro 08). Castelo de Chenonceau. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-22862/castelo-de-chenonceau/

Estilo Chicago

Étiève-Cartwright, Babeth. "Castelo de Chenonceau." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, novembro 08, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-22862/castelo-de-chenonceau/.

Estilo MLA

Étiève-Cartwright, Babeth. "Castelo de Chenonceau." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 08 nov 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-22862/castelo-de-chenonceau/.

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