O Massacre de Jallianwala Bagh, ocorrido a 13 de abril de 1919 (também conhecido como Massacre de Amritsar), foi um episódio infame de brutalidade em que o General Dyer ordenou às tropas que abrissem fogo contra uma multidão desarmada de homens, mulheres e crianças encurraladas num jardim murado abandonado durante um festival sikh, tendo morrido pelo menos 379 pessoas e mais de 1 500 ficaram feridas.
O massacre de Jallianwala Bagh ocorreu no contexto de violentos motins em abril de 1919 no Punjab e noutros locais. As autoridades britânicas tinham perdido o controlo de Amritsar a 11 de abril, e Dyer fora enviado pelo governador de Bengala para restabelecer a ordem. Dyer não se arrependeu das suas ações, considerando que tinha demonstrado a força necessária para impedir uma nova escalada da agitação civil, que tinha incluído o assassinato de cinco europeus. Um inquérito realizado após o terrível massacre resultou na demissão de Dyer do exército. O massacre foi um dos episódios mais infames, talvez o mais infame de toda a história do domínio colonial britânico na Índia.
O Contexto
O Império Britânico na Índia (Raj britânico) iniciou-se em 1858, depois da Coroa e do Estado britânicos terem assumido o controlo dos bens da Companhia Britânica das Índias Orientais (CIO - EIC - British East India Company). O último ato da Companhia Britânica das Índias Orientais fora a repressão da sangrenta Revolta dos Cipaios de 1857-1858. Os atos de violência perpetrados por ambos os lados nesta rebelião contra o domínio colonial causaram uma profunda impressão, particularmente nos britânicos, que viviam com um medo persistente de que tal revolta pudesse facilmente ocorrer novamente. Os britânicos governavam uma Índia longe de estar unida. As divisões do país podem ser observadas nos mapas políticos, onde os estados principescos indianos apresentavam vários graus de dependência ou neutralidade: havia três grandes divisões em termos de religião: hindus, muçulmanos e sikhs; havia igualmente o sistema de castas e grandes disparidades económicas entre regiões e povos; e a divisão entre colonizadores e povos subjugados estava longe de ser nítida, com muitos indianos a conseguirem emprego no Exército Britânico da Índia e na função pública. Manter este caldeirão cultural em constante mutação era o grande desafio do Império Britânico. A Índia era a joia da coroa do imperialismo britânico, e era um delicado exercício de equilíbrio explorar os recursos da Índia sem provocar uma rebelião aberta.
A possibilidade de rebeliões tornou-se uma obsessão na mente de muitos britânicos de linha dura, e havia indícios de que os indianos estavam a aceitar cada vez mais a ideia de uma ação política concertada e unificada. O Congresso Nacional da Índia tinha sido fundado em 1885 e a Liga Muçulmana de Toda a Índia em 1906. A divisão de Bengala em 1905 causou grande indignação nacionalista (foi revertida em 1911). Na sequência do desenvolvimento da política de massas na primeira década do século XX, cada vez mais indianos desafiavam a presença britânica na Índia. O Congresso e a Liga Muçulmana uniram forças em 1916 com o Pacto de Lucknow, que definia o que se considerava serem as reformas constitucionais necessárias para permitir um governo indiano independente.
As tensões coloniais na Índia foram agravadas pela Primeira Guerra Mundial (1914-18). Os indianos tinham lutado para proteger os interesses britânicos na Índia e no estrangeiro (na Europa, no Médio Oriente e na África Oriental), mas muitos soldados que regressavam não conseguiam encontrar emprego digno. A Índia também tinha fornecido equipamento e matérias-primas significativas para o esforço de guerra, o que destacou, mais do que nunca, as falhas da administração britânica. A região do Punjab, na parte norte do subcontinente indiano, era vista como um local particularmente perigoso para os interesses britânicos. Os indianos de várias confissões religiosas que ali viviam estavam notavelmente unidos e politicamente ativos, como o Partido Ghadar, que se dedicava a expulsar os britânicos da Índia.
Seguiram-se as Leis Rowlatt, de março de 1919, que permitiam à administração britânica continuar a recorrer aos poderes de controlo e detenção, que tinham sido utilizados para reprimir protestos durante a Guerra Mundial. Os indianos estavam sujeitos a detenção sem justa causa, a julgamento sem júri e a uma série de punições expressamente concebidas para humilhar. A 8 de abril, Mahatma Gandhi (1869-1948), a figura central do movimento de independência indiano, apelou aos indianos para que suspendessem o trabalho em resposta às Leis Rowlatt. Muitos indianos seguiram o apelo de Gandhi à desobediência civil pacífica, mas os britânicos mantiveram-se firmes e recusaram-se a revogar as leis. O resultado foram motins, incêndios criminosos, pilhagens e confrontos com a polícia, nomeadamente em Amritsar, uma cidade no Punjab, onde uma multidão matou cinco britânicos a 10 de abril. Registaram-se outros episódios notáveis de motins em Deli e em Ahmadabad. Gandhi foi detido, mas apelou aos seus apoiantes para que demonstrassem moderação, um apelo que muitos ignoraram. Em consequência da agitação, não foram permitidas quaisquer reuniões públicas de qualquer tipo.
O General Dyer
O brigadeiro-general Reginald Edward Harry Dyer (1864-1927) era um militar de carreira nascido na Índia, de ascendência irlandesa, que tinha servido na Pérsia e estava agora de volta ao serviço na Índia. Tinha 55 anos em 1919 e aproximava-se do fim da sua carreira. A capacidade de tomada de decisões de Dyer já tinha sido posta em causa na Pérsia, quando agiu sem ordens para expandir o território britânico naquele país. Apenas a saúde debilitada tinha poupado Dyer da ignomínia da demissão na Pérsia e, transferido de volta para a Índia, foi-lhe confiado o comando da 45.ª Brigada do Exército Britânico da Índia em Jalandhar.
Sir Michael O’Dwyer, governador do Punjab, estava longe de ser favorável à ideia de que os indianos devessem ter um papel na sua própria governação e já tinha ordenado o uso de aeronaves contra os revoltosos. Homens como Dyer e O’Dwyer estavam dominados por uma paranóia de que não se pudesse permitir que a agitação de 1919 escalasse até ao nível da terrível Revolta dos Cipaios de 1857-1858. Acrescia, também, os rumores constantes e teorias da conspiração de que a Rússia Soviética estava a apoiar materialmente os nacionalistas indianos para desestabilizar o Raj. O’Dwyer ordenou que Dyer se deslocasse a Amritsar para reprimir os motins que ali tinham eclodido a 10 de abril, na sequência da detenção de dois proeminentes nacionalistas indianos.
Ao chegar a Amritsar a 11 de abril, Dyer testemunhou em primeira mão o resultado dos motins: o saque e o incêndio de dois bancos e duas escolas missionárias. Vários europeus tinham sido mortos na violência e uma mulher europeia, médica, tinha sido espancada. Os restantes europeus de Amritsar tinham sido obrigados a procurar refúgio no forte de Gobindgath, uma vez que os britânicos perderam o controlo da cidade, que contava com uma população de 150 000 habitantes.
A 12 de abril, Dyer mobilizou 400 dos seus homens e dois carros blindados equipados com metralhadoras. Numa demonstração de força, os homens marcharam pelas ruas de Amritsar, mas não houve violência. Na manhã de 13 de abril, Dyer ordenou que fossem lidos avisos por toda a cidade informando que haveria uma proibição imediata de todas as reuniões públicas, procissões e aglomerações. Além disso, seria imposto um recolher obrigatório às 20h00 desse dia. A leitura destes avisos foi recebida com gritos de «O Império britânico na Índia chegou ao fim». Dyer também recebeu notícias de que ainda se verificavam motins noutras cidades indianas e rumores que sugeriam que as suas tropas indianas não disparariam contra indianos, mesmo que lhes fosse ordenado. Mais premente era o rumor de que estava prevista uma grande concentração para aquela mesma tarde, em desafio aberto às ordens de Dyer. O brigadeiro-general estava provavelmente convencido de que devia fazer uma demonstração de força para mostrar à população de Amritsar que os britânicos tinham retomado o controlo da cidade.
Uma Multidão Pacífica
Na tarde de 13 de abril, entre 15 000 e 20 000 civis indianos reuniram-se no jardim murado e abandonado de Jallianwala Bagh, um espaço que, de forma crucial, tinha apenas cinco entradas estreitas. Muitas pessoas estavam ali para celebrar pacificamente o festival sikh de Baisakh e visitar a feira que o acompanhava. Outros estavam lá para protestar contra a recente prisão de nacionalistas, e outros ainda estariam de passagem, uma vez que se tratava de uma das principais artérias da cidade e do local onde se situava um importante templo sikh, o Templo Dourado. O jardim era, na verdade, uma espécie de terreno baldio e oferecia um grande espaço aberto, com dimensões suficientes para acolher tal concentração de pessoas. É possível, também, que muitos dos presentes nem sequer tivessem ouvido os anúncios públicos de Dyer naquela manhã, uma vez que muitos teriam vindo de fora de Amritsar. Um avião britânico que sobrevoava a zona convenceu parte da multidão a regressar a casa.
Dyer chegou ao Jallianwala Bagh às 17h, acompanhado dos seus dois carros blindados e de cerca de 90 homens, na sua maioria gurkhas e soldados indianos. O portão que utilizaram para aceder à praça não era suficientemente largo para permitir a entrada dos dois carros blindados, pelo que Dyer ordenou que apenas a sua infantaria entrasse. Sem dar qualquer aviso à multidão reunida ou sem terem disparados tiros de aviso, Dyer ordenou aos seus homens que começassem a disparar contra ela e que continuassem a disparar. O massacre prolongou-se por cerca de dez minutos, período durante o qual os soldados tiveram tempo para recarregar os seus carregadores. No total, foram disparados 1 650 tiros. Dyer ordenara aos seus homens que escolhessem os seus alvos e disparassem deliberadamente contra aqueles que tentavam fugir por cima dos muros altos do recinto e nas entradas. Dyer ordenou então aos seus homens que se retirassem, e não foi prestada qualquer ajuda aos feridos. De acordo com as estatísticas oficiais, 379 homens, mulheres e crianças foram mortos e mais de 1 500 ficaram feridos. O número de mortos pode muito bem ter sido, na realidade, muito superior.
Dyer ordenou ainda o açoitamento público de prisioneiros indianos e obrigou todos os homens indianos presentes na rua Kucha Kurrichhan (onde o médico europeu tinha sido espancado) a rastejar no pavimento, num ato público de humilhação. Foi declarada a lei marcial no Punjab, e O’Dwyer ordenou que aeronaves bombardeassem os manifestantes em Gujranwala. A brutalidade policial contra a população em geral continuou nos meses seguintes. Houve 1 200 mortos, 3 600 feridos e 258 pessoas foram açoitadas publicamente.
A Reação
Muitos britânicos, desde os mais humildes até ao vice-rei Lord Chelmsford, acreditavam que O’Dwyer e Dyer tinham impedido que a agitação no Punjab se alastrasse a outras regiões e se agravasse até uma situação que não poderia ter sido contida. Houve, no entanto, algumas vozes de desaprovação, e estas foram ganhando cada vez mais força, especialmente quando o bloqueio informativo que tinha acompanhado a lei marcial terminou em junho. Uma guerra na fronteira com o Afeganistão — na qual Dyer participou — também tinha desviado a atenção dos acontecimentos em Amritsar. Agora, finalmente, chegou a hora do acerto de contas.
Em novembro de 1920, uma comissão nomeada pelo governo britânico em Londres e liderada por Lord Hunter realizou uma audiência pública sobre o massacre. A comissão reuniu-se em Lahore, e o seu painel era composto por quatro britânicos, três indianos e o próprio Hunter. Dyer foi interrogado pelos advogados indianos e não se fez nenhum favor ao admitir que teria utilizado os seus carros blindados equipados com metralhadoras se tivesse conseguido aproximá-los mais da multidão. Sem demonstrar qualquer arrependimento pelas suas ações, Dyer alegou que tinha sido a única forma de impedir uma rebelião ou, como ele próprio afirmou, «de produzir o efeito moral e generalizado necessário» de que a rebelião não seria tolerada (Mansingh, pág. 201). A comissão chegou à conclusão de que o julgamento de Dyer tinha sido influenciado pelo seu próprio racismo em relação aos indianos e, possivelmente, também por uma doença mental. Tanto Dyer como O’Dwyer foram meramente repreendidos pela Comissão Hunter pelo uso de força excessiva, uma vez que os membros britânicos da comissão estavam convictos de que um certo grau de força era necessário para preservar o controlo britânico na Índia. Se as autoridades britânicas pensavam que as conclusões da comissão iriam encerrar o assunto, estavam completamente enganadas. Os murmúrios de indignação continuaram. Chelmsford mudou de tom e aconselhou o rei Jorge V (reinou 1910-1936) a que, afinal, talvez Dyer não devesse ser apresentado como o heróico defensor do Império Britânico. Dyer recebeu uma licença de seis meses e regressou a Inglaterra.
Ao mesmo tempo, o relativamente jovem movimento de independência indiano percebeu que Amritsar poderia dar um grande impulso ao seu apoio. Os nacionalistas, muitos dos quais eram advogados com formação que tinham recolhido meticulosamente provas do massacre, tinham agora mais um exemplo terrível do domínio colonial britânico com o qual convencer os indianos de que estariam muito melhor a governarem-se a si próprios, o que ficou conhecido como «autogoverno». O movimento nacionalista tinha claramente passado de criticar apenas o racismo institucional e o snobismo britânicos, bem como a drenagem da riqueza da Índia, para criticar a própria presença da Grã-Bretanha no subcontinente. Mais de um ano após o acontecimento, o massacre tinha-se tornado uma notícia de grande destaque e um acontecimento crucial nas relações entre a Índia e a Grã-Bretanha.
A classe dirigente britânica em Londres ficou chocada com o comportamento insensível de Dyer e a sua atitude subsequente quando toda a história veio a público. Os legisladores, que compreendiam perfeitamente que não se pode governar apenas pela força, tiveram dificuldade em entender o que tinha motivado o general. O próprio Dyer disse a um jornalista em Inglaterra: «Tive de disparar. Tive trinta segundos para decidir que ação tomar e fi-lo. Todos os ingleses que conheci na Índia aprovaram o ato, por mais horrível que tenha sido» (James, pág. 478). A classe dirigente, porém, pelo menos em público, estava a virar-se contra ele, apesar de a Câmara dos Lordes ter votado a seu favor. Dyer foi obrigado a demitir-se do exército e fortemente encorajado a reformar-se. A imprensa britânica, em contrapartida, apoiou amplamente Dyer. O Morning Post chegou mesmo a criar um fundo para Dyer, que se revelou notavelmente popular, recebendo doações de todo o tipo de pessoas, desde agricultores de Northumberland até ao escritor Rudyard Kipling. Muitos consideravam que Dyer tinha, de facto, agido com uma determinação invulgar para proteger o Império Britânico e que tinha sido transformado num exemplo injusto por burocratas que não faziam ideia das realidades coloniais no terreno. Dyer não era o vilão do império, era o seu salvador, assim dizia a história. O fundo angariou a considerável quantia de 26 000 libras para a reforma de Dyer (mais de 1 milhão de dólares hoje). Em contrapartida, o governo britânico acabou por conceder a cada família das vítimas do massacre apenas 37 libras (1600 dólares).
O Fim de Um Império
Os indianos continuaram indignados com o massacre, ao ponto do célebre autor bengali Rabindranath Tagore (1861-1941) ficou tão revoltado que devolveu o seu título de cavaleiro. Até mesmo alguns dos governantes pró-britânicos dos estados principescos independentes, como o Raja de Nabha, manifestaram a sua desaprovação pelo uso excessivo da força por parte de Dyer. A fantástica «recompensa» sob a forma de pensão concedida a Dyer chocou muitos indianos mais do que o próprio massacre. Era agora impossível atribuir a culpa pelos acontecimentos a um soldado desonesto que tivesse excedido as suas ordens. Como observou o futuro primeiro-ministro da Índia, Jawaharlal Nehru (1889-1964): «Percebi então, de forma mais vívida do que nunca, quão brutal e imoral era o imperialismo e como este tinha corroído as almas das classes altas britânicas» (Tharoor, pág. 173). Além disso, o facto de a Comissão Hunter não ter conseguido encontrar ninguém culpado de nada, quando havia obviamente havido tanta violência desnecessária e atos de humilhação no Punjab em 1919, ilustrou com demasiada clareza que a administração britânica tinha encobrido a história. Acima de tudo, o movimento de não cooperação liderado por Gandhi conseguiu agora contar com uma base de apoio muito mais ampla e continuou, a partir de 1920, a pressionar pela «autonomia». Os indianos de todas as classes assumiram um papel muito mais ativo na tarefa de persuadir a Grã-Bretanha, por todos os meios necessários, de que esta devia conceder a independência, um objetivo finalmente alcançado em 1947. Como observa o historiador S. Mansingh, «Jallianwala Bagh tornou-se o início do fim do domínio e Império Britânico na Índia» (pág. 201).
