François L'Olonais

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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François L'Olonais (by Unknown Artist, Public Domain)
François L'Olonais Unknown Artist (Public Domain)

François L'Olonais (também grafado L'Olonnais ou L'Ollonais, cerca de 1630-1668), cujo verdadeiro nome era Jean-David Nau, foi um bucaneiro e pirata francês que operava a partir de Tortuga, na Ilha de Hispaniola. Em 1667, atacou a Venezuela, então parte da Costa Firme (a designação histórica para as possessões continentais espanholas nas Caraíbas), e tal era a sua reputação de crueldade sádica que ficou conhecido como o "Flagelo dos Espanhóis". L'Olonais continuou a sua onda de pilhagens na Baía das Honduras, mas acabou por ser brutalmente assassinado e devorado por canibais locais.

O Início de Carreira

Jean-David Nau nasceu entre 1630 e 1635 em Les Sables-d'Olonne, na costa oeste de França, origem do seu posterior apelido, François L'Olonais. Aos 20 anos, iniciou a sua vida no mar e acabou por chegar às Caraíbas. Talvez pouco impressionado com as duras realidades da vida a bordo de um navio à vela, tornou-se um servo contratado numa plantação. Após servir durante três anos, Nau juntou-se ao grupo selvagem de caçadores em Hispaniola, que ficaram conhecidos como bucaneiros devido ao seu hábito de fumarem a carne em grelhas. As autoridades espanholas tentaram repetidamente reprimir os bucaneiros, mas estes resistiram a tais investidas, frequentemente retirando-se para o interior selvagem da ilha. Muitos bucaneiros tornaram-se piratas, e Nau foi um deles, talvez motivado, acima de tudo, pelo desejo de vingança contra os espanhóis que tinham matado tantos dos seus irmãos caçadores.

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A Conversão à Pirataria

Tortuga (Île de la Tortue), localizada a noroeste de Hispaniola (atuais Haiti e República Dominicana), tornou-se um importante refúgio de bucaneiros a partir da década de 1630. A ilha recebeu o nome devido à sua semelhança com uma tartaruga quando vista de longe. As autoridades coloniais francesas controlavam Saint-Domingue, do outro lado da ilha, e faziam vista grossa aos bucaneiros de Tortuga, uma vez que estes serviam como um elemento dissuasor útil contra os ataques de navios de guerra espanhóis. François L'Olonais começou a usar Tortuga como base para as suas atividades de pirataria a partir da década de 1660. Recebeu um navio capturado por parte do governador e foi encorajado a atacar navios espanhóis.

Numa anedota infame, L'Olonais arrancou o coração de um cativo, mastigou um pedaço e, depois, enfiou-o na boca de outro cativo.

O Mais Cruel dos Bucaneiros

François L'Olonais detém a terrível distinção de ser o mais cruel e depravado de todos os bucaneiros, um título para o qual existe uma forte concorrência. Infame por não fazer prisioneiros, L'Olonais preferia simplesmente executar os seus cativos, geralmente decapitando-os. O bucaneiro sanguinário é apresentado como um louco grotesco no influente registo da época de Alexander Exquemelin, The Buccaneers of America (Os Bucaneiros da América - publicado em inglês em 1684). A obra tornou-se imensamente popular graças às suas biografias, frequentemente exageradas e coloridas. O massacre de vítimas indefesas por parte de L'Olonais rendeu-lhe a alcunha de "Flagelo dos Espanhóis" (Fléau des Espagnols). Numa anedota infame, o bucaneiro francês arrancou o coração de um cativo, mastigou um pedaço e, depois, enfiou-o na boca de outro cativo. Acabou por acontecer que o tratamento severo de L'Olonais para com os cativos se voltou contra ele, uma vez que as tripulações e os colonos espanhóis preferiam lutar até à morte a render-se e sofrer, de qualquer forma, o mesmo destino.

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Mapa da Costa Firme e dos Refúgios de Piratas nas Caraíbas, cerca de 1670
Mapa da Costa Firme Espanhola e os Refúgios de Piratas das Caraíbas cerca de 1670 Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

L'Olonais também foi, por vezes, alvo de violência. Num episódio, ele e os seus homens foram atacados por uma tribo indígena depois de o seu navio ter naufragado na costa de Campeche, no México. Embora a maioria dos seus homens tenha sido morta, L'Olonais escapou ao cobrir-se de sangue e esconder-se entre a sua tripulação caída. O bucaneiro era, no mínimo, engenhoso e conseguiu chegar em segurança a Tortuga numa canoa roubada.

A experiência com os indígenas de Campeche não demoveu L'Olonais das suas táticas brutais. Ao atacar um navio de guerra ancorado num porto de Cuba, capturou vários espanhóis, que foram todos decapitados, à exceção de um, que foi enviado com uma carta para o governador de Havana. A nota informava as autoridades espanholas de que L'Olonais continuaria a não demonstrar qualquer clemência pelos espanhóis capturados, sendo todos executados. Entretanto, o bucaneiro apoderou-se do navio de guerra para seu uso próprio e continuou a fustigar as águas da Costa Firme, desta vez ao largo da costa da Venezuela.

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O Ataque a Maracaibo

Os bucaneiros corsários, rigorosamente falando, só estavam autorizados pelas suas respetivas autoridades coloniais a atacar navios espanhóis e não portos. Contudo, uma guerra entre a França e a Espanha, entre 1667 e 1668, significou que a costa da Venezuela se tornou um alvo legítimo. L'Olonais atacou a porção venezuelana da Costa Firme em 1667. Liderando cerca de 600 homens em oito navios, a força de L'Olonais era composta maioritariamente por bucaneiros franceses de Hispaniola e de Tortuga. Capturaram imediatamente duas embarcações antes mesmo de chegarem à Venezuela, apropriando-se de grandes quantidades de prata, pedras preciosas, mosquetes, pólvora e cacau. O destino de L'Olonais era Maracaibo, então um povoado de cerca de 4000 pessoas e o centro do comércio regional de pérolas. A bateria do porto que guardava a entrada do Lago Maracaibo foi facilmente dominada; os bucaneiros tinham atacado as fortificações pelo lado de terra, evitando assim os 16 canhões que apontavam para o mar.

Vasseur's Fortress, Tortuga
Fortaleza de Vasseur, Tortuga Unknown Artist (Public Domain)

Os bucaneiros saquearam Maracaibo, mas encontrar qualquer espólio foi outra questão, uma vez que os habitantes locais já tinham fugido com os objetos de valor que puderam carregar. Durante as duas semanas seguintes, L'Olonais enviou os seus homens para os bosques com o intuito de caçarem os habitantes escondidos. Vinte espanhóis foram apanhados, torturados e brutalmente chacinados. L'Olonais seguiu depois para Gibraltar, na outra margem do Lago Maracaibo. Aqui, a guarnição fez bom uso dos seus oito canhões e ofereceu forte resistência. Cerca de 70 bucaneiros foram mortos ou feridos. No final, a guarnição capitulou, com 200 mortos e 150 prisioneiros capturados. Mais saques foram reunidos e mais horrores se abateram sobre a população local durante quatro semanas de tumulto desenfreado. L'Olonais, seguindo a estratégia habitual dos bucaneiros, ameaçou reduzir o povoado a cinzas se não lhe fosse pago um resgate. Os residentes desembolsaram 10 000 pesos de prata ("peças de oito").

Como a maioria dos vilões perversos, L'Olonais acabou por receber o seu castigo e, no seu caso, parece ter sido singularmente apropriado.

A força de bucaneiros regressou então a Maracaibo e extorquiu às autoridades espanholas um resgate ainda maior pela devolução segura do local. Desta vez, os bucaneiros receberam 30 000 "peças de oito". A expedição foi um enorme sucesso, e L'Olonais e as suas tripulações regressaram a Tortuga para gastarem o dinheiro ilicitamente ganho o mais rapidamente possível em vinho, mulheres e jogo. Após três semanas, o dinheiro tinha acabado e o mar começou a chamar de novo.

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As Honduras e a Morte

Uma nova e grande expedição começou rapidamente a ser planeada, desta vez para atacar a costa da Nicarágua. Reunindo uma força de 700 homens em seis embarcações, L'Olonais liderou mais uma vez a expedição com o objetivo de pilhar as possessões espanholas. Desta vez, os bucaneiros tiveram menos sorte, e a sua frota ficou retida por falta de vento no Golfo das Honduras. Ainda assim, não lhes fazia diferença de onde provinha o espólio, e, em 1668, os bucaneiros atacaram a costa hondurenha, incluindo a pequena povoação de Puerto Caballos. Mais uma vez, a maioria dos habitantes locais tinha fugido ao primeiro vislumbre dos navios dos bucaneiros, mas os infelizes que foram capturados acabaram torturados para revelarem o paradeiro de quaisquer objetos de valor. Alexander Exquemelin relata da seguinte forma os métodos de tortura de L'Olonais:

Quando L'Olonais tinha uma vítima no potro, se o desgraçado não respondesse instantaneamente às suas perguntas, ele cortava o homem em pedaços com o seu alfange e lambia o sangue da lâmina com a língua, desejando que pudesse ter sido aquele o último espanhol no mundo que ele tivesse matado dessa forma.

(citado em Rogozinski, pág. 203)

François L'Olonais Cigarette Card
Cartão Coleção de Cigarros de François L'Olonais Metropolitan Museum of Art (Copyright)

L'Olonais não conseguiu encontrar qualquer espólio de relevo; até um navio espanhol capturado revelou ter o porão vazio. Uma incursão no interior apenas resultou numa emboscada por parte de uma força espanhola e na captura de San Pedro, um povoado minúsculo sem nada de valor para os bucaneiros. Todo o empreendimento foi um fracasso e muitos dos capitães de L'Olonais abandonaram a expedição.

Como a maioria dos vilões perversos, L'Olonais acabou por receber o seu castigo e, no seu caso, parece ter sido singularmente apropriado. Ao descer em direção ao istmo do Panamá em 1668, capturou um galeão espanhol, mas, pouco familiarizado com este tipo de navio pesado e difícil de manobrar, a sua tripulação perdeu o controlo do mesmo nas águas traiçoeiras e encalhou a embarcação na Costa dos Mosquitos, na Nicarágua. L'Olonais ordenou que a sua tripulação começasse a construir barcos rudimentares, mas, ao liderar uma expedição de busca de mantimentos no interior, foi atacado e derrotado por uma força espanhola. L'Olonais conseguiu escapar para navegar ao longo da costa, mas, numa outra incursão de busca de mantimentos no Golfo de Darién, foi capturado por canibais. Entre os cativos, L'Olonais foi servido por último, por assim dizer. Foi lentamente cortado aos pedaços até morrer e, depois, foi assado. As partes mais selecionadas foram comidas e o que restou foi reduzido a cinzas e espalhado pelo vento.

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Cartwright, M. (2026, agosto 03). François L'Olonais. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20137/francois-lolonais/

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Cartwright, Mark. "François L'Olonais." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, agosto 03, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20137/francois-lolonais/.

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Cartwright, Mark. "François L'Olonais." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 03 ago 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20137/francois-lolonais/.

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