Edward Low

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations 3
bookmark_addbookmark_addedGuardar Artigo headphonesVersão Áudio printImprimir picture_as_pdfPDF
Tadhg Murphy as Edward 'Ned' Low (by Starz Entertainment, Copyright, fair use)
Tadhg Murphy como Edward 'Ned' Low Starz Entertainment (Copyright, fair use)

Edward 'Ned' Low foi um pirata inglês nas Caraíbas e no Atlântico oriental entre 1721 e 1724, durante a Era de Ouro da Pirataria (1690-1730). Provavelmente o mais sádico e cruel de todos os capitães piratas, dizia-se que Low torturava e mutilava frequentemente os seus prisioneiros, cortando-lhes os lábios e as orelhas, arrancando-lhes os corações ainda a pulsar e, depois, obrigando outros prisioneiros a comer esses bocados macabros.

O capitão Low foi bem-sucedido ao longo de quatro anos de pirataria brutal, capturando navios desde a Baía das Honduras até Nantucket e aos Açores. O castigo de Low veio da sua própria tripulação, que se amotinou e o deixou abandonado numa ilha deserta (marooned). Edward Low morreu provavelmente em 1724, mas não há certezas sobre como ou onde.

Remover Publicidades
Publicidade

O Motim e o Parceria com Lowther

Pouco se sabe sobre o início da vida de Low, exceto que era inglês, nascido em Westminster, Londres. Quando criança, era conhecido por fazer batota no jogo, e o seu irmão era igualmente notório por ser o primeiro ladrão infantil a usar o estratagema de ser transportado num cesto no meio de uma multidão para, a partir daí, roubar as perucas dispendiosas da nobreza que passava. Edward foi para o mar ainda jovem e acabou por ir parar a Boston, onde casou, teve um filho e trabalhou durante algum tempo numa cordoaria. A mulher morreu prematuramente, o que levou Low ao desespero e, talvez, a uma vida de crime. Dizia-se que o capitão pirata não deixava, mais tarde, que qualquer homem casado fizesse parte da sua tripulação, pois conhecia demasiado bem os laços do amor e temia que um homem nessas condições fosse mais propenso a desertar.

Mesmo as tripulações que se rendiam pacificamente eram tratadas de forma abominável pelo capitão Low.

A carreira pirata de Edward Low começou em dezembro de 1721, quando fazia parte da tripulação de uma balandra mercante britânico nas Honduras. Low e outros 12 membros da tripulação desentenderam-se com o seu capitão, dispararam sobre ele (ou, pelo menos, na sua direção) e apoderaram-se do navio (incluindo o seu carregamento de madeira). Os amotinados partiram então para seguir uma vida de pirataria. Low foi eleito capitão dos piratas, mas o seu navio era apenas uma embarcação modesta, pelo que não tardaram a trocar por um navio maior após uma captura bem-sucedida. Em seguida, os piratas navegaram até às Ilhas Caimão. Aí, Low juntou forças com outro grupo de piratas, cujo líder era o pirata inglês George Lowther († 1723). Low e Lowther puseram-se a pilhar mais navios no início do verão de 1722. Fizeram várias capturas, mas sofreram um revés notável na Baía de Amatique, no Belize, quando uma aldeia ripostou e incendiou um dos navios dos piratas.

Remover Publicidades
Publicidade
Mapa da Costa Firme e dos Refúgios de Piratas nas Caraíbas, cerca de 1670
Mapa da Costa Firme Espanhola e os Refúgios de Piratas das Caraíbas cerca de 1670 Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

À medida que 1722 avançava, Low e Lowther seguiram caminhos distintos, com o Capitão Low a optar pelos alvos fáceis que se encontravam ao largo da costa da América do Norte. Low parece ter-se restringido a navios mercantes pequenos, mas pouco armados, ao largo de Nova Jérsia e da Terra Nova. Também voltou a trocar de navio, assumindo desta vez o comando de uma escuna de 80 toneladas que tinha capturado, a qual navegou até às Caraíbas. Sem receio de atravessar o Atlântico, Low navegou até aos Açores em agosto, onde a sua sorte continuou, capturando uma frota de oito embarcações mercantes que capitularam assim que içou a sua bandeira pirata. O capitão pirata apoderou-se do Rose, um pink (uma pequena embarcação de carga de fundo chato e popa estreita), e entregou o comando da escuna a um subordinado, um tal Charles Harris. Mais presas foram feitas nos Açores e nas ilhas de Cabo Verde.

Um Pirata Bárbaro e Diabólico

A Jolly Roger de Edward Low, içada para recordar às vítimas que qualquer resistência apenas conduziria a um roubo mais brutal, consistia num esqueleto humano vermelho sobre um fundo preto. Como se veio a verificar, mesmo as tripulações que se rendiam pacificamente continuavam a ser tratadas de forma abominável por Low. Abundavam histórias de cativos de Low que eram torturados para revelar o paradeiro de objetos de valor, ou simplesmente pelo prazer sádico de os ver sofrer humilhações e mutilações. Tais detalhes escabrosos da carreira pirata de Low encontram-se, entre outras fontes da época, na célebre galeria de piratas A General History of the Robberies and Murders of the Most Notorious Pyrates (Uma História Geral dos Roubos e Assassinatos dos Piratas Mais Notórios), compilada na década de 1720. O livro foi atribuído na folha de rosto a um Capitão Charles Johnson, mas este é, talvez, um pseudónimo de Daniel Defoe (embora os estudiosos ainda debatam a questão, e Charles Johnson possa ter sido um piratologista real, ainda que totalmente desconhecido).

Remover Publicidades
Publicidade

Low tem direito a um capítulo completo na obra General History, e uma passagem descreve a captura da Wright Galley nos Açores, em 1722. A tripulação da Wright Galley defendeu-se imprudentemente contra o ataque pirata e Low foi implacável:

Os piratas retalharam-nos e mutilaram-nos de uma forma bárbara, particularmente alguns passageiros portugueses, dois dos quais eram frades, que içaram pelas pontas da verga do traquete, antes de estarem totalmente mortos, e isto repetiram-no várias vezes por puro divertimento.

(Defoe, pág. 324)

Edward Low Cigarette Card
Cartão Coleção de Cigarros de Edward Low Metropolitan Museum of Art (Copyright)

Outras torturas apreciadas por Low e pela sua tripulação incluíam colocar rastilhos a arder entre os dedos dos prisioneiros, infligir cortes superficiais com facas e distribuir violentas chicotadas. Numa outra captura, desta vez uma embarcação francesa, Low permitiu que todos a bordo fossem livres, exceto um: o cozinheiro do navio:

Que, segundo eles, sendo um sujeito gorduroso, fritaria bem no fogo; por isso, o pobre homem foi atado ao mastro grande e queimado no navio, para não pequena diversão de Low e dos seus mirmidões.

(Defoe, pág. 323)

O capitão Low foi por vezes, ainda que extremamente raramente, hospitaleiro para com os seus cativos. Um capitão chamado George Roberts, capturado nas ilhas de Cabo Verde em setembro de 1721, foi bem tratado, embora não tenha ficado impressionado com o comportamento geral da tripulação pirata, como revela esta descrição recontada por Johnson/Defoe:

Remover Publicidades
Publicidade

Desta forma passavam o tempo, bebendo e festeando alegremente, tanto antes como depois do jantar, o qual comiam de uma forma muito desordenada, mais parecidos com uma matilha de cães do que com homens, arrebatando e apanhando a comida uns dos outros; o que, embora me fosse muito odioso, parecia ser um dos seus principais divertimentos e, diziam eles, tinha um aspeto marcial.

(citado em Cordingly, pág. 92)

O Regresso às Américas

Com o seu pinque e a escuna, Low navegou de volta pelo Atlântico, alcançando desta vez a América do Sul. O Rose precisava, a essa altura, de reparações urgentes e teve de ser posto a carenar, um processo em que o navio é deixado em seco e o casco abaixo da linha de água é raspado para limpar a vida marinha, aplicando-se calafetagem nova entre as tábuas. Infelizmente para Low, o pinque naufragou durante esta manobra. Com Harris a ser destituído do comando da escuna, os piratas navegaram até Granada, onde outro navio foi capturado e tomado por Low. O comando da escuna foi então entregue ao seu quartel-mestre, Francis Spriggs.

Jolly Roger of Edward Low
Jolly Roger de Edward Low Orem (CC BY-SA)

Low e Spriggs semearam o caos nas Caraíbas entre dezembro de 1722 e janeiro de 1723, capturando várias embarcações. Um dos prémios foi um navio mercante português, e o seu capitão despertou a ira de Low num episódio descrito pelo Governador Hart num relatório oficial enviado a Londres, datado de 25 de março de 1724 e baseado em testemunhos oculares:

[Low] capturou um navio português que regressava do Brasil, cujo mestre pendurara onze mil moedas de ouro num saco, pela janela da cabina, e assim que foi apanhado pelo dito Low, cortou a corda e deixou-as cair ao mar; pelo que Low cortou os lábios ao dito mestre e assou-os perante o seu rosto, e depois assassinou toda a tripulação, composta por trinta e duas pessoas.

(citado em Cordingly, pág. 130)

Low estava de volta à costa das Honduras na primavera de 1723. Lá, deparou-se com um navio espanhol que tinha capturado vários ingleses que cortavam madeira. Os piratas içaram uma bandeira espanhola e aproximaram-se o suficiente para disparar uma salva de bordada e abordar o alvo. Mais de 60 espanhóis foram mortos antes de Low zarpar de regresso às Caraíbas e subir novamente para a costa leste da América do Norte, capturando os carregamentos de uma dúzia de outros navios pelo caminho.

Remover Publicidades
Publicidade

O Agravamento da Loucura de Low

Embriagado pelo seu sucesso, o Capitão Low tornou-se cada vez mais ambicioso e, a 10 de junho, as suas duas balandras, Fortune (10 canhões) e Ranger (8 canhões), atacaram um navio da Marinha Britânica nas águas a leste de Long Island. O HMS Greyhound (18-20 canhões), comandado pelo Capitão Solgard, teria sobrepujado qualquer um dos navios de Low se estivesse sozinho, mas o par tinha poder de fogo suficiente para perseguir o navio de guerra britânico e apanhá-lo num fogo cruzado. Como se veio a verificar, o Greyhound estava deliberadamente a atrair os piratas enquanto o navio era preparado para a batalha. As equipas de artilharia bem treinadas do navio naval superaram largamente os dois atacantes numa batalha que durou oito horas. Low foi forçado a fugir. Harris, de volta ao comando da escuna, não teve a mesma sorte e foi capturado, julgado e enforcado por pirataria em Newport, Rhode Island, em julho de 1723. O Capitão Solgard, por sua vez, recebeu o título de "cidadão honorário" de Nova Iorque, em agradecimento pelos seus esforços para reprimir a pirataria.

Edward Low Marooned by His Crew
Edward Low Abandonado pela sua Tripulação Unknown Artist (Public Domain)

Low parece ter entrado num estado de desequilíbrio mental. Navegando para norte, em direção às águas mais frias ao largo de Nantucket, Low atacou uma balandra baleeira e, como já era sua marca registada, deleitou-se com um pouco de tortura ao capitão capturado, que foi açoitado, teve as orelhas cortadas e, depois, foi morto a tiro. Outra parelha de baleeiros foi capturada pouco depois ao largo de Rhode Island. Um dos capitães foi tratado de forma semelhante, mas ainda mais brutalmente do que o homem de Nantucket, sendo desta vez forçado a comer as suas próprias orelhas antes de ser baleado. A um segundo capitão foi arrancado o coração ainda vivo, e outro prisioneiro foi obrigado a comê-lo. Estes episódios macabros foram noticiados num jornal de Boston.

O Capitão Low parecia gostar de frotas de pesca, uma vez que continuou a sua vaga de crimes mais para norte, atacando e capturando 23 navios de pesca franceses ao largo de Cape Breton. Depois, tomou um segundo navio, de 22 canhões, para seu uso pessoal. Em agosto, a sua frota subiu para três quando o próprio Low assumiu o comando de um navio de 34 canhões. Em setembro, estava de novo nos Açores e continuava a capturar navios mercantes com impunidade. A frota de Low navegou ao longo da costa da África Ocidental, mas o reinado de terror do capitão pirata estava a chegar ao fim.

Remover Publicidades
Publicidade

O Motim e o Abandono

Não foram as autoridades desesperadas que arquitetaram a queda de Edward Low, mas a sua própria tripulação. O capitão sádico tinha, imprudentemente, começado a atacar os seus próprios homens. Havia ressentimentos suficientes para que Francis Spriggs tomasse um dos navios, o Batchelor’s Delight, e navegasse em direção ao horizonte (foi visto pela última vez em 1724, abandonado pela sua tripulação entre os índios Mosquito, nas Honduras). De regresso às Caraíbas no início de 1724, Low deve ter aborrecido ainda mais a sua tripulação, uma vez que esta decidiu abandonar o seu instável capitão numa ilha deserta. O que aconteceu exatamente a Low permanece um mistério, embora um relato francês aponte que foi capturado por um navio francês e enforcado na Martinica.

Remover Publicidades
Publicidade

Sobre o Tradutor

Sobre o Autor

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2026, julho 29). Edward Low. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20090/edward-low/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Edward Low." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 29, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20090/edward-low/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Edward Low." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 29 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20090/edward-low/.

Remover Publicidades