Périplo do Mar Eritreu

James Hancock
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Recreation of a Roman Port (by Ancient History Magazine / Karwansaray Publishers, Copyright)
Recriação de um Porto Romano Ancient History Magazine / Karwansaray Publishers (Copyright)

O Périplo do Mar Eritreu é um relato de testemunha ocular sobre as viagens da Antiguidade à África e à Índia via Mar Vermelho, escrito por um autor anónimo egípcio de língua grega no século I d.C. Neste relato detalhado, são descritas as condições das rotas, bem como os portos ao longo do caminho, o comportamento das populações locais e as principais importações e exportações.

O Périplo do Mar Eritreu (1.ª Ed.ª bilingue 2005; em grego: Πέριπλους τῆς Ἐρυθρᾶς Θαλάσσης; em latim Periplus Maris Erythraei ou Periplous tēs Erythras Thalassēs) é um registo extraordinário do comércio no mundo antigo. Como descrito por Schoff:

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O Périplo do Mar Eritreu é um daqueles documentos humanos que, tal como os diários de Marco Polo, Colombo e Vespúcio, expressam não apenas a iniciativa individual, mas o despertar de toda uma raça para novos campos de descoberta geográfica e de realização comercial. É o primeiro registo de um comércio organizado com as nações do Oriente, em embarcações construídas e comandadas por súbditos do Mundo Ocidental. Marca a inversão de uma maré de comércio que se tinha fixado numa única direção, sem interrupção, desde o alvorecer da história.

(pág. 3)

A Autoria e a Datação

Conhecido através de um único manuscrito que se encontra atualmente em Heidelberg, datado do início do século X, e de uma cópia muito posterior no British Museum, o Périplo do Mar Eritreu foi escrito numa mistura de grego clássico e comum, algures entre os anos 40 e 55 d.C. O Mar Eritreu era a designação antiga para a massa de água situada entre o Corno de África e a Península Arábica, e o Périplo terá sido, provavelmente, o diário de um mercador, contendo as primeiras informações sobre os habitantes da costa da África Oriental, mais de meio milénio antes de quaisquer outras referências escritas comparáveis.

Pelo relato, torna-se claro que o autor realizou pessoalmente a viagem até à Índia.

A data em que foi escrito apenas pode ser deduzida através das suas referências a locais e eventos. O autor menciona a descoberta da rota para a Índia por Hípalo, que os historiadores acreditam ter ocorrido por volta do ano de 47 d.C. Quase todas as autoridades consideram que o Périplo é anterior à História Natural de Plínio, a qual se sabe ter sido publicada entre 73 e 77 d.C. Existem inclusive argumentos defendendo que Plínio poderá ter colhido informações do Périplo do Mar Eritreu, embora estas sugestões não sejam, de modo algum, conclusivas. Schoff (1912) e outros situaram a data mais provável para o Périplo em 60 d.C.

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Pelo relato, torna-se claro que o autor realizou pessoalmente a viagem até à Índia. Ele viveria em Berenice, no Mar Vermelho, e não em Alexandria, uma vez que não apresenta qualquer relato da viagem subindo o Nilo e atravessando o deserto a partir de Coptos, que Estrabão e Plínio descrevem detalhadamente. Pensa-se que não seria um homem com elevada instrução, o que é "evidente pela sua frequente confusão entre palavras gregas e latinas e pelas suas construções canhestras e, por vezes, gramaticalmente incorretas". O grande valor da sua obra não é literário, "mas sim o seu relato fidedigno do comércio no Oceano Índico e dos povoados em redor das suas margens; sobre os quais, até à sua época, quase nada possuímos de natureza inteligente e abrangente" (Schoff, pág. 16).

A Rede Comercial Oriental da Roma Antiga

O volume do comércio romano que passava pelos portos do Mar Vermelho aumentou drasticamente quando o Imperador Romano Augusto (reinou 27 a.C. – 14 d.C.) colocou o Egito sob o controlo de Roma em 30 a.C. O geógrafo, filósofo e historiador grego Estrabão relatou que, "no seu tempo, navegavam regularmente 120 embarcações do Egito para a Índia, ao passo que, anteriormente, muito poucas faziam a viagem" (Geografia, 16.4).

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Periplus of the Erythreaen Sea
Périplo do Mar Eritreu PHGCOM (CC BY-SA)

Surgiram, sob o Império Romano, duas rotas comerciais principais que se estendiam por cerca de 4800 quilómetros (3000 milhas). Havia uma rota meridional que descia o Mar Vermelho e seguia depois ao longo da costa oriental de África até Rapta, perto da atual Dar es Salaam; e outra que também descia o Mar Vermelho, mas que depois seguia para leste, atravessando o Oceano Índico em direção a portos na Índia. A viagem completa ao longo da costa de África, a partir do Egito, demorava cerca de dois anos a ser concluída, enquanto a ida e volta à Índia se aproximava de um ano.

As embarcações que transportavam mercadorias destinadas tanto a África como à Índia partiam dos portos do Mar Vermelho entre julho e setembro, sendo navegadas para sul pelo meio do Mar Vermelho para evitar as perigosas linhas costeiras. As embarcações com destino aos portos africanos dirigiam-se então ao Cabo Guardafui, no Corno de África, e depois para sul até Rapta, navegando junto à costa africana. Os navios com destino à Índia navegavam para os portos de Áden e Qana’, na costa sul da Arábia, e depois aproveitavam os ventos das monções através das águas abertas do Oceano Índico até ao sudoeste da Índia.

A Rota Descrita no Périplo do Mar Eritreu

O Périplo descreve a viagem ao longo da costa da Arábia:

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Diretamente abaixo deste local encontra-se o país vizinho da Arábia, que na sua extensão confina por uma grande distância com o Mar Eritreu. Diferentes tribos habitam o país, diferindo na sua fala, umas parcialmente e outras por completo. A terra junto ao mar é similarmente pontilhada aqui e ali por cavernas dos Ictiófagos [Comedores de Peixe], mas o interior do país é povoado por homens malvados que falam duas línguas, vivendo em aldeias e acampamentos nómadas, pelos quais aqueles que se desviam da rota central são saqueados, e os que sobrevivem a naufrágios são feitos escravos… A navegação é perigosa ao longo de toda esta costa da Arábia, que carece de portos, possui maus ancoradouros, é suja, inacessível devido à rebentação e aos rochedos, e terrível em todos os aspetos. Portanto, mantemos o nosso curso pelo meio do golfo e passamos o mais rápido possível pelo país da Arábia até chegarmos à Ilha Queimada; diretamente abaixo da qual existem regiões de gente pacífica, nómada, pastores de gado, ovelhas e camelos.

(Périplo do Mar Eritreu, pág. 20).

O primeiro porto que visitaram na Índia foi Barbaricum. O Périplo descreve:

Os navios permanecem ancorados em Barbaricum, mas todas as suas cargas são levadas rio acima até à metrópole, para o Rei. São importadas para este mercado grandes quantidades de vestuário fino e algum contrafeito; linhos lavrados, topázio, coral, estoraque, incenso, artigos feitos de vidro, baixelas de prata e ouro, e um pouco de vinho. Por outro lado, são exportados saca-palo [costus], bdélio [resina de mirra], lício [uma erva solanácea], nardo, turquesa, lápis-lazúli, peles séricas, tecidos de algodão, fio de seda e índigo. E os marinheiros partem para lá com os ventos etésios indianos, por volta do mês de julho, ou seja, Epiphi: é mais perigoso nessa altura, mas através destes ventos a viagem é mais direta e concluída mais cedo.

(Idem, pág. 39).

Uma vez na Índia, os romanos visitaram portos ao longo da costa, desde Barbaricum, no Rio Indo, até Muziris (Cranganore) na costa sudoeste de Malabar, e depois o Sri Lanka. Os parceiros comerciais importantes foram as dinastias Tamil dos Pandyas, Cholas e Cheras, no sul da Índia. O primeiro grande centro de comércio de especiarias no mundo tornou-se Muziris, localizado no estado indiano de Kerala, na costa sudoeste da Índia. A sua localização exata é desconhecida. Provavelmente estabelecido por volta de 3000 a.C., permaneceu como um dos portos comerciais mais importantes da Índia durante o período romano. No Akananuru, uma coleção de poesia antiga Tamil, a cidade era descrita como "a cidade onde as belas embarcações, as obras-primas dos Yavanas [ocidentais], agitam a espuma branca no Periyar, rio de Kerala, chegando com ouro e partindo com pimenta" (Perur, 2016). A pimenta preta era a principal exportação deste grande empório, constituindo três quartos do volume da carga destinada ao ocidente, mas outros itens do comércio indiano incluíam marfim e pérolas de origem local, bem como pedras semipreciosas e sedas do Vale do Ganges e das regiões do leste dos Himalaias.

Market Scene
Cena de Mercado SEGA (Copyright)

Em cada paragem ao longo do caminho, eram oferecidas diferentes mercadorias locais para troca, por vezes por moedas de ouro e outras vezes por escambo, incluindo bens como tecidos, estátuas de prata e ouro, cereais, vinho e azeite. O incenso e a mirra do sul da Arábia eram extremamente populares na Índia, juntamente com o ouro e a prata, pelos quais os indianos trocavam a sua pimenta, algodão e pérolas de produção local, bem como sedas que tinham obtido de mercadores chineses. Na viagem descendo a costa africana, o linho egípcio, o vidro, o vinho e produtos metálicos seriam trocados por marfim africano, carapaça de tartaruga, mirra e incenso, juntamente com canela, tecidos indianos, faixas e musselinas finas obtidas através do seu comércio com mercadores indianos.

Da Índia, partiam de regresso a casa, raramente viajando mais profundamente para o Sudeste Asiático. Assim que os navios estivessem cheios, os mercadores regressavam aos portos egípcios de Miós Hormos e Berenice. Ali, as remessas dos seus tesouros eram enviadas por terra em caravanas de camelos e, depois, transportadas por navio para o centro comercial do Egito Romano, a cidade de Alexandria. A diversidade dos bens enviados através do deserto teria sido simplesmente deslumbrante: incenso árabe, canela do Sri Lanka e da China, pimenta indiana, pérolas e pedras preciosas, sedas e porcelanas chinesas, mirra africana, marfim, corno de rinoceronte e carapaça de tartaruga.

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Hancock, J. (2026, maio 08). Périplo do Mar Eritreu. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19920/periplo-do-mar-eritreu/

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Hancock, James. "Périplo do Mar Eritreu." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, maio 08, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19920/periplo-do-mar-eritreu/.

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Hancock, James. "Périplo do Mar Eritreu." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 08 mai 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19920/periplo-do-mar-eritreu/.

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