Reino Luba

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Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Horned Mask, Luba Kingdom (by The British Museum, CC BY-NC-SA)
Máscara Cornuda, Reino Luba The British Museum (CC BY-NC-SA)

O Reino Luba, localizado na África Central, prosperou entre os séculos XV e XIX e foi o primeiro estado do género na bacia do Congo. As competências no trabalho do ferro e o comércio ao longo do rio Lualaba de metais como o cobre permitiram à elite Luba formar um reino que se expandiu através e a partir da Depressão de Upemba, na atual zona sul da R.D. Congo. O Reino Luba prosperou até cair nas mãos dos colonialistas belgas no final do século XIX.

As Origens

As origens do Reino Luba remontam à África Central por volta de 130, nas florestas tropicais do sul do Shaba, tendo-se expandido para abranger as pradarias húmidas da Depressão do Lago Upemba (na parte sul da atual República Democrática do Congo, anteriormente conhecida como Zaire). Os reis Luba e as tradições orais afirmavam uma ligação passada com a região de Shaba, habitada pelo povo Lualaba da Idade do Ferro. Os sítios Lualaba, sendo o mais antigo Kamilamba, datam dos séculos VI-VII, e prosperaram graças aos depósitos locais de metais, especialmente cobre, o que lhes permitiu comercializar com outros povos da África Central utilizando os rios da região.

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O comércio dos Luba estendia-se às florestas da África Central, a sul até ao Zimbábue e a leste até à costa.

A região apresenta vestígios de agricultura anteriores a 1100, que incluíam o cultivo de culturas como o sorgo vermelho, o milho-miúdo, o inhame, a banana, o feijão, a cana-de-açúcar e o amendoim. As terras agrícolas férteis estavam disponíveis apenas em pequenas áreas isoladas e, entre estas, existiam vastas zonas desabitadas utilizadas para a caça. Esta distribuição natural explica por que razão surgiram na região muitas chefias pequenas, mas independentes. Havia também pesca em lagos e rios, bem como a criação de animais como porcos e gado com chifres. Os depósitos locais de metais, como o ferro e o cobre, continuaram a ser explorados. O artesanato incluía a cerâmica, a cestaria, a tecelagem e a produção de sal, cerveja de palma e joalharia em cobre. Existem indícios de comércio e até de formas precoces de moeda, sob a forma de lingotes de cobre em forma de cruz, conchas, quadrados de palha de ráfia e sal (no século XIX, as contas importadas tornaram-se a moeda dominante). O comércio dos Luba estendia-se às florestas da África Central, a sul até ao Zimbábue e a leste até à costa, de onde as mercadorias entravam e saíam através do Oceano Índico.

Map of Ancient & Medieval Sub-Saharan African States
Mapa dos Estados Africanos Subsaarianos Antigos e Medievais Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

A História Geral de África da UNESCO (Vol. IV) refere o seguinte sobre as origens do reino:

O reino Luba foi provavelmente fundado antes de 1500 por um certo Kongolo, perto de Kalongo, através da fusão de vários clãs patrilineares. Cada clã, liderado por um chefe ou kiloto, o «dono de escravos», reconhecia a autoridade do rei. O rei estava rodeado por, pelo menos, dois dignitários: o guardião dos emblemas, chamado inabanza, e o chefe militar ou twite. A «sacralidade» ou bulopwe da realeza era inerente ao sangue que corria nas veias da linhagem reinante.

(pág. 226)

De acordo com lendas orais, o primeiro rei Luba, Kongolo (que significa «Arco-íris»), era bastante cruel, mas foi civilizado pelos ensinamentos de um caçador, Kalala Ilunga, que chegou do leste. Este caçador teve relações com duas irmãs do rei e um dos filhos dessa união, quando cresceu, deixou Luba e partiu à procura do seu pai, que, nessa altura, já tinha abandonado o reino. O caçador deu ao príncipe um exército e, assim, este regressou para destronar o seu tio cruel e estabelecer um governo justo no Reino de Luba. Em algumas versões do mito, Kongolo é morto por Kalala Ilunga e, embora não haja nenhum sobrinho, existem duas tribos rivais lideradas por mulheres a oeste. Foi o casamento ou a abdicação que levou à união destes micro-reinos no reino maior de Luba.

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À medida que os reis de Luba continuavam a combinar o governo com os deveres religiosos, passaram a ser reverenciados como figuras sagradas por si próprias.

A história do rei fundador de Luba pode refletir o comércio regional e a difusão de ideias que o acompanharam, talvez até mesmo a migração bantu, que espalhou uma língua e uma tecnologia altamente desenvolvidas desde as suas origens no sudoeste de África até ao resto do interior do continente. Um dos emblemas do poder real de Luba eram os sinos duplos de ferro, que demonstram a capacidade de fabricar chapas de ferro e de soldar metais. Estes sinos, produzidos em toda a África Central, são mais um indicador da difusão de ideias na região.

A Realeza e o Governo

Antes de cerca de 1500, a linhagem Luba era matrilinear, ao contrário de quase todas as outras sociedades da África Central Equatorial, mas após esta data, os Luba também adotaram o costume patrilinear. Os reis surgiram a partir dos proprietários de terras, sendo que os mais influentes eram também sacerdotes dos espíritos da terra. Através da aquisição de terras vizinhas e da união de pequenas chefias por meio de casamentos, estas figuras governantes transformaram-se numa nobreza com um rei à sua frente. À medida que os reis continuavam a combinar o governo com os deveres religiosos, passaram a ser reverenciados como figuras sagradas por si mesmas. Quanto mais a agricultura e o comércio prosperavam, maior era o excedente de produção, o que permitia aos cidadãos mais abastados libertarem-se do trabalho e dedicarem-se à construção de sistemas de governação estatal. As terras eram usurpadas a vizinhos mais fracos, tributos regulares (em bens ou trabalho) eram cobrados às tribos conquistadas e os escravos eram capturados para aumentar ainda mais a produção agrícola e libertar mais Lubans da necessidade de trabalhar. Os criminosos também podiam ser transformados em escravos. Assim, nasceu o incipiente Reino de Luba.

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Copper Curency Ingot, Luba Kingdom
Lingote de Moeda de Cobre, Reino Luba The British Museum (CC BY-NC-SA)

A História Geral de África da UNESCO (Vol. V) descreve a pirâmide de poder estabelecida no reino de Luba:

A organização do Estado de Luba correspondia a uma pirâmide de pirâmides. Ao nível das aldeias, os agregados familiares estavam ligados por linhagem paterna. As relações entre aldeias eram também consideradas como relações entre linhagens, embora cada distrito tivesse um chefe com título. Acima disto, o próprio reino era governado a partir da capital, cujo próprio traçado refletia esta estrutura, com os aposentos reais no centro e aposentos para funcionários com título de ambos os sexos, separados de acordo com a sua função militar ou civil. Uma associação fechada, a bambudye, ajudava o rei a governar. Não se supunha que o rei tivesse uma linhagem ou clã, embora o cargo fosse normalmente transmitido de pai para irmão ou filho. O rei situava-se, ao mesmo tempo, acima da contenda política e, ainda assim, ligado por laços de parentesco a muitos dos chefes de distrito. Ele situava-se no vértice da pirâmide das pirâmides de parentesco. O título mulopwe significa a indivisibilidade do poder, que não podia ser partilhado.

(pág. 295)

A Religião

As práticas religiosas, tal como noutros locais de África, desenvolveram-se à medida que os sacerdotes prometiam promover o sucesso da agricultura e da fertilidade. Os sacerdotes recorriam à magia e à adivinhação para impressionar os seus seguidores, e existia uma reverência generalizada pelos antepassados falecidos e pelos espíritos locais associados a características e fenómenos naturais. Não só os reis gozavam de reverência enquanto figuras sagradas, como também quaisquer pessoas detentoras de autoridade, nomeadamente os chefes de família. A autoridade era ainda reforçada através da adesão a sociedades secretas, cujos membros eram os únicos a ter acesso a certos ritos e rituais. De facto, grupos secretos como os bambudye, que aconselhavam o rei, eram tão eficazes a guardar os seus segredos que hoje em dia desconhecemos os detalhes precisos do seu papel e função.

Carved Stool, Luba Kingdom
Banco Esculpido, Reino Luba The British Museum (CC BY-NC-SA)

A arte lubana revela aspetos da sua religião. Os artistas do reino produziam máscaras faciais de metal distintas, com chifres de gado, provavelmente um sinal de poderes mágicos e, por isso, associadas aos governantes. Outro material utilizado era a madeira dura, empregue na confeção dos cabos de machados rituais, cobertos de nódulos e com uma lâmina metálica alongada. Outros objetos de arte mostram que os lubas usavam cocares altos e apresentavam cicatrizes rituais proeminentes.

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A Expansão

O Reino de Luba, com o seu coração em torno do Lago Boya, expandiu-se consideravelmente no século XVIII graças ao exército do rei e a um rei em particular, o Rei Kadilo, que reinou a partir de cerca de 1700. Consequentemente, num processo gradual, o Estado absorveu o Reino de Kikondja, a sul, o Reino de Kalundwe, a oeste, e várias tribos no sudeste da região. Esta conquista militar levou a que algumas populações abandonassem a região para manter a sua independência, nomeadamente os povos da bacia inferior do rio Luvua, que vieram a fundar o Estado de Shila, junto ao Lago Mweru. Outra onda de expansão territorial ocorreu na primeira metade do século XIX, especialmente para leste, em direção ao Lago Tanganica e aos trechos mais a norte do rio Lualaba. O reino tornou-se tão bem-sucedido que os povos de toda a região central e oriental da Zâmbia e do Maláui afirmavam que os seus próprios reis descendiam dos reis dos Luba. Um reino vizinho, situado na parte ocidental de Shaba, foi particularmente influenciado em termos de tradições, instituições e símbolos; tratava-se do Reino de Rund, fundado por volta de 1500. Os dois reinos acabariam por estabelecer uma relação recíproca em termos de intercâmbio intercultural.

O Declínio

O reino perdurou até ao final do século XIX, mas foi então subjugado, tal como tantas outras culturas africanas, pela chegada dos colonialistas europeus. No caso dos Luba, o seu adversário foi a Bélgica, que tomou o controlo desta parte de África por volta de 1885 e criou o que ficou conhecido como o Congo Belga (1908-1960). Uma região constantemente assolada por guerras civis, conquistou a independência em 1960 e passou por várias mudanças de nome à medida que os regimes surgiam e caíam em rápida sucessão. Tornou-se a República do Congo (também conhecida como Congo-Leopoldville) de 1960 a 1964, a República Democrática do Congo de 1964 a 1971, a República do Zaire de 1971 a 1997 e, finalmente, a atual República Democrática do Congo em 1997.

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Cartwright, M. (2026, agosto 24). Reino Luba. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18841/reino-luba/

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Cartwright, Mark. "Reino Luba." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, agosto 24, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18841/reino-luba/.

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Cartwright, Mark. "Reino Luba." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 24 ago 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18841/reino-luba/.

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