A dinastia Pushyabhuti, ou Dinastia de Paxabuti, (cerca de 500 d.C. – 647 d.C.) surgiu após a queda do Império Gupta (século III – século VI) no século VI, no norte da Índia. Também conhecida como dinastia Vardhana ou Pushpabhuti, a área central do seu reino situava-se no que é hoje o estado de Haryana, na Índia, com a capital em Sthanishvara ou Thaneshvara (atual Thanesar) e, mais tarde, em Kanyakubja (atual Kannauj, no estado de Uttar Pradesh). O governante mais notável desta dinastia foi o seu último soberano, o Imperador Harshavardhana ou Harsha (reinou 606-647). Os Pushyabhutis estabeleceram um reino poderoso que rivalizava com as outras potências regionais pela supremacia política na Índia e, sob o reinado de Harsha, alcançaram o estatuto imperial. No entanto, foi de curta duração, e Kannauj acabou por ficar conhecida como o reino base para futuros impérios.
As Condições Políticas na Índia do Século VI
A queda do Império Gupta e a ausência de qualquer outro império para o substituir levaram à desintegração política do norte da Índia. A par dos Pushyabhutis, surgiram vários poderes igualmente independentes: os Maukharis de Kosala/Kanyakubja (atual estado de Uttar Pradesh) e os Guptas tardios de Magadha e Malwa (atuais estados de Bihar e Madhya Pradesh). Os outros reinos incluíam os estabelecidos nos atuais estados de Odisha, Bengala e Assam. No século VII, surgiu o reino Gauda, sob o reinado do rei Shashanka (cerca do final do século VI - 637), que abrangia a parte norte e a maior parte da parte ocidental de Bengala.
Os Primeiros Governantes
"A origem do reino de Sthanishvara, a atual Thaneswar, está envolta em obscuridade" (Majumdar, pág. 96). Acredita-se que tenha sido fundado por um tal Pushyabhuti, mas os primeiros governantes são praticamente desconhecidos por quaisquer realizações. Inscrições revelam que, entre os reis Pushyabhuti e Prabhakaravardhana, houve vários reis sem nome e outros que ficaram conhecidos, como Naravardhana, Rajyavardhana e Adityavardhana, que precederam Prabhakaravardhana. Presume-se que tenham governado entre cerca de 500 e 580 e que fossem vassalos dos hunos, dos imperiais Guptas e, mais tarde, dos Maukharis.
Para além das inscrições, existem duas fontes primárias fundamentais sobre os Pushyabhutis. Uma é o relato intitulado Si-yu-ki, deixado pelo monge-erudito budista chinês Hiuen Tsang (Xuanzang, 602 – 664), que visitou a Índia no século VII e conheceu Harsha. O seu relato inclui detalhes sobre a sua corte, a vida contemporânea e as condições económicas, sociais e religiosas. A outra, e mais importante, é o Harshacharita, ou a biografia de Harsha escrita pelo seu poeta da corte, Banabhatta ou Bana (por volta do século VII), onde se faz grande referência ao rei Prabhakaravardhana e aos seus filhos Rajyavardhana e Harsha, bem como à sua filha Rajyashri. "Com a ascensão de Prabhakaravardhana, a história de Thaneshvara assume uma forma definida, graças à biografia de Harsha (Harshacharita) escrita pelo erudito contemporâneo Banabhatta" (Majumdar, pág. 97).
Prabhakaravardhana
Prabhakaravardhana (reinou 580-605, também conhecido como Pratapashila) é descrito por Bana como "um homem orgulhoso, atormentado pelas suas ambições altivas" (Banabhatta, pág. 101). Assim, combateu muitos inimigos, expandiu o seu reino e assumiu o título de Maharajadhiraja (sânscrito: «Senhor dos Grandes Reis»), o primeiro da dinastia a fazê-lo. Aproveitou-se do declínio do poder Maukhari após a morte do rei Ishanavarman (por volta do século VI), mas manteve relações cordiais com eles, casando Rajyashri com o rei Maukhari contemporâneo Grahavarman (por volta do século VI – início do século VII).
Esteve frequentemente em guerra e crê-se que terá combatido os Hunas, no atual norte do Panjabe, bem como os reis de Sinde e Gandara (atual Paquistão), de Lata (atual sul de Guzerate) e de Malwa. Não é claro se chegou efetivamente a derrotá-los ou se apenas travou uma guerra defensiva contra eles, mas, no seu tempo, tornou os Pushyabhutis uma potência a ter em conta. Morreu de doença, tendo sido sucedido pelo seu filho mais velho, Rajyavardhana (reinou 605-606).
Rajyavardhana
Enquanto príncipe, Rajyavardhana foi enviado numa campanha contra os hunos, mas teve de regressar à capital devido à doença do seu pai. Enquanto rei, deparou-se com uma guerra inesperada. Os Guptas Tardios, antigos inimigos dos Maukharis, tinham-se aliado a Gauda e, juntos, marcharam contra Kanyakubja, atacando e matando Grahavarman em 606. Devagupta, o rei Gupta Tardio, ocupou então Kanyakubja e aprisionou Rajyashri. Rajyavardhana marchou com o seu exército para o derrotar e resgatá-la. Chegou a Kanyakubja e derrotou o exército de Malwa pelo caminho, possivelmente matando Devagupta "com uma facilidade ridícula" (Banabhatta, pág. 209). O Harshacharita afirma que Shashanka veio em seu auxílio e assassinou Rajyavardhana "que tinha sido levado a confiar devido a falsas cortesias por parte do rei de Gauda e, depois, desarmado, confiante e sozinho, foi morto nos seus próprios aposentos" (Idem).
Harshavardhana
O príncipe Harsha, sabendo do assassinato do seu irmão, jurou vingança contra Shashanka, que nessa altura já tinha ocupado Kanyakubja e declarado guerra. Ele marchou com o seu exército e celebrou um tratado com o rei Bhaskaravarman (reinou 600-650) de Kamarupa (atual estado de Assam). O Harshacharita, inacabado, nada diz sobre o que aconteceu relativamente a esta guerra; "Na verdade, o poeta da corte nem sequer nos informa como o seu patrono procedeu contra o rei Gauda, que era o alvo imediato da sua ira" (Tripathi, pág. 296). Parece que, nessa altura, Shashanka, temendo o poder combinado de Harsha-Bhaskaravarman e a sua própria posição de fraqueza, especialmente após a derrota do exército aliado de Malwa, retirou-se da contenda. Harsha conseguiu resgatar a sua irmã e ocupar Kanyakubja.
Crê-se que Avantivarman, irmão mais novo de Grahavarman, tenha sucedido ao trono (possivelmente como regente) e, após a sua morte, Harsha tornou-se rei do reino Maukhari. Inicialmente, administrou o reino em nome da sua irmã Rajyashri, a rainha de Grahavarman, e mais tarde assumiu a soberania plena e assumiu abertamente a coroa. A capital também foi transferida de Sthanishvara para Kanyakubja e os dois reinos fundiram-se num só. Acredita-se que Harsha já era o rei de facto dos Pushyabhutis desde 606, mas só depois de subjugar inimigos poderosos como Shashanka é que ele pôde sequer pensar na coroação.
As Campanhas Militares e a Expansão
O reinado de Harsha continuou a ser marcado pela guerra, mas desta vez contra inimigos por ele próprio escolhidos. Ele lutou contra Valabhi (atual norte de Gujarat e parte de Malwa), Sindh e os reinos orientais em Magadha (atual Bihar) e na atual Odisha. As suas ambições logo encontraram um rival à altura no rei Pulakeshin II (reinou 609-642), que governava o reino de Vatapi (atual Badami, estado de Karnataka) no sul da Índia. Numa batalha decisiva travada em 618/19 ou 634, os Chalukyas derrotaram Harsha, que foi forçado a recuar e deixou de poder expandir-se para sul. A derrota não o dissuadiu de procurar conquistar território na Índia oriental e "teve de empreender expedições militares quase até ao fim do seu reinado memorável" (Idem, pág. 298).
O reino de Pushyabhuti consistia na maior parte do atual estado de Uttar Pradesh e em partes de Bihar. A inclusão do reino de Maukhari aumentou os seus domínios. O reino de Prabhakaravardhana era "delimitado pelo Yamuna (ou pelo Ganges) e pelo Beas a leste e a oeste, e pelos Himalaias e Rajputana a norte e a sul" (Majumdar, pág. 98). Harsha ampliou as fronteiras, e "o Rajastão, o Punjab, Uttar Pradesh, Bihar e Odisha estavam sob o seu controlo direto, mas a sua esfera de influência estendia-se por uma área muito mais vasta" (Sharma, pág. 171). Embora o epíteto sânscrito «Sakalottarapathanatha» («Senhor de todo o país do norte») tenha sido usado para Harsha, ele não controlava toda a Índia do norte. A sua derrota para Pulakeshin travou as suas ambições no sul e pôs fim de forma definitiva à entrada dos Pushyabhuti na Índia do sul.
Harsha não deixou nenhum herdeiro, e a dinastia Pushyabhuti chegou ao fim. O poder foi tomado por um dos seus ministros que, após lutar sem sucesso contra os chineses, foi feito prisioneiro por estes, e "com isso desapareceram também os últimos vestígios do poder de Harsha" (Tripathi, pág. 314). Enquanto Kanyakubja permaneceu como reino e voltou a estar na ribalta sob o reinado do rei Yashovarman (reinou 725-753), a maioria dos vassalos e amigos de Harsha, como Bhaskaravarman, dividiram o império e anexaram as partes conquistadas aos seus próprios reinos.
A Religião e o Governo
O hinduísmo e o budismo eram as principais religiões. O próprio Harsha "não era um hindu convicto" (Sharma, pág. 171) e patrocinava abertamente o budismo Mahayana, dando as boas-vindas calorosas e privilégios especiais a Hiuen Tsang. Organizou também uma grande assembleia em Kanyakubja para permitir que Hiuen Tsang e outros falassem sobre a grandeza do Mahayana. Distribuía ainda esmolas a cada seis anos, uma prática que se prolongava por dias até que todo o tesouro se esgotasse, chegando mesmo a doar as próprias vestes do imperador. Reza a lenda que, depois de as ter doado, Harsha se voltava para Rajyashri pedindo-lhe que lhe doasse roupas para vestir.
Na época de Harsha, a administração de Pushyabhuti, que anteriormente funcionava segundo o modelo imperial Gupta, tornou-se de natureza mais feudal e altamente descentralizada. As inscrições de Harsha mencionam muitos tipos de impostos e funcionários. Os funcionários eram recompensados com concessões de terras, o que explica por que Harsha cunhou um número menor de moedas em comparação com outros governantes. Os vastos recursos do reino Maukhari, uma vez nas mãos de Harsha, permitiram-lhe levar a cabo as suas próprias conquistas em várias partes da Índia. O controlo de Kanyakubja trouxe consigo um maior controlo imperial sobre as áreas ligadas pelo rio Ganges, "a via de tráfego que ligava todo o país desde Bengala até à Índia central" (Tripathi, pág. 301) e, consequentemente, criou maior prosperidade em termos de comércio e economia.
Os nobres e generais tinham voz em assuntos administrativos e o rei tinha o dever de os ouvir. O Harshacharita menciona notáveis como os generais Bhandin ou Bhandi e Simhanada, que expressavam abertamente as suas opiniões sobre assuntos de Estado e aconselhavam os príncipes sobre o próximo curso de ação, que era frequentemente seguido.
Harsha era um patrono das artes e do saber. Fez enormes doações à Universidade de Nalanda e a intelectuais e estudiosos. Sob o seu reinado, poetas como Bana floresceram e compuseram muitas obras literárias. Acredita-se que o próprio Harsha tenha escrito três peças intituladas Priyadarshika, Ratnavali e Nagananda. No entanto, muitos historiadores duvidam da sua erudição e acreditam, em vez disso, que foram escritas por um poeta chamado Dhavaka.
O Exército
O exército neste período consistia em elefantes, cavalaria e infantaria. Um grande número era fornecido pelos vassalos, pelo que se acredita que Harsha possuía 100 000 cavalos e 9000 elefantes. O Harshacharita está repleto de descrições de armas e do amor que os governantes Pushyabhuti tinham pelas suas espadas, pela guerra e por demonstrar proeza em batalha. Prabhakaravardhana transformou os Pushyabhutis numa potência militar. Os seus exércitos são descritos por Bana como "arrasando por todos os lados colinas e vales, matagais e florestas, árvores e relva, arbustos e formigueiros, montanhas e cavernas" (Banabhatta, pág. 101), demonstrando assim que eram capazes de longas marchas e de atravessar terrenos difíceis.
A cavalaria e os elefantes eram considerados de grande importância. Rajyavardhana marchou contra o exército de Malwa com uma força de cavalaria pequena, mas de elite, sob o comando de Bhandin, e derrotou-o completamente. Bana dedica muitas páginas à descrição dos cavalos e elefantes que o seu senhor possuía e, em particular, ao seu elefante de guerra favorito, chamado Darpashata, que é descrito como o "coração exterior de Harsha, o seu próprio eu numa outra encarnação, o seu fôlego vital que saiu de dentro dele, o seu amigo na batalha e no desporto, justamente chamado Darpashata, um senhor dos elefantes" (Idem, pág. 52). No entanto, estes não se revelaram de grande utilidade contra os Chalukyas e o seu corpo de elefantes.
Os acampamentos também são descritos em pormenor. As provisões, que incluíam alimentos, forragem, armas, vestuário e material de acampamento, eram transportadas em carroças puxadas por bois, elefantes, mulas e camelos e acompanhavam o exército. Muitas vezes, esses processos podiam ser muito caóticos. Tecnicamente, os agricultores, comerciantes e aldeões deviam ser deixados em paz, mas, na prática, os soldados saqueavam frequentemente os cereais ou mercadorias; nesse caso, as queixas dos lesados podiam ser apresentadas ao rei, que era suposto tomar medidas.
Os reis e príncipes também eram versados na arte da luta e da guerra. Prabhakaravardhana é mencionado como um valente guerreiro cujas mãos estavam endurecidas e calejadas pelo uso repetido do arco no campo de batalha. Bana comenta:
Certa vez, o rei convocou Rajyavardhana, cuja idade já o tornava apto para usar armadura… colocou-o à frente de uma imensa força e enviou-o, acompanhado por conselheiros veteranos e vassalos devotos, para o norte, a fim de atacar os hunos. Durante várias etapas, meu senhor Harsha acompanhou a sua marcha a cavalo.
(Ibid., pág. 132)
Pode-se supor que, uma vez que grande parte do estilo imperial Gupta ainda prevalecia no período, era muito provável que o sistema militar não tivesse mudado muito. Os soldados usavam o cabelo solto ou preso com uma fita ou gorros e turbantes simples, com túnicas, cintos cruzados sobre o peito nu ou uma blusa curta e justa. As elites que comandavam o exército ou outros oficiais usavam armaduras (especialmente de metal). Os escudos eram retangulares ou curvos e frequentemente feitos de pele de rinoceronte com padrões xadrez. Eram utilizados muitos tipos de armas, tais como espadas curvas, arcos e flechas, dardos, lanças, machados, piques, porretes e maças.
O Legado
Os esforços de Prabhakaravardhana tornaram os Pushyabhutis uma potência política de destaque da época, e isso foi aproveitado por Harsha para construir um império no norte da Índia, o primeiro após o declínio dos Guptas. Assim, "conseguiu conferir uma certa unidade política a grande parte do país" (Sharma, pág. 172) e foi o governante imperial mais significativo do período pós-Gupta. Ao tornar Kanyakubja a capital e desenvolvê-la ainda mais como um centro político e administrativo imperial, Harsha consolidou a mudança geográfica, a primeira em muitos séculos, de Magadha, no nordeste da Índia, para Kanyakubja, no norte da Índia. Desde o século VI a.C., Magadha tinha sido o coração imperial da Índia, especialmente dos dois grandes impérios dos Maurya (século IV a.C. – século II a.C.) e dos Gupta.
Kanyakubja continuou como um centro de poder sob Yashovarman e, entre 750 e 1000 d.C., a sua importância atingiu tal magnitude que a sua conquista tornou-se o símbolo do poder imperial na Índia, mesmo para potências geograficamente distantes como os Pratiharas (século VIII - século XI) do noroeste da Índia, os Palas (século VIII - século XII) do leste da Índia e os Rashtrakutas (século VIII - século X) do sul da Índia.

