Harsha

Gaurav Chugani
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations
Versão Áudio Imprimir PDF
Ruins of Nalanda, Bihar (by Tushar Dayal, CC BY-NC-SA)
Ruínas de Nalanda, Bihar Tushar Dayal (CC BY-NC-SA)

O Imperador Harshavardhana, mais comummente conhecido como Harsha, viveu entre os anos de 590 e 647, tendo sido o último monarca do Império Vardhana — o derradeiro grande império da Índia antiga antes da invasão islâmica. O seu reinado estendeu-se de 606 a 647. Todavia, após a morte de Harshavardhana, a dinastia Vardhana (ou Pushyabhuti) extinguiu-se e o seu império dissolveu-se.

A Índia, a terra para além do rio Indo, viu passar inúmeros soberanos que acalentaram o sonho de conquistar este vasto país e reinar desde os Himalaias, a norte, até ao Decão, a sul; das montanhas de Candar, a oeste, até Assam, a leste. Contudo, muito poucos foram capazes de subjugar a história à sua vontade. Harshavardhana foi um desses governantes. Embora o seu império pudesse não ser tão extenso quanto o dos grandes Máurias, o seu nome merece uma menção especial. Após a queda do grande Império Gupta em meados do século VI — sob o qual a Índia conheceu a sua própria idade de ouro —, coube a Harshavardhana a unificação da maior parte do norte da Índia, governando durante quatro décadas a partir da sua capital, Kanyakubja.

Remover Publicidades
Publicidade

A ASCENSÃO AO PODER E AS CAMPANHAS MILITARES

Desconhece.se a origem da Dinastia Pushyabhuti, contudo as fontes tornam-se mais claras a partir de cerca de 580, quando Prabhakaravardhana reinava no reino de Thaneshwar, na atual Haryana. A rainha de Prabhakaravardhana, Yasovati, deu à luz dois filhos, Rajyavardhana e Harshavardhana, e uma filha de nome Rajyashri, que mais tarde casaria com o rei Grahvarman de Kanyakubja, a atual Kannauj. Este foi um período de tensão, uma vez que a Índia tinha de lidar frequentemente com as invasões dos Hunos da Ásia Central. Os combates constantes foram de tal modo onerosos que enfraqueceram o âmago do império, o que acabou por conduzir à queda do Império Gupta. Como as fronteiras ocidentais da Índia e as áreas adjacentes ao rio Indo estavam sob ocupação dos Hunos, eram regulares as escaramuças entre estes e Thaneshwar. Enquanto Harsha e o seu irmão se ocupavam dos Hunos no oeste, Prabhakaravardhana faleceu em Thaneshwar, tendo sido sucedido pelo seu filho mais velho, Rajyavardhana.

Após a morte do seu irmão, aos 16 anos de idade, Harshavardhana tornou-se o governante incontestado de Thaneshwar, declarando guerra a Sasanka para vingar o irmão e lançando-se numa campanha de Digvijaya — ou seja, a conquista do mundo.

Entretanto, no leste, desenrolavam-se acontecimentos de magnitude muito superior que alterariam o curso da história. Shashanka, do Reino de Gauda (na atual Bengala), marchou e matou o rei Grahvarmana, esposo de Rajyashri, mantendo-a depois cativa. O rapto da sua irmã forçou o mais velho dos irmãos Vardhana a marchar para oriente para confrontar Shashanka. Este último convidou então Rajyavardhana para um encontro e, traiçoeiramente, assassinou-o.

Remover Publicidades
Publicidade

Após a morte do seu irmão, aos 16 anos de idade, Harshavardhana tornou-se o governante incontestado de Thaneshwar e declarou guerra a Shashanka para vingar o irmão, lançando-se numa campanha de Digvijaya — ou seja, a conquista do mundo (que, neste contexto, significava a conquista de toda a Índia). No entanto, o seu inimigo primordial era agora Shashanka, que teria de enfrentar a ira de um irmão colérico. Harsha emitiu uma proclamação a todos os reis conhecidos, instando-os a declarar-lhe vassalagem ou a enfrentá-lo no campo de batalha. À medida que os inimigos de Shashanka respondiam ao apelo de Harsha, este marchou sobre Kannauj.

Embora não existam evidências que o comprovem, um relato no Harshacharitra sustenta que Rajyashri, ao ser libertada da prisão, se refugiou na floresta de Vindhyas. Ao tomar conhecimento de tal facto, Harsha dirigiu-se apressadamente à floresta para a salvar, encontrando-a precisamente no momento em que esta se preparava para pôr termo à vida, lançando-se numa pira. Após resgatar a irmã, Harsha reuniu-se com o seu exército nas margens do Ganges. Subsequentemente, Harsha conquistou Kanyakubja com facilidade, uma vez que Shashanka tinha regressado a Bengala, dando assim início a uma inimizade prolongada. Foi apenas após a morte de Shashanka que Harsha logrou controlar a totalidade da Índia oriental, incluindo Magadha, Bengala e Kalinga.

Remover Publicidades
Publicidade

Começara então a Digvijaya de Harsha, ou a conquista do mundo. Após Kannauj, o monarca voltou a sua atenção para Guzerate, onde derrotou o reino local de Valabhi e expandiu o seu império. Contudo, esta rápida expansão gerou tensões entre si e o rei Chalukya, Pulakeshin II (reinou 609-642). Desya forma os mais poderosos reinos do norte e do sul da Índia defrontaram-se no campo de batalha, nas margens do rio Narmada. No final, os sulistas, sob a liderança exímia de Pulakeshin II, prevaleceram, deixando derrotado o ambicioso soberano do norte, Harsha. Consta que Harsha perdeu o seu alento ao presenciar a morte dos seus elefantes em combate.

Harsha celebrou um tratado de paz com o rei Chalukya, o qual estabeleceu o rio Narmada como a fronteira meridional do seu império, não voltando a avançar para sul. Contudo, tal não deteve a sua conquista do norte. Assumiu o título de Sakal-Uttarapatha-Natha (Senhor do Norte da Índia). Hieun Tsang (Xuanzang) relata-nos o seguinte:

Travou guerras incessantes, até que, em seis anos, havia combatido as cinco Índias (referindo-se aos cinco maiores reinos). Depois, tendo alargado o seu território, incrementou o seu exército, elevando o corpo de elefantes para 60 000 e a cavalaria para 100 000, e reinou em paz durante trinta anos sem empunhar uma arma

(Majumdar, pág. 252).

Contudo, muitos historiadores acreditam que esta afirmação poderá ser exagerada. Ainda assim, tal permite-nos vislumbrar a sua destreza militar.

Remover Publicidades
Publicidade

O Império Vardhana era composto por dois tipos distintos de territórios: áreas sob o domínio direto de Harsha, tais como as Províncias Centrais, Guzerate, Bengala, Kalinga e Rajputana; e os estados e reinos que se haviam tornado seus feudatários, incluindo Jalandhar, Caxemira, Nepal, Sinde e Kamarupa (atual Assam). Por conseguinte, muitos historiadores não consideram o título justificado, uma vez que ele nunca logrou colocar a totalidade do norte sob um comando único. Todavia, isto não significa que o seu poder não se fizesse sentir para além dos limites do seu domínio direto. A sua autoridade estendia-se por todo o norte da Índia. Sob as suas ordens, o Rei de Jalandhar escoltou o viajante chinês Hiuen Tsang até às fronteiras da Índia. Noutra ocasião, o Rei da Caxemira foi compelido a entregar uma relíquia do dente de Buda a Harsha. As fontes chinesas sugerem que o Rei de Kamarupa não ousou deter um peregrino chinês na sua capital contra a vontade de Harsha.

A ARTE E A EDUCAÇÃO

Harsha foi um patrono tanto das artes como da educação. Ele próprio era autor, tendo escrito três peças em sânscrito: Nagananda, Ratnavali e Priyadarshika. Um quarto das suas receitas destinava-se ao patrocínio de académicos. Hiuen Tsang oferece uma descrição bastante vívida da famosa Universidade de Nalanda, que se encontrava no seu apogeu durante o reinado de Harsha. Descreveu como as torres harmoniosamente dispostas, os pavilhões florestados e os templos pareciam "elevar-se acima das brumas no céu", de tal modo que, das suas celas, os monges "poderiam testemunhar o nascimento dos ventos e das nuvens".

O peregrino afirma o seguinte:

Um lago de águas azuis serpenteia em redor dos mosteiros, adornado pelas corolas abertas do lótus azul; as deslumbrantes flores vermelhas da formosa Canaca (Pterospermum acerifolium) pendem aqui e além, e, no exterior, bosques de mangueiras oferecem aos habitantes a sua sombra densa e protetora (Grousset, págs. 158-159).

No seu apogeu, Nalanda contava com cerca de 10 000 estudantes e 2 000 professores. O processo de admissão era extremamente rigoroso. Os registos indicam a existência de um exigente exame oral conduzido pelos guardiões dos portões, sendo que muitos candidatos acabavam por ser rejeitados. O currículo abrangia os Vedas, o Budismo, filosofia, lógica, urbanismo, medicina, direito e astronomia, entre outras disciplinas.

Remover Publicidades
Publicidade

[image:4626

A SOCIEDADE E A RELIGIÃO

O sistema de castas era prevalecente entre os hindus. Estes dividiam-se em quatro castas ou varnas: os Brâmanes, os Vaishyas, os Kshatriyas e os Shudras, as quais, entre si, possuíam as suas próprias subcastas. Os intocáveis, que ocupavam o patamar mais baixo da hierarquia, levavam uma vida miserável. O estatuto da mulher declinou em comparação com a era liberal de tempos anteriores. O Satipratha (a imolação das viúvas) era comum, e o novo casamento de viúvas não era permitido nas castas superiores.

Harsha foi, inicialmente, um devoto de Shiva, mas converteu-se mais tarde ao Budismo Mahayana. Todavia, permaneceu tolerante para com os outros credos. Com o intuito de popularizar e propagar as doutrinas do Budismo Mahayana, Harsha organizou em Kanyakubja uma grande assembleia, a qual foi presidida por Hiuen Tsang, que levou consigo inúmeros manuscritos para a China, tendo traduzido mais de 600 obras do sânscrito. Uma outra cerimónia de grande relevo decorreu durante 75 dias em Prayag (Allahabad), com a veneração das imagens de Buda, do Sol e de Shiva, e a distribuição, a título de caridade, artigos valiosos e vestes. De cinco em cinco anos, celebravam-se cerimónias religiosas na antiga cidade de Allahabad. Ali, o monarca realizava a cerimónia de Dana, ou dádiva, que se prolongava por três meses. Durante este período, a maior parte da riqueza acumulada no quinquénio anterior era exaurida. Numa ocasião, Harsha chegou mesmo a abdicar das suas roupas e joias, tendo pedido à sua irmã uma peça de vestuário comum para vestir.

A MORTE E O LEGADO

O império de Harsha marcou o início do feudalismo na Índia. As terras eram concedidas em aldeias, o que conferiu um grande poder aos senhores locais. Tal fenómeno conduziu ao enfraquecimento do império e deu azo a querelas locais e Harsha via-se compelido a manter-se em constante movimento para preservar a ordem.

Remover Publicidades
Publicidade

Harsha faleceu no ano de 647 e o império extinguiu-se com ele. A morte de Harshavardhana não se encontra devidamente documentada. Consta que era casado com Durgavati e que tinha dois filhos, de nomes Vagyavardhana e Kalyanvardhana. Segundo os relatos da época, ambos terão sido assassinados por um ministro da sua corte, ainda antes da morte do próprio Harsha. Por conseguinte, Harsha faleceu sem deixar qualquer herdeiro, pelo que um dos seus principais ministros, Arjuna assumiu o trono. Mais tarde, em 648, Arjuna foi capturado e feito prisioneiro durante uma incursão dos tibetanos.

Remover Publicidades
Publicidade

Bibliografia

  • Banabhatta. Harshacharitra.

Sobre o Tradutor

Sobre o Autor

Cite Este Artigo

Estilo APA

Chugani, G. (2026, maio 02). Harsha. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14459/harsha/

Estilo Chicago

Chugani, Gaurav. "Harsha." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, maio 02, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14459/harsha/.

Estilo MLA

Chugani, Gaurav. "Harsha." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 02 mai 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14459/harsha/.

Remover Publicidades