Higiene Medieval

Mark Cartwright
por , traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto
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Medieval Noble Taking His Bath (by Unknown Artist, Public Domain)
Nobre Medieval Banhando-se Unknown Artist (Public Domain)

As pessoas que viviam na Idade Média, vistas com olhos dos tempos atuais, entre outros aspectos, não gozam de boa reputação no que se refere à higiene em sentido amplo, nos cuidados pessoais e sociais de asseio, principalmente em relação aos camponeses. No entanto, apesar da falta generalizada de água corrente e outras amenidades modernas, havia uma certa expectativa a respeito de higiene pessoal, como por exemplo, lavar-se regularmente em uma bacia ou tina, especialmente as mãos antes e após as refeições, o que era visto e considerado como boa etiqueta, em uma época em que os talheres eram raridade para a maioria das pessoas. Os mais bem posicionados socialmente tinham possibilidades de banhos mais frequentes e os castelos, casas senhoriais, monastérios, bem como as cidades, ofereciam aos seus moradores melhores banheiros com boa drenagem e, algumas vezes, até mesmo água corrente utilizando a antiga combinação de cisternas e gravidade. Naturalmente, os padrões de higiene variavam com o tempo e o lugar e, evidentemente, entre os indivíduos, como hoje em dia. O que vem a seguir é um exame dos hábitos e expectativas gerais a respeito da higiene na Europa Medieval.

Suprimento de Água

A água encontrava-se disponível em aldeias a partir de fontes próximas, rios, lagos, poços e cisternas. De fato, muitos assentamentos se desenvolveram em locais com acessibilidade confiável de água. Os castelos também se situavam próximos às fontes de água e disponibilizavam água adicional por poços dentro dos pátios perfurados e revestidos com alvenaria, algumas vezes acessíveis de dentro dos castelos, como segurança extra em caso de ataque. Em mais de 420 castelos pesquisados no Reino Unido, 80% possuíam um poço em seu interior e um quarto deles dois ou mais. Muitas vezes os poços atingiam grandes profundidades: o do Castelo Beeston na Inglaterra media 124 metros. Alguns castelos, como um em Rochester, Inglaterra, possuía a capacidade de elevar água do poço a todos os níveis do reservatório utilizando um sistema de baldes e cordas que corriam pelo interior da muralha. As cisternas recolhiam água da chuva ou de nascentes naturais no terreno. Alguns castelos possuíam um sistema de canos de chumbo, madeira ou cerâmica, os quais conduziam água de uma cisterna para outra ou para locais mais baixos, como seu interior ou a cozinha, o que pode se ver no Castelo Chester na Inglaterra. Outro sistema coletor de água suplementar era o de se instalar canos no telhado para drenar a água da chuva para uma cisterna. Finalmente, empregavam-se tanques de decantação para melhorar a qualidade da água, permitindo que os sedimentos se depositassem no fundo do reservatório antes de se drenar a água purificada. Muitos monastérios (mosterios) possuíam algumas ou todas essas características.

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Canais, condutos de água, poços e fontes fofrneciam (relativamente) água fresca à população urbana

À medida que as cidades cresciam em número e tamanho em toda a Europa, a partir do século XI, assim também a higiene se tornou mais e mais um desafio diário. Felizmente, muitas das grandes cidades tinham a tendência de ficarem próximas às margens de rios ou do litoral, como maneira de facilitar o comércio, consequentemente, o fornecimento de água e eliminação de resíduos eram menos problemáticos nesses locais. Canais, condutores de água, poços e fontes forneciam (relativamente) água fresca à população. A manutenção desse sistema ficava a cargo dos Conselhos das cidades, os quais impunham medidas sanitárias aos comércios locais e à população em geral. Por exemplo, havia muitas vezes a obrigação de limpar a parte da rua diretamente fronteira à casa ou comércio de cada um. As cidades podiam ter banheiros públicos e Nuremberg, ao que parece ter sido uma das cidades mais limpas da Europa, graças ao seu Conselho bem-informado, possuía 14 desses locais. As autoridades locais também se encarregavam de tomar medidas de emergência, como a remoção dos mortos durantes períodos de peste.

Higiene Pessoal

Como a água corrente era muito rara e, levando em consideração que conseguir um balde cheio de um poço ou de alguma fonte de água próxima, exigia um grande esforço físico, não é de se surpreender que tomar um banho completo diariamente não era uma opção exequível para a maioria das pessoas. De fato, banhos eram um luxo devido ao custo do combustível para aquecer a água e, dentro dessa perspectiva, temos o exemplo dos monges, os quais eram proibidos de tomarem mais que dois ou três banhos por ano. Um barril cortado na metade ou uma cuba era a forma mais comum de banheira. Mesmo esse luxo não podia ser enchido totalmente e muitos banhos eram feitos utilizando-se um jarro de água quente derramada sobre o corpo ao invés de uma completa imersão. Um senhor podia possuir uma banheira acolchoada para um conforto extra e, comumente, viajava com uma, tal era a incerteza de se encontrar a conveniência pelo caminho. A grande maioria podia se dar bem com uma rápida lavagem em uma bacia com água quente. Como 80% da população trabalhava no campo, o que exigia grande esforço físico e sudorese, é provável que se lavar diariamente de alguma forma é uma conjectura bastante razoável.

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January, Les Tres Riches Heures
Janeiro, As Riquíssimas Horas Limbourg Brothers (Public Domain)

Constantemente os camponeses da Idade Média eram vítimas de piadas a respeito de higiene, já que em épocas remotas eram descritos, nos panfletos clericais, como um pouco acima de brutos animais. No entanto, era prática comum para quase todos lavarem as mãos e o rosto pela manhã. Um banho bem cedo era também desejável devido às pulgas e piolhos, os quais constituíam um problema comum. As camas de palha e seus lençóis raramente eram trocados e funcionavam como um verdadeiro paraíso para pragas, inclusive com algumas medidas preventivas, como misturar, entre as palhas, flores e ervas, como o manjericão, camomila, lavanda e hortelã.

às vezes usava-se sabão e o cabelo era lavado utilizando-se uma solução alcalina como uma constituída pela mistura de cal e sal.

A maioria das pessoas se alimentava sem facas, garfos e colheres e a convenção comum era lavar as mãos antes e após cada refeição. Sabão era algumas vezes usado e os cabelos eram lavados utilizando-se uma solução alcalina, comumente obtida pela mistura de cal e sal. Os dentes eram limpos utilizando-se ramos (especialmente de aveleira) e pequenos pedaços de tecido de lã. O barbear poderia ser feito uma vez por semana ou mesmo não ser feito, a menos que se tratasse de um monge, quando cada um era barbeado diariamente por um irmão. Já os espelhos, pequenos e de pouca definição, tornava mais fácil para a maioria das pessoas visitarem o barbeiro local quando necessário.

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O camponês comum tinha como principal preocupação se livrar da poeira ou fuligem do dia quando se banhava, porém para um aristocrata havia um pouco mais de detalhes a se dar atenção para que se conseguisse prestígio em uma sociedade educada. Certas ocasiões sociais, como refeições, quando as pessoas ficavam mais próximas umas das outras, justificava-se particular atenção à higiene e havia até mesmo regras de etiqueta como guias úteis para algum convidado sem imaginação, como este trecho de Les Countenance de Table (As Etiquetas à Mesa):

... deixe seus dedos bem limpos e suas unhas bem cortadas e limpas. Quando um pedaço for tocado, não permita que ele retorne à travessa.

Não toque seu nariz ou ouvidos com mãos descobertas.

Não limpe seus dentes com um palito enquanto come.

A norma exige que você não coloque um prato na sua boca.

Quem desejar beber precisa primeiro terminar o que está em sua boca.

E permita primeiro que seus lábios sejam limpos com tecido.

Enquanto a mesa é limpa, lave suas mãos, e beba alguma coisa.

(Singman, 154)

Os monastérios possuíam áreas próprias para se lavar, incluindo a Abadia de Cluny, na França, que possuía um lavabo ou uma grande pia onde se lavavam as mãos antes das refeições. Existem registros mostrando que possuíam toalhas, trocadas duas vezes por semana, enquanto a água era trocada somente uma vez por semana. A Grande Sala (Great Hall) de um castelo ou mansão senhorial também possuíam uma grande pia para os visitantes lavarem suas mãos.

Em resumo, é seguro afirmar que os filmes e livros modernos não são suficientemente precisos ao descreverem os camponeses medievais como sendo indivíduos imundos e que viam um banho como forma de tortura, pois pessoas de todas as classes eram limpas o bastante, quanto suas circunstâncias permitiam. Por outro lado, é também verdadeiro que os europeus medievais, mesmo os das classes superiores, ficavam aquém em muito nos seus cuidados higiênicos ao tomarem contato com outras culturas, como os bizantinos ou os muçulmanos durante as Cruzadas.

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Banheiros

Nos povoados ou em mansões senhoriais os campesinos faziam uso de uma fossa para os dejetos, os quais, posteriormente, seriam usados nos campos como fertilizantes. Em alguns casos uma pequena cabana fornecia alguma privacidade e algum conforto ao possuir um banco com uma abertura circular (ao mesmo tempo que dava segurança ao impedir uma queda na fossa). À noite usavam-se bacio e esvaziados na fossa. Sem papel higiênico, ou papel de qualquer espécie, as pessoas tinham que remediar a situação com um punhado de feno, grama, palha ou musgo.

Toilet, Tower of London
Banheiro, Torre de Londres Trevor Huxham (CC BY-NC-ND)

Já nos castelos, os banheiros, também conhecidos como privadas ou latrinas, eram muito comuns e os dejetos canalizados para uma fossa ao pé das muralhas do castelo ou mesmo diretamente para o fosso (um aspecto defensivo não muito descrito na história militar). Ocasionalmente existiam dois banheiros próximos um do outro, ambos drenando para um canal regularmente limpo por um fluxo de água. O mesmo arranjo era comum aos monastérios onde os banheiros eram aglomerados em um mesmo local e a Abadia de Cluny se gabava de possuir 45 desses cubículos e um banheiro com doze banheiras. Os castelos podiam exibir mictórios em formato triangular, especialmente na torre das muralhas circulares.

Nas cidades, os bem-nascidos possuíam suas próprias privadas nos fundos do terreno ou mesmo dentro da própria casa, com um canal ou conduto para drenar os dejetos para o quintal. As classes urbanas mais pobres viviam em grandes concentrações de casas, muitas vezes compartilhando alguns ou um único banheiro com dejetos drenando para uma fossa comunal. Revestidas com pedras, as fossas também recebiam qualquer lixo das casas e regularmente eram esvaziadas por um profissional dedicado a este específico e inevitável trabalho. Existiam regulamentos proibindo lançar dejetos nas vias públicas, mas isso era sempre ignorado e uma forte chuva ou, pior, inundações, podiam causar um grande estrago no sistema sanitário da cidade ao contaminar o suprimento de água. As cidades viviam atopetadas com cavalos, burros e animais vindos das fazendas e levados para todo lado ou para os açougueiros. As ruas encontravam-se sempre imundas e, como de costume, os sempre presentes ratazanas, camundongos (rato) e outras pragas, significava que os centros urbanos se transformaram em terrenos ideais para a disseminação de doenças.

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Pragas e Doenças

A Peste Negra, que atingiu seu ápice de 1347 a 1352, foi uma (embora a de maior mortalidade) das muitas ondas de pragas e doenças que a Europa Medieval sofreu. Transportada pelas pulgas dos ratos, a Peste Bubônica matou, no geral, cerca de 30-50% da população por onde passava. Os baixos padrões higiênicos medievais certamente foram determinantes, muito embora outros fatores tenham contribuído, como por exemplo, a falta de conhecimento da causa e ausência de quarentenas efetivas. Importante notar que muitos centros medievais, como Milão e a Boêmia, sobreviveram relativamente incólumes, portanto não é tão simples atribuir a disseminação da peste unicamente à falta de higiene ou um sanitarismo adequado.

Além das terríveis pragas e epidemias que ocorriam em todos os lugares com alarmante regularidade, existiam igualmente perigos mortais à espreita diariamente por todo lado. Alimentação deficiente, mal preparada e armazenagem inadequada, constituíam áreas particulares de risco à saúde. Epidemias de diarréia (ergotismo), conhecido na Idade Média como Fogo de Santo Antônio, foram causadas pela ingestão de centeio contaminado por fungo. Doenças cutâneas foram particularmente prevalentes, embora possam ter sido causadas tanto pela má alimentação, como pela falta de higiene.

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Sobre o Tradutor

Jose Monteiro Queiroz-Neto
Monteiro é um pediatra aposentado interessado na história do Império Romano e da Idade Média. Tem como objetivo ampliar o conhecimento dos artigos da WH para o público de língua portuguesa. Atualmente reside em Santos, Brasil.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

Cite Este Artigo

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Cartwright, M. (2025, novembro 18). Higiene Medieval. (J. M. Queiroz-Neto, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17656/higiene-medieval/

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Cartwright, Mark. "Higiene Medieval." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. World History Encyclopedia, novembro 18, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17656/higiene-medieval/.

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Cartwright, Mark. "Higiene Medieval." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. World History Encyclopedia, 18 nov 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17656/higiene-medieval/.

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